ARTIGOS ORIGINAIS

 

Consumo de medicamentos por idosos, Goiânia, Brasil

 

Medicine use by the elderly in Goiania, Midwestern Brazil

 

Consumo de medicamentos por ancianos, Goiania, Brasil

 

 

Thalyta Renata Araújo SantosI; Dione Marçal LimaI; Adélia Yaeko Kyosen NakataniII; Lílian Varanda PereiraII; Geraldo Sadoyama LealIII; Rita Goreti AmaralI

IFaculdade de Farmácia. Universidade Federal de Goiás Universidade Federal de Goiás. Goiânia, GO, Brasil
IIFaculdade de Enfermagem. Universidade Federal de Goiás. Goiânia, GO, Brasil
IIIDepartamento de Ciências Biológicas - Campus Catalão. Universidade Federal de Goiás. Catalão, GO, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar o padrão de consumo de medicamentos entre idosos e sua associação com aspectos socioeconômicos e autopercepção de saúde.
MÉTODOS: Estudo de base populacional e delineamento transversal com 934 idosos de Goiânia, GO, Brasil, entre dezembro de 2009 e abril de 2010. Os dados foram coletados por meio de questionário. As variáveis estudadas foram: número de medicamentos consumidos, sexo, estado civil, escolaridade, tipo de moradia, idade, renda e autopercepção de saúde. Os medicamentos foram classificados segundo o Anatomical Therapeutic and Chemical Classification. Os medicamentos impróprios para idosos foram identificados segundo o Critério de Beers-Fick. Os testes utilizados foram Qui-quadrado (X2) e exato de Fisher e p foi considerado significativo quando < 0,05.
RESULTADOS: Os idosos consumiam 2.846 medicamentos (3,63 medicamentos/idoso). Os mais usuais atuavam no aparelho cardiovascular (38,6%). A prevalência de polifarmácia foi de 26,4% e da automedicação de 35,7%. Os medicamentos mais ingeridos por automedicação foram os analgésicos (30,8%); 24,6% dos idosos consumia medicamento considerado impróprio. Mulheres, viúvos, idosos com 80 anos ou mais e com pior autopercepção de saúde praticavam mais a polifarmácia. A maior prática da automedicação esteve associada com menor escolaridade e pior autopercepção de saúde.
CONCLUSÕES: O padrão do consumo de medicamentos por idosos foi semelhante ao encontrado em idosos de outras regiões do Brasil. O número de medicamentos usados, a prevalência das práticas da polifarmácia e automedicação e consumo de medicamentos impróprios estiveram dentro da média nacional.

Descritores: Idoso. Uso de Medicamentos. Quimioterapia Combinada. Medicamentos de Uso Contínuo. Automedicação. Auto-Avaliação Diagnóstica. Estudos Transversais.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze the pattern of use of medications use in aged people and associate it with socioeconomic aspects and with the self-rated health.
METHODS: A population-based cross-sectional design study with 934 elderly people from Goiania, Midwestern Brazil, between December 2009 and April 2010. Data were collected through a questionnaire. The dependent variable was the number of medications consumed and the independent variables were sex, marital status, education, type of residence, age, income, and self-rated health. Drugs were classified according to the Anatomical Therapeutic Chemical Classification. The inappropriate drugs for the elderly were identified according to the Beers-Fick criteria. The tests used were Chi-square and Fisher's exact test, p was considered significant when < 0.05.
RESULTS: The elderly consumed 2,846 medicines (3.63 medications/person). The most commonly consumed were those which act in the cardiovascular system (38.6%). The prevalence of polypharmacy was 26.4% and self-medication was 35.7%. The most used drugs for self-medication were analgesics (30.8%), 24.6% of the elderly consumed drug considered inappropriate. Women, widows, those aged 80 or over and with worse self-rated health were more likely to practiced more polypharmacy. Most self-medication was associated with lower levels of education and worse self-rated health.
CONCLUSIONS: The pattern of drug use by the elderly was similar to that found in the elderly in other regions of Brazil. The number of drugs used, the prevalence of self-medication and practice of polypharmacy and inappropriate drug use were within the national average.

