ARTIGOS ORIGINAIS

 

Autopercepção da saúde bucal entre idosos brasileiros

 

Autopercepción de la salud bucal entre ancianos brasileños

 

 

Andréa Maria Eleutério de Barros Lima MartinsI; Sandhi Maria BarretoII; Marise Fagundes da SilveiraIII; Thalita Thyrza de Almeida Santa-RosaI; Rodrigo Dantas PereiraIV

IDepartamento de Odontologia. Faculdade de Odontologia. Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Montes Claros, MG, Brasil
IIDepartamento de Medicina Preventiva e Social. Faculdade de Medicina. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil
IIIDepartamento de Matemática. Faculdade de Matemática. Unimontes. Montes Claros, MG, Brasil
IVPrograma de Pós-Graduação em Odontologia. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, MG, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identificar os fatores associados à autopercepção da saúde bucal entre idosos brasileiros.
MÉTODOS: Utilizaram-se dados do Projeto SB Brasil, realizado em 20022003. Foi examinada e entrevistada amostra probabilística de 5.349 idosos de 65 a 74 anos agrupados em dentados e edentados. A variável dependente foi autopercepção da condição de saúde bucal e as independentes foram: local de moradia, características individuais, comportamentos relacionados à saúde, condições objetivas de saúde e condições subjetivas relacionadas à saúde. Foram conduzidas análises descritivas e análises de regressão linear múltipla hierárquica.
RESULTADOS: Nos dois grupos a autopercepção da saúde bucal foi considerada positiva, apesar das precárias condições de saúde bucal entre os idosos. No modelo final, o local de moradia e as características individuais pouco contribuíram para explicar a variabilidade da autopercepção. Entre dentados, o uso de serviços odontológicos esteve associado ao desfecho, e as condições objetivas e subjetivas se mostraram associadas nos dois grupos. Entre dentados e edentados, o R2 para o ambiente externo foi de 0,00; com o acréscimo das características individuais, respectivamente, 0,05 e 0,02; incluindo o comportamento relacionado à saúde, 0,06 e 0,03; acrescentando as condições objetivas de saúde, 0,11 e 0,04; adicionando as condições subjetivas relacionadas à saúde foram 0,50 e 0,43. Foi possível explicar 50% da variabilidade da autopercepção entre dentados e 43% entre edentados.
CONCLUSÕES:
Os principais fatores associados à autopercepção da saúde bucal como positiva nos dois grupos foram a autopercepção da aparência como ótima seguida pela autopercepção da mastigação como positiva. O terceiro fator associado, entre dentados, foi o relato de nenhuma necessidade de tratamento odontológico e, entre edentados, a autopercepção da fala.

Descritores: Idoso. Autoavaliação (Psicologia). Perda de Dente. Mastigação. Saúde Bucal. Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde.


RESUMEN

OBJETIVO: Identificar los factores asociados a la autopercepción de la salud bucal entre ancianos brasileños.
MÉTODOS: Se utilizaron datos del Proyecto SB Brasil, realizado en 2002-2003. Fue examinada y entrevistada muestra probabilística de 5.349 ancianos de 65 a 74 años agrupados en dentados y edentados. La variable dependiente fue autopercepción de la condición de salud bucal y las independientes fueron: lugar de residencia, características individuales, comportamientos relacionados con la salud, condiciones objetivas de salud y condiciones subjetivas relacionadas con la salud. Fueron conducidas análisis descriptivos y análisis de regresión linear múltiple jerárquica.
RESULTADOS:
En los dos grupos la autopercepción de la salud fue considerada positiva, a pesar de precarias condiciones de salud bucal entre los ancianos. En el modelo final, el lugar de residencia y las características individuales poco contribuyeron para explicar la variabilidad de la autopercepción. Entre dentados, el uso de servicios odontológicos estuvieron asociados al resultado y las condiciones objetivas y subjetivas se muestran asociadas en los dos grupos. Entre dentados y edentados, el R2 para el ambiente externo, fue de 0,00; adicionando las características individuales, respectivamente, 0,05 y 0,02; incluyendo el comportamiento relacionado con la salud, 0,06 y 0,03; considerando además las condiciones objetivas de salud, 0,11 y 0,04; adicionando las condiciones subjetivas relacionadas con la salud fueron 0,50 y 0,43. Fue posible explicar 50% de la variabilidad de la autopercepción, entre dentados y 43% entre edentados.
CONCLUSIONES:
Los factores asociados a la autopercepción de la salud bucal en los dos grupos fueron la autopercepción de la apariencia como óptima seguida por la autopercepción de la masticación positiva. El tercer factor asociado, entre dentados, fue el relato de ninguna necesidad de tratamiento odontológico y entre edentados la autopercepción del habla.

