Mobilidade social, estilo de vida e índice de massa corporal de adolescentes

Movilidad social, estilo de vida e índice de masa corporal en adolescentes

Marisa Luzia Hackenhaar Rosely Sichieri Ana Paula Muraro Regina Maria Veras Gonçalves da Silva Márcia Gonçalves Ferreira Sobre os autores

Resumos

OBJETIVO

Analisar a associação entre mobilidade social, estilo de vida e índice de massa corporal de adolescentes.

MÉTODOS

Estudo de coorte com 1.716 adolescentes de dez a 17 anos de idade, de ambos os sexos. Os adolescentes eram participantes de um estudo de coorte e nasceram entre 1994 e 1999. Os adolescentes foram avaliados em escolas públicas e privadas entre 2009 e 2011. O estilo de vida foi avaliado por meio de entrevista e a antropometria foi utilizada para o cálculo do índice de massa corporal. Para a classificação econômica na infância e na adolescência foram utilizados critérios preconizados pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Mobilidade social ascendente foi considerada como aumento em pelo menos uma classe econômica no período de dez anos. Utilizou-se regressão de Poisson para estimar a associação entre a mobilidade social ascendente e os desfechos avaliados.

RESULTADOS

Dos adolescentes (71,4% de seguimento da coorte), 60,6% apresentaram mobilidade social ascendente. Destes, 93,6% pertenciam à classe econômica D e 99,9% à E. Maior prevalência de ascensão social foi observada para escolares de cor da pele preta (71,4%) e parda (61,9%), matriculados na escola pública (64,3%) e cujas mães apresentaram menor escolaridade na primeira avaliação (67,2%) e na reavaliação (68,7%). A mobilidade social ascendente mostrou-se associada apenas aos comportamentos sedentários (p = 0,02) após ajuste para variáveis de confusão. A classe econômica na infância mostrou-se mais associada aos desfechos avaliados do que a mobilidade social ascendente.

CONCLUSÕES

A mobilidade social ascendente não mostrou associação com a maioria dos desfechos avaliados, possivelmente por ter sido discreta e porque o período considerado no estudo pode não ter sido suficiente para refletir mudanças substanciais no estilo de vida e no índice de massa corporal dos adolescentes.

Adolescente; Índice de Massa Corporal; Estilo de Vida; Mobilidade Social; Estudos de Coortes


OBJETIVO

Analizar la asociación entre la movilidad social, estilo de vida e índice de masa corporal en adolescentes.

MÉTODOS

Estudio de cohorte con 1.716 adolescentes de diez a 17 años de edad, de ambos sexos. Los adolescentes participaban de un estudio de cohorte y nacieron entre 1994 y 1999. Los adolescentes fueron evaluados en escuelas públicas y privadas entre 2009 y 2011. El estilo de vida fue evaluado por medio de entrevista y la antropometría fue utilizada para el cálculo del índice de masa corporal. Para la clasificación económica en la infancia y en la adolescencia se utilizaron criterios recomendados por la Asociación Brasileña de Empresas de Investigación. La movilidad social ascendente fue considerada como aumento en al menos una clase económica en el período de diez años. Se utilizó regresión de Poisson para estimar la asociación entre la movilidad social ascendente y los resultados evaluados.

RESULTADOS

De los adolescentes (71,4% de seguimiento de la cohorte), 60,6% presentaron movilidad social ascendente. De estos, 93,6% pertenecían a la clase económica D y 99,9% a la E. La mayor prevalencia de ascensión social fue observada en escolares con color de piel negra (71,4%) y parda (61,9%), matriculados en la escuela pública (64,3%) y cuyas madres presentaban menor escolaridad en la primera evaluación (67,2%) y en la reevaluación (68,7%). La movilidad social ascendente estuvo asociada sólo con los comportamientos sedentarios (p=0,02) posterior al ajuste para variables de confusión. La clase económica en la infancia se mostró más asociada con los resultados evaluados en comparación con la movilidad social ascendente.

CONCLUSIONES

La movilidad social ascendente no mostró asociación con la mayoría de los resultados evaluados, posiblemente por haber sido discreta y porque el período considerado en el estudio pudo no haber sido suficiente para reflejar cambios sustanciales en el estilo de vida y en el índice de masa corporal de los adolescentes.

