ARTIGO ORIGINAL

 

Inquérito entre migrantes atendidos pela Central de Triagem e Encaminhamento, na capital do Estado de São Paulo, Brasil. II. Aspectos bioquímicos da hipovitamionose A

 

Survey conducted among migrants going through the "Central de Triagem e Encaminhamento (CETREN)" in S. Paulo City, Brazil. II. Biochemical aspects of hipovitaminosis A

 

 

Maria José Roncada

Do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP – Avenida Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Foram estudados os níveis das concentrações séricas de caroteno e vitamina A em 1.097 migrantes nacionais em trânsito na Central de Triagem e Encaminho (CETREN), na Capital do Estado de São Paulo, Brasil, no período de 18 de julho a 17 de agosto de 1972. Os resultados apontaram a existência de um problema de Saúde Pública em relação à vitamina A. Sugestões foram apontadas para diminuir a prevalência da hipovitaminose A nesse grupo populacional.

Unitermos: Vitamina A. Hipovitaminose A, dosagem bioquímica. São Paulo, Brasil.


SUMMARY

The author studied serum levels of carotene and vitamin A in 1.091 Brazilian migrants in transit through the "Central de Triagem e Encaminhamento (CETREN)", in the State of S. Paulo, Brazil, during the period of July 18th through August 17th, 1972. Results showed the existence of a Public Health problem. Suggestions were made to ameliorate the problem of vitamin A deficiency in the studied popualtion.

Uniterms: Vitamin A deficiency. S. Paulo, Brazil.


 

 

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, principalmente de 1963 para cá, tem sido crescente o interesse manifestado por pesquisadores, em todo o mundo, pelo problema da hipovitaminose A, em conseqüência de um inquérito sobre xeroftalmia, levado a efeito por consultores da Organização Mundial da Saúde 17 em 37 países. Dentre os países onde foi constatado ser a deficiência de vitamina A uma causa significante de cegueira, principalmente na população jovem, figurou o Brasil.

Muito embora a hipovitaminose A, bem como a desnutrição protéico-calórica e as anemias nutricionais sejam condições com alta prioridade nos programas de pesquisa da Organização Mundial da Saúde, poucos trabalhos têm sido desenvolvidos no Brasil a respeito da primeira.

Citemos de início duas investigações que apontaram deficiência de vitamina A comprovada por dosagens bioquímicas e também por inquéritos clínico e alimentar. Assim, em 1963, o Interdepartmental Committee on Nutrition for National Defense (ICNND) 32 constatou, em seis Estados do Nordeste brasileiro, uma deficiência de vitamina A maior do que a de qualquer nutriente. Verificamos, no litoral sul do Estado de São Paulo, hipovitaminose A em tal nível que a caracterizamos como problema de Saúde Pública (Roncada25, 1972).

Outros autores nacionais, como Cavalcanti 3 (1934), Leser13 (1946), Paula19 (1949), Valença34 (1951), Souza e Sousa28 (1953), Gandra5 (1954), Silva27 (1959), Lopes e Amorim 14 (1963), estudaram o problema, encarando-o entretanto sob outros pontos de vista que não o bioquímico.

Dispusemo-nos então a realizar um inquérito bioquímico para melhor conhecer o problema da vitamina A em populações brasileiras.

Elegemos como grupo populacional a ser estudado os migrantes nacionais que demandaram à Capital de São Paulo, passando algumas horas na Central de Triagem e Encaminhamento (CETREN), da Secretaria de Promoção Social do Estado. Esses migrantes apresentavam características interessantes: de um lado a heterogeneidade de procedência, e de outro a homogeneidade de nível sócio-econômico.

O baixo nível social da população a ser estudada levou-nos a supor que encontraríamos generalizada hipovitaminose A, tal como já havíamos observado anteriormente numa das menos desenvolvidas regiões do Estado de São Paulo25.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Estudamos 1.097 migrantes, de ambos os sexos, de 15 a 60 anos de idade, e a amostragem utilizada já foi descrita em trabalho anterior (Roncada24, 1975).

Coleta do material

As amostras de sangue para as dosagens bioquímicas de vitamina A e caroteno foram colhidas pela manhã, duas horas ou mais após o desjejum.

