Autopercepção da saúde bucal entre adultos na região Nordeste do Brasil

Auto percepción de la salud bucal entre adultos en la región Noreste de Brasil

Edivânia Barbosa do Vale Antônio da Cruz Gouveia Mendes Rafael da Silveira Moreira Sobre os autores

Resumos

OBJETIVO:

Identificar a autopercepção da saúde bucal por adultos e variáveis associadas.

MÉTODOS:

Estudo realizado com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal SBBrasil 2010 relativos a 2.456 adultos de 35 a 44 anos da região Nordeste. A variável dependente foi a autopercepção da saúde bucal. As variáveis independentes foram agrupadas em: demográficas, predisposição/facilitação, condição de saúde bucal e relacionadas à autopercepção da necessidade de tratamento. O teste de Rao e Scott foi utilizado para avaliar a associação entre essas variáveis. O efeito das variáveis independentes sobre o desfecho foi avaliado pelo modelo de regressão logística multinominal segundo modelo hierarquizado, em duas etapas: análise simples e análise múltipla hierarquizada.

RESULTADOS:

A autopercepção positiva da saúde bucal foi observada em 37% dos participantes. No modelo final, as características diretamente associadas a essa autopercepção foram: ser branco, ter renda familiar superior a R$ 500,00, possuir número de bens acima da mediana, ter maior número de dentes hígidos, não apresentar sangramento, não necessitar de prótese, Oral Impacts on Daily Performances = 0, não necessitar de tratamento e ter ido ao dentista há menos de três anos.

CONCLUSÕES:

Os resultados mostram que a autopercepção da saúde bucal dos adultos residentes no Nordeste brasileiro está diretamente associada a uma estrutura multidimensional de fatores. As baixas condições econômicas associadas às condições clínicas deficientes dessa população causam grande impacto na sua autopercepção da saúde bucal.

Adulto; Autoavaliação Diagnóstica; Saúde Bucal; Fatores Socioeconômicos; Inquéritos de Saúde Bucal


OBJETIVO:

Identificar la auto percepción de la salud bucal por adultos y variables asociadas.

MÉTODOS:

Estudio realizado con los datos del SBBrasil 2010 relativos a 2.456 adultos de 35 a 44 años de la región Noreste. La variable dependiente fue la auto percepción de la salud bucal. Las variables independientes fueron agrupadas en: demográficas, predisposición/facilitación, condición de salud bucal y relacionadas a la auto percepción de la necesidad de tratamiento. La prueba de Rao y Scott fue utilizada para evaluar la asociación entre tales variables. El efecto de las variables independientes sobre el resultado fue evaluado por el modelo de regresión logística mulninomial según modelo jerarquizado, en dos etapas: análisis simple y análisis múltiple jerarquizado.

RESULTADOS:

La auto percepción positiva de la salud bucal fue observada en 37% de los participantes. En el modelo final, las características directamente asociadas a esa auto percepción fueron: ser blanco, tener renta familiar superior a R$ 500,00 poseer número de bienes por encima de la mediana, tener mayor número de dientes hígidos, no presentar sangramiento, no necesitar de prótesis, Oral Impacts on Daily Performances = 0, no necesitar de tratamiento y haber ido al dentista hace menos de tres años.

CONCLUSIONES:

Los resultados muestran que la auto percepción de la salud bucal de los adultos residentes en el Noreste Brasileño está directamente asociada a una estructura multidimensional de factores. Las bajas condiciones económicas asociadas a las condiciones clínicas deficientes de esa población causan gran impacto en su auto percepción de la salud bucal.

Adulto; Autoevaluación Diagnóstica; Salud Bucal; Factores Socioeconómicos; Encuestas de Salud Bucal


