Aspectos do trabalho e do sono associados à capacidade para o trabalho entre pilotos

Pollyanna Pellegrino Elaine Cristina Marqueze Sobre os autores

RESUMO

OBJETIVO:

Analisar a associação da organização do trabalho e dos aspectos do sono com a capacidade para o trabalho entre pilotos da aviação regular.

MÉTODOS:

Foi realizada uma pesquisa epidemiológica transversal, com 1.234 pilotos da aviação regular, que realizavam voos de rotas nacionais e internacionais, afiliados à Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil. A coleta de dados foi feita através de questionário on-line. Para comparação entre as proporções foram realizados os testes de hipóteses qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fisher. Posteriormente, foi efetuada a análise de Poisson, com variância robusta, para testar os fatores associados à capacidade moderada ou baixa para o trabalho.

RESULTADOS:

A prevalência de capacidade para o trabalho moderada ou baixa foi de 43,3%. Verificou-se que autopercepção de sono insuficiente (RP = 1,29; IC95% 1,06–1,57), maior percepção para fadiga (RP = 1,51; IC95% 1,24–1,84), jornada de voo maior que 65 horas por mês (RP = 1,22; IC95% 1,01–1,46), menos de 10 dias de folga por mês (RP = 1,27; IC95% 1,04–1,55) e atrasos operacionais frequentes (RP = 1,23; IC95% 1,02–1,48) foram fatores associados à capacidade moderada ou baixa para o trabalho.

CONCLUSÕES:

A organização do trabalho foi um fator determinante para a diminuição da capacidade para o trabalho, em especial quanto aos aspectos relacionados ao descanso e suas repercussões no sono de pilotos.

DESCRITORES:
Pilotos; Avaliação da Capacidade de Trabalho; Sono; Condições de Trabalho; Saúde do Trabalhador

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a aviação regular tem registrado um grande crescimento e se apresenta como parte de um processo em transformação do sistema produtivo, com mudanças também na organização e gestão do transporte aéreo99. Itani A. Saúde e gestão na aviação: a experiência de pilotos e controladores de tráfego aéreo. Psicol Soc. 2009;21(2):203-12. https://doi.org/10.1590/S0102-71822009000200007
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. Esses dados demonstram a importância do setor para a economia, tanto no transporte aéreo de passageiros, quanto no de carga99. Itani A. Saúde e gestão na aviação: a experiência de pilotos e controladores de tráfego aéreo. Psicol Soc. 2009;21(2):203-12. https://doi.org/10.1590/S0102-71822009000200007
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. Segundo o Anuário do Transporte Aéreo da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), a quantidade de passageiros pagos transportados por avião no Brasil mais que dobrou em 10 anos, tendo passado de 26,8/100 mil habitantes em 2005 para 58,7/100 mil habitantes em 2014. Em contrapartida, o quadro de aeronautas das empresas brasileiras cresceu apenas 21% nesse períodoaaAgência Nacional de Aviação Civil, Superintendência de Acompanhamento de Serviços Aéreos, Gerência de Acompanhamento de Mercado. Anuário do Transporte Aéreo 2014. Brasília (DF):ANAC; 2014.. Tal crescimento da demanda sem aumento do quadro funcional tem sido negativamente associado à saúde do aeronauta, que é regulada por normas da aviação civil e de responsabilidade do Estado99. Itani A. Saúde e gestão na aviação: a experiência de pilotos e controladores de tráfego aéreo. Psicol Soc. 2009;21(2):203-12. https://doi.org/10.1590/S0102-71822009000200007
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.

Esse novo quadro da aviação leva os pilotos à sobrecarga laboral, maior frequência de mudanças nos horários das escalas, pressão psicológica e estresse, repercutindo em sua saúde e colocando em risco a segurança do voo1414. Melo MFS, Silvany Neto AM. Perfil de morbidade, aspectos ergonômicos e psicossociais, fadiga e perturbação do ciclo circadiano de pilotos de aviação comercial: uma revisão narrativa. Rev Baiana Saude Publica. 2012;36(3):683-98. https://doi.org/10.22278/2318-2660.2012.v36.n3.a547
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. No entanto, esse profissional precisa estar apto e capacitado para realizar seu trabalho. Ilmarinen88. Ilmarinen J. Aging workers. Occup Environ Med. 2001;58(8):546-52. https://doi.org/10.1136/oem.58.8.546
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aponta que essa capacidade é um processo de interação entre os recursos do ser humano e seu trabalho. Os recursos relacionados ao trabalhador são suas capacidades funcionais; saúde física, mental e social; educação; competência; valores; atitudes e motivação. Esse é um processo dinâmico, que sofre inúmeras mudanças ao longo da vida de trabalho, principalmente relacionadas ao envelhecimento funcional88. Ilmarinen J. Aging workers. Occup Environ Med. 2001;58(8):546-52. https://doi.org/10.1136/oem.58.8.546
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.

