ARTIGO ORIGINAL

 

Absenteísmo por doença em mulheres

 

Absentism due to health disorders in women

 

 

Diogo Pupo NogueiraI; Ruy LaurentiII

IDa Disciplina de Saúde Ocupacional do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP – Brasil
IIDa Disciplina de Estatística Vital do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Procurando verificar no Brasil a veracidade da afirmativa de que trabalhadores do sexo feminino apresentam absenteísmo por doença muito superior ao do sexo masculino, foi feito um estudo, durante um período de 3 anos, de um grupo de trabalhadores têxteis, dos quais 43,8% eram do sexo masculino e 56,2% do feminino, observando-se o coeficiente de freqüência, o coeficiente de gravidade e a duração média das ausências dos trabalhadores masculinos e dos femininos. Nestes foram estudadas as ausências por quaisquer doenças, exceto ginecopatias, e as ausências apenas por ginecopatias. Foi verificado que o coeficiente de freqüência médio dos homens foi de 2,67 e das mulheres de 2,88 e 0,072; o coeficiente de gravidade foi, respectivamente, de 9,35 e de 8,56 e 0,456. Quanto à duração média das ausências por período, os homens atingiram 3,49 e as mulheres 2,97 com exclusão das ginecopatias; estas, porém, implicavam valor médio de 6,32. Conclui-se que no grupo estudado o absenteísmo por doença masculino e feminino praticamente se equivalem, mas que as ausências ao trabalho por ginecopatias, não obstante sua freqüência e gravidade baixas, devem merecer a atenção médica pela duração média das ausências, por período, ser apreciavelmente elevada.

Unitermos: Absenteísmo. Trabalho, mulheres. Mulheres, absenteísmo.


SUMMARY

The affirmative from highly industrialized countries that female workers have a greater absentism due to illness than male workers was investigated in a textile mill of the city of S. Paulo, Brazil, employing 43.8% male and 56.2% female workers; the time of observation was three years. During the period of observation the frequency rate, the duration rate and the average duration of spells of absence were obtained for the male and female workers; in the case of the latter, absences from work caused by diseases of the reproductive system were separated from those caused by other illnesses. The average frequency rate was 2.67 for male workers and 0.072 and 2.88 for female workers; the duration rate was, respectively, 9.35 and 0.456 and 8.56. The average duration of each spell was 3.49 for male workers and 2.49 for female workers when diseases alone, however, ascribed for an average value of 6.32. In the studied group absentism due to illness was practically alike in both sexes; however, absentism due to diseases of the reproductive system, despite its minimal importance as cause of absentism in general, has a much longer duration than that of other diseases of female workers, thus stressing the importance of proper medical care of these workers.

Uniterms: Absentism. Work, women. Women, workers.


 

 

Não obstante a importância crescente do trabalho feminino, este é encarado, na maioria dos países industrializados, com alguma reserva em vista do concenso de que os trabalhadores do sexo feminino apresentam absenteísmo por doença maior que o dos do sexo masculino, com destaque especial às ausências ao trabalha causadas por ginecopatias. É assim que Baetjer1, em 1946, afirmava que em uma empresa onde normalmente podem trabalhar mil homens, seriam necessárias 1.014 mulheres para fazer face ao maior absenteísmo por doença destas.

É ainda Baetjer1 que, em seu clássico estudo, afirma que há invariavelmente um excesso de faltas por motivo de doença das mulheres quando comparadas com homens. Assim, para ausências ao trabalho por motivo de doença com duração de 8 ou mais dias, esse excesso seria de 67%, atingindo o elevado valor de 140% em caso de ausências por um ou mais dias. Tais valores são praticamente iguais àqueles citados por Brinton 3, que encontra um excesso de 68% para ausências de 8 ou mais dias e de 144% para usências de 1 ou mais dias.

Gafafer6, estudando uma empresa de serviços públicos que empregava 13.386 pessoas, das quais 18,3% eram mulheres, verificou que no período de 1938 a 1941 tinham ocorrido 854,5 faltas por mil ao trabalho por motivo de doença, entre os homens, de um ou mais dias de duração, enquanto esse valor atingia 1.765,8 por mil entre as mulheres, a despeito do seu menor número.

Calle Reviriego4 verificou que de 52.349,5 dias de trabalho perdidos por motivo de doença, 30.000,5 ocorreram entre trabalhadores do sexo feminino (não é dado o número de trabalhadores de cada sexo).

Hebrard7 afirma que as mulheres apresentam um absenteísmo por doença três vezes maior que o dos homens.