INTRODUÇÃO

O conceito de qualidade de vida está intimamente relacionado ao de autopercepção que, em saúde, pode ser entendida como a interpretação das experiências e do estado de saúde no contexto da vida diária. Baseia-se nas informações e nos conhecimentos de saúde e doença, modificados pela experiência, normas sociais e culturais de cada indivíduo. 4 . Bombarda-Nunes FF, Miotto MHMB, Barcellos LA. Autopercepção de saúde bucal do agente comunitário de saúde de Vitória, ES, Brasil. Pesq Bras Odontopediatria Clin Integr. 2008;8(1):7-14. DOI: 10.4034/1519.0501.2008.0081.0003
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, 11 11 . Martins AMEBL, Barreto SM, Silveira MF, Santa-Rosa TTA, Pereira RD. Self-perceived oral health among Brazilian elderly individuals. Rev Saude Publica. 2010;44(5):912-22. DOI: 10.1590/S0034-89102010005000028
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, 22 22 . Vasconcelos LCA, Prado Jr RR, Teles JBM, Mendes RF. Autopercepção da saúde bucal de idosos de um município de médio porte do Nordeste brasileiro. Cad Saude Publica. 2012;28(6):1101-10. DOI: 10.1590/S0102-311X2012000600009
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É reconhecida a importância dos aspectos sociais e psicológicos e é crescente o interesse no entendimento do impacto desses fatores também na saúde bucal dos indivíduos. Assim, muitos instrumentos de pesquisa, como questionários que visam estudar a influência da condição dos dentes na qualidade de vida, estão sendo desenvolvidos. Essas avaliações, realizadas por meio da autopercepção, são de grande importância para os profissionais da saúde, pois o comportamento de cada paciente é condicionado por essa percepção, pela importância dada a ela, pelos seus valores culturais e experiências passadas no sistema de saúde. 19 19 . Silva SRC, Rosell FL, Valsecki Jr A. Percepção das condições de saúde bucal por gestantes atendidas em uma unidade de saúde no município de Araraquara, São Paulo, Brasil. Rev Bras Saude Matern Infant. 2006;6(4):405-10. DOI: 10.1590/S1519-38292006000400007
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Alguns autores 18 18 . Silva SRC, Castellanos Fernandes RA. Autopercepção das condições de saúde bucal por idosos. Rev Saude Publica. 2001;35(4):349-55. DOI: 10.1590/S0034-89102001000400003
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, 19 19 . Silva SRC, Rosell FL, Valsecki Jr A. Percepção das condições de saúde bucal por gestantes atendidas em uma unidade de saúde no município de Araraquara, São Paulo, Brasil. Rev Bras Saude Matern Infant. 2006;6(4):405-10. DOI: 10.1590/S1519-38292006000400007
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afirmam que a autopercepção da saúde bucal apresenta aspectos multidimensionais, associados a condições físicas e subjetivas relacionadas à boca. A autopercepção da saúde bucal é diretamente influenciada por razões sociais, econômicas e psicológicas que só podem ser explicadas e compreendidas quando os pacientes são ouvidos e quando os seus autodiagnósticos e suas opiniões são levados em consideração.

Assim, para se compreenderem os aspectos multidimensionais da autopercepção da saúde bucal, foram criados alguns modelos que buscam compreender os fatores que estão relacionados a essa percepção, bem como a inter-relação existente entre esses fatores. Como exemplo, Gift et al 6 . Gift HC, Atchison KA, Drury TF. Perceptions of the natural dentition in the context of multiple variables. J Dent Res. 1998;77(7):1529-38. DOI: 10.1177/00220345980770070801
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(1998) conjecturaram o modelo conceitual teórico em que a autopercepção da saúde bucal é uma função de múltiplos fatores, incluindo características demográficas individuais (idade e cor de pele), fatores de predisposição e facilitação (escolaridade, renda, autopercepção da saúde geral e orientações recebidas), fatores da condição de saúde bucal e fatores de autopercepção da necessidade de tratamento. 22 22 . Vasconcelos LCA, Prado Jr RR, Teles JBM, Mendes RF. Autopercepção da saúde bucal de idosos de um município de médio porte do Nordeste brasileiro. Cad Saude Publica. 2012;28(6):1101-10. DOI: 10.1590/S0102-311X2012000600009
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Constata-se também que para observação da autopercepção de saúde bucal, bem como os múltiplos fatores que interferem nesse processo, vários índices também foram criados para se avaliarem os problemas funcionais, sociais e psicológicos decorrentes das doenças bucais. Como exemplo pode-se citar o Índice de Determinação da Saúde Bucal Geriátrica, 2 . Atchison KA, Dolan TA. Development of the Geriatric Oral Health Assessment Index. J Dent Educ. 1990;54(11):680-7. o Oral Health Impact Profile 20 20 . Slade GD, Spencer AJ. Social impact of oral conditions among older adults. Aust Dent J. 1994;39(6):358-64. DOI: 10.1111/j.1834-7819.1994.tb03106.x
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e o Dental Impact of Daily Living . 9 . Leão A, Sheiham A. Relation between clinical dental status and subjective impacts on dally living. J Dent Res. 1995;74(7):1408-13. DOI: 10.1177/00220345950740071301
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O Oral Impacts on Daily Performances (OIDP) é um indicador sociodental que avalia a frequência e a severidade dos impactos que afetam o desempenho diário dos indivíduos, por meio de nove questionamentos, fornecendo um escore de impacto individual. 7 . Gomes AS, Abegg C. O impacto odontológico no desempenho diário dos trabalhadores do Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cad Saude Publica. 2007;23(7):1707-14. DOI: 10.1590/S0102-311X2007000700023
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Em 2010 foi realizado um levantamento nacional sobre as condições de saúde bucal da população brasileira em que foi utilizado o OIDP. 17 17 . Roncalli AG, Silva NN, Nascimento AC, Freitas CHSM, Casotti E, Peres KG et al. Aspectos metodológicos do Projeto SB Brasil 2010 de interesse para inquéritos nacionais de saúde. Cad Saude Publica . 2012;28Suppl:40-57. DOI: 10.1590/S0102-311X2012001300006
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O presente artigo teve o objetivo de apresentar a autopercepção que os adultos residentes na região Nordeste têm da sua saúde bucal e identificar fatores associados.