O prazo decorrido entre a coleta das amostras e a separação do soro foi de quatro horas no máximo, permanecendo este congelado (-18°C) cerca de um mês, quando então se realizaram as dosagens.

Queremos encarecer a necessidade de se tomarem medidas de proteção da vitamina A sérica contra a luz e a oxidação, o que foi feito por nós, tanto na fase de coleta e separação, como na de dosagem propriamente dita.

Método bioquímico

O método escolhido foi o Carr-Price (ICNND) 31.

Serviram como controle de qualidade, alíquotas de misturas de soro, embaladas também em frasco plástico âmbar e submetidas ao mesmo tratamento de nossas amostras. Assim, para nos garantirmos da reprodutibilidade do método, antes do início dos trabalhos de laboratório, testamos, durante cinco dias consecutivos, o teor de caroteno e vitamina A nessas misturas de soro, como recomenda o ICNND 31. E depois, diariamente, dosamos com nossas amostras, duplicatas ou quadruplicatas desse soro padronizado. Outro cuidado de que nos cercamos para controlar possíveis perdas na fase de extração da vitamina com éter de petróleo, foi adotar o uso de um padrão interno, constituído por uma solução de vitamina A pura, adicionada ao mesmo volume da amostra desconhecida, e analisada simultaneamente com a amostra problema, empregando nesse caso, para o cálculo, fórmula específica29.

Os resultados de caroteno e vitamina A séricos foram classificados, segundo o ICNND31, em "Deficientes (D)", "Baixos (B)", "Aceitáveis (A)" e "Altos (H)", considerando-se ainda os níveis séricos de caroteno específicos para os três trimestres de gravidez.

Análise estatística

Quando o interesse da pesquisa assim o exigiu, foram utilizados os testes de significância: teste de homogeneidade de Goodman 6, contrastes de Goodman (individuais) e X2. Os níveis de significância foram de 5% para dados globais e 1% para suas subdivisões.

 

RESULTADOS

As dosagens de caroteno sérico foram feitas no total da amostra, enquanto as de vitamina A sérica em 99,2% da mesma.

As Tabelas 1 e 2 mostram a distribuição dos níveis séricos de caroteno de acordo com grupos etários, em homens e mulheres respectivamente; nas Tabelas 3 e 4, temos a distribuição percentual dos níveis séricos de vitamina A, segundo grupos etários e sexos.

Calculamos a média, erro padrão, limites de confiança e percentagens de resultados de caroteno sérico dentro das faixas "Deficiente" e "Baixo", ou seja, abaixo de 40 mg/100 ml (Tabela 5).

Na Tabela 6 estão vários resultados relativos à vitamina A sérica. Neste caso os grupos "Deficiente" e "Baixo" são aqueles que apresentam valores inferiores a 20 mg/100 ml.

Na Figura 1 estão as diferenças existentes na distribuição de médias de caroteno e vitamina A entre os dois sexos.

Na Figura 2 está a comparação entre as percentagens de resultados de vitamina A sérica abaixo de 20 mg/100 ml e o limite proposto pela OPAS18 como problema de Saúde Pública.

Dentro de nossa amostra encontramos um grupo vulnerável, composto de 54 gestantes (16,1% da população feminina). A Tabela 7 mostra os resultados das dosagens das concentrações de vitamina A e caroteno nas gestantes, comparando-os com os das mulheres não-gestantes.

Na Tabela 8 temos: média, erro padrão, limites de confiança e percentagem de casos incluídos nas faixas "Deficiente" e "Baixo", nos dois grupos femininos, tanto para caroteno como para vitamina A séricos.

Classificamos também os níveis séricos de vitamina A e caroteno de acordo com os Estados de procedência e de destino dos migrantes mas, em virtude do pequeno contingente humano de alguns Estados, redistribuímos os dados nas cinco grandes Regiões brasileiras, como veremos nas Tabelas 9 e 10.

As Figuras 3 e 4 mostram, respectivamente, a distribuição de médias de concentrações de caroteno e vitamina A séricos e a percentagem de valores abaixo de "Aceitável", indicando apenas os Estados dos quais procediam maior número de migrantes.