Descriptors: Aged. Drug Utilization. Drug Therapy, Combination. Drugs of Continuous Use. Self Medication. Diagnostic Self Evaluation. Cross-Sectional Studies.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar el patrón de consumo de medicamentos entre ancianos y su asociación con aspectos socioeconómicos y autopercepción de salud.
MÉTODOS: Estudio de base poblacional y delineamiento transversal con 934 ancianos de Goiania, GO, Brasil, entre diciembre de 2009 y abril de 2010. Los datos fueron colectados por medio de cuestionario. Las variables estudiadas fueron: número de medicamentos consumidos, sexo, estado civil, escolaridad, tipo de vivienda, edad, renta y autopercepción de la salud. Los medicamentos fueron clasificados de acuerdo al Anatomical Therapeutic and Chemical Classification. Los medicamentos inadecuados para ancianos se identificaron según el Criterio de Beers-Fick. Las pruebas utilizadas fueron Chi-cuadrado (X2) y exacto de Fisher y el p fue considerado significativo al ser <0,05.
RESULTADOS: Los ancianos consumían 2.846 medicamentos (3,63 medicamentos/anciano). Los más consumidos actuaban en el sistema cardiovascular (38,6%). La prevalencia de polifarmacia fue de 26,4% y de la automedicación de 35,7%. Los medicamentos más consumidos por automedicación fueron los analgésicos (30,8%), 24,6% de los ancianos consumía medicamento considerado inadecuado. Mujeres, viudos, ancianos con 80 años o más y con peor autorpercepción de salud practicaban más la polifarmacia. La mayor práctica de automedicación estuvo asociada con menor escolaridad y peor autopercepción de salud.
CONCLUSIONES: El patrón de consumo de medicamentos por ancianos fue semejante al encontrado en ancianos de otras regiones de Brasil. El número de medicamentos usados, la prevalencia de las prácticas de polifarmacia y automedicación y consumo de medicamentos inadecuados estuvieron dentro del promedio nacional.

Descriptores: anciano. utilización de medicamentos. quimioterapia combinada. medicamentos de uso contínuo. automedicación. autoevaluación diagnóstica. estudios transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

O envelhecimento da população é considerado como um fenômeno mundial e configura um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea.3 O Brasil encontra-se nesse cenário. O Censo Populacional de 2010 mostrou que os idosos correspondiam a 12,0% da população, os quais representam 9,3% da população total de Goiás e 9,6% em Goiânia.a A maior prevalência de doenças crônicas faz dos idosos grandes consumidores de serviços de saúde e possivelmente o grupo mais medicalizado da sociedade. A população idosa contribui com aproximadamente 25,0% do total das vendas de medicamentos em países desenvolvidos.2

Propostas terapêuticas empregando o uso de vários medicamentos concomitantemente são inapropriadas e podem gerar sérias consequências para os idosos e até ser fatais, devido às alterações no metabolismo produzidas pelo avanço da idade.17 A não adesão ao tratamento farmacológico, as reações adversas, as interações medicamentosas, o alto custo com a medicação e hospitalizações são as principais consequências da prática da polifarmácia.7

O organismo do idoso apresenta alterações em suas funções fisiológicas que não devem ser desconsideradas. Essas alterações levam a uma farmacocinética diferenciada e maior sensibilidade aos efeitos terapêuticos e adversos dos fármacos.19 Alguns medicamentos são considerados impróprios para idosos por redução de sua eficácia terapêutica ou por apresentarem risco aumentado de efeitos adversos que superam seus benefícios.9

A automedicação coloca em risco a saúde da população idosa. Essa prática pode acentuar os riscos relacionados aos medicamentos prescritos, retardar o diagnóstico adequado e mascarar uma doença.23

O conhecimento sobre o consumo de medicamentos pela população idosa e seus fatores relacionados é imprescindível para que seja possível fazer redefinições em políticas públicas voltadas para a melhoria das condições de vida e saúde dos idosos. Este estudo teve como objetivo analisar o padrão do consumo de medicamentos em idosos, sua associação com aspectos socioeconômicos e autopercepção de saúde.

 

MÉTODOS

Estudo descritivo transversal, de base populacional, com 934 idosos de Goiânia, GO, de dezembro de 2009 a abril de 2010.

O tamanho da amostra foi calculado a partir do número de idosos no município em 2007 (7,0% de 1.249.645 habitantes) e frequência esperada de 30,0% para os objetivos específicos do inquérito epidemiológico, com intervalo de 95% de confiança, nível de significância de 5%, precisão absoluta de 5% e efeito do desenho da amostra por conglomerados (DEFF) de 1,8. Foi acrescentado 11,0% como possível índice de perda, chegando a uma amostra de 934 idosos.