Os estudos realizados com pilotos de avião mostram que essa categoria normalmente apresenta diversos problemas de sono e de saúde, destacando-se a sonolência excessiva, cochilos não intencionais e fadiga1414. Melo MFS, Silvany Neto AM. Perfil de morbidade, aspectos ergonômicos e psicossociais, fadiga e perturbação do ciclo circadiano de pilotos de aviação comercial: uma revisão narrativa. Rev Baiana Saude Publica. 2012;36(3):683-98. https://doi.org/10.22278/2318-2660.2012.v36.n3.a547
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,2020. Petrilli RM, Roach GD, Dawson D, Lamond N. The sleep, subjective fatigue, and sustained attention of commercial airline pilots during an international pattern. Chronobiol Int. 2006;23(6):1357-62. https://doi.org/10.1080/07420520601085925
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,2323. Runeson R, Lindgren T, Wahlstedt K. Sleep problems and psychosocial work environment among Swedish commercial pilots. Am J Ind Med. 2011;54(7):545-51. https://doi.org/10.1002/ajim.20943
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. No entanto, tais estudos ainda são incipientes, e faz-se necessário conhecer mais as características do trabalho e da saúde desses profissionais para realizar ações de políticas públicas e tornar efetivas as ações de prevenção de doenças e promoção da saúde.

Nesse contexto, o objetivo deste artigo é analisar a associação da organização do trabalho e dos aspectos do sono com a capacidade para o trabalho entre pilotos da aviação regular.

MÉTODOS

Estudo epidemiológico transversal, com pilotos (comandantes e copilotos) da aviação regular brasileira, de voos nacionais e internacionais, afiliados à Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil (ABRAPAC). Todos os pilotos afiliados à ABRAPAC (2.530) foram convidados a participar do estudo via e-mail e 1.234 participaram do estudo (48,8% de retorno). De acordo com a ANACaaAgência Nacional de Aviação Civil, Superintendência de Acompanhamento de Serviços Aéreos, Gerência de Acompanhamento de Mercado. Anuário do Transporte Aéreo 2014. Brasília (DF):ANAC; 2014., o número de pilotos associados à ABRAPAC representava aproximadamente metade dos pilotos brasileiros da aviação regular na época da realização do presente estudo (5.956 pilotos). Ressalta-se que a amostra foi de conveniência, posto que apenas os pilotos associados à ABRAPAC foram convidados a participar do estudo.

Inicialmente, o tamanho da amostra foi calculado com vistas a atender os objetivos da pesquisa “Fadiga crônica, condições de trabalho e saúde de pilotos brasileiros”bbMarqueze EC, Diniz DHMD, Nicola AC. Fadiga crônica, condições de trabalho e saúde em pilotos brasileiros. São Paulo: Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil – ABRAPAC; 2014. Disponível em: https://pilotos.org.br/press-release-pesquisa-de-fadiga/ , a qual o presente estudo está vinculado. Dessa forma, o poder amostral foi calculado a posteriori (programa G*Power 3.1.4), com o propósito de avaliar a validade interna dos resultados encontrados neste estudo. O poder amostral foi de 99%, com um nível de confiança de 95% (α = 5%) para detectar razões de prevalência iguais ou superiores a 1,20 como significativas, tendo como parâmetro a prevalência da capacidade para o trabalho moderada e ruim (43,3%).

As variáveis do estudo foram: características sociodemográficas e aspectos de trabalho, do sono e do estilo de vida.

  1. *

    Características sociodemográficas:

    • Sexo;

    • Idade, dicotomizada a partir da média da idade;

    • Escolaridade.

  2. *

    Aspectos de trabalho:

    • Função atual;

    • Rota de voo;

    • Jornada mensal de horas de voo, dicotomizada a partir da média;

    • Folga mensal;

    • Número máximo de dias consecutivos de trabalho realizado nos últimos seis meses, dicotomizado a partir da média;

    • Número máximo de noites consecutivas de trabalho realizado nos últimos seis meses;

    • Frequência de atrasos operacionais;

    • Tempo de trabalho como piloto, dicotomizado a partir da média;

    • Tempo de trabalho no turno noturno;

    • Qualidade do local para repouso no avião, dicotomizada a partir da média;

    • Horário de término do turno noturno;

    • Necessidade de recuperação após o trabalho (avaliada pela escala proposta por Veldhoven e Broersen2626. Veldhoven M, Broersen S. Measurement quality and validity of the “need for recovery scale”. Occup Environ Med. 2003;60 Suppl 1:i3-9. https://doi.org/10.1136/oem.60.suppl_1.i3
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      , sendo o escore 0–100 pontos classificado pelo tercil: menor, moderada e maior necessidade de recuperação) (alfa de Cronbach 0,81);

    • Estresse ocupacional, avaliado pelo questionário de demanda, controle e apoio social Job Stress Scale, utilizando-se a versão adaptada para a língua portuguesa22. Alves MGM, Chor D, Faerstein E, Lopes CS, Wernek GL. Versão resumida da “job stress scale”: adaptação para o português. Rev Saude Publica. 2004;38(2):164-71. https://doi.org/10.1590/S0034-89102004000200003
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      . Esse questionário avalia os estressores ocupacionais e de acordo com as demandas e o controle é categorizado em: baixo desgaste (alto controle e baixa demanda), alto desgaste (baixo controle e alta demanda), trabalho passivo (baixo controle e baixa demanda) e trabalho ativo (alto controle e alta demanda). O alfa de Cronbach do questionário de demanda foi 0,72, de controle 0,50 e de apoio social 0,81;

  3. *

    Aspectos do sono e estilo de vida:

    • Percepção do cronotipo, avaliada por uma única questão retirada do questionário de sono de Karolinska11. Akerstedt T, Fredlund P, Gillberg M, Jansson B. Work load and work hours in relation to disturbed sleep and fatigue in a large representative sample. J Psychosom Res. 2002;53(3):741-8. https://doi.org/10.1016/S0022-3999(02)00447-6
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      ;