MÉTODOS

O estudo utilizou os dados primários da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SBBrasil 2010), realizada pelo Ministério da Saúde, cujo objetivo foi descrever as condições de saúde bucal da população brasileira.

O SBBrasil 2010 analisou amostra de indivíduos residentes em 177 municípios e considerou cinco grupos etários: cinco, 12, 15-19, 35-44 e 65-74 anos. Um total de 37.519 indivíduos foram examinados, dos quais 10.390 residiam na região Nordeste. a a Ministério da Saúde (BR). Projeto SBBrasil 2010 – Pesquisa Nacional de saúde bucal. Resultados principais. Brasília: Ministério da Saúde; 2011. O plano amostral constou de domínios relativos às capitais e municípios do interior. As unidades primárias de amostragem foram: (a) município, para o interior das regiões, e (b) setor censitário, para as capitais. 17 17 . Roncalli AG, Silva NN, Nascimento AC, Freitas CHSM, Casotti E, Peres KG et al. Aspectos metodológicos do Projeto SB Brasil 2010 de interesse para inquéritos nacionais de saúde. Cad Saude Publica . 2012;28Suppl:40-57. DOI: 10.1590/S0102-311X2012001300006
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Foram realizados exames bucais para avaliar a prevalência e severidade dos principais agravos bucais, e aplicados questionários para coleta de dados sobre a condição socioeconômica, utilização de serviços odontológicos e percepção de saúde. Esses exames foram realizados nos domicílios selecionados por uma equipe de campo formada por um examinador e um anotador, que passaram por um processo de treinamento e calibração. 17 17 . Roncalli AG, Silva NN, Nascimento AC, Freitas CHSM, Casotti E, Peres KG et al. Aspectos metodológicos do Projeto SB Brasil 2010 de interesse para inquéritos nacionais de saúde. Cad Saude Publica . 2012;28Suppl:40-57. DOI: 10.1590/S0102-311X2012001300006
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Para este estudo, foram selecionados todos os indivíduos do SBBrasil 2010 residentes nos municípios pertencentes à região Nordeste do Brasil (capitais e interiores do estado) que tinham idades entre 35 e 44 anos. A variável dependente foi a autopercepção da saúde bucal, determinada por meio da seguinte pergunta: “ Com relação aos seus dentes e boca o (a) sr(a). está...? ”, com cinco opções de respostas: muito satisfeito, satisfeito, nem satisfeito nem insatisfeito, insatisfeito e muito insatisfeito . No entanto, para melhor compreensão e organização dos resultados deste artigo, essas respostas foram agrupadas em três categorias: 1) satisfeito (muito satisfeito + satisfeito), 2) nem satisfeito nem insatisfeito e 3) insatisfeito (insatisfeito + muito insatisfeito).

A seleção das variáveis independentes foi baseada no modelo teórico de Gift et al 6 . Gift HC, Atchison KA, Drury TF. Perceptions of the natural dentition in the context of multiple variables. J Dent Res. 1998;77(7):1529-38. DOI: 10.1177/00220345980770070801
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(1998) com algumas adaptações, resultando em um modelo composto por quatro blocos de variáveis ( Figura ).

Figura
. Modelo hierarquizado das variáveis independentes adaptado do modelo explicativo proposto por Gift et al 6 (1998).

É importante destacar que o índice OIDP, utilizado como uma das variáveis do bloco 4 (variáveis relacionadas à autopercepção da necessidade de tratamento), foi analisado por meio de um questionário a a Ministério da Saúde (BR). Projeto SBBrasil 2010 – Pesquisa Nacional de saúde bucal. Resultados principais. Brasília: Ministério da Saúde; 2011. que continha as nove funções avaliadas pelo OIDP. Foi perguntado se tarefas diárias foram afetadas por causa dos dentes: alimentar-se, escovar os dentes, falar, sorrir, dormir, trabalhar ou estudar, passear e praticar esportes. As respostas eram 0 = nenhum impacto e 1 = com um ou mais impactos.

A necessidade de prótese avaliada foi definida pelo profissional examinador. Os bens considerados foram: televisão, geladeira, aparelho de som, micro-ondas, telefone, telefone celular, máquina de lavar roupa, máquina de lavar louça, microcomputador e número de carros. A necessidade de tratamento avaliada foi a autorreferida pelo entrevistado.