Consideraram-se elegíveis indivíduos 60 anos e que dormiam mais de quatro dias por semana na residência onde foi realizada a entrevista. Foram excluídos aqueles que não estavam no domicílio no momento da visita. Os entrevistadores foram previamente treinados pela equipe da Revisi.

Estudo piloto foi realizado com 50 idosos para avaliar o instrumento a ser utilizado na pesquisa e para identificar o número médio de idosos em cada Setor Censitário (SC) do município.

Cada SC tinha em média 17 idosos. Assim, seriam necessários 56 SC para alcançar a amostra. Os SC foram sorteados aleatoriamente por meio de sistema eletrônico de randomização a partir dos 912 SC que compõem a zona urbana de Goiânia. Foram realizados sorteios para definir os quarteirões e as esquinas em que a coleta de dados deveria iniciar para todos os SC sorteados.

A primeira residência foi visitada a partir da esquina sorteada, excluindo todo imóvel que não fosse residencial. Quando não havia idoso na residência, o entrevistador deslocava-se para o próximo domicílio até identificar um idoso, reiniciando a busca sistemática. Ao visitar duas casas consecutivas com idosos residentes, a segunda casa não foi incluída. Prosseguiu-se assim até completar o total estimado de idosos nos SC para a amostra.

O idoso elegível era convidado a participar da pesquisa e a responder ao questionário. O questionário era composto por 12 seções e entregue à secretaria central para o controle de qualidade dos dados, após devidamente preenchido.

A variável dependente foi o número de medicamentos consumidos e as independentes foram sexo, estado civil, escolaridade, tipo de moradia, idade, renda e autopercepção de saúde.

As seguintes perguntas foram utilizadas: "Quais os medicamentos que o(a) senhor(a) consome regularmente?" e "Quem indicou esse medicamento foi o médico, vizinho, balconista da farmácia, você mesmo, algum familiar ou é de uma receita médica antiga?". Era pedido ao idoso que mostrasse os medicamentos consumidos e as respectivas receitas, e os nomes dos medicamentos eram copiados diretamente dos rótulos. Foi considerada receita antiga aquela com data superior a três meses.

As informações contidas no questionário foram utilizadas para verificar associação da polifarmácia e da automedicação com as condições socioeconômicas e com a autopercepção de saúde e entre as práticas da polifarmácia e da automedicação. O número de medicamentos foi contabilizado a partir dos citados pelos idosos e definiu-se a prática de polifarmácia como o consumo de cinco medicamentos ou mais.13 A seguinte pergunta foi utilizada para avaliar a autopercepção de saúde: "Em geral o(a) senhor(a) diria que sua saúde é ótima, boa, regular, ruim ou péssima?". Sobre o perfil socioeconômico, foram solicitadas informações sobre sexo, idade, escolaridade, estado civil, renda familiar e tipo de moradia.

O princípio ativo de cada medicamento foi identificado e foram classificados de acordo com o Anatomical Therapeutic and Chemical Classification - ATCb em 14 grandes grupos, que corresponderam ao grupo anatômico. Cada grupo foi subdividido em subgrupos, correspondendo ao grupo terapêutico. Os dois primeiros grupos (anatômico e subgrupo terapêutico) foram os estudados no presente estudo. Essa classificação não englobou os produtos naturais, classificados como fitoterápicos.

O Critério de Beers-Fick9 foi utilizado para identificar a prevalência do consumo de medicamentos impróprios pelos idosos. Foi verificado se cada medicamento utilizado pelos idosos estava na lista desse critério segundo princípio ativo.

As variáveis numéricas foram exploradas pelas medidas descritivas de centralidade e de dispersão e as variáveis categóricas foram exploradas por frequências simples absolutas e relativas. Para investigar associação entre as variáveis qualitativas, foi utilizado o teste de Qui-quadrado (X2) para n 5 e teste exato de Fisher quando n < 5, razão de prevalência (RP) e seus respectivos intervalos de confiança (IC). O nível de significância para todos os testes foi de p < 0,05.

Os dados foram digitados no programa Excel. As análises estatísticas foram realizadas no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 15.0 for Windows e EpiInfo 6.04.

O estudo foi aprovado pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Goiás (Protocolo nº 050/2009).