Descriptores: Anciano. Autoevaluación (Psicología). Pérdida de Diente. Masticación. Salud Bucal. Conocimientos, Actitudes y Práctica en Salud.


 

 

INTRODUÇÃO

Autopercepção em saúde é a interpretação das experiências e do estado de saúde no contexto da vida diária. É baseada na informação e nos conhecimentos de saúde e doença, modificados pela experiência, normas sociais e culturais.8 A avaliação da autopercepção da saúde bucal e da condição de saúde bucal são essenciais, pois o comportamento é modulado pela percepção dessa condição e importância dada a ela. A autopercepção da saúde favorece a participação indireta da comunidade na formulação de decisões políticas e sociais, contribuindo para uma abordagem que tenha como meta a qualidade de vida. Na Odontologia, a avaliação da autopercepção da saúde bucal rotineiramente é importante para encorajar a adesão a comportamentos saudáveis.3 Entre idosos, a principal razão para não procurar o serviço odontológico é a não percepção da necessidade.23 A autopercepção da saúde bucal tem aspecto multidimensional.2,3,6,10,15,17,20,21,23 A saúde bucal, um dos componentes da qualidade de vida, refere-se a uma experiência subjetiva do indivíduo sobre o seu bem-estar funcional, social e psicológico.14 A autopercepção da saúde bucal é mais informativa de como a doença afeta a vida dos indivíduos do que as medidas objetivas da doença.7 No Brasil a assistência pública odontológica a idosos precisa ser incrementada, e a identificação da autopercepção de sua condição bucal pode ser o primeiro passo para a elaboração de programas que incluam ações educativas voltadas para o autocuidado, além de ações preventivas e reabilitadoras.23

O objetivo do presente estudo foi identificar fatores associados à autopercepção da saúde bucal entre idosos brasileiros.

 

MÉTODOS

Foram utilizados dados do Levantamento Epidemiológico das Condições de Saúde Bucal da população brasileira (Projeto SB Brasil), conduzido pelo Ministério da Saúde brasileiro nos anos de 2002 e 2003,ª conforme proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1997.24 A amostragem foi probabilística por conglomerados, com sorteio dos indivíduos. Foram realizados entrevistas e exames nos domicílios ou escolas. Mais informações a respeito da metodologia estão disponíveis no relatório final do projeto.ª Foram examinados e entrevistados, em seus domicílios, 5.349 idosos com idades entre 65 e 74 anos.

Foi utilizada uma adaptação15 do modelo teórico proposto por Gift et al6 em 1998. Foram conduzidas análises em dois grupos: idosos dentados, que apresentavam pelo menos um dente remanescente, e edentados, que não apresentavam dentes remanescentes. A variável dependente estudada autopercepção da condição de saúde bucal foi obtida por meio da pergunta: "Como classificaria sua saúde bucal? (péssima, ruim, regular, boa, ótima)". As variáveis independentes foram reunidas em cinco subgrupos: ambiente externo (local de moradia), características individuais (idade em anos, sexo, raça autodeclarada; de predisposição: anos de escolaridade, acesso a informações sobre com evitar problemas bucais; disponibilidade de recursos: renda domiciliar per capita em reais), comportamento relacionado à saúde (uso de serviços odontológicos), condições objetivas de saúde (presença de alteração de tecido mole, número de dentes permanentes presentes, número de dentes permanentes cariados presentes, número de dentes permanentes obturados presentes, condição periodontal e necessidade de prótese), condições subjetivas relacionadas à saúde (autopercepção da dor nos dentes e gengivas nos últimos seis meses, da aparência dos dentes e gengivas, da mastigação, da fala quanto aos dentes e gengivas, do relacionamento em função da saúde bucal e da necessidade de tratamento). Das condições objetivas apenas a presença de alteração de tecido mole e a necessidade de prótese foram consideradas nas análises dos dois grupos; as demais só foram consideradas entre dentados.