    • Percepção se dorme o suficiente, avaliada por uma única questão retirada do questionário de sono de Karolisnka11. Akerstedt T, Fredlund P, Gillberg M, Jansson B. Work load and work hours in relation to disturbed sleep and fatigue in a large representative sample. J Psychosom Res. 2002;53(3):741-8. https://doi.org/10.1016/S0022-3999(02)00447-6
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      ;

    • Percepção sobre a qualidade do sono, avaliada por uma única questão retirada do questionário de sono de Karolinska11. Akerstedt T, Fredlund P, Gillberg M, Jansson B. Work load and work hours in relation to disturbed sleep and fatigue in a large representative sample. J Psychosom Res. 2002;53(3):741-8. https://doi.org/10.1016/S0022-3999(02)00447-6
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      ;

    • Chance de desenvolvimento da síndrome da apneia obstrutiva, avaliada por meio do questionário de Berlim1717. Netzer NC, Stoohs RA, Netzer CM, Clark K, Strohl KP. Using the Berlin Questionnaire to identify patients at risk for the sleep apnea syndrome. Ann Intern Med. 1999;131(7):485-91. https://doi.org/10.7326/0003-4819-131-7-199910050-00041
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      (alfa de Cronbach 0,67);

    • Sonolência excessiva, avaliada pela escala de sonolência de Epworth33. Bertolazi AN, Fagondes SC, Hoff LS, Pedro VD, Menna Barreto SS, Johns MW. Validação da escala de sonolência de Epworth em português para uso no Brasil. J Bras Pneumol. 2009:35(9):877-83. https://doi.org/10.1590/S1806-37132009000900009
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      (alfa de Cronbach 0,81);

    • Percepção de fadiga, avaliada pelo questionário de Yoshitake2727. Yoshitake H. Relations between the symptoms and the feelings of fatigue. Ergonomics. 1971;14(1):175-86. https://doi.org/10.1080/00140137108931236
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      (alfa de Cronbach 0,93);

    • Cochilo não intencional, avaliado por meio de uma única questão retirada do questionário de sono de Karolinska11. Akerstedt T, Fredlund P, Gillberg M, Jansson B. Work load and work hours in relation to disturbed sleep and fatigue in a large representative sample. J Psychosom Res. 2002;53(3):741-8. https://doi.org/10.1016/S0022-3999(02)00447-6
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      ;

    • Sintomas de insônia, avaliados a partir de sete questões do questionário de Karolinska Sleep Questionnaire11. Akerstedt T, Fredlund P, Gillberg M, Jansson B. Work load and work hours in relation to disturbed sleep and fatigue in a large representative sample. J Psychosom Res. 2002;53(3):741-8. https://doi.org/10.1016/S0022-3999(02)00447-6
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      , sendo esse índice proposto por Nordin et al.1818. Nordin M, Åkerstedt T, Nordin S. Psychometric evaluation and normative data for the Karolinska Sleep Questionnaire. Sleep Biol Rhythms. 2013;11(4):216-26. https://doi.org/10.1111/sbr.12024
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      (alfa de Cronbach 0,88);

    • Tempo de atividade física semanal, categorizado em ≥ 150 minutos/semana ou < 150 minutos/semana1919. Pate RR, Pratt M, Blair SN, Haskell WL, Macera CA, Bouchard C, et al. Physical activity and public health. A recommendation from the Centers for Disease Control and Prevention and the American College of Sports Medicine. JAMA. 1995;273(5):402-7. https://doi.org/10.1001/jama.1995.03520290054029
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      .

Para avaliar a capacidade para o trabalho (variável dependente), foi utilizada a versão traduzida para o português2525. Tuomi K, Ilmarinen J, Jahakola A, Katajarinne L, Tulkki A. Índice de capacidade para o trabalho. Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional. São Carlos (SP): EDUFSCAR, 2005. do Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT), que tem base na autopercepção dos indivíduos em relação à sua capacidade para o trabalho (alfa de Cronbach 0,82). A partir do cálculo do escore, a capacidade para o trabalho de todos os pilotos foi classificada em ótima (45–49 pontos), boa (41–44 pontos), moderada (37–40 pontos) ou baixa (7–36 pontos)1010. Kujala V, Remes J, Ek E, Tammelin T, Laitinen J. Classification of Work Ability Index among young employees. Occup Med (Lond). 2005;55(5):399-401. https://doi.org/10.1093/occmed/kqi075
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. Tais pontos de corte foram adotados visto que a amostra estudada é essencialmente composta por trabalhadores adultos jovens (74,2% dos pilotos tinham até 45 anos) e a presente pesquisa tem como objetivo discutir os fatores associados à capacidade baixa ou moderada para o trabalho, para que ações preventivas possam ser propostas a partir dos resultados encontrados. Ressalta-se que, para a análise de regressão de Poisson, foram agrupadas as categorias baixa ou moderada (testada) e boa ou ótima (referência).

As variáveis foram descritas por meio de frequências absolutas e relativas. Para comparação entre as proporções, foram empregados os testes de hipóteses qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fisher. Dado o tipo de estudo (transversal) e a prevalência elevada do desfecho, optou-se por realizar a regressão de Poisson, com variância robusta, para análise dos fatores associados à capacidade moderada ou baixa para o trabalho. As variáveis independentes com valor de p < 0,20 nos testes de hipóteses foram testadas no modelo múltiplo, em ordem decrescente de significância estatística (stepwise backward technique). O modelo foi ajustado pelas variáveis idade e sexo, uma vez que essas variáveis não apresentaram diferenças entre as proporções da capacidade para o trabalho. O nível de significância adotado em todos os testes foi de 5%. As análises estatísticas foram realizadas no programa Stata 12.0 (Stata corp, Texas, USA).

