Poluição da queima de cana e sintomas respiratórios em escolares de Monte Aprazível, SP

 

Polución de la quema de caña y síntomas respiratorios en escolares de Monte Aprazível, Sureste de Brasil

 

 

Denise RigueraI; Paulo Afonso AndréII; Dirce Maria Trevisan ZanettaIII

IPrograma de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. São José do Rio Preto, SP, Brasil
IIDepartamento de Patologia. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIIDepartamento de Epidemiologia. Faculdade de Saúde Pública. USP. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência de sintomas respiratórios e analisar fatores associados, bem como medidas de pico de fluxo expiratório em escolares.
MÉTODOS: Estudo descritivo transversal com escolares de dez a 14 anos de Monte Aprazível, SP. Foram aplicados questionários sobre sintomas de asma e de rinite do protocolo International Study of Asthma and Allergies in Childhood, questões sociodemográficas, fatores predisponentes e antecedentes pessoais e familiares. Foram realizadas medidas repetidas do pico de fluxo expiratório nas crianças e dos níveis de concentração de material particulado (MP2,5) e de black carbon.
RESULTADOS: A prevalência de sintomas de asma foi de 11% e de 33,2% de rinite; 10,6% apresentaram mais de quatro crises de sibilos nos últimos 12 meses. Antecedentes familiares para bronquite e rinite associaram-se à presença de asma (p = 0,002 e p < 0,001) e de rinite atuais (p < 0,001 e p < 0,001, respectivamente). Para rinite, houve associação com presença de mofo ou rachadura na casa (p = 0,009). Houve maior freqüência de rinite nos meses de junho a outubro, período de safra da cana de açúcar. Prevalência diária de pico de fluxo expiratório abaixo de 20% da mediana de medidas na criança foi maior em dias com maior concentração de MP2,5.
CONCLUSÕES: A prevalência de sintomas de asma está abaixo e a de rinite está acima da média nacional. Ainda que dentro dos níveis aceitáveis, a poluição nos períodos de queima da palha da cana-de-açúcar pode contribuir para a exacerbação de episódios de asma e de rinite.

Descritores: Doenças Respiratórias, epidemiologia. Fumaça, efeitos adversos. Cultivos Agrícolas. Poluição do Ar. Estudos Transversais.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar la prevalencia de síntomas respiratorios y analizar factores asociados, así como medidas de pico de flujo expiratorio en escolares.
MÉTODOS: Estudio descriptivo transversal con escolares de diez a 14 años de Monte Aprazível, Sureste de Brasil. Se aplicaron cuestionarios sobre síntomas de asma y de rinitis del protocolo International Study of Asthma and Allergies in Childhood, preguntas sociodemográficas, factores predisponentes y antecedentes personales y familiares. Se realizaron medidas repetidas del pico de flujo expiratorio en los niños y de los niveles de concentración de material particulado (MP2,5) y de black carbon.
RESULTADOS: La prevalencia de síntomas de asma fue de 11% y de 33,2% de rinitis, 10,6% presentaron más de cuatro crisis de silbidos en los últimos 12 meses. Antecedentes familiares para bronquitis y rinitis se asociaron a la presencia de asma (p=0,002 y p<0,001) y de rinitis actuales (p<0,001 y p<0,001, respectivamente). Para rinitis, hubo asociación con la presencia de moho o rajadura en la casa (p=0,009). Hubo mayor frecuencia de rinitis en los meses de junio a octubre, período de cosecha de caña de azúcar. Prevalencia diaria de pico de flujo expiratorio debajo de 20% de la mediana de medidas en el niño fue mayor en días con mayor concentración de MP2,5.
CONCLUSIONES: La prevalencia de síntomas de asma está por debajo y la de rinitis está por encima del promedio nacional. A pesar de estar dentro de los niveles aceptables, la polución en los períodos de quema de paja de caña de azúcar puede contribuir en la exacerbación de episodios de asma y de rinitis.

