ARTIGOS ORIGINAIS

 

Percepção do ambiente e prática de atividade física no lazer entre idosos

 

Percepción del ambiente y práctica de actividad física en el ocio entre ancianos

 

 

Emanuel Péricles SalvadorI; Alex Antonio FlorindoII; Rodrigo Siqueira ReisIII, IV; Evelyn Fabiana CostaII

IPrograma de Pós-Graduação em Nutrição. Faculdade de Saúde Pública. Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIEscola de Artes, Ciências e Humanidades. USP. São Paulo, SP, Brasil
IIIPontifícia Universidade Católica. Curitiba, PR, Brasil
IVUniversidade Federal do Paraná. Curitiba, PR, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a associação da prática de atividades físicas no lazer com a percepção do ambiente por idosos.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado com 385 idosos com 60 anos ou mais residentes do distrito de Ermelino Matarazzo no município de São Paulo, SP, em 2007. Para a avaliação das atividades físicas no lazer foi utilizado o Questionário Internacional de Atividades Físicas versão longa, acrescida de questões específicas para o estudo. A avaliação do ambiente foi realizada por meio de escala de percepção adaptada do instrumento Neighborhood Environmental Walkability Scale. Para a análise estatística, modelos de análise de regressão logística múltipla foram estratificados segundo sexo, controlados por escolaridade. Para a classificação de ativo no lazer, foi utilizado o ponto de corte de 150 min semanais de atividade física.
RESULTADOS: A proporção de idosos fisicamente ativos no lazer foi de 15,2% (19,1% e 12,5%, para homens e mulheres, respectivamente). A presença de quadras (OR=2,95), agências bancárias (OR=3,82) e postos de saúde (OR=3,60), boa percepção de segurança durante o dia (OR=4,21) e receber convite de amigos para fazer atividade física (OR=3,13) tiveram associação com a prática de atividade física no lazer nos homens. Presença de igrejas ou templos religiosos (OR=5,73), academias (OR=2,49) e praças (OR=3,63) tiveram associação com a prática de atividade física no lazer em mulheres.
CONCLUSÕES: Programas de promoção de atividades físicas para a população idosa devem considerar as variáveis relacionadas às estruturas públicas e privadas (academias, praças, quadras, postos de saúde e bancos), locais que congregam reuniões sociais (igrejas), ao suporte social (ser convidado por amigos para praticar atividade física) e percepção de segurança.

Descritores: Idoso. Atividade Motora. Meio Ambiente.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la asociación de la práctica de actividades físicas en el ocio con la percepción del ambiente por ancianos.
MÉTODOS: Estudio transversal realizado con 385 ancianos con 60 años o más residentes del distrito de Ermelino Matarazzo en el municipio de Sao Paulo, Sureste de Brasil, en 2007. Para la evaluación de las actividades físicas en el ocio fue utilizado el Cuestionario Internacional de Actividades Físicas versión larga, complementada con preguntas específicas para el estudio. La evaluación del ambiente fue realizada por medio de escala de percepción adaptada del instrumento Neighborhood Environmental Walkability Scale. Para el análisis estadístico, modelos de análisis de regresión logística múltiple fueron estratificados según sexo, controlados por escolaridad. Para la clasificación del activo en el ocio, fue utilizado el punto de corte de 150 min semanales de actividad física.
RESULTADOS: La proporción de ancianos físicamente activos en el ocio fue de 15,2% (19,1% y 12,5% para hombre y mujeres, respectivamente). La presencia de canchas (OR=2,95), agencias bancarias (OR=3,82) y puestos de salud (OR=3,60), buena percepción de seguridad durante el día (OR=4,21) y recibir invitación de amigos para realizar actividad física (OR=3,13) tuvieron asociación con la práctica de actividad física en el ocio en los hombres. Presencia de iglesias o templos religiosos (OR=5,73), academias (OR=2,49) y plazas (OR=3,63) tuvieron asociación con la práctica de actividad física en el ocio en mujeres.
CONCLUSIONES: Programas de promoción de actividades físicas para la población anciana deben considerar las variables relacionadas con las estructuras públicas y privadas (academias, plazas, canchas, puestos de salud y bancos), locales que congregan reuniones sociales (iglesias), al soporte social (ser invitado por amigos para practicar actividad física) y percepción de seguridad.