Foi realizada análise descritiva nos dois grupos para identificar a presença de associações estatisticamente significantes entre a autopercepção da saúde bucal e as variáveis de interesse. As contribuições das variáveis independentes na variância da dependente foram estimadas por regressão linear múltipla, utilizada pela maioria das investigações sobre o tema.1,2,6,17,21,23 Essa regressão é indicada para estimar associações entre variáveis quantitativas. Na presente investigação, a variável dependente foi considerada quantitativa discreta, embora seja categórica ordinal. As variáveis macro-região, local de residência, sexo, raça, informações sobre como evitar problemas bucais, alterações de tecidos moles, condição periodontal, autopercepção da necessidade de tratamento são categóricas nominais e foram transformadas em variáveis dummys, indicadoras ou variáveis artificiais.18 As variáveis: idade, escolaridade, renda, números (de pessoas por cômodo, de dentes permanentes, de dentes cariados, de dentes obturados) são quantitativas e foram categorizadas somente na análise descritiva. As variáveis uso de serviços odontológicos, necessidade de prótese, autopercepção da dor, da aparência, da mastigação, da fala e do relacionamento foram consideradas quantitativas discretas, embora fossem categóricas ordinais, como a variável dependente.

Na regressão linear múltipla, preconizam-se os pressupostos: linearidade do fenômeno medido; variância constante dos termos de erros (homocedasticidade); independência dos termos de erros (covariância nula) ou independência das variáveis aleatórias residuais; normalidade da distribuição dos termos de erro;9 não verificação da multicolinearidade.5

A linearidade é avaliada pela análise gráfica de resíduos,4 do diagrama de dispersão ou pelo coeficiente de correlação. O diagnóstico da homocedasticidade é feito a partir da análise gráfica de resíduos ou do teste Levene.9 A verificação da covariância nula é feita pelo teste Durbin-Watson ou pela análise gráfica de resíduos.5 A validade da suposição da normalidade da distribuição dos termos de erro é confirmada por meio do gráfico de probabilidade normal para os resíduos e por meio dos testes de aderência à normalidade Kolmogorov-Smirnov com correção de Lilliefors ou Shapiro-Wilks.18 As variáveis explicativas devem ser linearmente independentes5 e, caso verifique-se multicolinearidade, devem-se determinar ações corretivas necessárias.9 As medidas mais comuns para avaliar a colinearidade de duas ou mais variáveis são: o valor da tolerância e seu inverso, o fator de inflação de variância (VIF = 1/tolerância). Um valor de referência comumente usado é tolerância de 0,10, o que corresponde a um VIF acima de 10.9,18

Foram conduzidas análises hierárquicas múltiplas nos dois grupos para determinar as contribuições relativas de cada variável proposta no modelo teórico.15 As magnitudes das associações entre a variável dependente e os fatores de interesse, em cada grupo de variáveis, foram estimadas pelo R2, com nível de significância de 0,05. Os respectivos parâmetros estimados e erros-padrão foram obtidos pela regressão linear múltipla. Foi utilizado o programa SPSS11.0. A correção pelo efeito de desenho para análise de dados oriundos de amostras complexas não foi feita, pois os dados necessários para tal correção não foram disponibilizados. Esse ajuste era necessário porque a amostra do SB Brasil foi complexa por conglomerados e estimativas que não consideram a organização da amostra por cluster tendem à superestimação e à perda da precisão das estimativas.19

O SB Brasil foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (parecer n° 581/2000).

 

RESULTADOS

A maior parte dos idosos brasileiros era edentada (54,8%). Entre os dentados, a maioria autopercebeu sua saúde bucal como boa (Tabela 1). A idade média dos dentados foi 68,4 anos (DP = 3,10); a escolaridade média 3,22 anos (DP = 3,53), a renda per capita média R$ 238,07 (DP = 433,19). O número médio de dentes permanentes presentes por idosos dentados e edentados foi de 5,5 (DP = 7,9), o número médio de cariados foi 1,23 (DP = 2,91) e o número médio de obturados foi 0,73 (DP = 2,4). O número médio de dentes permanentes presentes entre os dentados foi de 12,14 (DP = 7,6), o número médio de cariados foi 2,73 (DP = 3,83) e o número médio de obturados foi 1,61 (DP = 3,4).

