COMUNICAÇÕES BREVES

 

Informações preliminares sobre flebotomíneos do norte do Paraná

 

 

Ueslei TeodoroI; Demilson R dos SantosII; Ademar R dos SantosII; Otílio de OliveiraII; Luís Paschoal PoianiII; Allan Martins da SilvaIII; Herintha Coeto NeitzkeIV; Wuelton Marcelo MonteiroIV; Maria V Campana LonardoniI; Thaís G Verzignassi SilveiraI

IDepartamento de Análises Clínicas. Universidade Estadual de Maringá. Maringá, PR, Brasil
IINúcleo de Entomologia de Maringá. XV Regional de Saúde. Secretaria de Saúde do Paraná. Maringá, PR, Brasil
IIISeção de Ação sobre o Meio. XIX Regional de Saúde. Secretaria de Estado da Saúde do Paraná. Jacarezinho, PR, Brasil
IVCurso de Farmácia. Universidade Estadual de Maringá. Maringá, PR, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

São relatados os resultados de coletas de flebotomíneos feitas em localidades de 10 municípios do Estado do Paraná, com armadilhas de Falcão em domicílios, abrigos de animais domésticos e nas matas, de 1999 a 2002. Coletaram-se 13.653 flebotomíneos de 10 espécies dos gêneros Brumptomyia, Expapillata, Evandromyia, Migonemyia, Pintomyia, Nyssomyia, Psathyromyia. A espécie Nyssomyia neivai predominou em cinco municípios, e N. whitmani nos demais, a qual foi numericamente superior à primeira. Verificou-se maior freqüência de flebotomíneos nas matas, residências, pocilgas e galinheiros. As investigações sobre a participação de animais domésticos e da fauna de flebotomíneos na epidemiologia da leishmaniose tegumentar deveriam fazer parte da rotina dos serviços de saúde, especialmente nas áreas onde a doença é endêmica.

Descritores: Leishmaniose cutânea, epidemiologia. Psychodidae. Phlebotominae. Paraná.


 

 

INTRODUÇÃO

A prevalência de leishmaniose tegumentar americana (LTA) tem aumentado na América Latina nos últimos 20 anos, especialmente no Brasil. Abrange todos os Estados, acomete pessoas de todas as faixas etárias e de ambos os sexos. No Estado do Paraná a LTA é endêmica, ocorrendo em 276 dos 399 municípios existentes. De 1980 a 2003, registraram-se 12.304 casos da doença no sul do Brasil, dos quais 12.220 (99,3%) no Estado do Paraná,* onde ocorre na maioria dos municípios, sobretudo no norte e oeste.

Os resultados de investigações realizadas no Estado do Paraná3,4 mostram que Pintomyia fischeri, Nyssomyia intermedia, Migonemyia migonei, Pintomyia pessoai e Nyssomyia whitmani são as espécies mais freqüentes, destacando-se N. whitmani e N. intermedia s.l.. Assim, há predomínio de uma ou ambas dessas duas espécies, de acordo com as características dos ambientes e os métodos usados nas pesquisas.

Das cinco espécies de flebotomíneos mais abundantes constatadas no Paraná, quatro foram assinaladas com infecção natural por protozoários do gênero Leishmania em outras regiões do Brasil. Assim, a infecção de L. intermedia e M. migonei comprova o potencial vetorial destes dípteros. Recentemente, no Estado do Paraná2 comprovou-se a infecção de L. whitmani por Leishmania (Viannia) braziliensis.

As investigações sobre a participação de animais domésticos e da fauna de flebotomíneos na epidemiologia da LTA deveriam fazer parte da rotina dos serviços de saúde, especialmente nas áreas onde a doença é endêmica. Assim, os objetivos do presente trabalho foram coletar e identificar flebotomíneos em focos de LTA, procurando-se conhecer, de forma preliminar, a fauna e a freqüência destes insetos nos ambientes domiciliar, peridomiciliar e na mata.

 

MÉTODOS

As coletas de flebotomíneos foram feitas em municípios das mesorregiões Norte Central (Colorado, Lobato, Mandaguaçu, Mandaguari, Marialva, Maringá, Munhoz de Melo, Nova Esperança, Santa Fé) e Centro Ocidental Paranaense (Fênix), localizados entre 51º30'O e 52º30'O e 22º30'S e 24ºS.

Foram escolhidas para as coletas de flebotomíneos as localidades rurais dos municípios acima referidos, onde foram registrados vários casos de LTA, representando focos da doença.

As coletas de flebotomíneos foram feitas nos seguintes ecótopos: bananal, galpão para criação de bicho-da-seda, canil, abrigos de bovinos, caprinos e ovinos, galinheiros, garagem, matas, pocilgas, pomares e residências. As armadilhas de Falcão foram instaladas por uma ou duas noites por localidade, das 20 às 24h, em diversas datas entre julho de 1999 e setembro de 2002 (Tabela). O número de armadilhas por localidade variou de acordo com a existência e o número dos ecótopos referidos. Por isso, em uma mesma localidade mais de uma armadilha pode ter sido instalada num mesmo tipo de ecótopo. Por exemplo, na Fazenda Água Azul, no município de Fênix (Tabela), as coletas foram feitas em oito noites no período de julho de 1999 a novembro de 2000, das 22 à 1h (total de 24 horas), e 15 noites no período de janeiro a junho de 2000, das 21 à 1h (total de 60 horas). Os flebotomíneos foram identificados nos laboratórios do Núcleo de Entomologia da 15ª Regional de Saúde de Maringá e de Parasitologia Básica da Universidade Estadual de Maringá.

A nomenclatura das espécies segue Galati.1

 

RESULTADOS

As espécies de flebotomíneos coletadas foram Brumptomyia brumpti, Expapillata firmatoi, Evandromyia cortelezzii, Migonemyia migonei, Pintomyia fischeri, Pintomyia pessoai, Nyssomyia neivai, Nyssomyia whitmani, Psathyromyia shannoni, Pintomyia monticola (Tabela).

N. whitmani, N. neivai, M. migonei e P. fischeri representam juntas 98,5% dos flebotomíneos coletados. Em Mandaguari coletou-se a maior média de flebotomíneos por hora (MH=764,3), no Sítio Flor de Maio. Nos municípios de Marialva (Sítio Leonarda Galdione) e Colorado (Sítio Paraná) as MH foram 672,5 e 402,8 flebotomíneos coletados, respectivamente. N. whitmani e N. neivai foram as espécies mais freqüentes, representando 62,9% e 20,1%, respectivamente, dos flebotomíneos coletados. No município de Colorado, na localidade Água do Cedro, numa coleta prevaleceu N. whitmani e na outra N. neivai. Em Mandaguaçu ocorreu o mesmo fato, mas em localidades distintas. Em Mandaguari N. whitmani predominou nos sítios São José, São João e Flor de Maio, enquanto no sítio Lombo da Égua prevaleceu N. neivai. No município de Marialva N. whitmani predominou em todas as localidades. O mesmo fato ocorreu em Maringá, exceto no Conjunto Thaís (no perímetro urbano), onde prevaleceu N. neivai. Nas diversas localidades dos municípios de Munhoz de Melo, Nova Esperança e Santa Fé houve predominância de N. neivai. Nos municípios de Mandaguari (Sítio Flor de Maio) e numa noite em Marialva (Sítio Leonarda Galdione) a segunda espécie mais freqüente foi P. fischeri. Em Maringá (Fazenda Araribóia), prevaleceu N whitmani, seguido por M. migonei.

No município de Colorado, Mandaguaçu (Sítio Alto Alegre), Maringá (Fazenda Araribóia) e Nova Esperança (Chácara São Pedro) houve concentração de flebotomíneos na mata. Nos municípios de Mandaguari (Sítios São João e Flor de Maio), Maringá (Sítios Reunidos) e Santa Fé (Café Acácia) houve maior concentração de flebotomíneos na pocilga. Nos municípios de Lobato (Fazenda Remanso), Marialva (Sítio Miyamoto), Munhoz de Melo (Sítio do Jaime) e Nova Esperança (Fazenda Santo Antonio) os flebotomíneos concentraram-se mais nas residências. Em Marialva (Sítio Leonarda Galdione) numa noite houve maior coleta de flebotomíneos na pocilga e na outra noite numa residência.

 

DISCUSSÃO

Em todas as localidades rurais estudadas foram registrados vários casos de LTA, envolvendo mulheres, crianças e cães, o que induz à hipótese de que a infecção ocorreu no domicílio e peridomicílio. Além disso, as características ambientais podem ter favorecido a infecção por Leishmania, pois é muito comum nestas localidades a proximidade de domicílios e anexos (galinheiros, chiqueiros, paióis e outros) de matas remanescentes, onde possivelmente persistem focos enzoóticos de Leishmania.