Adolescente; Índice de Masa Corporal; Estilo de Vida; Movilidad Social; Estudios de Cohortes


INTRODUÇÃO

A mobilidade individual quanto ao nível socioeconômico durante a vida, denominada mobilidade social, é vista como possível fator relacionado à saúde. A mobilidade social parece ser acompanhada por melhora ou piora da saúde, dependendo da direção da mudança. 3. Blane D, Harding S, Rosato M. Does social mobility affect the size of the socioeconomic mortality differential?: evidence from the Office for National Statistics Longitudinal Study. J R Stat Soc Ser A Stat Soc . 1999;162(Pt.1):59-70. DOI:10.1111/1467-985X.00121
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,9. Heraclides A, Brunner E. Social mobility and social accumulation across the life course in relation to adult overweight and obesity: the Whitehall II study. J Epidemiol Community Health. 2010;64(8):714-9. DOI:10.1136/jech.2009.087692
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Estudos em países desenvolvidos avaliam o efeito da mobilidade social sobre o excesso de peso e hábitos de vida relacionados à saúde. Kendzor et al 1111 . Kendzor DE, Caughy MO, Owen MT. Family income trajectory during childhood is associated with adiposity in adolescence: a latent class growth analysis. BMC Public Health . 2012;12:611. DOI:10.1186/1471-2458-12-611
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(2012) observaram que crianças que se moveram para classes mais baixas ou estagnaram nas classes de menor renda ao longo do tempo apresentaram maior adiposidade comparadas às crianças com melhores trajetórias socioeconômicas. A mobilidade social em fases iniciais da vida pode estar relacionada a comportamentos inerentes à saúde, com implicações na vida adulta. Karvonen et al 1010 . Karvonen S, Rimpel AH, Rimpel MK. Social mobility and health related behaviours in young people. J Epidemiol Community Health. 1999;53(4):211-7. DOI: 10.1136/jech.53.4.211
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(1999) observaram que comportamentos saudáveis entre adolescentes finlandeses foram mais frequentes entre aqueles que ascenderam e menos frequentes entre aqueles que descenderam socialmente, quando comparados com os que permaneceram na mesma classe de origem. São escassos os estudos que avaliam o impacto da mobilidade social sobre a saúde dos adolescentes em países em desenvolvimento.

O Brasil é considerado um dos países mais desiguais do mundo, mesmo com os avanços no combate da pobreza. Entretanto, constatou-se novo formato na distribuição das classes socioeconômicas no País entre 2005 e 2010. Isso ocorreu devido ao ganho de renda que levou a grande mobilidade social. Cerca de 31 milhões dos brasileiros ascenderam socialmente em 2010. Desses, 19 milhões deixaram as classes D/E (mais baixas) e migraram para a classe C, e cerca de 12 milhões moveram-se para as classes A/B (mais elevadas). a a Castro JA, Vaz FM, organizadores. Situação social brasileira: monitoramento das condições de vida 1. Brasília (DF): IPEA; 2011 [citado 2012 jun 23]. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=10201

A situação socioeconômica do passado pode modificar a condição de vida atual do indivíduo. Barros et al 2. Barros AJD, Victora CG, Horta BL, Gonçalves HD, Lima RC, Lynch J. Effects of socioeconomic change from birth to early adulthood on height and overweight. Int J Epidemiol. 2006;35(5):1233-8. DOI:10.1093/ije/dyl160 (2006), avaliando uma coorte desde o nascimento até os 19 anos, em Pelotas, RS, observaram que, aqueles que apresentaram nível socioeconômico mais elevado no nascimento, tinham maior estatura aos 19 anos, independentemente do nível socioeconômico. Aitsi-Selmi et al 1. Aitsi-Selmi A, Batty GD, Barbieri MA, Silva AAM, Cardoso VC, Goldani MZ, et al. Childhood socioeconomic position, adult socioeconomic position and social mobility in relation to markers of adiposity in early adulthood: evidence of differential effects by gender in the 1978/79 Ribeirao Preto cohort study. Int J Obes (Lond). 2013;37(3):439-47. DOI:10.1038/ijo.2012.64.
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(2012), avaliando a coorte de Ribeirão Preto, mostraram que mulheres que ascenderam socialmente ou se mantiveram na classe mais elevada, ao longo do tempo, foram protegidas do excesso de adiposidade na vida adulta.