A análise dos dados inicialmente foi realizada com a distribuição das variáveis independentes segundo a variável dependente, e o teste Rao & Scott 15 15 . Rao JNK, Scott AJ. On simple adjustments to chi-squared test with sample survey data. Ann Stat. 1987;15(1):385-97. DOI: 10.1214/aos/1176350273
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foi utilizado para testar a associação entre elas. Esse teste é específico para amostras complexas e apenas testa associação entre variáveis qualitativas, sem informar sobre qual categoria apresentou maior efeito sobre o desfecho.

Para testar o efeito das variáveis independentes sobre o desfecho, foi utilizado o modelo de regressão logística multinominal segundo o modelo hierarquizado proposto por Victora et al 23 23 . Victora CG, Huttly SR, Fuchs SC, Olinto MT. The role of conceptual frameworks in epidemiological analysis: a hierarchical approach. Int J Epidemiol. 1997;26(1):224-7. DOI: 10.1093/ije/26.1.224
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(1997). A análise hierarquizada seguiu os níveis em que foram organizados os quatro blocos de variáveis segundo o modelo apresentado pela Figura . Assim, essa análise se deu em duas etapas: simples e múltipla hierarquizada.

Na análise simples verificou-se a associação entre cada variável independente e o desfecho, sendo considerado “insatisfeito” como categoria de referência da variável dependente. Nessa etapa, foi calculada a odds ratio (OR) e seu respectivo intervalo de 95% de confiança, e adotado o nível de 5% de significância.

Posteriormente, realizou-se a análise múltipla. Nessa etapa, dentro de cada nível hierárquico, as variáveis que apresentaram p < 0,25 foram testadas em modelos múltiplos. Ao final da análise múltipla, as variáveis com p < 0,05 permaneceram no modelo final de cada nível e foram consideradas fatores de ajuste para os blocos subsequentes. Adotou-se como critério a estratégia do modelo hierarquizado e as inter-relações entre os diversos grupos de fatores. Vale destacar que o objetivo de se adotar um modelo teórico a priori requer que o processo de modelagem seja fiel às relações expostas em tal modelo. Nesse sentido, renunciou-se ao simples exercício de associação entre variáveis em prol de um foco explicativo voltado para o referencial teórico-metodológico assumido no estudo.

As análises foram realizadas com o auxílio do programa SPSS 13.0, considerando-se o desenho complexo da amostra. Esse ajuste foi necessário porque a amostra do Projeto SBBrasil 2010 foi por conglomerados, e estimativas que não levam em consideração a organização por cluster da amostra tendem à superestimação e perda da precisão das estimativas. 10 10 . Martins AMEBL, Barreto SM, Pordeus IA. Auto-avaliação de saúde bucal em idosos: análise com base em modelo multidimensional. Cad Saude Publica. 2009;25(2):421-35. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000200021
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O Projeto SBBrasil 2010 foi conduzido dentro dos padrões exigidos pela Declaração de Helsinque e aprovado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, sob o registro nº 15.498, em 7 de janeiro de 2010.

RESULTADOS

Do total de 10.390 indivíduos residentes na região Nordeste, 2.456 tinham idade entre 35 e 44 anos. Desses indivíduos, 64,9% eram do sexo feminino, 74,8% possuíam renda de até R$ 1.500,00 e 51,1% tinham até nove anos de estudo. Entre os entrevistados, 37,0% afirmaram que estavam satisfeitos (muito satisfeito + satisfeito) com sua saúde bucal, 17,5% consideravam-se nem satisfeito nem insatisfeito e 44,7% diziam-se insatisfeitos (insatisfeitos + muito insatisfeito).

A Tabela 1 apresenta a análise descritiva das prevalências das respostas para a pergunta relacionada à autopercepção de saúde bucal, segundo as variáveis independentes selecionadas. Assim, em relação às variáveis demográficas, apenas a variável cor da pele apresentou associação com o desfecho (p < 0,05).

Tabela 1
. Análise descritiva das prevalências e respectivos intervalos de confiança para as respostas avaliadas segundo bloco de variáveis analisadas. SBBrasil, 2010.

Todas as variáveis de predisposição/facilitação apresentaram associação (p < 0,05) com a autopercepção da saúde bucal; maior insatisfação foi observada entre aqueles com menor renda (50,8%) e 56,2% dos que tinham maior renda (acima de R$ 2.500,00) estavam satisfeitos.

Das variáveis relacionadas às condições de saúde bucal, apresentaram associação estatística com o desfecho: insatisfação entre os que tinham um número de dentes hígidos abaixo da mediana (50,6%), sangramento (52,6%) e necessitavam de prótese (50,3%).