Nas Tabelas 11 e 12 acham-se os níveis séricos de caroteno e vitamina A, respectivamente, classificados de acordo com as Regiões às quais se destinavam os trabalhadores nacionais.

 

DISCUSSÃO

Os resultados de dosagens séricas de vitamina A abrangem uma ampla faixa de valores, tornando difícil definir o "Normal" se levarmos em conta que o papel dessa vitamina no metabolismo humano ainda permanece na obscuridade, exceção feita ao ciclo da rodopsina. Embora exista extensa literatura referente à influência da vitamina A nas membranas biológicas, seu efeito sobre o metabolismo dos carbohidratos, lipidios e proteínas, queratinização, ossos e cartilagens, e sobre biosíntese de mucopolissacarídios, muitos aspectos do seu comportamento ainda carecem de elucidação 23.

Baseado em inquéritos realizados em muitos países, o ICNND31 sugeriu uma classificação para os valores séricos de vitamina A e caroteno, que adotamos neste trabalho. Consideraremos como níveis normais os valores das faixas "Aceitável" e "Alto". Certos autores como Williams e col.35 (1951) consideram normais para a vitamina A valores acima de 30 mg/100 ml; outros, como Rafsky e col.22 (1947), consideram como normais somente os resultados superiores a 40 mg/100 ml. Para a OPAS 18, normais são os valores que flutuam entre 20 e 50 mg/100 ml.

Muito já se escreveu sobre a diferença dos níveis séricos de caroteno e vitamina A existente entre os sexos. Geralmente os homens apresentam níveis séricos dessa vitamina maiores que os das mulheres, enquanto o inverso ocorre com relação ao caroteno, como observaram Kimble9 (1939), Popper e Steigman21 (1943), Campbell e Tonks2 (1949), Hoffmann e col. 8 (1950), Lantz e Wood 11 (1958), Leitner e col.12 (1960), Gravesen7 (1967) e Roncada25 (1972).

Alguns pesquisadores tentaram explicar o motivo da diferença daqueles níveis entre os sexos. A base metabólica para essa diferença não seria conhecida, sendo possível entretanto que os homens convertam o caroteno em vitamina A mais eficientemente 33.

A par disso, há pesquisadores como Kirk e Chieffi10 (1948) e Thiele e col.30 (1968), que não encontraram diferenças significantes entre os resultados das concentrações séricas de vitamina A e caroteno segundo sexos ou grupos etários.

No presente trabalho, em relação à vitamina A, os homens apresentaram sempre valores mais altos do que as mulheres. Por outro lado, o sexo feminino mostrou valores séricos de caroteno sempre maiores, com exceção do grupo etário 50 – 60 anos (Figura 1, Tabelas 5 e 6).

As diferenças entre as proporções de mulheres e homens nas classificações "Deficiente" e "Baixo" mostraram-se estatisticamente significantes (p = 0,05) no que se refere aos níveis séricos dos dois nutrientes.

Também procuramos verificar as possíveis diferenças existentes segundo grupos etários. Revelaram-se estatisticamente significantes (p = 0,01) os seguintes: 20 – 24 e 40 – 49 anos nas mulheres, para caroteno sérico; e para vitamina A sérica, os grupos masculinos de 15 – 19 e 30 – 39 anos de idade.

Para julgarmos o estado nutricional não nos utilizamos de médias, pois a grande proporção de indivíduos com níveis séricos acima de 20 mg e 40 mg (vitamina A e caroteno, respectivamente) influenciaria a média, de modo a dar uma impressão de normalidade. Preferimos caracterizar o problema através de proporções e, para tanto, utilizamos o critério estabelecido pelo ICNND31, adotado pela OPAS18, para definir uma condição como sendo problema de Saúde Pública em relação à vitamina A:

a) Prevalência de níveis séricos de vitamina A menor que 20 mg/100 ml em 15% ou mais da população.

b) Prevalência de níveis séricos de vitamina A menor que 10 mg/100 ml em 5% ou mais da população.