Melchior et al 1515 . Melchior M, Moffitt TE, Milne BJ, Poulton R, Caspi A. Why do children from socioeconomically disadvantaged families suffer from poor health when they reach adulthood? A life-course study. Am J Epidemiol . 2007;166(8):966-74. DOI:10.1093/aje/kwm155
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(2007) mostraram que condições socioeconômicas desfavoráveis na infância e adolescência determinaram maior dependência de álcool e tabaco e maiores fatores de risco cardiovascular na vida adulta na Nova Zelândia, mesmo que a situação socioeconômica atual fosse melhor que na vida pregressa.

Diante dos possíveis efeitos que a mobilidade social pode exercer sobre aspectos da saúde, o objetivo do presente estudo foi analisar a associação entre a mobilidade social, estilo de vida e índice de massa corporal de adolescentes.

MÉTODOS

Estudo realizado com adolescentes pertencentes a uma coorte de crianças nascidas entre 1994 e 1999. 5. Gonçalves-Silva RMV, Valente JG, Lemos-Santos MGF, Sichieri R. Tabagismo domiciliar em famílias com crianças menores de 5 anos no Brasil. Rev Panam Salud Publica . 2005;17(3):163-9. DOI:10.1590/S1020-49892005000300003 O estudo de base foi desenvolvido em postos de saúde sorteados na cidade de Cuiabá, MT, de agosto de 1999 a janeiro de 2000. Foram avaliadas 2.405 crianças de zero a cinco anos. Quando adolescentes, os participantes do estudo de base foram localizados com o auxílio do censo escolar (EducaCenso) e do Sistema de Informação sobre Mortalidade. Foram entrevistados 1.716 adolescentes de dez a 17 anos de ambos os sexos (taxa de seguimento de 71,4%). Mais informações sobre a busca e localização dos estudantes foi descrita por Gonçalves-Silva et al 6. Gonçalves-Silva RMV, Sichieri R, Ferreira MG, Pereira RA, Muraro AP, Moreira NF, et al. O censo escolar como estratégia de busca de crianças e adolescentes em estudos epidemiológicos . Cad Saude Publica . 2012;28(2):400-4. DOI:10.1590/S0102-311X2012000200019
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(2012).

Foram obtidas informações sociodemográficas e econômicas das famílias, por meio de entrevistas com os pais ou responsáveis quando as crianças tinham entre zero e cinco anos. Os dados sobre a adolescência foram obtidos por entrevista, utilizando-se questionário com informações econômicas, sociodemográficas e de estilo de vida.

Os critérios preconizados pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) foram utilizados para avaliação da classe econômica b b Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Códigos e guias: CCEB – Critério de Classificação Econômica Brasil. São Paulo: ABEP; 2003 [citado 2012 mar 10]. Disponível em: http://www.abep.org/novo/Content.aspx?ContentID=302 ,c c Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Códigos e guias: CCEB – Critério de Classificação Econômica Brasil. São Paulo: ABEP; 2008. [citado 2012 mar 10]. Disponível em: http://www.abep.org/novo/Content.aspx?ContentID=302 (acumulação de bens materiais; poder aquisitivo; escolaridade do chefe da família). As famílias foram classificadas em níveis socioeconômicos (A: mais elevada a E: mais baixa). A variável mobilidade social foi gerada a partir da diferença entre a classe econômica das famílias em 1999/2000 b b Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Códigos e guias: CCEB – Critério de Classificação Econômica Brasil. São Paulo: ABEP; 2003 [citado 2012 mar 10]. Disponível em: http://www.abep.org/novo/Content.aspx?ContentID=302 e 2009/2011, c c Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Códigos e guias: CCEB – Critério de Classificação Econômica Brasil. São Paulo: ABEP; 2008. [citado 2012 mar 10]. Disponível em: http://www.abep.org/novo/Content.aspx?ContentID=302 analisada em duas categorias: mobilidade social ascendente e mobilidade social não ascendente. Foram consideradas famílias com mobilidade social ascendente aquelas com aumento de pelo menos uma classe econômica no período. Famílias que sofreram rebaixamento (3,3%) foram agrupadas com as que mantiveram a classe econômica, por não haver alteração substancial nos resultados.