 

 

INTRODUÇÃO

A prática de atividades físicas é uma das principais estratégias para a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis como a osteoporose, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, doença da artéria coronária e obesidade.ª A atividade física proporciona aos idosos oportunidade para uma vida mais ativa e independente, contribuindo para a manutenção da autonomia e melhor qualidade de vida.5 Porém, estudos mostram que ainda é baixa a proporção de idosos ativos, principalmente no lazer.11,20

Embora diversos fatores sociodemográficos como o gênero, idade, renda, escolaridade, tabagismo e suporte social possam influenciar a prática de atividades físicas no lazer na população idosa,6,13,23 essas variáveis não explicam totalmente essa prática.

Principalmente a partir da década de 1990, estudos americanos, australianos e europeus têm mostrado que o ambiente (natural, construído e social) está relacionado com a prática de atividade física de lazer em idosos.2,8,10,14,16 Entretanto, em países de renda média como o Brasil, não existem estudos associando o ambiente percebido com essa prática na população idosa.

O objetivo do presente estudo foi analisar a associação da prática de atividades físicas no lazer com a percepção do ambiente em idosos.

 

MÉTODOS

Estudo transversal de base domiciliar realizado em amostra representativa de idosos residentes no distrito de Ermelino Matarazzo, município de São Paulo, SP. O estudo integrou uma pesquisa mais amplab sobre a influência de fatores individuais e ambientais no nível de atividade física de lazer e locomoção, realizado em 2007.

O distrito de Ermelino Matarazzo tem aproximadamente 114.593 habitantes, com uma densidade populacional de 12.807,85 habitantes por km2 e está localizada na zona leste de São Paulo, considerada a região mais populosa do município.

De acordo com o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2000, Ermelino Matarazzo é composto por 143 setores censitários. O processo de amostragem foi realizado por conglomerado em três fases: setor censitário (no qual foram sorteados 35 setores dos 143 possíveis), sorteio dos domicílios dos setores selecionados (a quantidade de domicílios sorteados foi proporcional ao tamanho de cada setor censitário) e sorteio do idoso dentro do domicílio sorteado.

Para sortear os sujeitos no domicílio, foi utilizada a metodologia de Kish,15 que define tabelas aleatórias de acordo com o total de moradores. Uma tabela definiu qual sujeito deveria ser entrevistado, de acordo com o número de moradores idosos no domicílio. Foram utilizadas oito tabelas diferentes para que os sorteios mantivessem a aleatoriedade. Dessa forma, os moradores idosos dos domicílios foram ordenados segundo a idade e de maneira decrescente (do mais velho para o mais novo). Os indivíduos sorteados deveriam ter 60 anos ou mais e morar há pelo menos seis meses no endereço. Foram excluídos os idosos que apresentaram doenças ou problemas que afetassem as atividades físicas de lazer na semana anterior à entrevista ou problemas mentais que impedissem o idoso de responder o questionário sozinho.

Para calcular o tamanho da amostra, foi utilizada a seguinte expressão algébrica referente à estimação de proporções:15

Onde:

- P: proporção de indivíduos a ser estimada. Com base em dados do Inquérito de Saúde (ISA - Capital) realizado no Município de São Paulo,7 adotou-se o valor de 0,15 por ter sido encontrado valor de 85% de pessoas que não atingiram as recomendações de pelo menos 150 minutos de atividades físicas como forma de lazer ou locomoção no município de São Paulo;

- z= 1,96: valor na curva normal reduzida correspondente ao nível com 95% de confiança;

- d= 0,065: erro de amostragem admitido;

- deff=2,6: efeito do delineamento estimado com base nos dados do ISA - Capital.

Assim, o tamanho mínimo da amostra foi calculado em 300 pessoas.

Foram visitados 2.309 domicílios, dos quais obteve-se sucesso em 1.985 domicílios. Destes domicílios, em 1.455 não moravam idosos. Excluindo perdas, recusas e exclusões, a taxa de resposta foi de 72,6%. Ao final, foram incluídos no estudo 385 idosos.