 

RESULTADOS

Responderam completamente ao questionário 83,8% dos idosos estudados. Destes, 65,0% eram do sexo feminino, 45,7% possuíam de 60 a 69 anos e a média de idade foi de 71,9 anos (mínima de 60 e máxima de 96 anos). Cerca de 50,0% tinham iniciado ou finalizado o primeiro ciclo do ensino fundamental, 49,5% eram casados e 32,0% viúvos e 80,0% dos idosos residiam em casa própria. Predominaram idosos que consideravam sua saúde como regular (46,5%).

Os idosos faziam uso de 2.846 medicamentos (média de 3,63 medicamentos por idoso) e consumiram pelo menos um medicamento no dia da entrevista. O número máximo de medicamentos foi 19. As mulheres usavam mais medicamentos que os homens (3,94 e 3,06, respectivamente, p < 0,001). A prevalência da prática da polifarmácia foi de 26,4%.

Adotando o critério de Beers-Fick, 24,6% dos idosos consumia pelo menos um medicamento impróprio. Dos 2.846 medicamentos, 6,8% eram considerados impróprios. Destes, 90,2% era proveniente de receita médica atual. Os medicamentos considerados impróprios mais consumidos foram os benzodiazepínicos de meia vida longa (34,2%) e os antidepressivos (16,0%) (Tabela 1).

Em relação à classificação anatômica, 38,6% dos medicamentos consumidos atuavam sobre o aparelho cardiovascular, seguindo os medicamentos com ação sobre o sistema nervoso (19,6%) e aparelho digestivo e metabolismo (17,1%). Segundo a classificação terapêutica, os mais consumidos foram os anti-hipertensivos (19,7%), seguidos dos analgésicos (9,1%), e do grupo das vitaminas, suplementos alimentares, tônicos e estimuladores de apetite (6,7%) (Tabela 2).

 

 

Cerca de 83,7% foram prescritos por receita médica atual e 16,2% foram usados por automedicação; 35,7% dos idosos relataram praticar esta, cujos medicamentos mais utilizados foram os analgésicos (30,8%), seguidos dos anti-hipertensivos (14,7%) e dos fitoterápicos (7,8%) (Tabela 3).

 

 

Sexo, estado civil, idade e autopercepção de saúde apresentaram associação significativa com a prática da polifarmácia (p < 0,05) (Tabela 4). A prática de polifarmácia foi mais frequente entre as mulheres (RP = 1,60), viúvos (RP = 1,50), idade > 80 anos (RP = 1,47) e autopercepção de saúde ruim (RP = 1,97).

Escolaridade, idade e autopercepção de saúde apresentaram associação com a prática da automedicação (p < 0,05). Essa prática foi menos frequente entre indivíduos com maior escolaridade (RP = 0,52), > 80 anos (RP = 0,74) e autopercepção de saúde ótima (RP = 0,43). Não houve associação entre a prática da polifarmácia e a automedicação (p > 0,05) (Tabela 5).

 

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo mostraram que a média de medicamentos consumidos por idoso no município de Goiânia foi maior que o observado em outras capitais brasileiras, como Porto Alegre, RS, e Fortaleza, CE,6,10 e inferior à encontrada em Belo Horizonte, MG.21 Essas desigualdades no número de medicamentos consumidos podem ser explicadas pelas diferenças em relação à situação dos serviços prestados à população e o tipo de modelo de atenção à saúde de cada região.14 O crescimento contínuo do consumo de medicamentos entre os idosos pode ser justificado pelo aumento da prevalência de doenças crônicas nessa faixa etária, bem como ao modelo de saúde que tem no medicamento sua principal forma de intervenção. No entanto, as implicações desse consumo precisam ser medidas e avaliadas quanto ao seu risco/benefício.7

A prevalência da prática da polifarmácia foi elevada, pois mais de ¼ dos idosos estiveram expostos a essa prática. Essa prevalência foi maior do que a observada em Belo Horizonte e semelhante à encontrada em Porto Alegre.10,14 Estudos nacionais apontam prevalência da polifarmácia entre 11,0% e 40,6%.14,18

A prática da polifarmácia por muitas vezes faz-se necessária, pois muitos idosos possuem doenças e sintomas múltiplos que requerem o uso de vários medicamentos para garantir melhor qualidade de vida. Essa prática não indica necessariamente que a prescrição e o uso dos fármacos estejam incorretos.7 Todavia, há altas taxas de prevalência da polifarmácia e o uso de vários medicamentos aumenta o risco de reações adversas e interações medicamentosas.7,14 É necessária uma abordagem mais criteriosa e sistemática para os idosos que realmente necessitam da polifarmácia.