As percentagens de resultados de concentrações séricas de vitamina A menores que 20 mg/100 ml (Tabela 6) oscilam entre 15,7% e 41,4%, para os diferentes grupos etários, em ambos os sexos. Considerando apenas os resultados abaixo de 10 mg/100 ml veremos (Tabelas 3 e 4) que há 8,2% dos indivíduos de sexo masculino e 9,3% dos de sexo feminino classificados como "Deficientes". Estes indivíduos dificilmente terão condições para enfrentar circunstâncias nutricionalmente adversas, tais como infecções e escassez temporária de alimentos ricos em vitamina A resultante de variação estacional, pois, provavelmente, suas reservas hepáticas estarão significantemente esgotadas.

McLaren15 (1966), considera deficiência de vitamina A não somente a parte clínica visível (como xeroftalmia), mas outra, de grande importância, subclínica, em que as reservas são baixas e onde qualquer "stress" poderá precipitar o aparecimento da deficiência.

Ressalte-se ainda que se os valores encontrados indicam deficiência nutricional do adulto, somos conduzidos à ilação de que os indivíduos com idade abaixo de 15 anos devam apresentar estados carenciais ainda mais graves.

Os níveis de caroteno sérico estão sob a influência da ingestão dietética de um passado imediato, diferentemente da vitamina A, que se armazena em grandes quantidades, principalmente no fígado, passando deste à corrente sangüínea para ser transportada aos tecidos. Se a ingestão dietética de vitamina A for reduzida, o organismo recorre às suas reservas hepáticas e somente quando estas estão quase esgotadas, tem início a queda dos níveis sangüíneos 4.

Os valores de caroteno sérico são extremamente informativos porque, no caso de níveis sangüíneos de vitamina A abaixo do normal e acompanhados por baixos níveis de caroteno, há evidência fortemente sugestiva da existência de depósitos inadequados de vitamina A20. Pela Tabela 5, observamos que 24,2% dos indivíduos apresentam níveis de concentrações séricas de caroteno abaixo do normal.

Como em nossa amostra havia um grupo vulnerável – gestantes – achamos interessante estudar os resultados das dosagens séricas separadamente, para ver se a gestação acarretou maior demanda da vitamina A. Para isso, fizemos uma comparação com os valores das dosagens das mulheres não-gestantes, verificando que estas apresentaram valores "Altos", tanto para caroteno como para vitamina A, em maior proporção que as gestantes (Tabela 7).

Os valores médios para caroteno e vitamina A foram mais elevados nas gestantes (Tabela 8), embora o resultado desse segundo nutriente apresentasse pouca diferença com o resultado do grupo de mulheres não-gestantes.

Em trabalho anterior Roncada e Szarfarc26 (1975), entretanto, encontraram para caroteno resultados mais elevados nas gestantes que nas mulheres não-gestantes, o oposto se dando com a vitamina A.

As percentagens de resultados de caroteno sérico abaixo da faixa "Aceitável" foram maiores para as gestantes que para as não-gestantes, sendo esta diferença estatisticamente significante (p = 0,05). Por outro lado, as gestantes tiveram menor percentual de valores abaixo do normal no que se refere ao teor sérico de vitamina A, não sendo porém significante a diferença com o grupo de não-gestantes.

Distribuímos os resultados dos níveis sangüíneos dos dois nutrientes segundo as Regiões das quais procediam os migrantes (Tabelas 9 e 10). Verificamos então que os procedentes do Nordeste do país foram os que apresentaram maior percentagem de valores de caroteno abaixo da normalidade (31,8%), seguidos pelos que vieram do Sudeste (22,4%), do Centro-Oeste (20,5%) e do Sul (19,0%). Apenas a diferença entre as Regiões Nordeste e Sudeste foi estatisticamente significante. Com relação à vitamina A, a maior percentagem de valores menores que 20 mg/100 ml pertencia aos migrantes provindos da Região Centro-Oeste (27,4%). Vieram depois aqueles procedentes do Nordeste e Sudeste (26,3% em ambos) e os do Sul (11,4%). As diferenças foram significantes apenas entre os valores destes últimos e os do Nordeste e Sudeste (P = 0,05).