Para a mensuração das atividades físicas no lazer, foi aplicado o Questionário Internacional de Atividades Físicas (IPAQ) versão longa, utilizado no ISA Capital7 e cujas validação e reprodutibilidade foram descritas por Craig et al.4 Foram acrescidas questões sobre tipos de atividade física moderada e vigorosa praticadas, o local de prática da atividade física principal (moderada e vigorosa), a forma e o tempo de locomoção gasto até o local da prática principal, se o sujeito teve ou não acompanhamento de um profissional de educação física para a prática de atividade física.

Foi considerado o tempo de 150 min semanais de atividades físicas no lazer para o sujeito ser classificado como fisicamente ativo; para menos de dez min semanais, o sujeito era considerado inativo e aqueles que realizaram ao menos dez min, mas não alcançaram os 150 min, foram consideradas insuficientemente ativos.

Para avaliação do ambiente percebido foi utilizada a versão brasileira da escala Neighborhood Environmental Walkability Scale21 (NEWS), validada por Malavasi et al.18 A escala sofreu modificações para a melhor compreensão por parte dos idosos estudados. A versão final adaptada da NEWS foi discutida com especialistas da área de ambiente e atividades físicas e foi composta por 38 questões. A primeira parte do questionário foi estruturada para que os sujeitos respondessem quanto tempo levariam caminhando para chegar das suas residências até diferentes pontos comerciais, de serviço ou de lazer no bairro onde residiam (parques, praças, locais para caminhar, academias, clubes, quadras de esportes, campos de futebol, pontos de ônibus, estações de trem, postos de saúde, farmácias, igrejas ou templos religiosos, padarias, agências bancárias, bares, feiras, armazéns, mercados e supermercados). A segunda parte do questionário foi composta por questões relacionadas às estruturas ambientais próximas das residências dos idosos, como a presença e qualidade das calçadas e áreas verdes, se as ruas tinham ou não superfícies planas, locais com acúmulo de lixo perto das residências, esgoto a céu aberto perto da residência, se o trânsito dificultava a caminhada ou o uso de bicicleta, se existiam faixas de pedestres para atravessar perto das residências, se os motoristas costumavam respeitar os pedestres nas faixas, se existia poluição de fumaça perto das residências, se as ruas perto das residências eram bem iluminadas à noite, se os idosos consideravam seguro caminhar durante o dia e a noite nas proximidades da residência, se recebiam convite de amigos, vizinhos e parentes para caminhar, andar de bicicleta ou praticar esportes no bairro, se ocorriam eventos esportivos e/ou caminhadas orientadas no bairro, se o clima (frio, chuva ou calor) dificultava a caminhada, andar de bicicleta ou praticar esportes no bairro, se os idosos tinham cachorro e se caminhavam com o cachorro. Os idosos foram orientados para considerar como perto de suas residências os locais que eles conseguissem chegar em até dez minutos caminhando.

A escala modificada da NEWS original e a maioria das respostas foi padronizada em escalas dicotômicas com base em pré-testes realizados antes da coleta e com discussões com pesquisadores. Porém, não foi realizado nenhum processo de validação e reprodutibilidade.

Todas as variáveis do estudo foram analisadas de forma descritiva por meio de freqüência absoluta e relativa, separadamente para homens e mulheres. Foi realizado o teste de χ2 para verificar diferenças entre os níveis de atividade física no lazer, segundo sexo.

Foram realizadas as análises de regressão bivariadas, entre as atividades físicas no lazer (variável dependente) e as variáveis ambientais (variáveis independentes). As associações que apresentaram valor de p<0,20 foram selecionadas para a elaboração do modelo múltiplo.

Para a criação dos modelos de regressão logística múltipla, as variáveis independentes foram organizadas de maneira crescente, de acordo com o nível de significância e utilizada a estratégia forward selection para a montagem do modelo, no qual cada variável dependente foi acrescentada individualmente e a sua permanência ou retirada dos modelos dependeu da sua significância estatística. A variável escolaridade foi utilizada como ajuste e adicionada no modelo final.