Entre as variáveis associadas com a autopercepção da necessidade de tratamento, apenas consulta ao dentista não teve associação estatística; as demais variáveis apresentaram uma insatisfação de acordo com: frequência ao dentista (três anos ou mais 55,8%), tipo de serviço utilizado na última consulta (público 49,4%), motivo da última consulta (dor 59,6%), necessidade de tratamento (52,5%), presença de dor de dente (59,6%) e o OIDP ≥ 1 (60,2%).

A Tabela 2 apresenta os resultados da análise simples. Dentre as variáveis que apresentaram significância estatística, constata-se que no bloco 1 os indivíduos brancos eram mais satisfeitos com a saúde bucal do que os não brancos. Para o bloco 2, os indivíduos que se consideravam satisfeitos tinham mais anos de estudo (11-15 anos), renda > R$ 2.500,00, moravam em residências com um número de pessoas por cômodo abaixo da mediana (≤ 1,5) e tinham número de bens acima da mediana (> 6). No bloco 3, observou-se que os mais satisfeitos possuíam maior número de dentes hígidos, menor CPOD (Dentes Cariados, Perdidos e Obturados) médio, não apresentavam sangramento e não necessitavam de próteses. Para o bloco 4, eram mais satisfeitos com sua saúde bucal aqueles indivíduos que foram ao dentista há menos de um ano, realizaram sua última consulta pelo plano de saúde, tiveram outros motivos como causa da última consulta, não necessitavam de tratamento dentário, não tinham dor de dente e que apresentaram valor de OIDP = 0.

Tabela 2
. Valores de odds ratio bruta e do intervalo de confiança obtidos por análise simples para associação entre as variáveis apresentadas no modelo hierárquico e a insatisfação com a saúde bucal. SBBrasil, 2010.

Na análise múltipla ( Tabela 3 ), observa-se que, após ajustes, as variáveis cor da pele, renda familiar, número de bens, número de dentes hígidos, prevalência de sangramento, necessidade de prótese, OIDP, necessidade de tratamento, frequência ao dentista e motivo da última consulta estiveram diretamente associadas à autopercepção da saúde bucal.

Tabela 3
. Valores de odds ratio ajustada e intervalos de confiança obtidos por análise de regressão logística multinominal para associação entre a autopercepção da saúde bucal e os quatros blocos de variáveis analisadas. SBBrasil, 2010.

DISCUSSÃO

A autopercepção negativa da saúde bucal foi prevalente (44,7%) na faixa etária analisada. A maior insatisfação observada esteve fortemente associada às variáveis relacionadas às condições de predisposição/facilitação, às condições de saúde bucal que os indivíduos apresentaram durante os exames clínicos e àquelas relacionadas à autopercepção da necessidade de tratamento. Entre as variáveis demográficas apenas a cor da pele apresentou associação com a insatisfação.

Assim, no que diz respeito às condições socioeconômicas (variáveis do bloco 2), contatou-se que baixa escolaridade, baixa renda, habitação deficiente (morar em residências com muitas pessoas por cômodos) e ter poucos bens apresentaram uma relação direta com a insatisfação. É sabido que os aspectos socioeconômicos de cada indivíduo influenciam diretamente suas condições de saúde bucal, pois tais fatores estão associados a um maior ou menor conhecimento dos hábitos de vida saudáveis e, consequentemente, do reconhecimento em maior ou menor grau da necessidade de assistência odontológica. Além disso, são condições que influenciam diretamente no modo de viver de cada indivíduo. As condições de vida e de trabalho qualificam, de forma diferenciada, a maneira pela qual as pessoas pensam, sentem e agem a respeito de sua saúde. 1 . Araújo CS, Lima RC, Peres MA, Barros AJD. Utilização de serviços odontológicos e fatores associados: um estudo de base populacional no Sul do Brasil. Cad Saude Publica. 2009;25(5):1063-72. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000500013
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Estudos 1 . Araújo CS, Lima RC, Peres MA, Barros AJD. Utilização de serviços odontológicos e fatores associados: um estudo de base populacional no Sul do Brasil. Cad Saude Publica. 2009;25(5):1063-72. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000500013
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, 7 . Gomes AS, Abegg C. O impacto odontológico no desempenho diário dos trabalhadores do Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cad Saude Publica. 2007;23(7):1707-14. DOI: 10.1590/S0102-311X2007000700023
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afirmam que baixo nível de escolaridade e baixa renda têm relação com maior prevalência de impactos negativos na saúde bucal e que menor renda associa-se com nível educacional, valor atribuído à saúde, estilo de vida e acesso à informação sobre cuidados de saúde.