Os flebotomíneos foram coletados em maiores proporções nas residências, matas e pocilgas. O fato desses ecótopos serem os mais comuns nas localidades pesquisadas pode ter contribuído para esses resultados. Na Fazenda Remanso (Lobato) e no Conjunto Thaís (Maringá), onde a maioria dos flebotomíneos foi coletada na residência, não havia animais domésticos no período de coletas. Nos sítios Miyamoto e Leonarda Galdione (Mandaguari) as residências são muito próximas de pocilgas, num contexto ambiental muito descuidado no tocante à limpeza dos quintais e abrigos de animais domésticos. Daí, talvez, a coleta de grande número de flebotomíneos no interior das residências. Anteriormente, no norte do Paraná, verificou-se que os flebotomíneos eram coletados em maior número em abrigos de animais domésticos, num ambiente peridomiciliar descuidado, com o solo úmido, rico em matéria orgânica e sombreado.3,4 Ou então eram capturados no interior de residências, quando estas localizavam-se muito próximas de abrigos de animais domésticos.

A espécie N. neivai predominou em Lobato, Mandaguaçu, Munhoz de Melo, Nova Esperança e Santa Fé. N. whitmani prevaleceu nos demais municípios. Contudo, a última espécie foi numericamente muito superior à primeira. Essa predominância leva a crer que a primeira espécie é mais freqüente nas áreas de solos mais arenosos, bem drenados e derivados do arenito Caiuá, e a segunda nas áreas de latossolos vermelhos e vermelho-amarelos ou nitossolos, que retém mais umidade. A prevalência, ora de N. whitmani, ora de N. neivai, a freqüência elevada de flebotomíneos em abrigos de animais domésticos e em residências próximas, são fatos já constatados no norte do Paraná.4,5

A presença de animais domésticos no peridomicílio e a distância dos abrigos dos animais em relação ao domicílio pode ser um fator determinante da quantidade de flebotomíneos no domicílio. A freqüência e a densidade de flebotomíneos no domicílio e peridomicílio, no norte do Paraná, depende da presença de mata e da distância desta em relação àqueles ambientes.

Em conclusão, registrou-se até agora a presença de 10 espécies de flebotomíneos nos focos de LTA; alternância de predomínio das espécies N. whitmani e N. neivai; alta freqüência desses insetos no ambiente domiciliar, em abrigos de animais domésticos, especialmente nas pocilgas, e nas matas remanescentes das localidades.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação Nacional de Saúde, pelo apoio logístico nos trabalhos de campo.

 

REFERÊNCIAS

1. Galati EAB. Morfologia e Taxonomia. In: Rangel EF, Lainson R, organizadores. Flebotomíneos do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003. p. 23-51.        

2. Luz E, Membrive N, Castro EA, Dereure J, Pratlong J, Dedet A, et al. Lutzomyia whitmani (díptera: psychodidae) as vector of leishmania (V.) braziliensis in Paraná state, southern Brazil. Ann Trop Med Parasitol. 2000;94(6):623-31.        

3. Teodoro U, Silveira TGV, Santos DR, Santos ES, Santos AR, Oliveira O, et al. Freqüência da fauna de flebotomíneos no domicílio e em abrigos de animais domésticos no peridomicílio, nos municípios de Cianorte e Doutor Camargo - estado do Paraná - Brasil. Rev Patol Trop. 2001;30(2):209-33.        

4. Teodoro U, Silveira TGV, Santos DR, Santos ES, Santos AR, Oliveira O, et al. Influência da reorganização, da limpeza do peridomicílio e a da desinsetização de edificações na densidade populacional de flebotomíneos no Município de Doutor Camargo, estado do Paraná, Brasil. Cad Saúde Pública. 2003;19(6):1801-13.        

 

 

Correspondência:
Ueslei Teodoro
Universidade Estadual de Maringá - DAC
Av. Colombo, 5790
87020-900 Maringá, PR, Brasil
E-mail: uteodoro@uem.br

Recebido: 4/12/2004. Revisado: 3/11/2005. Aprovado: 28/11/2005.
Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Processo n. 400227/99-1) e Fundação Araucária.

 

 

* Ministério da Saúde. Secretaria da Vigilância Sanitária. Leishmaniose tegumentar americana: distribuição de casos confirmados, por unidade federada, Brasil, 1980-2003. Disponível em URL:http://dtr2001.saude.gov.br/svs/epi/situacao_doencas/lta.pdf [2005 ago 4]

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@org.usp.br