Foram utilizados pesos na amostragem (complex sample), sendo todas as análises realizadas com o programa SPSS, versão 15.0.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP. Todos os participantes que realizaram a avaliação física receberam materiais explicativos sobre exames preventivos, orientações sobre a doença de Alzheimer, qualidade do sono, prática de atividades físicas e locais mais adequados para a realização, orientações de alimentação saudável e uma cartilha sobre os direitos dos idosos.

 

RESULTADOS

Dos 385 idosos entrevistados, a maioria era mulher (60,5%); com idade entre 60 e 74 anos (57,1%); branca (55,5%); solteira, divorciada ou viúva (54,2%); não trabalhava (78,4%); não era fumante (86,6%); e estudou até a terceira série do ensino fundamental (47,6%).

Ambos os sexos apresentaram proporções inferiores a 20% de ativos no lazer, com os homens apresentando maior proporção de sujeitos fisicamente ativos em relação às mulheres (p<0,041). As mulheres apresentaram maior proporção (72,5% vs. 64,5%) de inativas fisicamente (p<0,05). Em relação à proporção de pessoas classificadas como insuficientemente ativas, não houve diferença significante entre homens e mulheres (Tabela 1).

Dos idosos classificados como fisicamente ativos no lazer, 87,7% dos homens e 63% das mulheres praticaram a caminhada, seguida de ginástica geral, tai chi chuan e bicicleta (Figura).

 

 

Das 38 variáveis ambientais, 13 foram selecionadas (p<0,2) para a realização da análise de regressão logística múltipla em ambos os sexos (Tabela 2).

Para os homens, seis variáveis permaneceram no modelo múltiplo: boa percepção de segurança durante o dia, presença de quadras, tempo de caminhada de até dez min a uma agência bancária, tempo de caminhada de até dez min a um posto de saúde, receber convite de amigos para fazer atividade física e presença de academias nas proximidades de casa. Após a inclusão da variável escolaridade como ajuste, os idosos que tiveram uma boa percepção de segurança durante o dia tiveram quatro vezes mais chances de serem ativos no lazer; a presença de quadras próximas das residências aumentou as chances de os idosos serem ativos no lazer em quase três vezes; idosos que moravam a menos de dez min de caminhada até uma agência bancária tiveram cinco vezes mais chances de serem ativos no lazer; idosos que moravam a até dez min de caminhada até um posto de saúde tiveram quatro vezes mais chances de serem ativos no lazer e idosos que recebiam convite de amigos para praticar atividade física tiveram três vezes mais chances de serem ativos no lazer (Tabela 3).

Para as mulheres, três variáveis permaneceram no modelo: caminhada de até dez min a uma igreja ou templo religioso, presença de praças e presença de academias. Após a inclusão da variável de ajuste escolaridade, as idosas que moravam a menos de dez min de caminhada de alguma igreja ou templo religioso tiveram quase seis vezes mais chances de serem ativas no lazer; idosas que moravam perto de praças tiveram quase quatro vezes mais chances de serem ativas no lazer e idosas que moravam perto de academias tiveram duas vezes mais chances de serem ativas no lazer (Tabela 4).

 

DISCUSSÃO

Há poucos estudos com essa temática na literatura internacional e não encontramos nenhum no Brasil, sendo o presente estudo o primeiro a verificar a associação entre variáveis ambientais e atividades físicas de lazer em idosos brasileiros.

A boa percepção de segurança, presença de quadras e academias, morar a dez min de caminhada para uma agência bancária ou posto de saúde e receber convite de amigos para fazer atividade física foram associadas com a prática de atividade física no lazer em homens, enquanto que morar a dez min de caminhada até uma igreja e a presença de praças e academias foram associadas com a prática de atividade física de lazer nas mulheres.