Quanto às variáveis relacionadas às condições de saúde bucal (bloco 3), observa-se que todas tiveram associação com a autopercepção da saúde bucal e que condições negativas – como menor número de dentes hígidos, CPOD elevado, presença de sangramento e necessidade de próteses – foram fatores diretamente associados com a autopercepção negativa da saúde bucal. Esses achados podem ser explicados pelo fato de que tais condições, além de gerarem desconfortos clínicos para os indivíduos, comprometem muitas vezes sua função mastigatória e podem também ser responsáveis por gerar uma autopercepção negativa da sua estética bucal, resultando em insatisfações ao sorrir ou falar. Haikal et al 8 . Haikal DS, Paula AMB, Martins AMEBL, Moreira NA, Ferreira EF. Autopercepção da saúde bucal e impacto na qualidade de vida do idoso: uma abordagem quanti-qualitativa. Cienc Saude Coletiva. 2011;16(7):3317-29. DOI: 10.1590/S1413-81232011000800031
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(2011) também observaram que, quanto menor o número médio de dentes presentes e maiores os valores de CPOD, mais negativa é a autopercepção da saúde bucal.

Os indivíduos com necessidade de próteses dentárias tenderam a fazer uma avaliação negativa da sua saúde bucal. Observa-se que a necessidade de reabilitação protética é uma situação clínica que implica diretamente na qualidade da mastigação, bem como na autopercepção do sorriso, e gera, muitas vezes, constrangimento para falar e sorrir, além de dificuldades nas relações interpessoais. Dessa maneira, o resultado aqui encontrado vem corroborar os achados observados em um estudo realizado no Brasil 4 . Bombarda-Nunes FF, Miotto MHMB, Barcellos LA. Autopercepção de saúde bucal do agente comunitário de saúde de Vitória, ES, Brasil. Pesq Bras Odontopediatria Clin Integr. 2008;8(1):7-14. DOI: 10.4034/1519.0501.2008.0081.0003
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que também constatou que a necessidade de prótese dentária está diretamente associada com a autopercepção negativa da saúde bucal.

As condições clínicas apresentaram forte associação com a autopercepção negativa da saúde bucal. Outros inquéritos 2 . Atchison KA, Dolan TA. Development of the Geriatric Oral Health Assessment Index. J Dent Educ. 1990;54(11):680-7. , 19 19 . Silva SRC, Rosell FL, Valsecki Jr A. Percepção das condições de saúde bucal por gestantes atendidas em uma unidade de saúde no município de Araraquara, São Paulo, Brasil. Rev Bras Saude Matern Infant. 2006;6(4):405-10. DOI: 10.1590/S1519-38292006000400007
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, 21 21 . Soares GB, Batista RM, Zandonade E, Oliveira AE. Associação da autopercepção de saúde bucal com parâmetros clínicos orais. Rev Bras Odontol. 2011;68(2):268-73. relatam ainda relação entre a percepção da condição bucal e algumas variáveis clínicas, mas tal associação foi relativamente fraca. Esses estudos justificam tal achado pelo fato de que muitas das doenças detectadas no exame clínico são assintomáticas e provavelmente desconhecidas do indivíduo. Além disso, trabalhos 1 . Araújo CS, Lima RC, Peres MA, Barros AJD. Utilização de serviços odontológicos e fatores associados: um estudo de base populacional no Sul do Brasil. Cad Saude Publica. 2009;25(5):1063-72. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000500013
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, 18 18 . Silva SRC, Castellanos Fernandes RA. Autopercepção das condições de saúde bucal por idosos. Rev Saude Publica. 2001;35(4):349-55. DOI: 10.1590/S0034-89102001000400003
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também afirmam que a maioria das pessoas vê sua condição bucal de maneira favorável, mesmo em condições clínicas não satisfatórias, provavelmente porque as medidas clínicas de saúde utilizadas pelo profissional são preditores relativamente fracos da percepção de saúde bucal das pessoas.

Em relação às variáveis relacionadas à autopercepção da necessidade de tratamento (bloco 4), ter ido ou não ao dentista antes da entrevista não teve associação com a autopercepção da saúde bucal. No entanto, variáveis como frequência ao dentista, tipo de serviço utilizado na última consulta, motivo da última consulta, necessidade de tratamento, dor de dente e OIDP estiveram fortemente associadas com o desfecho. Constata-se que intervalos mais longos de visitas ao dentista foram a opção que estava mais fortemente associada com a insatisfação, ou seja, 55,8% dos indivíduos que iam ao dentista com uma frequência maior que três anos consideravam-se insatisfeitos com sua saúde bucal. Tal achado corrobora os resultados encontrados por Matos & Lima-Costa 12 12 . Matos DL, Lima-Costa MF. Auto-avaliação da saúde bucal entre adultos e idosos residentes na Região Sudeste: resultados do Projeto SB-Brasil, 2003. Cad Saude Publica. 2006;22(8):1699-07. DOI: 10.1590/S0102-311X2006000800018
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(2006), que utilizaram os dados do SBBrasil 2003 e também constataram que o fato de ter visitado o dentista há três ou mais anos foi importante para aumentar as chances de o adulto autoavaliar sua saúde bucal como ruim.