 

 

A maioria dos edentados percebeu sua saúde bucal como boa (Tabela 2). A idade média foi 69,06 anos (DP = 3,19); a escolaridade média, de 2,35 anos (DP = 2,75), a renda per capita média, de R$ 186,24 (DP = 216,38).

 

 

Foram verificadas linearidade e violação da homocedasticidade nos dois grupos. Diante da análise da covariância nula, constatou-se violação na análise gráfica dos resíduos, mas não pelo teste Durbin-Watson (DW = 1,9; p d" 0,05). Percebeu-se violação da hipótese de normalidade da distribuição dos termos de erro no gráfico de probabilidade normal (Q-Q Plot) e nos testes Kolmogorov-Smirnov com correção de Lilliefors ou Shapiro-Wilks (p = 0,000). Os resultados dos testes de multicolinariedade mostraram que tal pressuposto não foi violado (tolerância > 0,10 e VIF < 10).

Na análise de regressão linear múltipla, verificou-se que o R2 para o modelo 1, ambiente externo, foi de 0,00 entre dentados e edentados; para o modelo 2 (ambiente externo e características individuais) foram, respectivamente, de 0,05 e 0,02; para o modelo 3 (ambiente externo, características individuais e comportamento relacionado à saúde), de 0,06 e 0,03; para o modelo 4 (ambiente externo, características individuais, comportamento relacionado à saúde e condições objetivas de saúde), de 0,11 e 0,04; para o modelo 5 (ambiente externo, características individuais, comportamento relacionado à saúde, condições objetivas de saúde e condições subjetivas relacionadas à saúde), de 0,50 e 0,43 (Tabelas 3 e 4).

 

DISCUSSÃO

A autopercepção da aparência foi o fator que esteve mais fortemente associado à autopercepção da saúde bucal, não tendo sido encontrados estudos prévios que tenham investigado tal associação, constatando-se a necessidade de futuras investigações sobre o tema. Sugere-se que a identificação dos fatores associados à autopercepção da aparência poderia esclarecer de forma mais precisa a autopercepção da saúde bucal entre idosos brasileiros.

Assim como em outros estudos, a maioria dos idosos autopercebeu sua saúde bucal como positiva1,3,6,10,11,17,21,22,23 mesmo com condições objetivas de saúde bucal insatisfatórias. Os dados da literatura são consistentes quanto a esse contraste,6,21,23 sugerindo que condições objetivas são preditores fracos dessa autopercepção.17,21 A fraca associação entre condições objetivas e a autopercepção da saúde bucal nos dois grupos foi previamente constatada, provavelmente porque doenças detectadas nos exames profissionais podem ser assintomáticas e desconhecidas pelos pacientes,21,23 que só se consideram doentes diante das manifestações agudas das doenças bucais.21 Outra explicação para essas associações fracas seria a suposição de que indicadores objetivos medem doença, enquanto os subjetivos avaliam experiências humanas e saúde.13

A abordagem hierárquica da regressão linear múltipla permitiu a avaliação da importância de cada grupo de variáveis na compreensão da variabilidade da autopercepção da saúde bucal dos idosos dentados e edentados. O R2 variou pouco quando foram avaliados os três primeiros modelos que continham hierarquicamente as variáveis referentes ao ambiente externo e características indíviduais; ambiente externo, características individuais e comportamento; essas variáveis explicaram aproximadamente 6% da variabilidade entre dentados, e 3% da variabilidade da autopercepção da saúde bucal entre edentados. A adição das condições objetivas ao modelo pouco contribuiu para o entendimento da variabilidade da autopercepção, mas o R2 entre dentados praticamente duplicou, explicando 11% da variabilidade, e aumentou de 3% para 4% entre edentados. Isso sugere que as condições objetivas têm maior impacto na autopercepção dos idosos que apresentavam pelo menos um dente remanescente do que entre os edentados. As condições subjetivas foram os principais fatores na explicação da variabilidade da autopercepção da saúde bucal. Nos dois grupos, a adição dessas variáveis ao modelo explicou 50% da variabilidade da autopercepção da saúde bucal entre dentados e 43% entre edentados.