A proporção de idosos ativos no lazer encontrada do presente estudo difere de outros resultados nacionais. Monteiro et al,19 analisando 1.810 idosos residentes no sudeste e nordeste do Brasil e utilizando como critério para classificar os sujeitos como fisicamente ativos a prática de 150 min semanais de atividades físicas, encontraram uma proporção de sujeitos fisicamente ativos de apenas 7,3% para homens e 6,3% para mulheres, praticamente a metade dos valores encontrados no presente estudo. Por outro lado, Zaitune et al,26 em estudo realizado (N= 426) em Campinas, SP, encontraram uma proporção de idosos praticantes de atividades físicas no lazer de 29,3%. Embora o valor seja superior ao encontrado no presente estudo, os autores não adotaram como o critério de 150 min semanais de atividade física como ponto de corte para a classificação. Florindo et al6 estudaram 326 homens na grande São Paulo com 50 anos ou mais e encontraram prevalência de 6,1% para qualquer tipo de prática, freqüência e tempode exercício físico nos últimos 12 meses.

O tipo de atividade física mais praticada pelos idosos do presente estudo foi a caminhada, para ambos os sexos, seguida de ginástica geral, bicicleta e tai chi chuan. Esse resultado foi semelhante ao encontrado por Monteiro et al,19 sendo a caminhada a atividade mais praticada pelos idosos (84,6%) e idosas (80,0%). Hughes et al,11 em um recente estudo publicado nos Estados Unidos com uma amostra de 5.589 idosos, mostraram que 34% dos idosos ativos praticavam caminhada no lazer e esta foi a primeira opção de atividade física dessa amostra.

A boa percepção de segurança associada com a atividade física de lazer foi encontrada em diferentes estudos internacionais. Guiles-Corti & Donovan9 encontraram associação significativa entre boa percepção de segurança e nível recomendável de atividade no lazer em 1.803 adultos australianos (OR=1,49, IC 95%: 1,14;1,95). Boehmer et al2 observaram que indivíduos norte-americanos que responderam não se sentirem seguros nas proximidades de casa tinham um aumento de 191% na chance de se tornarem inativos no lazer em relação às pessoas que alegaram se sentirem seguras nas proximidades de casa (OR=2,91, IC 95%: 1,86;4,55). Apesar de os dois estudos apresentarem associação significativa entre a boa percepção de segurança com atividade física no lazer, ambos tiveram adultos e idosos analisados em conjunto como parte da amostra. Somente o estudo publicado por Lim & Taylor17 (2005) estudou exclusivamente idosos (n=8.881) e, diferentemente do presente estudo, não foi encontrada associação significativa entre boa percepção de segurança e níveis recomendados de atividades físicas no lazer (OR=0,94, IC 95%: 0,85;1,03). No caso de Ermelino Matarazzo, por se tratar de uma região com desigualdades sociais e estruturais, a segurança se torna um fator relevante para qualquer tarefa dos idosos, inclusive a prática de atividades físicas no lazer.

Quatro estruturas ambientais construídas apresentaram associação significativa com a atividade física no lazer entre homens: presença de quadras e de academias no bairro, tempo de caminhada de até dez min até um posto de saúde e agências bancárias. As quadras, academias e postos de saúde são estruturas adequadas para a realização da prática de atividade física no lazer. Algumas unidades básicas de saúde promovem programas de atividade física para os usuários. No estudo de Sallis et al,22 foi observado que as pessoas que moravam em bairros com maior disponibilidade de locais próprios tiveram mais chances de se engajarem em práticas de atividades físicas com freqüência superior a três vezes por semana. Brownson et al3 estudaram 1.818 adultos e idosos americanos e mostraram que as pessoas que relataram a presença de academias no bairro tiveram aumento na chance de 94% (OR=1,94, IC 95%: 1,45;2,60) para serem ativas fisicamente no lazer.

Huston et al12 estudaram 1.796 adultos e idosos de sete diferentes cidades norte-americanas e concluíram que ter acesso a locais para a prática de atividades físicas como parques, clubes e academias nas redondezas de casa ou mesmo no local de trabalho, escolas e centros comunitários fora do bairro aumentou as chances dos indivíduos realizarem algum tipo de atividade física no lazer (OR=2,23, IC 95%:1,44;3,44) e de atingirem as recomendações dos 150 min de atividades físicas moderadas ou 60 min de atividades físicas vigorosas no lazer (OR=2,15, IC 95%:1,23;3,77) em comparação com as pessoas que não tiveram o mesmo acesso.