Observou-se que os indivíduos que realizaram sua última consulta odontológica no serviço público apresentaram associação da insatisfação com sua saúde bucal. Tal achado é de grande importância, pois gera a necessidade de maior reflexão de como estão sendo realizadas as políticas públicas de saúde bucal no País, em especial no Nordeste, que, historicamente, apresenta uma situação de menor oferta de assistência odontológica para sua população. A dificuldade e demora em se conseguir atendimento odontológico na rede pública resulta em danos para os indivíduos que repercutem diretamente na sua satisfação com a condição de saúde bucal, além de agravar possíveis problemas já instalados. Camargo et al 5 . Camargo MBJ, Dumith SC, Barros AJD. Uso regular de serviços odontológicos entre adultos: padrões de utilização e tipos de serviços. Cad Saude Publica. 2009;25(9):1894-906. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000900004
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(2009) também constataram em seu estudo que aqueles que buscavam assistência no serviço público tinham uma menor frequência de uso em relação aos que buscavam na rede privada e que, entre os que buscavam assistência na rede pública, o uso regular é menor entre os mais pobres e menos escolarizados. Afirmaram que, embora o Sistema Único de Saúde tenha uma importante função de diminuir as desigualdades (princípio da equidade), parece que tal função não vem sendo desenvolvida. No entanto, não é possível afirmar se tal demora ocorre por dificuldades em se conseguir atendimento odontológico ou por pouco interesse por parte do entrevistado em buscar atendimento. Portanto, inquéritos mais detalhados sobre esse aspecto precisam ser realizados. Com efeito, o fato de se analisar um estudo transversal não permite relações temporais de causalidade entre as variáveis independentes e o desfecho analisado. Dessa forma, a insatisfação tanto pode anteceder como pode suceder o tipo de serviço utilizado.

A presença de dor e de dor de dente observada por este estudo como um fator diretamente associado com a insatisfação da condição de saúde bucal também foi considerada por alguns estudos 1 . Araújo CS, Lima RC, Peres MA, Barros AJD. Utilização de serviços odontológicos e fatores associados: um estudo de base populacional no Sul do Brasil. Cad Saude Publica. 2009;25(5):1063-72. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000500013
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, 3 . Atchison KA, Gift HC. Perceived oral health in a diverse sample. Adv Dent Res. 1997;11(2):272-80. DOI: 10.1177/08959374970110021001
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, 5 . Camargo MBJ, Dumith SC, Barros AJD. Uso regular de serviços odontológicos entre adultos: padrões de utilização e tipos de serviços. Cad Saude Publica. 2009;25(9):1894-906. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000900004
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, 14 14 . Pinellia C, Turrionib APS, Loffredoa LCM. Autopercepção em higiene bucal de adultos: reprodutibilidade e validade. Rev odontol UNESP. 2008;37(2):163-9. como um dos fatores que geram insatisfação e que levam os indivíduos a buscar atendimento odontológico. Esse dado merece destaque, pois sugere que a busca por serviços odontológicos por parte dos entrevistados pode muitas vezes estar restrita às situações de urgência. Possivelmente, não existiria uma cultura de se buscar assistência para as ações preventivas, o que é um aspecto bastante negativo para a saúde bucal da população. Segundo estudo 14 14 . Pinellia C, Turrionib APS, Loffredoa LCM. Autopercepção em higiene bucal de adultos: reprodutibilidade e validade. Rev odontol UNESP. 2008;37(2):163-9. realizado em Araraquara, SP, com a população adulta de 35-44 anos, no momento de busca pelo alívio, pouca interação é esperada entre paciente e cirurgião-dentista quanto à educação, instrução e controle de placa bacteriana. Dessa maneira, as ações dos serviços de saúde bucal devem enfatizar abordagens que estimulem os indivíduos a valorizar as ações preventivas e que possibilitem um maior vínculo desses com os serviços odontológicos e com os profissionais, da rede pública ou privada, para que os pacientes tenham maior conhecimento dos hábitos de vida saudável e do processo saúde-doença. A necessidade de tratamento odontológico também foi constatada por Soares et al 21 21 . Soares GB, Batista RM, Zandonade E, Oliveira AE. Associação da autopercepção de saúde bucal com parâmetros clínicos orais. Rev Bras Odontol. 2011;68(2):268-73. (2011) como um fator fortemente associado com a autopercepção da saúde bucal.