A raça/cor foi autorreferida e classificada em: branca, preta, parda, amarela e indígena. d d Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Tendências demográficas: uma análise dos resultados da amostra do censo demográfico 2000. Rio de Janeiro; 2004. (Estudos e Pesquisas. Informação Demográfica Socioeconômica, 13). [citado 2012 out 21]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/tendencias_demograficas/tendencias.pdf Os adolescentes de cor amarela e os indígenas foram agrupados pela baixa frequência observada. A escolaridade materna na infância, na adolescência e a escolaridade do chefe da família foi avaliada em anos completos de estudo e agrupadas em três categorias: ≤ 8, 9 a 11 e > 11.

Definiram-se como estilo de vida comportamentos que poderiam interferir na saúde dos adolescentes, como: exposição ao tabagismo no domicílio; experimentação de tabaco e bebidas alcoólicas; comportamentos sedentários; nível de atividade física; frequência de consumo de refeições e de alguns itens alimentares.

A informação sobre a exposição ao tabagismo no domicilio foi obtida por pergunta direta sobre a existência de fumantes no domicilio. As perguntas sobre experimentação de tabaco e bebidas alcoólicas foram extraídas do questionário da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). e e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar – PeNSE 2009. Rio de Janeiro; 2009 [citado 2012 jul 10]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/pense/pense.pdf

Os comportamentos sedentários foram avaliados pelas horas despendidas assistindo televisão ou utilizando computador e/ou videogame . Os adolescentes responderam às seguintes questões: (1) Em um dia de semana comum, quantas horas você assiste televisão? (2) Em um dia de semana comum, quantas horas você utiliza o computador e/ou videogame ? (Comportamento sedentário: uso de televisão e/ou computador e/ou videogame por período ≥ 4 horas/dia). 1818 . Silva KS, Nahas MV, Peres KG, Lopes AS. Fatores associados à atividade física, comportamento sedentário e participação na Educação Física em estudantes do Ensino Médio em Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica. 2009;25(10):2187-200. DOI:10.1590/S0102-311X2009001000010
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O nível de atividade física foi classificado segundo critérios adotados pela World Health Organization (2008) f f World Health Organization, Regional Office for Europe. Inequalities in young people´s health: health behaviour in school-aged children International report from 2005/2006 survey. Copenhagen; 2008. (Health Policy for Children and Adolescents, 5). [citado 2012 dez 11]. Disponível em: http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0005/53852/E91416.pdf e categorizado em dois grupos: inativos (prática de atividade física < 300 minutos/semana) e ativos (prática ≥ 300 minutos/semana).

A análise da frequência de consumo de refeições considerou as três principais do dia: desjejum, almoço, jantar. Adotou-se o ponto de corte de ≥ 5x/semana como frequência desejável. Considerou-se o ponto de corte > 2x/semana para a prática de substituição do jantar por lanche.

O consumo alimentar foi obtido por meio do Questionário de Frequência Alimentar qualitativo, adaptado para adolescentes. 1717 . Rodrigues PRM, Pereira RA, Cunha DB, Sichieri R, Ferreira MG, Vilela AAF, et al. Fatores associados a padrões alimentares em adolescentes: um estudo de base escolar em Cuiabá, Mato Grosso. Rev Bras Epidemiol . 2012;15(3):662-74. DOI:10.1590/S1415-790X2012000300019
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Avaliou-se a frequência de consumo de alimentos considerados marcadores da alimentação dos adolescentes ou por serem alimentos saudáveis, e e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar – PeNSE 2009. Rio de Janeiro; 2009 [citado 2012 jul 10]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/pense/pense.pdf categorizada em ≤ 1x/semana e > 1x/semana.