Por outro lado, pesquisando 1.209 adultos e idosos do Canadá, Garcia Bengoechea et al8 mostraram que os homens que concordaram com a afirmação "eu tenho fácil acesso a locais onde posso fazer atividade física" tiveram mais chances de serem fisicamente ativos no lazer (OR=1,82, IC 95%:1,00;3,31).

Em relação às agências bancárias, o presente estudo avaliou essa estrutura de maneira individual, diferentemente de outros estudos, onde as agências bancárias foram avaliadas como parte de um conjunto de outras variáveis que podem estar relacionadas com facilidades para a prática de atividade física nos idosos. Neste sentido, o resultado do presente estudo pode ser um indicativo de que a proximidade a estruturas comerciais e de serviços, como agências bancárias, pode facilitar as tarefas do cotidiano de idosos; além de estar relacionado com a presença de outras facilidades para a prática de atividades físicas no lazer.

Em relação à influência de igrejas ou de templos religiosos na prática de atividade física, apenas dois estudos de Wilbur et al24,25 fizeram esse tipo de análise e não encontraram resultados significantes. No caso de Ermelino Matarazzo, é provável que as idosas que estejam envolvidas com atividades religiosas tenham mais chances de serem ativas por participarem de atividades desenvolvidas no próprio local religioso, principalmente com a organização em grupos.

A variável receber convite de amigos para fazer atividade física apresentou associação significativa com a atividade física de lazer nos homens, resultado similar ao encontrado por Ball et al,1 em 3.392 adultos e idosos australianos. Indivíduos que não tinham companhia para fazer atividade física tinham 31% menos chance de realizar caminhada no lazer.1

Com relação às limitações do estudo, o delineamento transversal não permite estabelecer uma relação de causa e efeito, visto que o ambiente comunitário pode sofrer mudanças constantes que podem influenciar tanto a percepção do ambiente como a relação com a prática de atividades físicas dos idosos.

Quanto ao instrumento de medida de atividade física, foram apenas acrescidas questões relacionadas ao tempo de prática de atividade física no lazer, horário da prática e acompanhamento de um profissional de educação física, sem modificar as questões originais da versão do IPAQ longo utilizado em São Paulo.7 Portanto, esta modificação não interfere na qualidade das informações relacionadas à quantidade total de atividade física praticada. Além disso, a opção pela versão longa do IPAQ é justificada à medida que o interesse do estudo foi avaliar separadamente os diferentes contextos da atividade física (locomoção, lazer, doméstica e ocupacional), análise que não seria possível utilizando-se a versão curta do instrumento.

Concluindo, o presente estudo mostrou que o conjunto de estruturas específicas do ambiente comunitário - como a presença de igrejas ou templos religiosos, praças, academias, agências bancárias ou unidades básicas de saúde, bem como a percepção de boa segurança e convite de amigos para fazer atividade física - estão associados com a prática de atividades físicas no lazer e devem ser considerados no planejamento de programas de promoção de atividades físicas para a população idosa.

 

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Correspondência | Correspondence:
Emanuel Péricles Salvador
R. Luiz Alberto Martins, 240, AP 24
A05530-030 São Paulo, SP , Brasil
E-mail: emanuelps@usp.br

Recebido: 5/12/2008
Revisado: 18/5/2009
Aprovado: 2/6/2009
Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp - Processo nº 2006/57810-0). Salvador EP foi apoiado pela Fapesp (Processo nº 06/53767-3; bolsa de mestrado)

 

 

a World Health Organization. Integrated prevention of noncommunicable diseases: draft global strategy on diet, physical activity and health. Geneva; 2003. (EB113/44 Add.1)
b Pesquisa "Atividade física e sua relação com o ambiente na população adulta do distrito de Ermelino Matarazzo da Zona Leste do município de São Paulo", financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.Artigo baseado na dissertação de mestrado de Salvador EP, apresentada ao Programa de pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, em 2008.

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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