Descriptores: Enfermedades Respiratorias, epidemiología. Humo, efectos adversos. Cultivos Agrícolas. Contaminación del Aire. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

As doenças respiratórias constituem a segunda causa de hospitalização pelo Sistema Único de Saúde (SUS) (13,6%): 1.541.113 internações em todo o País em 2006.ª Asma e rinite são consideradas as doenças crônicas mais comuns entre crianças e adolescentes, e suas prevalências têm aumentado significativamente, tornando-se um importante problema de saúde pública.17

Estudos epidemiológicos com crianças apontam grande variação em suas prevalências e sintomas. As diferenças podem decorrer de problemas metodológicos, como a definição dos sintomas de asma, que não são específicos,17 e a diversidade de expressões clínicas utilizadas.21 O International Study of Asthma and Allergies in Childhood (ISAAC) foi desenvolvido para padronizar os métodos utilizados em estudos epidemiológicos, tornando possível comparar prevalências e gravidade de asma, rinite e eczema entre diferentes cidades e países. O questionário padronizado do ISAAC foi traduzido e validado para o português22,25 e tem sido utilizado em estudos no País.23

Fatores ambientais como urbanização e elevada densidade populacional podem ser considerados determinantes importantes nas prevalências de asma e rinite, assim como a poluição atmosférica.19,24 Estudos recentes associam exposição à poluição do ar ao aumento na incidência de asma.11

Entre os poluentes aos quais a população pode estar exposta, os gasosos, como dióxido de nitrogênio e ozônio, e o material particulado (MP) têm sido associados ao aumento na mortalidade e na admissão hospitalar por doenças respiratórias e cardiovasculares, tanto em estudos que avaliam efeitos agudos como prolongados dos poluentes.5,26

A associação entre poluição ambiental decorrente de queima de palha da cana-de-açúcar [utilizando partículas totais em suspensão ou MP (MP10 ou MP2,5) como marcadores] e morbidade respiratória mostrou aumento do número diário de inalações no Serviço de Emergência1 e aumento de internações hospitalares por problemas respiratórios.2,6 Em um estudo experimental em ratos, a exposição ao MP coletado em uma cidade com predomínio de poluição veicular e ao da queima de cana mostrou que os desfechos respiratórios foram semelhantes e na biomassa houve maior presença de metais, especialmente ferro e zinco.16

O objetivo do presente estudo foi estimar a prevalência de sintomas de asma e rinite e analisar fatores associados, bem como medidas de pico de fluxo expiratório em escolares.

 

MÉTODOS

Estudo transversal com 1.076 escolares com idade de dez a 14 anos em Monte Aprazível, SP, em 2007. A cidade possuía 19.745 habitantes nesse ano e baixo tráfego de automóveis. Tem clima tropical e inverno seco e quente, com temperatura média anual de 23,4ºC. A base da economia é a cana-de-açúcar (66% de toda a produção agrícola), coletada principalmente de forma manual, após queima da palha da cana, de maio ao início de dezembro.

Havia na cidade 1.214 crianças na faixa etária de interesse, das quais 1.076 matriculadas entre o sexto e nono anos em três escolas (14,6% em escola particular, 78,3% em escola municipal e 7,1% em escola estadual). Questionários e termos de consentimento livre e esclarecido foram distribuídos em sala de aula e orientados a serem preenchidos com os pais.

Dos 1.076 alunos, 817 devolveram os questionários, com taxa de retorno de 75,9%. Foram excluídos 45 alunos com mais de 14 anos. Dos 772 questionários analisados, 86,8% eram provenientes das escolas públicas e 13,3% da escola particular.

O questionário continha os componentes de asma e de rinite do questionário do estudo ISAAC, validados para o português,22,25 e questões referentes a características sociodemográficas, fatores predisponentes, antecedentes familiares e pessoais para problemas respiratórios. A prevalência de sintomas de asma atual foi estimada pelo percentual de respostas positivas à pergunta "Você teve sibilos (chiado no peito) nos últimos 12 meses?". O diagnóstico de asma foi avaliado indiretamente pela pergunta: "Você já teve asma alguma vez na vida?". A prevalência de sintomas de rinite foi estimada pela freqüência de respostas afirmativas à pergunta "Nos últimos doze meses, você teve algum problema com espirros, coriza (corrimento nasal) ou obstrução quando não estava gripado ou resfriado?" e rinoconjuntivite alérgica, pela pergunta "Nos últimos 12 meses, este problema nasal foi acompanhado de lacrimejamento ou de coceira nos olhos?".22,23,25

Estudo de painel foi realizado com 131 alunos voluntários da escola municipal, com 78% dos alunos nas séries avaliadas, e de localização central na cidade, que realizaram medidas seriadas de pico de fluxo expiratório (PFE). Os alunos foram encaminhados para o exame pelos professores. Foram avaliados em média 43 alunos por dia, reconvocados a repetir o teste a cada três dias, até totalizar dez medidas por aluno. O exame foi realizado no início da manhã, de outubro a novembro (período da queima de cana-de-açúcar).