A avaliação antropométrica foi realizada segundo técnicas preconizadas por Gordon et al 7. Gordon CC, Chumlea WC, Roche AF. Stature, recumbent length, and weight. In: Lohman TG, Roche AF, Martorell R, editors. Anthropometric standardization reference manual. Champaign: Human Kinetics Books; 1988. p.3-8. (1988). Aferiu-se o peso em balança eletrônica, marca TANITA (modelo UM-080), com variação de 0,1 kg e capacidade de 150 kg. Para a mensuração da estatura, utilizou-se antropômetro portátil da marca Sanny, com variação de 1 mm e extensão de 210 cm. Foram realizadas duas mensurações de estatura, admitindo variação máxima de 0,5 cm entre elas. A média das duas medidas foi utilizada nas análises.

O Índice de Massa Corporal (IMC) foi avaliado segundo sexo e idade e expresso em z-score, 1616 . Onis M, Onyango AW, Borghi E, Siyam A, Nishida C, Siekmanna J. Development of a WHO growth reference for school-aged children and adolescents. Bull World Health Organ . 2007;85(9):660-7. DOI:10.1590/S0042-96862007000900010
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adotando-se a classificação: baixo peso (< -2); eutrofia (≥ -2 e ≤ +1); sobrepeso (> +1 e ≤ +2) e obesidade (> +2). As categorias sem excesso de peso (baixo peso e eutrofia) e com excesso de peso (sobrepeso e obesidade) foram utilizadas nas análises.

Na análise bivariada, o teste do Qui-quadrado de Pearson foi aplicado nas comparações entre as proporções. A correção de Bonferroni foi empregada para localizar as diferenças estatisticamente significativas entre as comparações das múltiplas proporções nos diferentes grupos. A análise de regressão de Poisson foi utilizada para o controle das variáveis de confusão em modelos construídos para cada variável resposta e teve como variável explicativa principal a mobilidade social ascendente. Foram construídos dois modelos para cada desfecho: o primeiro ajustado para a escolaridade materna e classe econômica na infância; o segundo ajustado para a classe econômica na infância. Foi estabelecido em 5% o limite de rejeição da hipótese de nulidade para todos os testes estatísticos (p ≥ 0,05).

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário Júlio Muller/UFMT (Protocolo n o 651/CEP-HUJM/2009). Os pais ou responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da coleta de dados.

RESULTADOS

Foram avaliados 1.716 adolescentes com média de idade de 12,2 anos (desvio padrão = 1,5 ano). A mobilidade social ascendente entre a infância e adolescência foi observada para 60,6% dos adolescentes.

A mobilidade social mostrou-se predominantemente ascendente. Adolescentes que pertenciam às classes econômicas D (93,6%) e E (99,9%) na infância apresentaram as maiores prevalências de ascensão.

A mobilidade ascendente ocorreu em todos os grupos de raça/cor e atingiu maior percentual entre escolares de cor de pele preta (71,4%) e parda (61,9%) e foi mais expressiva (64,3%) entre os da escola pública (Tabela 1). Aqueles cujas mães apresentaram menor escolaridade na infância (67,2%) e na adolescência ascenderam socialmente com maior frequência (Tabela 1).

Tabela 1
. Mobilidade social ascendente segundo características sociodemográficas dos adolescentes, 2009 a 2011. (N = 1.716)

A mobilidade social ascendente mostrou associação direta com o tabagismo no domicílio e inversa com a experimentação de bebidas alcoólicas e com o excesso de peso na análise bivariada (Tabela 2). Não foi observada associação significativa da mobilidade social ascendente com a experimentação de tabaco, com os comportamentos sedentários e com o nível de atividade física (Tabela 2).

Tabela 2
. Estilo de vida e o índice de massa corporal segundo a mobilidade social ascendente dos adolescentes, 2009 a 2011. (N = 1.716)

Houve menor frequência do hábito de almoçar e de substituir o jantar por lanches, bem como maior frequência de realização do jantar entre os adolescentes que apresentaram mobilidade social ascendente (Tabela 3). A frequência de consumo de salgados em pacote, açúcar e frutas foi maior para os adolescentes que ascenderam socialmente e o consumo de achocolatado em pó foi menor nesse grupo (Tabela 4).