Os idosos mais velhos praticavam com maior frequência a polifarmácia, assim como em outros estudos no Brasil.14,21 Essa correlação entre a polifarmácia e o aumento da idade pode estar relacionada à maior utilização de serviços de saúde pelos idosos mais velhos.13

Mulheres praticavam com maior frequência a polifarmácia, semelhante a outros estudos epidemiológicos nacionais.21,22 A maior utilização de medicamentos pelas mulheres idosas pode estar ligada a questões como ao fato de as mulheres viverem mais que os homens e conviverem por maior tempo com as doenças crônicas, à maior atenção que dão aos seus problemas de saúde e ao relato de maior demanda dos serviços de saúde.13

O número de idosos que relatou praticar automedicação é semelhante ao de outros estudos brasileiros. Mais de 30,0% dos idosos praticavam automedicação no nordeste e prevalência de 46,0% dessa prática foi observada em Minas Gerais.6,15 Na revisão de estudos sobre automedicação entre idosos foram encontradas taxas de 12,0% a 44,0%.1,16 Grande parte da população, inclusive a idosa, pratica automedicação para tratar pequenos e grandes sintomas. Relatos indicam o fácil acesso a medicamentos como fator importante nessa prática.15

Os analgésicos usados por automedicação são os mais frequentes, o mesmo observado em outros estudos brasileiros.4,14 O consumo de analgésicos por automedicação costuma ocupar efetivamente um lugar de destaque entre os idosos, considerando que o seu consumo está relacionado ao tratamento da dor e inflamação, sintomas comuns nessa fase.

Os anti-hipertensivos ocupam a segunda categoria de fármacos usados por automedicação. Isso demanda preocupação, mesmo que tenham sido prescritos em momentos anteriores. A hipertensão arterial sistêmica é uma doença crônica com agravos importantes e a utilização de medicamentos para o seu controle necessita de frequente acompanhamento. A maior causa de mortalidade entre idosos brasileiros é o acidente vascular cerebral, provavelmente devido à falta de controle sistemático dos fatores de risco.12

Os idosos com menor grau de escolaridade praticavam a automedicação com maior frequência. Em estudo realizado no nordeste do Brasil, os idosos mais desfavorecidos socioeconomicamente praticavam mais a automedicação.6 Isso pode ser explicado pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde e pela pior conscientização sobre os riscos que essa prática pode causar. Os idosos com 80 anos ou mais praticavam menos a automedicação, possivelmente devido à maior utilização de serviços de saúde em que o paciente pode ser mais bem assistido.13

Não foi encontrada associação entre as práticas de polifarmácia e automedicação. A alta prevalência da prática da polifarmácia foi devido às prescrições médicas e não à automedicação. Isso mostra a importância da conscientização dos prescritores em relação à prática da medicalização, especialmente entre os idosos.7

Mais da metade dos idosos classificaram a própria saúde como regular, ruim ou péssima. Esse achado foi melhor do que o observado em Bambuí11 e semelhante ao encontrado por Lima-Costa et al,12 utilizando dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD), de 2003, em que 56,4% referiram seu estado de saúde como regular, ruim ou péssimo. Classificar a saúde como ruim e péssima esteve associada com a prática da polifarmácia e da automedicação, resultados semelhantes ao de outros estudos farmacoepidemiológicos.11,14 Pacientes com autopercepção de saúde ruim buscam nos medicamentos, prescritos ou automedicados, uma solução para seus problemas de saúde.

A prevalência do consumo de medicamentos impróprios para idosos está dentro da faixa encontrada em outros estudos no Brasil (15,4% a 41,0%).8,18 Essa alta prevalência era em grande parte devido às prescrições médicas. Em estudo realizado no Rio de Janeiro, RJ, foi encontrado um consumo de 17,0% de medicamentos impróprios, dos quais 90,0% era devido às prescrições médicas.22 Esse fato reflete o desconhecimento dos prescritores em relação ao consumo de medicamentos impróprios para idosos, o que pode trazer sérias consequências clínicas e econômicas para o sistema de saúde.9