O valor do PFE foi obtido por meio de aparelhos portáteis Peak Flow Meter Mini Wright (Clemente Clark International Ltd., London, England). Os aparelhos registram medidas de 60 a 850 L/min, com variação menor que 5% ou 10 L/min (o que for maior). Antes de alcançar 80% do número de medidas com calibragem garantida pelo fabricante, o aparelho era substituído por outro. Cada criança, em posição ortostática e após inspiração máxima, realizava uma expiração forte e rápida em bocal individual e descartável, sob supervisão. Essa manobra era realizada três vezes e considerado o maior valor (em L/min).

A amostragem diária do material particulado fino (MP2,5) foi realizada com amostrador desenvolvido pela Escola de Saúde Pública de Harvard, instalado no telhado do pátio da escola municipal. Esse aparelho opera a uma vazão de 10 L/min. Na parte inicial da sonda, um sistema de impactação retém as partículas com diâmetro aerodinâmico maior que 2,5 µm ("cutpoint" MP2,5), enquanto as partículas de interesse, abaixo de 2,5 µm, são coletadas em um filtro (membrana de policarbonato 37 mm poro 0,8 µm, Millipore®) para análise em laboratório. A amostragem era iniciada pela manhã, com troca do filtro exposto por um limpo a cada 24 h, reiniciando o processo. A cada troca eram registrados os parâmetros da amostragem (identificação do filtro, data, hora, indicação do horímetro, indicação do totalizador de volume de ar e indicador de vazão de ar).

A concentração média diária do MP2,5 foi obtida por método gravimétrico, com a massa amostrada, pela diferença do peso do filtro antes e após amostragem, dividida pelo volume total de ar amostrado. A pesagem do filtro foi feita em laboratório com controle de temperatura (22ºC) e umidade relativa (45%) em uma balança ultra-sensível da Mettler Toledo, modelo UMX2, com precisão de 1 µg, utilizando um portal para eliminação de carga eletrostática. A concentração de black carbon foi estimada em cada filtro por refletância em refletômetro com lâmpada de tungstênio modelo Smoke Stain Refletometer, M43D Diffusion System, com o auxílio de uma curva de calibração.

A análise laboratorial e processamento dos cálculos de concentração de MP2,5 e black carbon foram conduzidos nas instalações do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), operado em conjunto com o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. Foram medidas a temperatura e a umidade diária com o aparelho portátil Thermohigrômetro Digital, modelo 970, Kiltler.

Estatísticas descritivas dos dados incluíram número de medidas, freqüências, médias e desvio-padrão (DP), mediana, mínimo e máximo, para as variáveis ambientais e para as perguntas do questionário. Para cada criança, foi calculada a mediana de suas medidas de PFE. A variação da medida diária foi calculada considerando a mediana das medidas da criança como referência (subtraiu-se a mediana individual da medida de PFE naquele dia e dividiu-se a diferença pela mediana). A prevalência diária de crianças com diminuição do PFE de pelo menos 20% em relação à sua mediana foi calculada com o número de crianças com decréscimo de PFE dividido pelo número total de crianças avaliadas naquele dia.13 Obteve-se a associação entre as concentrações diárias de MP2,5 e as prevalências diárias de decréscimos de PFE, categorizadas em prevalência zero (nenhuma criança naquele dia com decréscimo de PFE), de 0,1% a 4,9% e maior ou igual a 5%. As comparações dos resultados foram feitas com o teste qui-quadrado, Fisher, test-t, Mann-Whitney ou Anova. O limite para significância estatística considerado foi p < 0,01 devido às múltiplas comparações.

A análise estatística utilizou o aplicativo computacional SPSS versão 15.

O estudo teve a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Processo nº 5303/2007).

 

RESULTADOS

Dos 772 participantes, 53,3% eram do sexo masculino, com média de idade de 12,9 anos (DP = 1,11), 48,6% tinham entre 13 e 14 anos e 92,5% moravam na zona urbana.

Sintomas de asma ativa tiveram prevalência de 11%. Não houve diferença nas prevalências de sibilo alguma vez na vida e sintomas de asma ativa entre os sexos (Tabela 1).