Quanto à causa desse maior absenteísmo, há um concenso geral de que as afecções ginecológicas aí desempenham papel importante. Se bem que Baetjer1 atribua apenas 2,8% do absenteísmo feminino a tais causas, Cornwall e Raffle 5 consideram que estas são causas importantes de faltas ao trabalho, opinião compartilhada por Holland 8, ao afirmar textualmente que "as mulheres apresentam problemas peculiares ao seu sexo... que condiconam considerável ausência ao trabalho e exigem alterações e interrupções deste". No Brasil, Tudor 11 também afirma que a dismenorréia, bastante freqüente entre as trabalhadoras, condiciona aumento das faltas ao trabalho. Por outro lado, Bourret e Mehl2, na França, fazendo revisão dos aspectos médicos do trabalho feminino na indústria, citam estatísticas alemãs que atribuem 8% do absenteísmo por doença feminina às ginecopatias.

Em vista da extrema escassez de dados sobre o absenteísmo feminino por motivo de doença no Brasil, foi julgado de interesse fazer-se um estudo a esse respeito.

 

MATERIAL E MÉTODO

A pesquisa foi levada a cabo em indústria têxtil da capital paulistana, durante o período de 1970 a 1972 inclusive, abrangendo a seguinte população e o seguinte número de dias-pessoa trabalhados (Tabela 1):

Durante o período em estudo, todas as ausências ao trabalho por motivo de doença, superiores a meio-dia de duração, assim como o número de dias perdidos em cada período de ausência foram anotadas em ficha de controle conforme modelo proposto pelo Sub-comitê de Absenteísmo da Comissão Permanente e Associação Internacional de Medicina do Trabalho 10. A fidelidade dos dados obtidos foi absoluta pois, cabendo aos trabalhadores ausentes ao trabalho por motivo de doença a percepção integral do seu salário, nos termos de legislação brasileira vigente, não havia nenhum interesse em deixar de referir as ausências; por outro lado, a causa destas foi verificada sempre por médicos da própria empresa.

Para estudo do absentísmo por doença, as fichas de registro, devidamente preenchidas, foram separadas em três grupos, a saber:

1 – Ausências ao trabalho por motivo de qualquer doença de trabalhadores do sexo masculino.

2 – Ausências ao trabalho por motivo de qualquer doença, exceto ginecopatias, em trabalhadores do sexo feminino.

3 – Ausências ao trabalho por motivo exclusivamente de ginecopatias.

Para cada um dos três grupos foram calculados os seguintes coeficientes:

1 – Coeficiente de freqüência, expresso pela fórmula:

2 – Coeficiente de gravidade, expresso pela fórmula:

3 – Duração média das ausências, expressa pela fórmula:

 

RESULTADOS E COMENTÁRIOS

Na Tabela 2 encontram-se assinalados o número de períodos de ausência e de dias perdidos de cada um dos três grupos assinalados.

Tais dados revelam que em um total de 3.687 ausências ao trabalho por motivo de doença em mulheres, apenas 90 (2,4%) tiveram como causa a ginecopatia que, por sua vez, implicaram perda de 569 dias de trabalho em um total de 10.673 dias perdidos, isto é, 5,0%.

O coeficiente de freqüência dos três grupos estudados encontra-se na Tabela 3.

Observando-se o valor médio do período e tomando-se como 100% o valor médio referente ao sexo masculino, verifica-se que o coeficiente médio de freqüência do sexo feminino apresenta um excesso de apenas 7,8%, muitíssimo abaixo das grandes diferenças observadas em outros países. Verifica-se, pois, que no grupo estudado a freqüência do absenteísmo por doença das mulheres, excluídas as ginecopatias, diferenciou-se muito pouco daquele apresentado pelos homens, ao contrário do que tem sido observado em outros países.

Por outro lado, observe-se que a participação das ginecopatias nas faltas ao trabalho é praticamente desprezível, pois atinge apenas 0,072 ausências por mil dias-pessoa trabalhados. Tal valor tão baixo revela que, no grupo estudado, as ginecopatias constituem causa de mínima importância no absentísmo por doença de mulheres. Incluindo-se as ginecopatias, o excesso de ausentismo em relação ao sexo masculino atinge 10,5%, ainda assim bastante inferior aos resultados de outros autores.

No que se refere a ausências, na Tabela 4 está assinalado o coeficiente de gravidade.

