EDITORIAL

 

Imunização, vacinas: passado e futuro

 

 

A erradicação da varíola sob a égide da Organização Mundial da Saúde e o protagonismo de governos nacionais e de agências de cooperação estimulou uma série de iniciativas no campo da imunização e novas e ambiciosas metas de erradicação de doenças a partir dos anos de 1970. Programas Nacionais de Imunizações no Brasil e em outros países, o Programa Ampliado de Imunização da OMS e a meta de erradicação global da poliomielite foram algumas das iniciativas mais imediatas pós-varíola. Avanços podem ser reconhecidos, porém muitas dessas metas, talvez sonhos, ainda não foram concretizadas. A política (politics) da imunização e as políticas (policies) de imunização tornaram-se crescentemente mais complexas tanto na sua dimensão nacional como global e povoadas por novos atores, novos objetivos e novas vacinas. Seu passado, presente e futuro estão sob escrutínio da história e de historiadores em artigos publicados neste número de Ciência & Saúde Coletiva.

A imunização, um sonho idealizado, se tornaria realidade por meio um produto tecnológico milagroso, materializada por uma vacina segura e indolor que garantiria que muitas gerações sejam protegidas de doenças perigosas. A realidade, no entanto, é muito mais complexa. Produtos tecnológicos nem sempre são tão eficazes como anunciados pelos fabricantes de vacinas e outros defensores da imunização. É importante notar também que existem e sempre existiram diferentes noções sobre segurança vacinal e sua eficácia ao longo do tempo. E o fato de que algumas vozes sejam ouvidas e divulgadas mais amplamente do que outras é parte do intrincado processo de negociação política e social, um ponto que é ignorado ou minimizado por aqueles buscando promover a ideia de uma suposta natureza livre de valores da ciência.

A saúde pública, medicina e todas as ciências que lhe servem de base não são livres destes valores; concepções sobre doença, sua cura e até esforços de defender a importância de certas intervenções em detrimento de outras são fortemente influenciados por uma variedade de considerações sociais, políticas e econômicas que também são instáveis por natureza. Agências globais de financiamento são frequentemente influenciadas por aqueles que insistem que "balas mágicas" cada vez mais eficazes podem ser desenvolvidas e utilizadas sem problemas. Devemos interpelar essas opiniões e não ignorar as negociações sociais que são capazes de mobilizar todos os interessados em imunização, a disseminação efetiva de informações e o desenvolvimento responsável de normas éticas para as práticas e trabalho de campo. Políticas significativas somente podem ser desenvolvidas com base em comprometimentos reais com a introdução da democracia nos sistemas e regimes de saúde. A democracia envolve ouvir outros pontos de vista contrastantes, a despeito da situação social ou econômica daqueles que argumentam. Tal sensibilidade na saúde pública é um longo processo, mas o investimento nesse esforço é fundamental, uma vez que possibilita a crucial adaptabilidade dos níveis nacionais e locais aos programas globais de imunização.

Desse modo, a história da imunização, das vacinas, dos programas nacionais e internacionais de erradicação tem um importante papel no debate sobre o futuro da saúde pública. A história que ao mesmo tempo que se associa às celebrações do 30º aniversário da erradicação da varíola é, ou deveria, ser herética e incômoda. A análise histórica produz conhecimento e reflexão crítica ao abrir as "caixas-pretas" dos sucessos da saúde pública nacional e global, ao desvelar as tramas sociais e culturais envolvidas na imunização, ao investigar as redes de interesses políticos e econômicos que a envolvem e apontar a diversidade e a assimetria entre países, atores e instituições. Nesse sentido, a maior contribuição da história para a saúde pública é o seu fundamental sentido de temporalidade, espacialidade, contingência e complexidade. Pensar o futuro da imunização é necessariamente refletir sobre sua história.

 

Gilberto Hochman e Sanjoy Bhattacharya
Editores convidados

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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