Maiores freqüências de história de outra doença respiratória (47,5% vs. 16,7%, p < 0,001) e de internação por problemas respiratórios (30,2% vs. 10,8%, p < 0,001) foram observadas em crianças com sintomas de asma. Não foi observada associação entre asma e os fatores predisponentes estudados (Tabela 2). Presença de bronquite (p = 0,002) ou rinite (p < 0,001) na família apresentou associação com asma na criança.

A prevalência de sintomas de rinite atual (espirro, coriza ou obstrução nasal sem gripe ou resfriado nos últimos 12 meses) foi de 33,2%. Não houve diferença estatística significante entre sintomas de rinite ou seu diagnóstico prévio e sexo (Tabela 1). A Figura 1 mostra a prevalência de sintomas de rinite relatada por mês, nos últimos 12 meses, na população estudada, que foi maior nos meses de junho a setembro. Rinite associou-se à presença de rachadura ou mofo nas paredes (p = 0,009) e à presença de bronquite (p < 0,001), rinite (p < 0,001) ou asma (p = 0,008) na família (Tabela 2).

Os 131 alunos que realizaram as medidas de PFE tinham em média 12,7 anos (DP = 0,94), 51,8% eram do sexo masculino e 94,5% moravam na zona urbana. A comparação com os 641 alunos que não participaram do estudo de painel não mostrou diferença entre essas características ou entre as prevalências dos sintomas de asma e de rinite ou de fatores de risco.

As medidas de PFE foram feitas em 25 dias de aula, pois houve elevado número de feriados naquele período. Os alunos realizaram em média 9,9 medidas (dp = 0,38), com mínimo de sete e máximo de dez. A média do PFE foi de 295 (dp = 54) L/min, variando de 200 a 498 L/min.

A prevalência diária média de medida de PFE com valor pelo menos 20% menor que a mediana dos resultados de cada aluno foi de 2,1%, variando de 0% a 6,5% nos diversos dias de estudo.

Dentre as crianças que tiveram pelo menos uma medida de PFE com decréscimo de pelo menos 20% do valor de sua mediana, nenhuma tinha asma atual e 38,1% apresentaram rinite nos últimos 12 meses.

Houve problemas na amostragem ou determinação de MP2,5 em oito dias por danificação no filtro ou falhas na pesagem. A distribuição da concentração média diária do MP2,5 foi calculada para os 34 dias com medidas válidas. Não houve perdas nas medidas da concentração média diária de black carbon, da temperatura mínima e máxima e da umidade relativa do ar mínima e a máxima (Tabela 3).

 

 

A Figura 2 mostra a distribuição da concentração média do MP2,5 e de black carbon, de acordo com as prevalências diárias de decréscimo de PFE. A comparação das concentrações de MP2,5 e de black carbon entre os três grupos (prevalência zero, de 0,1% a 4,9% ou maior ou igual a 5%) não foi significante (p = 0,18 e p = 0,053, respectivamente).

 

DISCUSSÃO

Em comparação com as médias nacionais brasileiras,23 a prevalência de sintomas de asma ativa neste estudo foi menor (11% vs. 19%) e de rinite ativa foi maior (33,2% vs. 29,6%) em adolescentes de 13 e 14 anos.Na fase III do ISAAC,23 as prevalências de sintomas de asma variaram de 11,8% em Nova Iguaçu (RJ) a 30,5% em Vitória da Conquista (BA), e de rinite variaram de 17,4% em Nova Iguaçu a 47% em Belém (PA). As diferenças nessas prevalências são explicadas em parte por fatores ambientais (como poluição do ar), socioeconômicos (como alta densidade populacional e base da economia local, se agrícola ou industrial) e genéticos, como a sensibilização a alérgenos.11,24

O número de crianças avaliadas no presente estudo foi inferior ao do ISAAC (3.000 crianças), devido à inexistência na cidade desse número de adolescentes na faixa etária recomendada. Em compensação, a faixa etária foi ampliada para dez a 14 anos. Os resultados para crianças de 13 e 14 anos foram apresentados separadamente para facilitar a comparação com outros estudos.

Medidas da concentração do MP2,5 em Monte Aprazível em outubro e novembro ultrapassaram os padrões de qualidade do ar estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (25µg/m3) para média diária em alguns dias. Estudo realizado em Piracicaba6 (SP) mostrou concentração média de MP2,5 de 22,8 µg/m3 e de 10 µg/m3 no período de safra e de entre-safra, respectivamente. Em Araraquara (SP), grande produtora de cana-de-açúcar, dados da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambientalb mostraram importante aumento da poeira total em suspensão e do MP10 no período da safra canavieira, em comparação com o período de não safra.

A poluição decorrente da queima de biomassa tem sido associada à maior admissão hospitalar por problemas respiratórios em crianças e idosos,2,6 assim como a poluição veicular.10,26

O efeito de poluição na prevalência de asma é observado principalmente com poluentes relacionados ao tráfego de veículos, especialmente monóxido de carbono e dióxido de nitrogênio.12 A prevalência de sintomas de asma ativa entre adolescentes foi diretamente relacionada à poluição atmosférica no estado do Rio de Janeiro.19 Em Monte Aprazível, onde existe pouca poluição por tráfego, observou-se menor prevalência de sintomas de asma ativa do que em outros centros urbanos estudados no Brasil.23 Em Nova Iguaçu, a prevalência de sintomas de asma ativa foi semelhante à obtida em Monte Aprazível;14 ainda que seja o maior município da Baixada Fluminense e o segundo em população com alta densidade demográfica (1.449,60 hab/km2), muitas das escolas pesquisadas encontravam-se em áreas semi-rurais de baixo tráfego.

Apesar de a prevalência de sintomas de asma em Monte Aprazível estar entre os níveis mais baixos, quando comparada às observadas em outras cidades do Brasil, a freqüência de quatro ou mais crises nos últimos 12 meses (10,6% no total ou 8,7% nos escolares de 13 a 14 anos) foi maior que em outros estudos (de até 3%).3,14 Mesmo não havendo grande variação de temperatura ao longo do ano em Monte Aprazível, existe evidência de maior exacerbação da asma, que pode ser decorrente da exposição à poluição gerada pela queima da cana. A exposição a materiais particulados foi associada à inflamação neutrofílica em vias aéreas de indivíduos saudáveis e foi importante agente indutor de exacerbação da asma. Isso pode decorrer de mecanismos associados à inflamação, por efeito adjuvante de partículas ultrafinas.20 Poluentes podem piorar a asma, mesmo em concentrações relativamente moderadas, como relatado em revisão bibliográfica sobre efeitos adversos dos poluentes ambientais.9 Além disso, a transferência de crianças com asma leve não tratada de uma região urbana altamente poluída para outra rural, pouco poluída, mostrou melhora após uma semana da inflamação das vias aéreas, avaliada por diminuição de eosinófilos nasais e melhora da função pulmonar, avaliada pelo aumento no PFE.18 A freqüência de rinoconjuntivite em Monte Aprazível foi maior que a encontrada na maioria das cidades avaliadas no Brasil, com média de 14,6%,23 com número maior de episódios ocorrido no período de queima de cana-de-açúcar.

O efeito da poluição no PFE foi estimado pela prevalência diária de medidas abaixo da mediana de cada criança (decréscimo de pelo menos 20%), como sugerido por Hoek et al.13 A variabilidade das medidas de cada criança foi avaliada comparando com a mediana de suas próprias medidas. Dessa forma, os efeitos da idade, antropométricos e de gênero que ocorrem na faixa etária estudada não interferiram na análise. Embora sem significância estatística, provavelmente pelo pequeno número de dias avaliados, pode haver efeito agudo da poluição sobre a função pulmonar, uma vez que a prevalência diária de medidas com decréscimo de PFE aumentou com o aumento da concentração média de MP2,5 e de black carbon. Os efeitos da exposição a poluentes do ar são relatados mesmo com seus níveis baixos e não se conseguiu estabelecer um limiar de concentração, abaixo do qual não haveria efeito lesivo sobre a saúde das pessoas.5 Assim, a avaliação da exposição diária de poluente ambiental e de medidas do PFE mostrou que, mesmo com níveis aceitáveis de poluentes na maior parte dos dias, o MP10 e NO2 se associaram a diminuição da função pulmonar em crianças que vivem no Rio de Janeiro.8 A maioria dos estudos avalia o efeito da poluição ambiental produzida pelo tráfego na saúde.5,9,12,26 Em estudo experimental, a exposição de dose única e baixa de partículas ambientais produzidas pelo tráfego ou pela queima de cana induziram alterações significantes em camundongos, e as partículas de biomassa foram pelo menos tão tóxicas como as produzidas pelo tráfego.16

A prevalência de asma na vida é descrita como menor que a de asma atual.23 Esse achado é interpretado como subdiagnóstico de asma, i.e., existe uma parcela de pacientes com asma que não é diagnosticada. Em Monte Aprazível, prevalência de asma na vida foi maior que de sintomas de asma atual. Como o presente estudo incluiu crianças de dez a 14 anos, os questionários foram respondidos pelos pais, diferentemente de outros estudos com crianças de 13 a 14 anos. É possível que os pais tenham melhor memória do que os adolescentes sobre diagnósticos prévios de asma. Entretanto, na validação do questionário, houve concordância significante entre as respostas ao questionário do ISAAC dos adolescentes e de seus pais ou responsáveis, embora os pais tendessem a subestimar os sintomas que interferem pouco com as atividades diárias dos adolescentes.22 Por outro lado, pode haver diferença no diagnóstico dos serviços de saúde nas diversas localidades.

Maior prevalência de asma é encontrada no sexo feminino.7,15 A diferença observada no presente estudo não foi significante e pode ter ocorrido pelo menor número de participantes.

A asma não se associou a fatores predisponentes e antecedentes pessoais, resultado semelhante ao relatado em outro estudo.7 Entretanto, Maia et al15 encontraram associação com a presença de animais. Essa associação é difícil de determinar, pois o resultado depende da duração e intensidade da exposição ao animal, que varia se o animal fica dentro ou fora do domicílio. O presente estudo encontrou associação entre rinite e a presença de rachadura ou mofo nas paredes.

Asma e rinite associaram-se a antecedentes familiares para bronquite e rinite, o que está de acordo com evidências descritas para fatores genéticos e história familiar de alergia nessas afecções.11

A variação sazonal da prevalência de sintomas de rinite, como espirro, coriza ou obstrução nasal, sem estar resfriado, nos últimos 12 meses teve percentual mais elevado nos meses de junho a setembro, e a proporção de crianças que referiu esses sintomas em Monte Aprazível foi maior que a relatada em outros estudos.4 O aumento observado em Monte Aprazível ocorreu em meses do período de safra de cana-de-açúcar (abril a novembro) e conseqüentemente com a ocorrência de focos de queima, que pode elevar os níveis de poluição na cidade. Esse é também o período do inverno, quente e seco em Monte Aprazível, época de menor índice pluviométrico (média pluviométrica anual de 113,47 mm, chegando a 20 mm no mês de julho) e de baixa umidade do ar (mínimo de 10% durante a safra de 2007). Esses fatores dificultam a dispersão de poluentes do ar e propiciam o aparecimento de doenças respiratórias.

Os resultados do presente estudo mostraram prevalência de sintomas de asma menor e de rinite comparável às encontradas em outras cidades no Brasil com poluição veicular. Apesar da pouca variação de temperatura durante o ano, os resultados sugerem maior exacerbação de asma em Monte Aprazível. A cidade não tem indústrias poluentes e o tráfego de veículos é baixo, o que sugere que a poluição gerada pela queima da cana pode influir na ocorrência e exacerbação de sintomas respiratórios. Para melhor avaliação de seu papel, é necessária a medida contínua dos diversos poluentes e acompanhamento dos sintomas respiratórios durante as alterações sazonais e nos períodos de safra e entressafra da cana-de-açúcar.

 

AGRADECIMENTO

Ao Prof. Dr. Paulo Hilário Nascimento Saldiva, do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pelo apoio à concepção inicial do estudo, empréstimo dos medidores de MP2,5, fornecimento de filtros e condução das análises laboratoriais.

 

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Correspondência:
Dirce Maria Trevisan Zanetta
Departamento de Epidemiologia
Faculdade de Saúde Pública da USP
Av. Dr Arnaldo, 715
01246-904 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: dzanetta@usp.br

Recebido: 18/11/2009
Aprovado: 30/3/2011

 

 

Artigo baseado na dissertação de mestrado de Riguera D, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto em 2010.
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
a Ministério da Saúde; Rede Interagencial de Informações para a Saúde - RIPSA. IDB 2007: indicadores de mortalidade e fatores de risco [citado 2008 out 27]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?idb2007/d13.def
b Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental. Departamento de Qualidade Ambiental. Resumo dos estudos em locais influenciados diretamente pelas queimadas de cana [memorando]. São Paulo; 1999.

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E-mail: revsp@org.usp.br