Os medicamentos impróprios mais consumidos neste estudo foram os benzodiazepínicos e os antidepressivos. Apesar das sérias consequências do consumo desses medicamentos pelos idosos, esse achado foi semelhante ao encontrado por Castellar et al.5 Os benzodiazepínicos possuem meia vida longa em idosos e consequente sedação prolongada com risco de quedas e fraturas. O mesmo ocorre para os antidepressivos, em que há forte possibilidade de ocorrerem efeitos anticolinérgicos (dificuldade respiratória, visão turva, aumento do ritmo cardíaco, diminuição de pressão arterial), hipotensão ortostática e estimulação do sistema nervoso central.9

Muitas vezes, o prescritor não conhece o perfil farmacológico desses medicamentos e suas possíveis consequências quando usados por idosos.7 Esse quadro não tende a diminuir. A própria visita aos serviços de saúde aumenta a chance de consumo de medicamentos impróprios, pois no Sistema Único de Saúde não há esquema de medicamentos mais adequados para consumo em idosos. Obreli Neto & Cuman20 (2010) verificaram redução significativa no consumo de medicamentos impróprios em pacientes acompanhados por um programa multiprofissional.

Os grupos de medicamentos mais consumidos foram semelhantes aos da literatura nacional e internacional.6,10,14,16,21 Os medicamentos para o sistema cardiovascular representaram a categoria mais comumente usada, o que é explicado pela alta prevalência de doenças cardiovasculares entre a população idosa.12 Os agentes anti-hipertensivos foram a classe terapêutica de maior consumo, o que concorda com a alta prevalência da hipertensão arterial sistêmica no Brasil.11

Apesar da importância dos resultados desse estudo, algumas limitações devem ser consideradas. O questionário envolve vários aspectos da saúde dos idosos e não é específico para o consumo de medicamentos. Tais observações, no entanto, não comprometem a importância do estudo. Investigações subsequentes devem avaliar, de forma mais abrangente, o consumo de medicamentos entre os idosos, com abordagem na adesão, dosagem, posologia e forma de administração dos medicamentos.

O padrão do consumo de medicamentos por idosos goianos foi semelhante ao encontrado em idosos de outras regiões do Brasil. O número de medicamentos consumidos, a prevalência das práticas da polifarmácia e automedicação e o consumo de medicamentos impróprios estiveram dentro da média nacional. Os grupos farmacológicos mais usados corresponderam ao tratamento das doenças mais frequentes na população idosa e estão de acordo com vários estudos no Brasil. Mulheres, viúvos, idosos com 80 anos ou mais e aqueles que consideram sua saúde como ruim praticavam a polifarmácia com maior frequência; a maior prática da automedicação esteve associada com menor escolaridade e pior autopercepção de saúde.

É necessária a contribuição dos profissionais de saúde para otimizar o uso racional de medicamentos por idosos e reduzir ao máximo as complicações decorrentes de seu consumo. Os resultados deste estudo podem servir de alerta aos gestores em saúde, a fim de adaptar a rede de atendimento em saúde para a real demanda dos idosos existentes, bem como preparar para o novo contingente de idosos, maior a cada ano.

 

AGRADECIMENTOS

À Secretaria Estadual de Saúde de Goiás e do Município de Goiânia pela contribuição na elaboração do projeto. Aos pesquisadores Sandro Batista, Eugênia Emília Madlum e Ana Luiza Lima pela contribuição no planejamento do trabalho, e a todos os pesquisadores da Rede de Vigilância à Saúde do Idoso de Goiânia pela participação no desenvolvimento dos trabalhos.

 

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Thalyta Renata Araújo Santos
Faculdade de Farmácia - UFG
Av. Universitária, esq. com 1ª Avenida, Setor Universitário
74605-220 Goiânia, GO, Brasil
E-mail: thalytarenata@hotmail.com

Recebido: 15/3/2012
Aprovado: 23/7/2012

 

 

Artigo baseado em dissertação de Mestrado de Thalyta Renata Araújo Santos, intitulada: "Análise do padrão do uso de medicamentos em idosos no município de Goiânia, Goiás", apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Goiás, no ano de 2012.
Trabalho financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Goiás, Edital 001/2007.
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
a Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010. Brasília; 2011 [citado 2011 jun 20]. Disponível em: http://www.censo2010.ibge.gov.br
b World Health Organization. Anatomical tharapeutic chemical - ATC classification index with defined daily doses - DDD's. Olso; 2000.

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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