Estudos sugerem que a autopercepção da saúde bucal como negativa aumenta com a idade.6,21 Por outro lado, em outros e no presente estudo, a idade não está associada à autopercepção.2,17,23 Não foi constatada associação entre sexo e autopercepção, como na maioria dos estudos,2,6,23 embora já se tenha relatado autopercepção como positiva mais freqüente entre mulheres do que entre homens.21 A variável cor da pele não esteve associada à autopercepção nos dois grupos, o que contrasta com estudos que mostram que brancos autopercebem sua saúde bucal de forma mais positiva do que os não brancos.2,17 A escolaridade e o acesso a informações sobre como evitar problemas bucais não apresentaram associação com o desfecho. Pesquisas apontam que, quanto maiores a escolaridade do indivíduo2,6,17 e o acesso a informações sobre como evitar problemas bucais, maior é a autopercepção da saúde bucal como positiva.2,6 A renda esteve inicialmente associada nos dois grupos, mas no modelo final tal associação não foi constatada. A literatura é controversa quanto à renda. Entre idosos brasileiros, essa associação provavelmente não foi observada devido à homogeneidade da população, em sua maioria de baixa renda. As variáveis referentes às características individuais não contribuíram para o entendimento da variabilidade da autopercepção da saúde bucal entre idosos brasileiros.

O uso de serviços odontológicos esteve associado à autopercepção da saúde bucal entre dentados. Outra investigação mostrou que indivíduos que utilizaram os serviços há menos de um ano relataram autopercepção da saúde bucal como positiva.2

As condições objetivas têm limitada relevância na autopercepção da saúde bucal.21 O maior número de dentes permanentes presentes está associado à autopercepção da saúde bucal como positiva.1,2,6,16,17,21 Entretanto, na presente investigação verificou-se associação inversa, em que, quanto menor o número de dentes presentes, maior a autopercepção da saúde como positiva. Apesar da aparente incoerência desses resultados, os idosos parecem avaliar mais positivamente sua saúde bucal, estando livres de dentes cariados e possivelmente de doenças, do que com a manutenção de poucos dentes em precárias condições, em número insuficiente e sem acesso a próteses para assegurar uma mastigação eficiente e confortável.15 Outra investigação constatou que o maior número de dentes cariados presentes na boca dos indivíduos foi associado à autopercepção da saúde bucal como negativa.1,6,21 Um estudo constatou que o maior número de dentes obturados esteve associado à autopercepção mais positiva da saúde bucal.21 Os resultados da literatura são controversos quanto à doença periodontal. A perda de inserção periodontal6 e a presença de bolsas periodontais21,23 foram associadas à autopercepção da saúde bucal como negativa.6 A associação entre condição periodontal e autopercepção da saúde bucal não foi encontrada na presente investigação nem em outro estudo.1

Associações entre autopercepção da saúde bucal global e auto-avaliações específicas de limitações funcionais ou psicológicas foram observadas em outra investigação.12 A associação entre ausência de sensibilidade dolorosa e autopercepção positiva da saúde bucal constatada na presente investigação, nos dois grupos, foi relatada em outro estudo.2 A autopercepção positiva da aparência esteve associada à autopercepção da saúde bucal como positiva.1,17 Outras investigações indicaram a importância da autopercepção da necessidade de tratamento na variabilidade da autopercepção da saúde bucal.1,6,10,16 A autopercepção da saúde bucal como positiva foi maior entre aqueles que relataram não necessitar de tratamento nos dois grupos da investigação.