Nas Figuras 3 e 4 podemos observar que os valores das médias de caroteno e de vitamina A pouco diferiram entre si quando considerados os Estados isoladamente. Parece-nos justo esperar que a maior prevalência de resultados "Deficientes" e "Baixos" para caroteno incidisse nos trabalhadores nacionais oriundos do Nordeste, pois se alimentação habitualmente é precária, ainda se agravou mais, de vez que grassava a seca naquela Região por ocasião do inquérito, escasseando, portanto, os vegetais verdes e as frutas. Por outro lado, com relação à vitamina A, foram os migrantes procedentes do Sul que apresentaram menor percentagem de casos abaixo da normalidade. Essa Região, por oferecer boas oportunidades de trabalho provavelmente leva à maior facilidade na aquisição de alimentos ricos na vitamina ou na pró-vitamina.

Também fizemos uma distribuição dos níveis séricos de caroteno e vitamina A segundo Regiões para as quais os migrantes iriam se dirigir (Tabelas 11 e 12). A Região à qual se destinaria a maior percentagem de trabalhadores com níveis de caroteno menores que 40 mg/100 ml foi a Centro-Oeste (35,1%). Entretanto, não foi significante a diferença entre esta e as outras Regiões. Para vitamina A, a percentagem de casos abaixo da normalidade se distribuiu mais uniformemente entre as quatro Regiões, não havendo também diferenças estatisticamente significantes entre elas.

Pelos resultados indicados, é bastante uniforme entre os migrantes a situação no que diz respeito à deficiência de vitamina A. Os migrantes com essa hipovitaminose destinar-se-ão igualmente às várias Regiões do país, cabendo portanto a todos os governos, Federal e Estaduais, as medidas sanitárias necessárias para atenuar esse problema.

Em face do exposto, sugerimos à Secretaria de Promoção Social, através da CETREN que, no breve contato que os migrantes têm com a instituição, seria de todo interessante que este órgão a eles ministrasse dose única anual, de acordo com a experiência e os resultados obtidos pelo Instituto Nacional de Nutrição da Índia 16.

Embora a repetição da dose anual constituisse um problema de manutenção a longo prazo, a mudança de localidades e de condições de vida poderiam alterar para melhor o consumo de fontes naturais de vitamina A.

Entretanto, o migrante encontra-se de tal maneira carente dessa vitamina, que o assunto merece estudos urgentes e de caráter prioritário em planos sanitários dos Governos Federal e Estaduais, para que se possa estabelecer uma estratégia para a prevenção e provavelmente o controle desta carência.

Se tais estudos revelarem que a deficiência não se limita aos migrantes, mas é um problema de ordem geral, justificar-se-iam medidas como o enriquecimento com vitamina A de alimentos de consumo generalizado, açúcar por exemplo, tal como vem sendo executado na América Central (Arroyave1, 1971).

Mas convém ressaltar que tais medidas somente deverão ser postas em prática após rigorosa verificação da extensão e intensidade do problema, caso exista.

 

CONCLUSÕES

Face ao exposto, as conclusões a que chegamos foram:

– Pelos critérios da OPAS18, existe nesse grupo populacional um problema de Saúde Pública relacionado com a carência de vitamina A de grande magnitude, uma vez que a quarta parte dessa população apresenta níveis séricos de vitamina A abaixo da normalidade.

– Os resultados confirmaram o que já foi relatado por outros autores em relação às diferenças de níveis séricos existentes entre os dois sexos: os homens apresentaram valores das concentrações de vitamina A mais altos que os das mulheres, enquanto que estas tiveram os resultados das concentrações de caroteno mais elevados que aqueles.

– Não houve diferenças nas concentrações séricas de vitamina A e caroteno no que diz respeito aos grupos etários estudados.

– Os dados obtidos sugerem que a hipovitaminose A é um problema menos grave nos indivíduos procedentes da Região Sul do que nos que procedem das demais Regiões.

– As gestantes também constituem, tanto quanto as outras mulheres da amostra, problema de Saúde Pública no que se refere à carência de vitamina A.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Donald Wilson, Professor Livre-Docente do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pelas sugestões e revisão.

 

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Recebido para publicação em 09-06-75
Aprovado para publicação em 30-06-75
Trabalho baseado na tese de doutoramento apresentadada à Faculdade de Saúde Pública da USP, em 1973

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil