ARTIGO ORIGINAIS

 

Repercussão da exposição à violência por parceiro íntimo no comportamento dos filhos

 

Repercusión de la exposición a la violencia por pareja íntima en el comportamiento de los hijos

 

 

Julia Garcia DurandI; Lilia Blima SchraiberII; Ivan França-JuniorIII; Claudia BarrosIV

IPrograma de Pós-Graduação em Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina (FM). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Medicina Preventiva. FM-USP. São Paulo, SP, Brasil
IIIDepartamento de Saúde Materno-Infantil. Faculdade de Saúde Pública (FSP). USP. São Paulo, SP, Brasil
IVPrograma de Pós-Graduação em Saúde Pública. FSP. USP. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a associação entre a exposição à violência por parceiro íntimo (VPI) contra a mulher com desajustes comportamentais e problemas escolares entre os filhos.
MÉTODOS: Inquérito populacional participante do WHO Multicountry Study on Violence Against Women, com 790 mulheres que coabitam com filhos de cinco a 12 anos, residentes no Município de São Paulo, SP, e na Zona da Mata de Pernambuco. Foram realizados três modelos múltiplos para estimar a força da associação entre variáveis explanatórias de apoio social e comunitário, eventos de vida estressantes, fatores sociodemográficos e gravidade da VPI, entre outras. Os modelos incluíram três respectivos desfechos: número de problemas de comportamento; agressividade; e interrupção abandono ou repetência escolar.
RESULTADOS: A exposição à VPI física e/ou sexual grave esteve associada à ocorrência de problemas escolares, de problemas de comportamento em geral e de comportamentos agressivos na análise de regressão logística univariada. A exposição à VPI grave manteve-se associada à ocorrência de três ou mais problemas de comportamento entre seus filhos, independentemente do transtorno mental comum, da baixa escolaridade, de a mãe (avó) ter sido vítima de VPI física e do apoio social e comunitário nos modelos de regressão logística múltiplos. A VPI grave esteve associada ao comportamento agressivo e aos problemas escolares, depois do ajuste por outras variáveis sociodemográficas, entre outras. O estado de saúde mental materna constituiu-se em fator mediador da relação entre a exposição à VPI e os problemas de comportamento, sobretudo agressividade.
CONCLUSÕES: A VPI grave afeta o comportamento dos filhos e deve ser incluída na assistência à saúde das crianças em idade escolar, por meio de intervenções conjuntas entre crianças e mães.

Descritores: Evasão Escolar. Comportamento Infantil. Relações Pais-Filho. Violência contra a Mulher.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la asociación entre la exposición a la violencia por pareja íntima (VPI) contra la mujer con desajustes de comportamiento y problemas escolares entre los hijos.
MÉTODOS: Pesquisa poblacional participante del WHO Multicountry Study on Violence Against Women, con 790 mujeres que cohabitan con hijos de cinco a 12 años, residentes en el Municipio de Sao Paulo, Sureste de Brasil, y en la Zona de la Mata de Pernambuco, Noreste de Brasil. Se realizaron tres modelos múltiples para estimar la fuerza de la asociación entre variables explicativas de apoyo social y comunitario, eventos de vida estresantes, factores sociodemográficos y gravedad de la VPI, entre otras. Los modelos incluyeron tres aspectos respectivos: número de problemas de comportamiento, agresividad e interrupción, abandono o repetición escolar.
RESULTADOS: La exposición a la VPI física y/o sexual grave estuvo asociada a la ocurrencia de problemas escolares, de problemas de comportamiento en general, y de comportamientos agresivos en el análisis de regresión logística univariada. La exposición a la VPI grave se mantuvo asociada a la ocurrencia de tres o más problemas de comportamiento entre sus hijos, independientemente del trastorno mental común, de la baja escolaridad, de la madre (abuela) haber sido víctima de VPI física y del apoyo social y comunitario en los modelos de regresión logística múltiples. La VPI grave estuvo asociada al comportamiento agresivo y a los problemas escolares, después del ajuste por otras variables sociodemográficas, entre otras. El estado de salud mental materno constituye un factor mediador de la relación entre la exposición a la VPI y los problemas de comportamiento, sobretodo la agresividad.
CONCLUSIONES: La VPI grave afecta el comportamiento de los hijos y debe ser incluida en la asistencia a la salud de los niños en edad escolar, por medio de intervenciones conjuntas entre niños y madres.

Descriptores: Abandono de los Estudiantes. Conducta Infantil. Relaciones Padres-Hijo. Violencia contra la Mujer.


 

 

INTRODUÇÃO

Repercussões da exposição de crianças à violência por parceiro íntimo (VPI) contra suas mães recebem atenção crescente de pesquisadores, profissionais e formuladores de políticas públicas. A exposição da criança pode ser direta, ao presenciar a violência, como também indireta, por meio dos agravos que esse evento traz à saúde física e mental de sua mãe. Ambas são consideradas situações de risco para o desenvolvimento de problemas emocionais, escolares e de comportamento dos filhos.13,20

Estima-se que 15% das crianças estão expostas à violência física entre seus pais nos Estados Unidos.20 Estudo realizado em São Gonçalo, RJ, aponta que 21,4% das crianças entre seis e 11 anos, estudantes de escolas públicas, estão expostas à violência física ou verbal entre seus pais.1

As repercussões na saúde das crianças apresentam associação com sintomas de trauma,3,8,13 quadros depressivos e de ansiedade,13,18 comportamentos agressivos,18,6 transtorno de conduta e baixo desempenho escolar.5

Há controvérsias sobre a extensão dessa repercussão. Alguns estudos não encontram associação com sintomas depressivos e ansiosos nem com o desempenho escolar.20 Muitos estudos apresentam viés de seleção ao incluírem mulheres captadas em casas-abrigo, serviços de saúde ou tribunais de justiça, o que leva à superestimativa dos agravos à saúde das crianças. São raros os estudos populacionais que articulam fatores individuais, do contexto familiar e comunitário.23 As pesquisas no Brasil voltam-se principalmente à violência perpetrada contra a criança e o adolescente, sem dar atenção à exposição indireta da VPI.

Faz-se necessário construir um modelo compreensivo que integre elementos mediadores entre a exposição à violência e os agravos à saúde da criança, tais como os problemas de saúde mental materna, apoio social e comunitário, e eventos de vida estressantes.23

O objetivo do presente estudo foi analisar a associação da gravidade da VPI sofrida por mulheres com problemas de comportamento e escolar de seus filhos (cinco a 12 anos).

 

MÉTODOS

Este estudo ancorou-se na investigação multipaíses internacional7World Health Organization Multicountry Study on Violence Against Women (WHO-VAW Study), cuja coleta primária dos dados ocorreu por inquérito domiciliar realizado entre 2000 e 2001, com amostra representativa de mulheres de15 a 49 anos, de uma grande cidade do Brasil, o município de São Paulo (MSP), e de região urbano-rural, 15 municípios da Zona da Mata de Pernambuco (ZMPE).21 A presente investigação baseia-se em um modelo sobre efeitos inter-relacionados da exposição à VPI na mulher e nos seus filhos (Figura 1). Utiliza elementos integrados da perspectiva de gênero e das teorias psicológicas sobre o trauma e a psicodinâmica e constrói a hipótese de que a VPI afeta negativamente os filhos, tanto por uma via direta como por meio dos prejuízos que causa à saúde mental materna.

Das 2.128 entrevistadas que tiveram algum parceiro na vida (1.188 na ZMPE e 940 no MSP), excluíram-se aquelas sem filhos entre cinco e 12 anos ou que não coabitavam com eles, resultando em 790 mulheres (465 ZMPE e 325 MSP), analisadas como conjunto agregado, dado o baixo número em cada região. No estudo sobre problemas escolares, foram excluídas aquelas cujos filhos não freqüentam escola, restando 749 mulheres.

A unidade de análise foi a mulher, sem considerar as características individuais e o comportamento de cada filho separadamente. Tratou-se, portanto, do estudo do problema: havia ou não no domicílio determinados comportamentos entre filhos, segundo relato das mães.

Utilizou-se questionário padronizado para todos os países, que se mostrou consistente7,21 e válido para identificar a VPI em seus tipos psicológico, físico e sexual em diferentes contextos brasileiros.22

Estimou-se a associação entre a gravidade da VPI e três indicadores de problemas entre os filhos: 1) número de problemas de comportamento relatados: agressividade contra a mãe ou outras crianças, urinar na cama, chupar o dedo, pesadelos freqüentes, retraimento/timidez e fuga de casa; 2) agressividade contra a mãe ou outras crianças; e 3) problemas escolares - abandono/interrupção ou repetência.

As variáveis foram categorizadas conforme a importância teórica, a distribuição das entrevistadas (evitando-se categorias com poucos sujeitos) e o comportamento estatístico nas associações.

Para "número de problemas de comportamento" (nenhum/um a dois/três ou mais problemas) foram considerados problemas: ter pesadelos freqüentes; chupar o dedo; urinar na cama; ser criança tímida ou retraída; ser criança agressiva com a mãe ou com outra criança; e fugir de casa. A distribuição dos casos foi critério de corte entre os estratos.

"Comportamento agressivo" (sim/não) correspondeu à pergunta: "Qualquer uma destas crianças (de cinco a 12 anos) é agressiva com você ou com outras crianças?".

"Problemas escolares" (sim/não) considerou ao menos uma criança de cinco a 12 anos ter abandonado/interrompido os estudos ou ter repetido algum ano escolar versus nenhuma.

A VPI foi categorizada pelas formas psicológica, física ou sexual ou de modo combinado à gravidade do ato perpetrado, tendo sido considerada presente quando a mulher respondeu sim a pelo menos um dos itens do respectivo bloco de perguntas (Figura 2).

 

 

A "gravidade da VPI" foi discriminada em quatro categorias: sem VPI, psicológica exclusiva, física moderada, física e/ou sexual grave. Essa gradação amparou-se em possíveis repercussões físicas diretas dos atos e na definição do WHO-VAW Study.7 Nesta, considera-se VPI moderada quando há resposta afirmativa para qualquer um dos dois primeiros itens (1, 2) da violência física (Figura 2); VPI grave quando a resposta é positiva para qualquer item relativo à violência sexual ou qualquer dos quatro últimos itens (3, 4, 5 e 6) da violência física; e violência psicológica exclusiva refere-se à resposta afirmativa a qualquer um de seus quatro itens, e não para qualquer item das violências física ou sexual.

"Eventos de vida estressantes" e "apoio social e comunitário" foram definidos conforme Ludermir et al:15

  • "Eventos de vida estressantes": a) desemprego do parceiro atual ou mais recente; b) freqüência com que o parceiro atual ou mais recente ficou embriagado (nunca / 1 vez por semana a 1 vez por mês / quase todo dia); c) idade da primeira relação sexual e consentimento (> 15 anos consentida / > 15 anos forçada / < 15 anos consentida / < 15 anos forçada); d) abuso sexual por familiar (sem abuso / em < 15 anos / em > 15 anos); f) abuso sexual por não familiar (sem abuso / em < 15 anos / em > 15 anos); g) mãe da entrevistada vítima de VPI física.
  • "Apoio social e comunitário" é composto de: a) ajuda sociocomunitária, que compreende cinco questões que avaliam diversas ações de reciprocidade, desempenhadas pela vizinhança (forte, com cinco respostas afirmativas / moderada, com uma a quatro respostas afirmativas / sem ajuda, com nenhuma resposta afirmativa), estas últimas duas agregadas nas análises multivariadas como moderada/fraca; b) freqüência de contato com a família; c) apoio familiar para resolver algum problema.

"Transtorno Mental Comum" (TMC) baseou-se no Self Report Questionnaire (SRQ-20) com validade e confiabilidade para triagem na população brasileira, em que indivíduos com escores acima de sete foram considerados casos.16

"Tentativa de suicídio" correspondeu à pergunta "Você já tentou se matar?", referindo-se a algum episódio na vida.

"Problemas relacionados ao uso de álcool pela mulher", com categorização binária (sim/não), considerando sim para resposta positiva a pelo menos uma das quatro questões sobre a ocorrência de problemas com familiar, amigos, de saúde ou com dinheiro causados pelo consumo de álcool.

Outras variáveis analisadas: "Hábito de fumar" (não fumar/fumar ocasionalmente/fumar diariamente); "Idade" e "Escolaridade"; "Ter renda própria"; "Estado marital" (união formal/união informal/namoro com relação sexual/divorciada, separada ou viúva) e "local de residência" (MSP/ZMPE).

Usou-se o software Stata versão 10 para análise e comandos svy para considerar o efeito de desenho. Três modelos de regressão logística de tipo confirmatório foram realizados com as variáveis dependentes: Número de problemas de comportamento nos filhos; Agressividade; Problemas escolares. A análise sobre o número de problemas de comportamento foi do tipo polinomial.

Odds ratios brutos (ORb) e ajustados (ORa) foram calculados para estimar as associações, com os respectivos IC95% e testes de qui-quadrado (Ç2) foram realizados para testar a significância estatística das associações. Admitiu-se significância para p < 0,05.

As variáveis independentes que apresentaram associação com a ocorrência do desfecho com p < 0,15 em análise univariada e aquelas com relevância teórica para a análise foram incluídas de modo anterógrado nos modelos multivariados. Permaneceram no modelo as que se mantiverem associadas ao desfecho após o ajuste por todas as variáveis incluídas (p < 0,05 no teste de Wald) e aquelas consideradas relevantes pela literatura. O teste de Hosmer-Lemeshow foi empregado para o ajuste do modelo.

O estudo dos efeitos mediadores seguiu Baron & Kenny2 (1986), segundo três critérios para se classificar uma variável como mediadora: 1) A variável independente deve estar associada de forma significativa com a variável hipoteticamente mediadora e com a variável dependente; 2) A variável mediadora deve estar significativamente associada com a variável dependente; 3) A força da associação entre a variável independente e a dependente deve cair na presença da variável mediadora.

Cuidados éticos especiais foram tomados levando-se em conta a natureza do tema.21 O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Pesquisa da Faculdade de Medicina da USP e Hospital das Clínicas (CAPPesq-609/98) em 11/11/1998 e Conep (Parecer 002/99) em 11/01/1999.

 

RESULTADOS

A idade média das mulheres foi de 34,1 anos (DP = 0,31) e a média de anos de estudo de 6,6 anos (DP = 0,28), o que corresponde ao primeiro ciclo do ensino fundamental incompleto. A média de número de filhos foi de 2,7 (DP = 0,1). Outros dados sociodemográficos, prevalências de problemas de comportamento, agressividade, problemas escolares dos filhos, do TMC e da VPI relatada pela entrevistada estão apresentados na Tabela 1.

 

 

A maioria tinha contato freqüente com a família (89,2%) e assistência familiar quando precisava de ajuda ou enfrentava algum problema (82,2%). Em contrapartida, a ajuda da comunidade e da vizinhança foi moderada/fraca para a maioria (67,4%).

Desemprego do parceiro foi referido por 10,8% das mulheres e a intoxicação diária por álcool, por 6,5%. A primeira relação sexual foi forçada antes de ou aos 15 anos para 9,1% e depois dos 15 anos para 16,1%. A VPI física contra a mãe da entrevistada foi apontada por 23,9%, 3,3% sofreram violência sexual por familiar e 8,9% sofreram por outros.

Relataram haver sofrido VPI em intensidade grave 27,0% das mulheres e 10,3%, em intensidade moderada (Tabela 1).

Mulheres com baixa escolaridade (zero a oito anos de estudo), maior paridade (três ou mais filhos), que moravam na ZMPE e em situação de união informal apresentaram maiores taxas de filhos com três ou mais problemas de comportamento na análise univariada. A VPI contra a mãe da mulher e primeira relação sexual forçada antes de ou aos 15 anos foram eventos associados a esse desfecho. As mulheres com TMC e com tentativa de suicídio apresentaram maior prevalência de problemas de comportamento entre os filhos (três ou mais).

A VPI mostrou-se fortemente associada aos problemas de comportamento dos filhos e a força desta associação foi crescente, conforme a gravidade da violência e o número de problemas considerados (Tabela 2).

No modelo multivariado polinomial, o TMC reduziu em aproximadamente 45,0% a força da associação entre a VPI grave e a ocorrência de três ou mais problemas de comportamentos e não retirou sua significância estatística. TMC constituiu variável mediadora por estar diretamente associado à VPI grave (ORb = 5,22; IC95%3,41;8,00) e ao desfecho estudado.

A VPI grave esteve associada à ocorrência de três ou mais problemas de comportamentos (OR ajustado 2,00), independentemente do TMC, da escolaridade entre zero e oito anos de estudo, de a mãe ter sido vítima de violência física por parceiro íntimo e do apoio social e comunitário fraco/moderado (Tabela 2).

Mulheres com união informal, com escolaridade abaixo do nível superior, com três ou mais filhos, com TMC e com tentativa de suicídio apresentaram maior prevalência de filhos agressivos em análise univariada. A forma grave de exposição à VPI e a ocorrência de cada um dos eventos de vida estressantes estiveram associadas à agressividade, com exceção da ocorrência de abuso sexual por pessoas de fora da família.

O TMC reduziu em mais de 10,0% a associação entre a exposição à VPI e a ocorrência de agressividade, e também se constituiu em variável mediadora (modelo 1) na análise múltipla. As variáveis escolaridade, número de filhos vivos, violência física do pai contra a mãe e abuso sexual por familiar ajustaram a associação entre a exposição à VPI grave com o desfecho, mantiveram-se associadas ao desfecho e permaneceram no modelo (modelo 2). As demais foram retiradas. Ter sofrido VPI grave, ter TMC, ter entre zero e quatro anos de estudo, ter três ou mais filhos, ter sofrido violência sexual por familiar e a mãe ter sido vítima de VPI física mostravam-se fatores associados à ocorrência de agressividade entre os filhos. A variável tentativa de suicídio apresentou associação estatisticamente significativa com o desfecho, porém retirou a significância da associação da VPI grave (modelo 3).

Viver em situação de união informal, ter três ou mais filhos, morar na ZMPE e ter de zero a oito anos de estudo foram fatores associados à maior ocorrência de repetência, abandono ou interrupção escolar entre os filhos em análise univariada. As mulheres com TMC que fumavam diariamente também referiram mais desses problemas.

A ausência de apoio familiar, a intoxicação alcoólica quase diária do parceiro, a VPI física contra a mãe e a primeira relação sexual antes de ou aos 15 anos forçada e consentida estiveram associadas a esses problemas.

 

Tabela 3

 

A exposição à VPI grave associou-se à maior prevalência de problemas escolares na análise univariada. Permaneceram associados ao desfecho na análise múltipla: ter entre zero e quatro anos de estudo, ter três ou mais filhos, morar na ZMPE, o parceiro se intoxicar quase diariamente, a mãe da entrevistada ter sofrido VPI física e fumar diariamente. A associação da VPI grave com o desfecho, uma vez ajustada por esses fatores, perdeu significância estatística.

A escolaridade da mulher e o número de filhos constituíram variáveis mediadoras da relação entre a exposição à VPI grave e o desfecho, pois reduziram em mais de 10% (modelo 1) a força da associação e estiveram associadas às variáveis dependente e independente. O OR bruto (IC95%) referente à associação entre ter de zero a quatro anos de estudo e sofrer VPI grave foi de 3,88 (1,68;8,93), e o referente à associação entre ter três ou mais filhos e sofrer VPI grave, de 2,09 (1,44;3,05).

 

DISCUSSÃO

Os resultados apresentados são consistentes com a literatura internacional12 ao apontarem que a exposição à VPI grave afeta o comportamento dos filhos em idade escolar por mecanismos diretos e indiretos. A mulher ter sido vítima de VPI grave é condição diretamente associada à ocorrência de três ou mais problemas de comportamento entre seus filhos, independentemente da sua condição de saúde mental, da sua escolaridade, da experiência de VPI física contra a mãe da entrevistada e do apoio social e comunitário.

A VPI associa-se indiretamente a esses problemas por meio do seu impacto na saúde mental materna, como mostram os resultados da análise de mediação. Esses achados confirmam os de Levendosky & Graham-Bermann12 (2001), segundo os quais a violência doméstica afeta a capacidade de cuidado materno e tem efeitos negativos na saúde mental das crianças por meio do efeito traumático no funcionamento psicológico da mãe.

Esses resultados são convergentes com as teorias do trauma e psicanalíticas, que destacam os prejuízos de conviver em ambiente familiar violento, por meio dos efeitos negativos dos afetos depressivos e ansiosos na mãe. São afetos que se exprimem em irritação, imprevisibilidade e tristeza e prejudicam a qualidade da interação e da organização do ambiente familiar, o que favorece o aparecimento de problemas emocionais e comportamentais nas crianças.

A exposição à VPI grave constitui fator associado a comportamentos agressivos na análise univariada. TMC e tentativa de suicídio, junto com outras variáveis, retiraram a significância dessa associação na análise múltipla, indicando que prejuízos na saúde mental materna, acentuados pelas tentativas de suicídio, são importantes elementos mediadores.

Outras experiências de violência vividas pela mulher, como o abuso sexual perpetrado por familiar e a exposição à VPI física contra sua mãe, constituem fatores diretamente associados à agressividade dos filhos. Experiências de violência vividas na infância (a maioria do abuso sexual por familiar ocorreu antes de ou aos 15 anos) têm efeito mais relevante para o aparecimento de comportamento agressivo dos filhos do que a experiência da VPI na vida adulta.

A baixa escolaridade (entre zero e quatro anos) e o elevado número de filhos (três ou mais) constituíram fatores associados à ocorrência de agressividade entre os filhos. Como a baixa escolaridade é geralmente associada a condições socioeconômicas mais precárias, supõe-se que elementos desse contexto social, relacionados a diversos tipos de privação, tenham repercussão importante no aparecimento de comportamentos agressivos.

Esse resultado reitera o estudo que se voltou especificamente ao subgrupo dos comportamentos agressivos do inventário de comportamentos da infância e adolescência,ª cujo resultado mostrou que a exposição à VPI responde por variância pequena (3,9%) da ocorrência de tais comportamentos.14 Entretanto, não é consistente com parte da literatura que investiga a associação entre a exposição à VPI e problemas como o transtorno desafiador opositivo ou o transtorno de conduta,6,11,19 na qual a associação em tela foi confirmada.

Uma interpretação possível para essa última divergência baseia-se nas diferenças amostrais. Muitos estudos valem-se de amostras de conveniência com mulheres que vivem em abrigos, que freqüentam serviços de atendimento psicológico, psiquiátrico ou pediátrico, delegacias de polícia ou cortes de justiça. Outra interpretação possível refere-se aos parâmetros de classificação dos problemas de agressividade. A presente investigação pode ter usado pergunta pouco específica de aferição da agressividade, o que pode ter levado à inclusão de crianças que não apresentam problemas mais acentuados de comportamentos entre os casos, o que diluiria as estimativas da associação.

A VPI caracterizou-se como fator associado aos problemas escolares na análise univariada. Essa associação não se manteve significativa na análise múltipla.

O papel mediador do número de filhos entre a exposição à VPI e os problemas escolares pode ser interpretado pela hipótese sociológica da "diluição de recursos",17 em que a maior paridade reduz o tempo e os recursos dos pais investidos em cada filho, o que influenciaria negativamente o desenvolvimento e o desempenho educacional. Os resultados do presente estudo indicam o número elevado de filhos como fator de interseção entre exposição à VPI e os problemas escolares, conforme achados da literatura que apontam maior número de filhos entre as mulheres que sofrem VPI.4,10

O presente estudo supera importantes limites metodológicos enfrentados em outros estudos, sobretudo no que se refere à seleção amostral e aos cuidados para se reduzir viés de revelação. Por outro lado, permanecem limitações. O uso exclusivo de informações maternas acerca dos filhos impede a detecção dos problemas segundo a ótica das crianças. Além disso, a indistinção da exposição à violência contra as mães da co-ocorrência da violência contra os filhos dificulta o discernimento dos efeitos relacionados a cada uma dessas formas de exposição. O banco de dados oferece poucas informações individuais sobre as crianças como o sexo e a idade. No entanto, este é um dos primeiros estudos brasileiros a realizar essa aproximação sobre o fenômeno.

A violência deve ser diretamente diagnosticada nos serviços de saúde e ser tomada como aspecto relevante para a saúde das mulheres. A melhoria da saúde das mulheres, em especial da mental, irá interferir na prevenção dos problemas escolares e de comportamento de seus filhos,9 mostrando a relevância do estudo de variáveis mediadoras.

Recursos precisam ser alocados para prevenir e amenizar os efeitos da violência, para que as necessidades de saúde mental da mulher e dos seus filhos sejam efetivamente enfrentadas.

 

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23. Wolfe DA, Crooks CV, Lee V, Mcintyre-Smith A, Jaffe PG. The effects of children's exposure to Domestic Violence: A meta-analysis and critique. Clin Child Fam Psychol Rev. 2003;6(3):171-87. DOI:10.1023/A:1024910416164        

 

 

Correspondência | Correspondence:
Lilia Blima Schraiber
Faculdade de Medicina
Universidade de São Paulo
Av. Dr. Arnaldo, 455
01246-903 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: vawbr@usp.br

Recebido: 12/1/2010
Aprovado: 25/8/2010

Durand JG foi apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq; bolsa de doutorado - processo nº 140511\2007-5).
A pesquisa WHO MultiCountry Study on Women's Health and Domestic Violence Against Women" foi financiada pela Organização Mundial de Saúde e CNPq (Projeto Integrado - Processo 523348/96-7) e Ministério da Saúde/Programa Nacional de DST/AIDS (Ref: 914 BRA 59 DST-AIDS II; ED 00/4772; Unesco 914/BRA/59).

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de Durand JG, apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 2010.
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
a Achenbach TM. Manual for the Child Behavior Checklist: 4-18 and 1991 profile. Burligton: University of Vermont, Department of Psychiatry; 1991.

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E-mail: revsp@org.usp.br