Tabela 3
. Consumo de refeições segundo a mobilidade social ascendente dos adolescentes, 2009 a 2011. (N = 1.716)
Tabela 4
. Frequência de consumo de alimentos segundo a mobilidade social ascendente dos adolescentes, 2009 a 2011. (N = 1.716)

A mobilidade social ascendente associou-se com os comportamentos sedentários no modelo ajustado para a escolaridade materna e classe econômica na infância, e no modelo ajustado somente para a classe econômica na infância após ajuste para variáveis de confusão (Tabela 2). Quando a mobilidade social ascendente foi ajustada pela escolaridade materna e classe econômica na infância, esta explicou o tabagismo no domicílio, o nível de atividade física, a frequência da realização do jantar, a substituição do jantar por lanche e a frequência de consumo de achocolatado em pó. A escolaridade materna na infância apresentou associação positiva com o excesso de peso na adolescência. Quando a mobilidade social ascendente foi ajustada exclusivamente pela classe econômica na infância, as mesmas associações foram observadas, além de associação adicional com o consumo de salgados em pacote (associação inversa), com o consumo de leite e com o excesso de peso (associação direta).

DISCUSSÃO

A classe econômica na infância mostrou-se mais associada aos desfechos analisados do que a mobilidade social ascendente no período avaliado. A grande proporção de ascensão social observada principalmente entre as famílias de menor classe econômica concorda com a importante mudança na estrutura social brasileira ocorrida de 2005 a 2008. A participação da população no estrato de renda baixa encolheu 22,8% nesse período, resultado direto da mobilidade ascendente de 11,7 milhões de pessoas para estratos de renda mais elevados. a a Castro JA, Vaz FM, organizadores. Situação social brasileira: monitoramento das condições de vida 1. Brasília (DF): IPEA; 2011 [citado 2012 jun 23]. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=10201

Maior proporção de adolescentes apresentou mobilidade social ascendente entre os de cor preta e parda. Esses resultados confirmam aqueles publicados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a a Castro JA, Vaz FM, organizadores. Situação social brasileira: monitoramento das condições de vida 1. Brasília (DF): IPEA; 2011 [citado 2012 jun 23]. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=10201 que mostrou aumento da população negra nos estratos de renda média e, sobretudo, superior (25,6% em 1998 para 33,7% em 2008).

A mobilidade social ascendente entre os participantes deste estudo foi mais frequente para aqueles que apresentavam condições mais desfavoráveis na primeira avaliação (1999/2000), por pertenceram a uma classe econômica mais baixa e por serem filhos de mães com menor escolaridade. Estudo com homens finlandeses mostrou que a escolaridade pode contribuir para a melhoria da classe social. Mesmo entre indivíduos de origem social pobre, mas que tinham concluído pelo menos o ensino médio, a chance de apresentar ascensão social era maior do que os com educação primária. 1212 . Koivusilta L, Rimpelä A, Rimpelä M. Health related life style in adolescence predicts adult educational level: a longitudinal study from Finland. J Epidemiol Community Health .1998;52(12):794-801. DOI:10.1136/jech.52.12.794
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No Brasil, segundo o IPEAa (2011), a escolaridade do segmento populacional com 11 anos e mais de estudo cresceu sua participação relativa no estrato de maior renda (40% em 1998 para 55% em 2008) e na base da pirâmide social (3,7% em 1998 para 12,4% em 2008). Essa tendência quanto à escolaridade materna foi observada nesse estudo, havendo redução de 29% na frequência de mães com escolaridade ≤ 8 anos de estudo.

Os adolescentes de escola pública foram os que mais ascenderam socialmente no período, reforçando a hipótese de que os mais pobres tiveram maior ascensão. Esses resultados confirmam a melhoria das condições sociais no País para as classes menos favorecidas da população.

Mobilidade social ascendente mostrou associação independente com os comportamentos sedentários. Uma das hipóteses para esse resultado é que o período avaliado pode não ter sido suficiente para que ocorressem mudanças significativas, tanto no estilo de vida quanto no IMC dos adolescentes. Não foi possível identificar o momento exato em que ocorreu a mudança da classe econômica das famílias. No entanto, um padrão persistente de desigualdade social pode contribuir para a adoção de estilos de vida pouco saudáveis e para o aumento da prevalência de obesidade em algumas populações. 4. Costa-Font J, Nernández-Quevedo C, Jiménez-Rubio D. Income inequalities in unhealthy life styles in England and Spain. Econ Hum Biol . 2013. DOI:10.1016/j.ehb.2013.03.003 [Epub ahead of print]
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A redução da desigualdade social observada nos últimos anos no Brasil deve-se, em parte, à criação de programas sociais de redistribuição de renda pelo governo, como o Programa Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada, além da maior oferta de linhas de crédito. Essa queda pode representar apenas a redução da extrema pobreza, não sendo suficiente para promover mudanças significativas nas condições de vida da população.