Os resultados explicaram 50% da variabilidade da autopercepção da saúde bucal entre dentados e 43% entre edentados e mostraram a efetividade do modelo proposto. Esse modelo superou a explicação dessa variabilidade em outras investigações nos Estados Unidos, de 14% entre trabalhadores com 18 anos ou mais de uma companhia de seguros;21 43% em um rastreamento conduzido entre usuários com menos de 65 anos do medicare em 1988;1 37% entre usuários de 65 anos ou mais do medicare em Los Angeles, Califórnia;17 38% entre residentes de Baltimore; 32% entre usuários de serviços de saúde para índios; 39% entre residentes em San Antonio;2 35% entre idosos com 65 anos ou mais.6 Nem todas as variáveis relacionadas à autopercepção descritas na literatura e contempladas no modelo proposto foram investigadas no projeto SB Brasil, impedindo a maior compreensão da variabilidade da autopercepção da saúde bucal. Estudos mais abrangentes possibilitarão o avanço da compreensão dos fatores que a influenciam. O processo que relaciona a autopercepção às variáveis investigadas é dinâmico, conforme observado no modelo proposto. O SB Brasil foi um estudo transversal, não sendo possível estabelecer relação temporal entre as associações encontradas.

Nos dois grupos, dois pressupostos foram violados: homocedasticidade e normalidade dos termos de erros. A violação do pressuposto da homocedasticidade em termos práticos faz com que as previsões sejam melhores em alguns níveis da variável independente do que em outros, de modo que violar essa suposição freqüentemente torna os testes estatísticos mais conservadores ou sensíveis. A violação mais comum é a do pressuposto da normalidade dos termos de erro,9 o que significa que as diferenças entre o modelo estimado e os dados observados não são mais freqüentemente zero ou muito próximas de zero, isto é, que diferenças superiores a zero não acontecem apenas ocasionalmente.

Considera-se que o pressuposto da covariância nula não foi violado, uma vez que a análise gráfica é considerada subjetiva5 e tal violação não foi confirmada pelo teste de Durbin Watson. Nas análises de regressão linear múltipla nas quais o pressuposto da multicolinearidade é violado, há a diminuição da precisão dos estimadores dos coeficientes de regressão.5 Na presente investigação, esse pressuposto não foi violado. Apesar das limitações conseqüentes da violação de dois dos cinco pressupostos preconizados, optou-se pela comparação dos resultados com estudos nos quais não foram descritas as análises de todos os pressupostos preconizados.1,2,6,17,21,23

Quanto à variabilidade da autopercepção da saúde bucal, a autopercepção foi considerada positiva, embora tenham sido constatadas precárias condições de saúde bucal entre os idosos. A utilização do modelo de regressão linear na investigação da autopercepção da saúde bucal é comum, embora questionável, visto que essa não é uma variável quantitativa. A autopercepção da aparência como ótima seguida pela autopercepção positiva da mastigação e o relato de nenhuma necessidade de tratamento odontológico foram os fatores que mais contribuiriam para explicar a variabilidade da autopercepção da saúde bucal nos dois grupos. As condições objetivas de saúde colaboraram para essa explicação, especialmente entre dentados. Quanto maior o número de dentes permanentes presentes, mais negativa foi a autopercepção da saúde bucal, e quanto maior o número de dentes permanentes obturados, mais positiva foi essa autopercepção. Os fatores referentes ao ambiente externo, às características individuais e ao comportamento pouco contribuíram para o entendimento da variabilidade da autopercepção nos dois grupos. O uso de serviços odontológicos influenciou a autopercepção da saúde bucal entre dentados. O melhor entendimento dessas associações faz-se necessário para garantir qualidade de vida para idosos.

 

AGRADECIMENTO

À Coordenação de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, pela cessão dos dados do Levantamento Epidemiológico das Condições de Saúde Bucal da população brasileira.

 

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Correspondência | Correspondence:
Andréa Maria Eleutério de Barros Lima Martins
Departamento de Odontologia
Av. Rui Braga, S/N Vila Mauricéia
39401-089 Montes Claros, MG, Brasil
E-mail: martins.andreamebl@gmail.com

Recebido: 20/4/2009
Aprovado: 6/4/2010

 

 

AMEBL Martins foi apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG processo CDS-BIP-00169-09; bolsa de incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico).
SM Barreto foi apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq bolsa de produtividade em pesquisa).
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Condições de saúde bucal da população brasileira, 2002-2003: resultados principais. Brasília, DF; 2004. (Projeto SB Brasil 2003).

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