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (Protocolo 625.158).

RESULTADOS

A maioria dos pilotos entrevistados era do sexo masculino (97,1%), com idade inferior a 39 anos (52,4% – idade média de 39,1 anos, DP = 9,8 anos), com escolaridade acima do exigido para o exercício da profissão (71,3%), vivia com companheiro(a) (84,4%), não morava no mesmo local da sua base contratual (53,8%) e possuía o cargo de comandante nacional (51,7%), seguido pelos copilotos nacionais (39,1%). A prevalência de capacidade moderada ou baixa para o trabalho foi de 43,3%.

Comparados aos pilotos com capacidade para o trabalho ótima ou boa, havia maior proporção de pilotos com capacidade moderada ou baixa que praticavam menos de 150 minutos de atividade física por semana, que referia não dormir o suficiente e dormir muito mal, que apresentava alta chance para desenvolver apneia obstrutiva do sono, com sonolência excessiva, com maior percepção de fadiga, que cochilava de maneira não intencional durante o trabalho e com sintomas de insônia. Já em relação às variáveis ocupacionais, o grupo com capacidade para o trabalho moderada ou baixa apresentou maior proporção de pilotos com função de comandante nacional e internacional, que trabalhava em rota internacional, com jornada mensal de horas de voo superior à média do grupo, com menos de nove folgas mensais, com sete dias consecutivos de trabalho ou mais, que frequentemente tinha atrasos operacionais, que trabalhava há mais tempo na profissão e há mais tempo no turno noturno, que avaliava a qualidade do local de repouso no avião como ruim, que terminava o turno noturno muito tarde, com maior necessidade de recuperação após o trabalho e com um trabalho classificado como ativo e também o trabalho de baixo desgaste. Todas essas diferenças foram estatisticamente significativas (p < 0,05) (Tabela 1).

Tabela 1
Capacidade para o trabalho relacionada às características sociodemográficas e de estilo de vida, sono e trabalho. Brasil, 2017.

No modelo bivariado, as seguintes variáveis foram associadas à capacidade para o trabalho baixa ou moderada: não dormir o suficiente, dormir mal, ter alta chance para o desenvolvimento de síndrome de apneia obstrutiva do sono, cochilar de maneira não intencional, apresentar sintomas de insônia, apresentar sonolência excessiva, ter maior percepção de fadiga, fazer rotas de voos internacionais, ter jornada mensal de voo de 66 horas ou mais, ter até nove dias de folgas por mês, trabalhar consecutivamente sete dias ou mais, ter frequentes atrasos operacionais, trabalhar como piloto entre 11 e 20 anos, trabalhar no turno noturno entre 11 a 15 anos, avaliar o local de repouso no avião como ruim, terminar a jornada do turno noturno entre 8:01h e 12:00h e ter moderada e maior necessidade de recuperação. Foram fatores de proteção à capacidade para o trabalho baixa ou moderada: ser comandante internacional e copiloto nacional, trabalhar como piloto entre 21 a 30 anos e exercer trabalho passivo e de alto desgaste (Tabela 2).

Tabela 2
Razões de prevalência brutas e ajustadas dos fatores associados à capacidade para o trabalho moderada ou baixa de pilotos da aviação regular. Brasil, 2017.

Já no modelo múltiplo ajustado por sexo e idade, as variáveis que apresentaram risco de prevalência à capacidade para o trabalho baixa ou moderada foram: não dormir o suficiente, relatar maior percepção para fadiga, ter jornada mensal de voo de 66 horas ou mais, ter menos de 10 dias de folgas por mês e ter frequentes atrasos operacionais (Tabela 2).

DISCUSSÃO

Verificou-se um percentual relevante de pilotos com capacidade para o trabalho moderada ou baixa, o que é um aspecto importante, já que a população de estudo era de adultos jovens e os principais fatores associados à diminuição da capacidade para o trabalho estão relacionados à organização do trabalho. Sluiter2424. Sluiter JK. High-demand jobs: age-related diversity in work ability? Appl Ergon. 2006;37(4):429-40. https://doi.org/10.1016/j.apergo.2006.04.007
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ressalta que funções com alta demanda de trabalho, como o caso dos pilotos de avião, prejudicam a capacidade para o trabalho, mesmo entre os trabalhadores mais jovens44. Bethge M, Radoschewski, FM. Physical and psychosocial work stressors, health-related control beliefs and work ability: cross-sectional findings from German Sociomedical Panel of Employess. Int Arch Occup Environ Health. 2010;83(3):241-50. https://doi.org/10.1007/s00420-009-0442-5
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,2424. Sluiter JK. High-demand jobs: age-related diversity in work ability? Appl Ergon. 2006;37(4):429-40. https://doi.org/10.1016/j.apergo.2006.04.007
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. No presente estudo, identificamos maior proporção de pilotos com um trabalho ativo, ou seja, com alta demanda e alto controle, com capacidade para o trabalho moderada ou baixa, em relação à capacidade para o trabalho ótima ou boa.