Não foi observada associação da experimentação de tabaco e bebidas alcoólicas com a classe econômica na infância. Outros fatores podem ser mais relevantes para a experimentação de álcool e tabaco, uma vez que essas práticas estão mais associadas às características próprias da idade, como curiosidade, necessidade de aceitação pelo grupo, presença de conflitos psicossociais e conquista de algum grau de independência. 1919 . Tavares BF, Béria JU, Lima MS. Fatores associados ao uso de drogas entre adolescentes escolares. Rev Saude Publica. 2004;38(6):787-96. DOI:10.1590/S0034-89102004000600006
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A classe econômica desfavorável na infância mostrou-se importante fator associado ao tabagismo no domicílio na primeira avaliação dessa coorte 5. Gonçalves-Silva RMV, Valente JG, Lemos-Santos MGF, Sichieri R. Tabagismo domiciliar em famílias com crianças menores de 5 anos no Brasil. Rev Panam Salud Publica . 2005;17(3):163-9. DOI:10.1590/S1020-49892005000300003 e na adolescência. Segundo a World Health Organization, g g World Health Organization. Report on the global tobacco epidemic, 2008: the MPOWER package. Geneva; 2008 [citado 2013 jan 10]. Disponível em: http://www.who.int/tobacco/mpower/mpower_report_full_2008.pdf a prevalência de tabagistas é maior entre os grupos populacionais mais desfavorecidos economicamente. O menor grau de escolaridade e de acesso às informações entre os que pertencem às classes econômicas mais baixas são fatores que podem explicar a maior prevalência de tabagismo.

O nível de atividade física dos adolescentes mostrou associação inversa com a classe econômica na infância. Esse resultado pode estar associado ao critério utilizado para mensurar o nível de atividade física, pois considerou o deslocamento para a escola a pé ou de bicicleta, práticas mais comuns entre os adolescentes de menor renda. Os níveis de participação na atividade física de lazer podem ser limitados por fatores relacionados à falta de segurança, à redução do tempo ou mesmo ausência das aulas de educação física nas escolas em países emergentes. 1818 . Silva KS, Nahas MV, Peres KG, Lopes AS. Fatores associados à atividade física, comportamento sedentário e participação na Educação Física em estudantes do Ensino Médio em Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica. 2009;25(10):2187-200. DOI:10.1590/S0102-311X2009001000010
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O tipo de atividade física pode variar em função do nível socioeconômico. Rapazes de nível socioeconômico mais baixo são induzidos ao mercado de trabalho mais precocemente, reduzindo o tempo para atividades de lazer ativo e prática de esportes. Rapazes pertencentes ao nível socioeconômico mais elevado frequentam clubes esportivos e academias de ginástica, e participam de atividades fisicamente mais intensas. Moças pertencentes ao nível socioeconômico mais baixo com frequência precisam assumir tarefas domésticas que envolvem trabalho manual de moderada intensidade, enquanto moças pertencentes ao nível socioeconômico mais elevado não necessitariam realizar essas atividades. 8. Guedes DP, Guedes JERP, Barbosa DS, Oliveira JA. Níveis de prática de atividade física habitual em adolescentes. Rev Bras Med Esporte. 2001;7(6):187-99. DOI:10.1590/S1517-86922001000600002
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Os comportamentos sedentários mostraram associação com a mobilidade social ascendente e com a classe econômica na infância. Mesmo que a ascensão social tenha sido discreta, foi suficiente para que os adolescentes desfavorecidos economicamente tivessem maior acesso aos equipamentos eletrônicos (TV, videogame , computadores), o que pode ser explicado pela maior oferta de linhas de crédito. Comportamentos sedentários são mais comuns entre jovens pertencentes a famílias economicamente privilegiadas, 8. Guedes DP, Guedes JERP, Barbosa DS, Oliveira JA. Níveis de prática de atividade física habitual em adolescentes. Rev Bras Med Esporte. 2001;7(6):187-99. DOI:10.1590/S1517-86922001000600002
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provavelmente pela maior facilidade de aquisição de produtos eletrônicos. No entanto, Malta et al 1414 . Malta DC, Sardinha LMV, Mendes I, Barreto SM, Giatti L, Castro IRR, et al. Prevalência de fatores de risco e proteção de doenças crônicas não transmissíveis em adolescentes: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), Brasil, 2009. Cienc Saude Coletiva. 2010;15(Supl 2):3009-19. DOI:10.1590/S1413-81232010000800002
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(2010) observaram maior prevalência de tempo gasto assistindo televisão entre os escolares de escolas públicas, mostrando que podem existir diferenças nas associações encontradas a depender do comportamento sedentário em questão.