Observou-se que indivíduos que afirmaram estar insatisfeitos com sua saúde bucal foram os que apresentaram um índice OIDP ≥ 1. A alta prevalência dos impactos bucais no desempenho diário na população estudada também foi observada por Gomes & Abegg 7 . Gomes AS, Abegg C. O impacto odontológico no desempenho diário dos trabalhadores do Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cad Saude Publica. 2007;23(7):1707-14. DOI: 10.1590/S0102-311X2007000700023
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(2007) em seu estudo realizado com adultos na mesma faixa etária analisada. Tais autores afirmam que essa faixa etária é a que apresenta maior prevalência de impacto das condições bucais na vida diária e que tal achado pode estar relacionado à maior presença de necessidades de tratamento não atendidas, em virtude da dificuldade de acesso ao tratamento clínico deste grupo etário.

Em relação às variáveis demográficas (bloco 1) analisadas, apenas a cor da pele apresentou significância estatística com o desfecho, em que os indivíduos não brancos eram mais insatisfeitos com sua saúde bucal. Estudos realizados nos Estados Unidos 5 . Camargo MBJ, Dumith SC, Barros AJD. Uso regular de serviços odontológicos entre adultos: padrões de utilização e tipos de serviços. Cad Saude Publica. 2009;25(9):1894-906. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000900004
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, 13 13 . Matthias RE, Atchison KA, Lubben JE, De Jong F, Schweitzer SO. Factors affecting self-ratings of oral health. J Public Health Dent. 1995;55(4):197-04. DOI: 10.1111/j.1752-7325.1995.tb02370.x
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afirmam que indivíduos brancos têm uma percepção de saúde bucal mais positiva do que os não brancos. No entanto, estudo 5 . Camargo MBJ, Dumith SC, Barros AJD. Uso regular de serviços odontológicos entre adultos: padrões de utilização e tipos de serviços. Cad Saude Publica. 2009;25(9):1894-906. DOI: 10.1590/S0102-311X2009000900004
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realizado com a população adulta da cidade de Pelotas, RS, observou que o efeito bruto da variável cor da pele desapareceu após o controle para essa variável. Embora estudos 6 . Gift HC, Atchison KA, Drury TF. Perceptions of the natural dentition in the context of multiple variables. J Dent Res. 1998;77(7):1529-38. DOI: 10.1177/00220345980770070801
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, 16 16 . Reisine ST, Bailit HL. Clinical oral health statusn and adult perceptions of oral health. Soc Sci Med Med Psychol Med Sociol. 1980;14A(6):597-605. DOI: 10.1016/0160-7979(80)90063-6
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afirmem que a autopercepção negativa da saúde bucal aumente com a idade e que o sexo também tem uma relação com a autopercepção de saúde bucal, o presente inquérito não encontrou associação estatística com tais fatores.

Com efeito, os resultados do modelo final da análise hierarquizada mostram que a autopercepção da saúde bucal dos adultos residentes no Nordeste está diretamente associada a uma estrutura multidimensional de fatores. O modelo de Gift et al 6 . Gift HC, Atchison KA, Drury TF. Perceptions of the natural dentition in the context of multiple variables. J Dent Res. 1998;77(7):1529-38. DOI: 10.1177/00220345980770070801
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(1998) funcionou como uma estratégia balizadora do processo de modelagem, estabelecendo relações entre variáveis independentes distais e proximais ao desfecho estudado. Além disso, observa-se que, após ajuste das variáveis na regressão logística, condições como: renda familiar, número de dentes hígidos, necessidade de prótese, maior índice OIDP e necessidade de tratamento foram as que mostraram maior força com o desfecho (p < 0,001). As baixas condições econômicas associadas às condições clínicas de saúde bucal deficientes da população adulta do Nordeste causam grande impacto na autopercepção de saúde bucal desses indivíduos, mostrando assim que as políticas públicas voltadas para a melhoria da qualidade de vida dessa população, notadamente menos favorecida, precisam ser fortalecidas e, possivelmente, reorientadas.

AGRADECIMENTOS

À Coordenação Nacional de Saúde Bucal/Ministério da Saúde pela cessão e envio do banco de dados do SBBrasil 2010.

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  • Artigo submetido ao processo de julgamento por pares adotado para qualquer outro manuscrito submetido a este periódico, com anonimato garantido entre autores e revisores.
  • Editores e revisores declaram não haver conflito de interesses que pudesse afetar o processo de julgamento do artigo.
    Os autores declaram não haver conflito de interesses.
  • Artigo disponível em português e inglês em: www.scielo.br/rsp

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Dez 2013

Histórico

  • Recebido
    16 Abr 2013
  • Aceito
    24 Jun 2013
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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