Ao comparar a prevalência da capacidade para o trabalho moderada ou baixa do presente estudo com outros que utilizaram o mesmo instrumento de avaliação, verificou-se que essa foi muito elevada. Marqueze e Moreno1212. Marqueze EC, Moreno CRC. Satisfação no trabalho e capacidade para o trabalho entre docentes universitários. Psicol Estud. 2009;14(1):75-82. https://doi.org/10.1590/S1413-73722009000100010
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, ao estudarem docentes do ensino superior com idade média semelhante à dos pilotos, encontraram uma prevalência de 13%. Vale ressaltar que os docentes trabalhavam no turno diurno, vespertino e noturno até às 23 horas. Dois estudos com profissionais da área da enfermagem identificaram prevalência de capacidade para o trabalho moderada ou baixa menor ou igual à dos pilotos no presente artigo. Os profissionais de enfermagem tinham idade média de 39,4 anos e 41,3 anos e também realizavam trabalho em turnos e noturno. A prevalência de capacidade para o trabalho moderada ou baixa foi de 35%55. Silva FJ, Felli VE, Martinez MC, Mininel VA, Ratier AP. Association between work ability and fatigue in Brazilian nursing workers. Work. 2015;53(1):225-32. https://doi.org/10.3233/WOR-152241
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e 43,3%2121. Prochnow A, Magnago TSBS, Urbanetto JS, Beck CLC, Lima SBS, Greco PBT. Work ability in nursing: relationship with psychological demands and control over the work. Rev Lat Am Enfermagem. 2013;21(6):1298-305. https://doi.org/10.1590/0104-1169.3072.2367
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. Destaca-se que o estudo de Prochnow et al.2121. Prochnow A, Magnago TSBS, Urbanetto JS, Beck CLC, Lima SBS, Greco PBT. Work ability in nursing: relationship with psychological demands and control over the work. Rev Lat Am Enfermagem. 2013;21(6):1298-305. https://doi.org/10.1590/0104-1169.3072.2367
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utilizou o ponto de corte estabelecido por Tuomi et al.2525. Tuomi K, Ilmarinen J, Jahakola A, Katajarinne L, Tulkki A. Índice de capacidade para o trabalho. Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional. São Carlos (SP): EDUFSCAR, 2005., o qual é proposto para trabalhadores a partir de 45 anos. Já o estudo de Silva et al55. Silva FJ, Felli VE, Martinez MC, Mininel VA, Ratier AP. Association between work ability and fatigue in Brazilian nursing workers. Work. 2015;53(1):225-32. https://doi.org/10.3233/WOR-152241
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utilizou o ponto de corte de Tuomi et al.2525. Tuomi K, Ilmarinen J, Jahakola A, Katajarinne L, Tulkki A. Índice de capacidade para o trabalho. Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional. São Carlos (SP): EDUFSCAR, 2005. e o de Kujala et al.1010. Kujala V, Remes J, Ek E, Tammelin T, Laitinen J. Classification of Work Ability Index among young employees. Occup Med (Lond). 2005;55(5):399-401. https://doi.org/10.1093/occmed/kqi075
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, de acordo com a idade dos pesquisados. No entanto, no presente estudo, foi empregado apenas o ponto de corte proposto por Kujala et al.1010. Kujala V, Remes J, Ek E, Tammelin T, Laitinen J. Classification of Work Ability Index among young employees. Occup Med (Lond). 2005;55(5):399-401. https://doi.org/10.1093/occmed/kqi075
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, visto que esse é o indicado para trabalhadores mais jovens, como é o caso da amostra estudada (74,2% dos pilotos tinham até 45 anos). No estudo de Kujala et al.1010. Kujala V, Remes J, Ek E, Tammelin T, Laitinen J. Classification of Work Ability Index among young employees. Occup Med (Lond). 2005;55(5):399-401. https://doi.org/10.1093/occmed/kqi075
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conduzido com trabalhadores finlandeses de diferentes áreas ocupacionais, a prevalência da capacidade para o trabalho moderada e baixa também foi menor do que em nosso estudo (39,0% entre os homens)1010. Kujala V, Remes J, Ek E, Tammelin T, Laitinen J. Classification of Work Ability Index among young employees. Occup Med (Lond). 2005;55(5):399-401. https://doi.org/10.1093/occmed/kqi075
https://doi.org/10.1093/occmed/kqi075...
.

A idade dos pesquisados é um aspecto que precisa ser destacado, uma vez que, na média, os pilotos estudados eram adultos jovens, mas já apresentavam sinais de comprometimento da sua capacidade para o trabalho. De acordo com Tuomi et al.2525. Tuomi K, Ilmarinen J, Jahakola A, Katajarinne L, Tulkki A. Índice de capacidade para o trabalho. Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional. São Carlos (SP): EDUFSCAR, 2005., é esperado que ocorra o envelhecimento funcional com o avançar da idade cronológica; no entanto, no presente estudo a idade não se mostrou associada à capacidade para o trabalho baixa ou moderada. No estudo de Marqueze e Moreno1212. Marqueze EC, Moreno CRC. Satisfação no trabalho e capacidade para o trabalho entre docentes universitários. Psicol Estud. 2009;14(1):75-82. https://doi.org/10.1590/S1413-73722009000100010
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, as autoras também não verificaram essa relação e afirmaram que o envelhecimento funcional não está necessariamente relacionado ao envelhecimento cronológico, mas, principalmente, às condições de trabalho, o que parece ser a mesma situação dos pilotos estudados. Como descrito anteriormente, o trabalho do piloto de avião é complexo e exige do profissional diferentes competências e atividades, principalmente exigências mentais. Essas exigências do trabalho podem desencadear respostas fisiológicas crônicas e agudas, reações psicológicas e mudanças comportamentais, com possibilidade de diminuição da capacidade para o trabalho88. Ilmarinen J. Aging workers. Occup Environ Med. 2001;58(8):546-52. https://doi.org/10.1136/oem.58.8.546
https://doi.org/10.1136/oem.58.8.546...
.

Verificou-se que não dormir o suficiente foi fator associado à capacidade para o trabalho moderada ou baixa. Segundo Melo e Neto1414. Melo MFS, Silvany Neto AM. Perfil de morbidade, aspectos ergonômicos e psicossociais, fadiga e perturbação do ciclo circadiano de pilotos de aviação comercial: uma revisão narrativa. Rev Baiana Saude Publica. 2012;36(3):683-98. https://doi.org/10.22278/2318-2660.2012.v36.n3.a547
https://doi.org/10.22278/2318-2660.2012....
, a privação de sono entre os pilotos é reflexo das jornadas irregulares. Sabe-se que a restrição do sono por um tempo prolongado pode gerar fadiga, levando a uma diminuição do nível de alerta e aumento da irritabilidade, entre outros efeitos negativos1313. Marqueze EC, Nicola ACB, Diniz DHMD, Fischer FM. Jornadas de trabalho associadas a cochilos não intencionais entre pilotos da aviação regular. Rev Saude Publica. 2017;51:61. https://doi.org/10.1590/S1518-8787.2017051006329
https://doi.org/10.1590/S1518-8787.20170...
,1515. Moreno CRC. Sono e estratégias relativas ao sono para lidar com horários de trabalho. In: Fischer FM, Moreno CRC, Rotenberg L. Trabalho em turnos e noturno na sociedade 24 horas. São Paulo: Atheneu; 2003. p.43-52.,2020. Petrilli RM, Roach GD, Dawson D, Lamond N. The sleep, subjective fatigue, and sustained attention of commercial airline pilots during an international pattern. Chronobiol Int. 2006;23(6):1357-62. https://doi.org/10.1080/07420520601085925
https://doi.org/10.1080/0742052060108592...
,2222. Roach GD, Petrilli RM, Dawson D, Lamond N. Impact of layover length on sleep, subjective fatigue levels, and sustained attention of long-haul airline pilots. Chronobiol Int. 2012;29(5):580-6. https://doi.org/10.3109/07420528.2012.675222
https://doi.org/10.3109/07420528.2012.67...
. A fadiga também foi um dos fatores associados à capacidade para o trabalho moderada ou baixa. Tal resultado corrobora o estudo de Silva et al.55. Silva FJ, Felli VE, Martinez MC, Mininel VA, Ratier AP. Association between work ability and fatigue in Brazilian nursing workers. Work. 2015;53(1):225-32. https://doi.org/10.3233/WOR-152241
https://doi.org/10.3233/WOR-152241...
, em que os autores verificaram que quanto maior a fadiga, menor a capacidade para o trabalho.

A privação do sono aumenta a possibilidade de cochilos não intencionais durante o voo1313. Marqueze EC, Nicola ACB, Diniz DHMD, Fischer FM. Jornadas de trabalho associadas a cochilos não intencionais entre pilotos da aviação regular. Rev Saude Publica. 2017;51:61. https://doi.org/10.1590/S1518-8787.2017051006329
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, e um dos fatores que levam a essa maior privação do sono é a inversão do ciclo vigília-sono em decorrência da exposição ao trabalho em turnos irregulares77. Gregory KB, Winn W, Johnson K, Rosekind MR. Pilot fatigue survey: exploring fatigue factors in air medical operations. Air Med J. 2010;29(6):309-19. https://doi.org/10.1016/j.amj.2010.07.002
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,1111. Lamond N, Petrilli RM, Dawson D, Roach GD. Do short international layovers allow sufficient opportunity for pilots to recover? Chronobiol Int. 2006;23(6):1285-94. https://doi.org/10.1080/07420520601062387
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,2020. Petrilli RM, Roach GD, Dawson D, Lamond N. The sleep, subjective fatigue, and sustained attention of commercial airline pilots during an international pattern. Chronobiol Int. 2006;23(6):1357-62. https://doi.org/10.1080/07420520601085925
https://doi.org/10.1080/0742052060108592...
,2323. Runeson R, Lindgren T, Wahlstedt K. Sleep problems and psychosocial work environment among Swedish commercial pilots. Am J Ind Med. 2011;54(7):545-51. https://doi.org/10.1002/ajim.20943
https://doi.org/10.1002/ajim.20943...
. Como foi verificado, a percepção de sono insuficiente aumentou em quase 30% a prevalência de capacidade moderada ou baixa para o trabalho. Grande parte dos pilotos referenciou iniciar a jornada matutina antes das cinco e terminar a jornada vespertina após as 22h, além de frequentemente trabalharem no turno noturno, prejudicando assim o tempo disponível para o sono. Segundo Goode66. Goode JH. Are pilots at risk of accidents due fatigue? J Safety Res. 2003;34(3):309-13. https://doi.org/10.1016/S0022-4375(03)00033-1
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, os pilotos devem ter a oportunidade de dormir pelo menos oito horas no período de descanso. Tal ação poderia melhorar a capacidade laborativa, bem como evitar incidentes.

No presente estudo, jornadas longas de voo (≥ 66 horas/mês) foi fator associado à capacidade moderada ou baixa para o trabalho. Roach et al.2222. Roach GD, Petrilli RM, Dawson D, Lamond N. Impact of layover length on sleep, subjective fatigue levels, and sustained attention of long-haul airline pilots. Chronobiol Int. 2012;29(5):580-6. https://doi.org/10.3109/07420528.2012.675222
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e Lamond et al.1111. Lamond N, Petrilli RM, Dawson D, Roach GD. Do short international layovers allow sufficient opportunity for pilots to recover? Chronobiol Int. 2006;23(6):1285-94. https://doi.org/10.1080/07420520601062387
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afirmam que jornadas curtas de trabalho (menos de 40 horas/semana), apesar de menos extensas, possuem um menor tempo de descanso entre as jornadas, o que leva à fadiga. Já as jornadas médias de trabalho (entre 40 a 61 horas/semana) e as longas (acima de 62 horas/semana) possuem um tempo maior de descanso entre as jornadas. Entretanto, as jornadas de trabalho mais extensas são prejudiciais à saúde, conforme verificado nesse estudo. Dessa forma, os autores recomendam maior tempo de descanso entre as jornadas, bem como jornadas mais curtas, dada a complexidade e o volume de trabalho dos pilotos1111. Lamond N, Petrilli RM, Dawson D, Roach GD. Do short international layovers allow sufficient opportunity for pilots to recover? Chronobiol Int. 2006;23(6):1285-94. https://doi.org/10.1080/07420520601062387
https://doi.org/10.1080/0742052060106238...
,2222. Roach GD, Petrilli RM, Dawson D, Lamond N. Impact of layover length on sleep, subjective fatigue levels, and sustained attention of long-haul airline pilots. Chronobiol Int. 2012;29(5):580-6. https://doi.org/10.3109/07420528.2012.675222
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. Destaca-se que as horas de voo relatadas pelos participantes desse estudo não excederam as previstas em lei (80 horas/mês – Lei 13.475 de 28 de agosto de 2017ccBrasil. Lei n° 13.475, de 28 de agosto de 2017. Dispõe sobre o exercício da profissão de tripulante de aeronave, denominado aeronauta; e revoga a Lei n° 7.183, de 5 de abril de 1984. Brasília (DF); 2017 [citado 13 dez 2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13475.htm ). No entanto, uma limitação do estudo é que não foram coletadas informações da jornada de trabalho total (horários de apresentação, de desligamento dos motores e duração dos atrasos operacionais); logo, as horas efetivas de voo são inferiores ao tempo total de trabalho.

Ter menos de 10 dias de folga por mês também foi fator associado à capacidade para o trabalho baixa ou moderada. Trabalhar por muito tempo seguido, sem folgas, e com uma jornada extensa de trabalho, considerando a alta exigência cognitiva da profissão, pode gerar uma situação de fadiga e, consequentemente, uma diminuição da capacidade para o trabalho55. Silva FJ, Felli VE, Martinez MC, Mininel VA, Ratier AP. Association between work ability and fatigue in Brazilian nursing workers. Work. 2015;53(1):225-32. https://doi.org/10.3233/WOR-152241
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,77. Gregory KB, Winn W, Johnson K, Rosekind MR. Pilot fatigue survey: exploring fatigue factors in air medical operations. Air Med J. 2010;29(6):309-19. https://doi.org/10.1016/j.amj.2010.07.002
https://doi.org/10.1016/j.amj.2010.07.00...
,99. Itani A. Saúde e gestão na aviação: a experiência de pilotos e controladores de tráfego aéreo. Psicol Soc. 2009;21(2):203-12. https://doi.org/10.1590/S0102-71822009000200007
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.

Os atrasos operacionais frequentes também foram associados à capacidade para o trabalho baixa ou moderada. De acordo com a Lei 13.475ccBrasil. Lei n° 13.475, de 28 de agosto de 2017. Dispõe sobre o exercício da profissão de tripulante de aeronave, denominado aeronauta; e revoga a Lei n° 7.183, de 5 de abril de 1984. Brasília (DF); 2017 [citado 13 dez 2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13475.htm , a jornada de trabalho é contada a partir da hora da apresentação no local de trabalho, que deverá ser de no mínimo 30 minutos antes do voo, e se encerra 30 minutos após a parada final dos motores para voos nacionais e 45 minutos para voos internacionais. Portanto, entende-se que um atraso ou até pequenos atrasos poderiam aumentar a jornada de trabalho do piloto, que já está trabalhando no seu limite66. Goode JH. Are pilots at risk of accidents due fatigue? J Safety Res. 2003;34(3):309-13. https://doi.org/10.1016/S0022-4375(03)00033-1
https://doi.org/10.1016/S0022-4375(03)00...
,77. Gregory KB, Winn W, Johnson K, Rosekind MR. Pilot fatigue survey: exploring fatigue factors in air medical operations. Air Med J. 2010;29(6):309-19. https://doi.org/10.1016/j.amj.2010.07.002
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, o que gera aumento da fadiga.

No modelo bivariado, além dos fatores já relatados no modelo múltiplo, outros aspectos relativos ao sono também foram associados à capacidade para o trabalho baixa ou moderada. Entre esses fatores estão: má percepção de sono, sonolência excessiva, episódios de cochilo não intencional e sintomas de insônia. Esse resultado reforça o quanto os problemas de sono podem influenciar na capacidade para o trabalho55. Silva FJ, Felli VE, Martinez MC, Mininel VA, Ratier AP. Association between work ability and fatigue in Brazilian nursing workers. Work. 2015;53(1):225-32. https://doi.org/10.3233/WOR-152241
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. Segundo Itani99. Itani A. Saúde e gestão na aviação: a experiência de pilotos e controladores de tráfego aéreo. Psicol Soc. 2009;21(2):203-12. https://doi.org/10.1590/S0102-71822009000200007
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, foram identificados agravos na saúde de pilotos que trabalhavam em jornadas irregulares e com condições precárias de repouso, como local de descanso inadequado no avião e pouco tempo de sono.

Aspectos relativos à organização do trabalho também foram associados à capacidade para o trabalho baixa ou moderada no modelo bivariado. Entre eles, estão: realizar rota de voo internacional, trabalhar consecutivamente por cinco noites ou mais, ter maior tempo de profissão e no turno noturno, dispor de um local com má qualidade para repouso no avião, terminar o turno noturno entre 12:00h e 16:00h e necessitar de um maior tempo de recuperação. Tais fatores indicam que aspectos organizacionais que afetam diretamente o descanso dos pilotos podem levar ao envelhecimento funcional precoce, o que torna necessárias ações que minimizem esse impacto, conforme já apontado anteriormente.

Já os aspectos relacionados ao estresse ocupacional foram fator de proteção; no entanto, a exposição prolongada do trabalhador aos estressores do trabalho pode estar relacionada ao surgimento de sintomas osteomusculares e ao envelhecimento funcional precoce2525. Tuomi K, Ilmarinen J, Jahakola A, Katajarinne L, Tulkki A. Índice de capacidade para o trabalho. Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional. São Carlos (SP): EDUFSCAR, 2005.. MenegonddMenegon FA. Atividade de montagem estrutural de aeronaves e fatores associados à capacidade para o trabalho e fadiga [tese]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; 2011 também verificou que o tempo de trabalho e o local de trabalho desempenharam papel importante na diminuição da capacidade para o trabalho de trabalhadores de montagem estrutural de aeronaves. Os dados acima apresentados corroboram a hipótese de que a organização do trabalho possui uma grande influência na capacidade para o trabalho, em que os horários de trabalho podem ser centrais nessa discussão.

Este estudo apresenta algumas limitações, as quais não permitem generalizações dos resultados encontrados. A amostra foi de conveniência, uma vez que apenas os pilotos associados à ABRAPAC foram convidados a participar do estudo. Entretanto, a validade interna foi elevada (poder amostral de 99%), e em torno de um quarto do total dos pilotos brasileiros registrados na AnacaaAgência Nacional de Aviação Civil, Superintendência de Acompanhamento de Serviços Aéreos, Gerência de Acompanhamento de Mercado. Anuário do Transporte Aéreo 2014. Brasília (DF):ANAC; 2014. compuseram a amostra. Outro fator limitante refere-se ao questionário de sintomas de insônia. Esse questionário não possui uma validação e tradução para o português, o que pode ser considerado um viés do estudo. No entanto, ressalta-se que esse questionário vem sendo utilizado em alguns estudos brasileiros1616. Moreno CRC, Lowden A, Vasconcelos S, Marqueze EC. Musculoskeletal pain and insomnia among workers with different occupations and working hours. Cronobiol Int. 2016:33(6):749-53. https://doi.org/10.3109/07420528.2016.1167730
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, e no presente estudo apresentou elevado grau de confiabilidade e consequente validação verificado pelo alfa de Cronbach.

Adicionalmente, o desenho do estudo (transversal) não permite determinar a relação temporal das variáveis estudadas. Porém, estudos desta natureza são fundamentais para o conhecimento das características sociodemográficas, de trabalho e do sono dessa população e pode ser referência para estudos futuros. Com o aumento significativo da procura por viagens aéreas, a diminuição dos números de pilotos e a consequente sobrecarga laboral, o risco de adoecimento dessa categoria profissional é considerável e geraria grande impacto na economia. Portanto, ações de prevenção às doenças e promoção à saúde são fundamentais para evitar esse quadro. Destaca-se que não há registros de estudos brasileiros anteriores semelhantes a este, tanto no tamanho amostral, como na diversidade dos pilotos, já que eles trabalhavam nas cinco principais companhias aéreas comerciais do país.

Em resumo, podemos concluir que a organização do trabalho foi um fator determinante para a diminuição da capacidade para o trabalho, em especial quanto aos aspectos relacionados ao descanso e suas repercussões no sono de pilotos.

  • a
    Agência Nacional de Aviação Civil, Superintendência de Acompanhamento de Serviços Aéreos, Gerência de Acompanhamento de Mercado. Anuário do Transporte Aéreo 2014. Brasília (DF):ANAC; 2014.
  • b
    Marqueze EC, Diniz DHMD, Nicola AC. Fadiga crônica, condições de trabalho e saúde em pilotos brasileiros. São Paulo: Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil – ABRAPAC; 2014. Disponível em: https://pilotos.org.br/press-release-pesquisa-de-fadiga/
  • c
    Brasil. Lei n° 13.475, de 28 de agosto de 2017. Dispõe sobre o exercício da profissão de tripulante de aeronave, denominado aeronauta; e revoga a Lei n° 7.183, de 5 de abril de 1984. Brasília (DF); 2017 [citado 13 dez 2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13475.htm
  • d
    Menegon FA. Atividade de montagem estrutural de aeronaves e fatores associados à capacidade para o trabalho e fadiga [tese]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; 2011
  • Financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes – bolsa de mestrado – Processo 1439999/2014).

Agradecimentos:

Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil (ABRAPAC) pela autorização para realização do presente estudo com seus associados.

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Histórico

  • Recebido
    08 Nov 2016
  • Aceito
    24 Fev 2018
  • Publicação Online
    31 Jan 2019
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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