Não foi observada associação significativa entre mobilidade social ascendente e excesso de peso após ajuste para classe econômica na infância. A escolaridade materna e a classe econômica na infância mostraram associação direta com o excesso de peso na adolescência. Melhores condições econômicas são fatores que contribuem para o excesso de peso em adolescentes de países de baixa e média renda. 1313 . Leal VS, Lira PIC, Oliveira JS, Menezes RCE, Sequeira LAS, Arruda Neto MA, et al. Excesso de peso em crianças e adolescentes no Estado de Pernambuco, Brasil: prevalência e determinantes. Cad Saude Publica . 2012;28(6):1175-82. DOI:10.1590/S0102-311X2012000600016
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A Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF (2008/2009) mostrou maiores prevalências de obesidade em adolescentes de escolas privadas brasileiras. h h Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de Orçamentos Familiares - POF 2008-2009: antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro; 2010 [citado 2012 out 20]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pof/2008_2009_encaa/ O maior poder de compra das famílias de classes econômicas mais elevadas pode explicar esses resultados pela maior disponibilidade de alimentos e maior possibilidade de adoção de comportamentos sedentários.

Classe econômica na infância associou-se com o consumo de refeições. O hábito de jantar foi mais frequente entre os adolescentes de menor nível socioeconômico na infância; em contrapartida, a substituição do jantar pelo lanche foi mais frequente entre aqueles pertencentes às classes econômicas mais elevadas. Resultados da POF (2008/2009) i i Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de Orçamentos Familiares - POF 2008-2009: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro; 2011 [citado 2012 set 18]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pof/2008_2009_analise_consumo/pofanalise_2008_2009.pdf mostraram que a dieta tradicional brasileira é mais consumida na população de menor renda. Alimentos processados e prontos para consumo, utilizados em lanches, são mais consumidos nas classes econômicas mais altas por apresentarem custo mais elevado.

Uma limitação deste estudo foi o critério utilizado para medir a mobilidade social. A classificação econômica das famílias adotada pela ABEP considera a acumulação de bens, que podem ter sido adquiridos pelo aumento das linhas de crédito e não necessariamente por um ganho real de poder aquisitivo. Apesar de esse critério não ter sido proposto originalmente para utilização em estudos que avaliam desfechos relacionados à saúde e bem-estar social, seu emprego em estudos epidemiológicos é de grande utilidade.

A continuidade de seguimento dessa coorte e o refinamento metodológico para medir a mobilidade social poderão contribuir para avaliações futuras do efeito da redução das desigualdades sociais nos eventos relacionados à saúde.

Em conclusão, este estudo não mostrou associação da mobilidade social ascendente com a maioria dos desfechos avaliados, possivelmente por ter sido discreta ou porque o período avaliado pode não ter sido suficiente para refletir mudanças substanciais no estilo de vida e no IMC dos adolescentes. Contudo, a ascensão social pode influenciar o nível de saúde e a qualidade de vida, embora não assegure, por si só, a adoção de um estilo de vida saudável. São necessárias políticas públicas de incentivo à alimentação saudável, à prática de atividade física e à redução dos comportamentos sedentários.

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Histórico

  • Recebido
    14 Dez 2012
  • Aceito
    1 Jul 2013
  • Publicação
    Out 2013
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@org.usp.br