Nota-se, pois, que os trabalhadores do sexo feminino apresentam, em média, 8,56 dias de ausência por mil dias-pessoa trabalhados, enquanto que esse valor atingia 9,35 para os do sexo masculino. Portanto, não obstante as mulheres apresentarem um coeficiente de freqüência ligeiramente maior que os homens, a duração de suas ausências é 8,4% menor que a dos homens. Por outro lado, as ginecopatias, cuja freqüência já foi demonstrada ser muito baixa, condiciona apenas 0,45 dias de ausência por mil dias-homem trabalhados, valor muitíssimo inferior àquele referido na bibliografia estrangeira. Note-se que mesmo que se some o coeficiente de gravidade por ginecopatias ao das faltas ao trabalho por quaisquer outras causas, ainda assim obter-se-á um valor inferior ao dos homens, mostrando que, no grupo estudado, as mulheres apresentam menor número de dias de trabalho perdidos por motivo de doença por mil dias-pessoa trabalhados do que os homens.

Um aspecto interessante do absentísmo feminino é revelado pela duração média das ausências, que figura na Tabela 5.

Verifica-se que a duração média das ausências de trabalhadores do sexo feminino por doenças outras que não ginecopatias é consistentemente menor que a de trabalhadores masculinos; assim, a duração média das ausências por período de mulheres doentes é de 85,1% da de homens. No entanto, quando as ausências são motivadas por ginecopatias, elas implicam sempre uma duração média muito maior que aquela que se observa nas próprias mulheres (com exceção das ginecopatias) e nos homens. Assim, uma ginecopatia implica, em média, ausência cuja duração é 1,8 vezes maior que a duração média da ausência de um homem por doença de qualquer natureza e 2,1 vezes maior que a duração média da ausência de mulheres por doenças outras que não ginecopatias.

O estudo em questão, portanto, permite as seguintes conclusões:

1 – No grupo estudado, ao contrário do que é referido em países altamente industrializados, o absenteísmo por doença de mulheres é pouquíssimo maior do que o de homens; a duração média das ausências ao trabalho por motivo de doença de trabalhadores do sexo feminino é inferior a de trabalhadores do sexo masculino.

2 – As ginecopatias são causa muito pouco importante de absenteísmo de trabalhadores do sexo feminino; no entanto, quando ocorrem, a duração média das ausências é muito maior que a causada por quaisquer outras doenças quer em homens, quer em mulheres.

Tais conclusões são de grande importância prática, pois evidenciam de forma clara que a utilização de mão-de-obra feminina não implica qualquer risco de maior número de faltas ao trabalho por motivo de doença, tornando desnecessária a manutenção de uma força de reserva maior como preconizava Baetjer1. Por outro lado, como as ginecopatias, não obstante a sua pouca importância como causa de absenteísmo feminino, implicam em afastamento do trabalho por período relativamente grande, em comparação com aqueles causados pelas outras doenças em geral, dão especial ênfase à afirmativa de Mayers9 de que "o absenteísmo anormal causado por perturbações menstruais e por sintomas da menopausa podem geralmente ser controlados por uma vigilância médica adequada".

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BAETJER, A. M. – Women in industry: their health and efficiency. Philadelphia, Saunders, 1946.        

2. BOURRET, J. & MEHL, J. – Les aspects médicaux du travail féminin dans 1'industrie. Arch. Mal., 27:1-41, 1966.        

3. BRINTON, H. P. – Las mujeres en la industria. In: GAFAFER, W. M. – Manual de higiene industrial. Washington, OPAS, 1945. p. 364-87.        

4. CALLE REVIRIEGO, B. de la – El trabajo de la mujer. In: Instituto Nacional de Previzion. Tratado de higiene y seguridad del trabajo. Madrid, 1971. v. 1, p. 219-26.        

5. CORNWALL, C. J. & RAFFLE, P. A. – Sickness absence of women bus conductors in London transport (1953-57). Brit. J. ind. Med., 18:197-212, 1961.        

6. GAFAFER, W. M. – Absentismo del trabajo. In: GAFAFER, W. M. – Manual de higiene industrial. Washington, OPAS, 1945. p. 388-432.        

7. HEBRARD, H. – Etude le l'absentéisme long dans le secteur tertiaire. Cah. de Méd. Inter Prof., (22): 122-8, Avr., 1966.        

8. HOLLAND, B. D. – Occupational health services for women employees. Arch. Environm. Hlth., 3:433-43, 1961.        

9. MAYERS, M. R. – Occupational Health Baltimore, Williams & Wilkins, 1969.        

10. PERMANENT COMISSION and International Association on Occupational Health, Sick Absence Statistics Committee, Leyden, October 10-12, 1957. Sick absence statistics. In: International Congress on Occupational Health, 13th, New York, 1960. Proceedings, New York, 1961. p. 40-56.        

11. TUDOR, T. – Trabalho da mulher, do menor, do maior de 45 anos e do deficiente físico. J. bras. Med., 9: 90-6, 1965.        

 

 

Recebido para publicação em 09 06-75
Aprovado para publicação em 30 06-75

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil