Associação da força de preensão manual com morbidades referidas em adultos de Rio Branco, Acre, Brasil: estudo de base populacional

Asociación entre la fuerza de prensión manual con las morbilidades referidas en adultos de Rio Branco, Acre, Brasil: estudio de base poblacional

Cledir de Araújo Amaral Margareth Crisóstomo Portela Pascoal Torres Muniz Edson dos Santos Farias Thiago Santos de Araújo Orivaldo Florêncio de Souza Sobre os autores

Resumos

Este estudo objetivou analisar a associação da força de preensão manual com morbidades referidas e multimorbidade em adultos de Rio Branco, Acre, Brasil, mediante inquérito de base populacional com 1.395 adultos de ambos os sexos. As associações, por sexo, foram estimadas com a técnica de regressão logística. A média de força de preensão manual nos homens (44,8kg) é maior que entre as mulheres (29kg) e reduz com a idade. A diferença da força de preensão manual média entre aqueles classificados como fortes e fracos foi 21kg e 15,5kg, para homens e mulheres, respectivamente. Controlando para a faixa etária, índice de massa corporal e atividade física quando relevante, homens com baixa força de preensão manual tiveram maiores chances de ocorrência de hipertensão [OR = 2,21 (1,35; 3,61)], diabetes [OR = 4,18 (1,35; 12,95)], distúrbio musculoesquelético [OR = 1,67 (1,07; 2,61)] e multimorbidade [OR = 1,99 (1,27; 3,12)]. Nas mulheres, associações entre força de preensão manual e evento cardiovascular, dislipidemia, distúrbio muscolesquelético e multimorbidade não se mantiveram nos modelos multivariados. Este estudo endossa o uso da força de preensão manual como biomarcador de saúde.

Força da Mão; Morbidade; Inquéritos de Saúde


El objetivo fue analizar la asociación de la fuerza de prensión manual con las morbilidades y multimorbilidad entre los adultos en Rio Branco, Acre, Brasil, mediante una encuesta poblacional con 1.395 adultos de ambos sexos. Las asociaciones, por sexo, se estimaron mediante regresión logística. La media de la fuerza de prensión manual en los hombres (44,8kg) es mayor que en las mujeres (29kg) y disminuye con la edad. La diferencia de la fuerza de prensión manual media entre los clasificados como fuertes y débil fue 21kg y 15,5kg para hombres y mujeres, respectivamente. Controlando por edad, índice de masa corporal y la actividad física, cuando sea pertinente, los hombres con baja fuerza de prensión manual son más propensos a sufrir de hipertensión [OR = 2,21 (1,35; 3,61)], diabetes [OR = 4,18 (1,35; 12,95), trastorno musculoesquelético [OR = 1,67 (1,07; 2,61)] y multimorbilidad [OR = 1,99 (1,27; 3,12)]. Entre las mujeres, las asociaciones entre fuerza de prensión manual y evento cardiovascular, dislipidemia, trastorno musculoesquelético y multimorbilidad no se mantuvieron en los modelos multivariados. Este estudio respalda el uso de fuerza de prensión manual como un biomarcador de la salud.

Fuerza de la Mano; Morbilidad; Encuestas Epidemiológicas


Introdução

A força de preensão manual é reconhecida como um estimador da força global e tem sido apresentada como biomarcador de importantes desfechos em saúde 1Bohannon RW. Are hand-grip and knee extension strength reflective of a common construct? Percept Mot Skills 2012; 114:514-8.. Estudos realizados predominantemente com indivíduos de meia-idade e idosos demonstram que a baixa força de preensão manual está associada à sarcopenia 2Manini TM, Clark BC. Dynapenia and aging: an update. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2012; 67: 28-40., às limitações e à incapacidade funcional 3Rantanen T, Guralnik JM, Foley D, Masaki K, Leveille S, Curb JD, et al. Midlife hand grip strength as a predictor of old age disability. JAMA 1999; 281:558-60., à queda em idosos 4Taekema DG, Gussekloo J, Maier AB, Westendorp RG, De Craen AJ. Handgrip strength as a predictor of functional, psychological and social health. A prospective population-based study among the oldest old. Age Ageing 2010; 39:331-7., à densidade mineral óssea e ao risco de fraturas 5Cheung C-L, Tan KCB, Bow CH, Soong CSS, Loong CHN, Kung AW-C. Low handgrip strength is a predictor of osteoporotic fractures: cross-sectional and prospective evidence from the Hong Kong Osteoporosis Study. Age (Dordr) 2012; 34:1239-48., sendo ainda considerada marcador útil para fragilidade em idosos 6Syddall H, Cooper C, Martin F, Briggs R, Aihie Sayer A. Is grip strength a useful single marker of frailty? Age Ageing 2003; 32:650-6.. Entre homens de 40-68 anos, seguidos por 25 anos, a baixa força de preensão manual foi preditora de limitações funcionais e de incapacidades, e maior nível de força de preensão manual na meia-idade pareceu atuar na proteção desses agravos na idade avançada, indicando que a força de preensão manual pode ser usada para a triagem precoce de pessoas com maior risco de incapacidade física na velhice 4Taekema DG, Gussekloo J, Maier AB, Westendorp RG, De Craen AJ. Handgrip strength as a predictor of functional, psychological and social health. A prospective population-based study among the oldest old. Age Ageing 2010; 39:331-7.. O declínio da força de preensão manual durante esse período de seguimento foi de 8-9kg, em média, e inversamente associado à idade e à glicose, mas diretamente associado à função cognitiva, ao índice de massa corporal (IMC) e ao nível de hemoglobina 7Charles LE, Burchfiel CM, Fekedulegn D, Kashon ML, Ross GW, Sanderson WT, et al. Occupational and other risk factors for hand-grip strength: the Honolulu-Asia Aging Study. Occup Environ Med 2006; 63:820-7..

Além dos distúrbios inerentes ao sistema musculoesquelético, a baixa força de preensão manual também tem sido apresentada associada às mudanças no estado nutricional 8Cucinotta D, Frondini C, Paletti P, Reggiani A, Lancellotti F, Galletti L. The importance of assessment of nutritional status for the extension of an independent longevity. Arch Gerontol Geriatr Suppl 2002; 8:123-8., às complicações clínicas pós-cirúrgicas 9Bragagnolo R, Caporossi FS, Dock-Nascimento DB, Aguilar-Nascimento JE. Handgrip strength and adductor pollicis muscle thickness as predictors of postoperative complications after major operations of the gastrointestinal tract. E Spen Eur E J Clin Nutr Metab 2011; 6:e21-6., ao tempo de hospitalização 1010 Kerr A, Syddall HE, Cooper C, Turner GF, Briggs RS, Sayer AA. Does admission grip strength predict length of stay in hospitalised older patients? Age Ageing 2006; 35:82-4., a diferentes morbidades crônicas 1111 Cheung C-L, Nguyen US, Au E, Tan KCB, Kung AW. Association of handgrip strength with chronic diseases and multimorbidity: a cross-sectional study. Age (Dordr) 2013; 35:929-41.,1212 Stenholm S, Tiainen K, Rantanen T, Sainio P, Heliövaara M, Impivaara O, et al. Long-term determinants of muscle strength decline: prospective evidence from the 22-year mini-Finland follow-up survey. J Am Geriatr Soc 2012; 60:77-85. e à mortalidade 1313 Oksuzyan A, Maier H, Mcgue M, Vaupel JW, Christensen K. Sex differences in the level and rate of change of physical function and grip strength in the Danish 1905-cohort study. J Aging Health 2010; 22:589-610., embora os mecanismos dessas relações ainda não sejam bem compreendidos.

Baixos níveis de força de preensão manual foram associados a maiores chances de ansiedade, acidente vascular cerebral (AVC), doença renal crônica, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e hipertireoidismo, em homens, e anemia, quedas e cifose, em mulheres 1010 Kerr A, Syddall HE, Cooper C, Turner GF, Briggs RS, Sayer AA. Does admission grip strength predict length of stay in hospitalised older patients? Age Ageing 2006; 35:82-4.. Entre homens e mulheres de 30-72 anos, seguidos por 22 anos, foi identificada a associação do declínio da força de preensão manual com a incidência de doenças crônicas, como as do sistema cardiovascular, diabetes mellitus, bronquite crônica, dor lombar crônica, hipertensão e asma, assim como com a perda acentuada de peso, sedentarismo e tabagismo persistente 1212 Stenholm S, Tiainen K, Rantanen T, Sainio P, Heliövaara M, Impivaara O, et al. Long-term determinants of muscle strength decline: prospective evidence from the 22-year mini-Finland follow-up survey. J Am Geriatr Soc 2012; 60:77-85.. No que concerne à síndrome metabólica, um estudo brasileiro aponta que mulheres com a doença possuem menor força de preensão do que aquelas saudáveis 1414 Tibana RA, Tajra V, César D, Farias DL, Teixeira TG, Prestes J. Comparação da força muscular entre mulheres brasileiras com e sem síndrome metabólica. Conscientiae Saúde (Impr.) 2011; 10:708-14., enquanto que um outro estudo estadunidense com homens mostrou efeito protetor da força muscular para doenças metabólicas, independente da aptidão cardiorrespiratória e do excesso de peso 1515 Jurca R, Lamonte MJ, Church TS, Earnest CP, Fitzgerald SJ, Barlow CE, et al. Associations of muscle strength and fitness with metabolic syndrome in men. Med Sci Sports Exerc 2004; 36:1301-7.. A diabetes mellitus, por sua vez, foi associada ao declínio da força de preensão manual em diversos estudos dedicados à doença 1616 Cetinus E, Buyukbese MA, Uzel M, Ekerbicer H, Karaoguz A. Hand grip strength in patients with type 2 diabetes mellitus. Diabetes Res Clin Pract 2005; 70:278-86.,1717 Sayer AA, Dennison EM, Syddall HE, Gilbody HJ, Phillips DI, Cooper C. Type 2 diabetes, muscle strength, and impaired physical function: the tip of the iceberg? Diabetes Care 2005; 28:2541-2.,1818 Park SW, Goodpaster BH, Strotmeyer ES, Kuller LH, Broudeau R, Kammerer C, et al. Accelerated loss of skeletal muscle strength in older adults with type 2 diabetes: the health, aging, and body composition study. Diabetes Care 2007; 30:1507-12..

O seguimento de uma coorte com um milhão de homens a partir do seu alistamento ao exército sueco (idade média de 18,2 anos), por 37 anos, permitiu identificar a associação inversa entre força e risco de doenças do coração e AVC 1919 Silventoinen K, Magnusson PK, Tynelius P, Batty GD, Rasmussen F. Association of body size and muscle strength with incidence of coronary heart disease and cerebrovascular diseases: a population-based cohort study of one million Swedish men. Int J Epidemiol 2009; 38:110-8.. Por outro lado, o seguimento de idosos longevos, por sete anos, mostrou menor variação na força de preensão manual entre aqueles com maior força de preensão manual inicial, independentemente do sexo, sendo a força de preensão manual uma importante preditora de mortalidade 1313 Oksuzyan A, Maier H, Mcgue M, Vaupel JW, Christensen K. Sex differences in the level and rate of change of physical function and grip strength in the Danish 1905-cohort study. J Aging Health 2010; 22:589-610..

O potencial de predição de morbidades a partir da medição da força de preensão manual aponta para a possibilidade do uso da variável como biomarcador na avaliação da condição de saúde em populações, sendo importante o acúmulo de conhecimento proporcionado por estudos em diferentes contextos no sentido da determinação de pontos de corte para diferentes agravos, não disponíveis hoje na literatura.

Apesar das evidências dos estudos internacionais, não há conhecimento de um estudo epidemiológico sobre a temática, incluindo amplo espectro etário, realizado no Brasil. Este trabalho teve como objetivo, portanto, preencher parte dessa lacuna, buscando identificar a associação da força de preensão manual com morbidades e multimorbidade entre adultos de Rio Branco, Estado do Acre, Brasil.

Métodos

Estudo transversal de base populacional com adultos no Município de Rio Branco, no escopo do projeto Saúde e Nutrição de Crianças e Adultos de Rio Branco, Acre, realizado no período de novembro de 2007 a outubro de 2008.

A amostragem foi probabilística por conglomerados em dois estágios, tendo, na unidade primária, 35 setores censitários, 31 da zona urbana e quatro da zona rural. Foram sorteados 25 domicílios de cada setor censitário, os quais constituíram a unidade secundária, acrescida em 15% para suprimir eventuais perdas ou recusas, totalizando 977 domicílios, nos quais todos os residentes com 18 anos ou mais e com capacidade para responder as questões foram convidados a participar do estudo.

A amostra selecionada foi composta por 1.516 adultos de 18-96 anos, cujos procedimentos já foram apresentados 2020 Lino MZR, Muniz PT, Siqueira KS. Prevalência e fatores associados ao excesso de peso em adultos: inquérito populacional em Rio Branco, Acre, Brasil, 2007-2008. Cad Saúde Pública 2011; 27: 797-810.. Na presente investigação, foram excluídos as mulheres grávidas e os participantes que não realizaram o teste de força de preensão manual, levando a uma perda de 121 sujeitos (7,8%), sem diferença estatisticamente significativa no que tange ao perfil sociodemográfico. A amostra final resultou em 1.395 participantes, sendo consideradas as características demográficas (sexo e idade), a prática de atividade física de lazer e as morbidades referidas, além das variáveis biométricas altura, peso e força de preensão manual.

A variável independente força de preensão manual foi obtida por meio de um dinamômetro hidráulico de mão (SAEHAN SH5001, Saehan Corp., Dangjin, Coreia do Sul) com resolução em kgf. Na avaliação, foram adotados a posição sentada e o cotovelo a 90º, seguindo os procedimentos adotados pela Sociedade Americana de Terapeutas de Mãos 2121 Fess EE. Documentation: essential elements of an upper extremity assessment battery. In: Hunter JM, Mackin, EJ, Callahan AD, editors. Rehabilitation of the hand and upper extremity. 5th Ed. Saint Louis: Mosby; 2002. p. 263-84.. O escore da força de preensão manual foi constituído pelo maior valor de duas avaliações da mão dominante. O tercil dos escores da força de pressão manual foi categorizado como forte (tercil superior), médio (tercil intermediário) e fraco (tercil inferior).

As variáveis dependentes – morbidades referidas – foram identificadas pelo relato do diagnóstico realizado por profissional da saúde para as seguintes morbidades: hipertensão arterial, diabetes mellitus, eventos cardiovasculares (infarto, derrame ou acidente vascular cerebral), dislipidemia (colesterol ou triglicéride elevado), depressão, doença renal crônica e distúrbio musculoesquelético (tendinite, lesão por esforço repetitivo, doença da coluna ou costa, artrite, reumatismo não infeccioso, gota e osteoporose). A variável multimorbidade foi construída adotando, como definição, a ocorrência simultânea de duas ou mais doenças crônicas num mesmo indivíduo. Em cada variável indicadora da ocorrência de morbidade, foi atribuído o valor 1 para “sim” e 2 para “não”.

As covariáveis foram idade, prática de atividade física de lazer e IMC. A variável idade foi categorizada nas faixas 18-39 anos e 40 anos ou mais. A atividade física de lazer foi identificada considerando-se a duração e a frequência semanal da modalidade praticada. Conforme as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) 2222 World Health Organization. Global recommendations on physical activity for health. Geneva: WHO Press; 2010., foram classificados como ativos aqueles que somaram 150 minutos de atividades moderadas ou 75 minutos de atividades vigorosas, e sedentários os sujeitos que não atingiram esses critérios. O IMC foi identificado pela razão do peso pelo quadrado da altura, sendo considerados os pontos de corte adotados pela OMS 2323 World Health Organization. Obesity: preventing and managing the global epidemic. Geneva: World Health Organization; 2000. (WHO Technical Report Series, 894).: magreza (IMC < 18,5); eutrófico (IMC = 18,5-24,9); sobrepeso (IMC = 25-29,9) e obeso (IMC ≥ 30).

Os dados foram duplamente digitados e validados utilizando-se o software Epi Info 6.04 (Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, Estados Unidos).

Na análise descritiva, foram verificadas as frequências absolutas e relativas de todas as variáveis analisadas por sexo, sendo estimadas as diferenças nas frequências entre homens e mulheres pelo teste de qui-quadrado de Pearson, assumindo-se o nível de significância α = 0,05. Obteve-se, ainda, a distribuição da força de preensão manual, com medidas de tendência central e dispersão, segundo o sexo e o grupo etário.

Modelos de regressão logística estimaram, para homens e mulheres, a magnitude de associação, em odds ratio (OR), entre as variáveis dependentes indicadoras de morbidades e força de preensão manual em tercil, considerando-se o tercil superior (maior força) da força de preensão manual como referência. Para cada variável dependente, três modelos foram estimados: o primeiro modelo centrando-se na associação bruta entre morbidade e força de preensão manual; o segundo modelo na associação ajustada pela faixa etária; e o terceiro modelo na associação ajustada pela faixa etária, IMC e, quando significativa, atividade física de lazer. Foram testadas interações da idade com a força de preensão manual. O nível de significância considerado foi de α = 0,05.

Todas as análises levaram, em conta o efeito do desenho amostral e os pesos das observações, usando os procedimentos surveyfreq, surveymeans e surveylogistic do SAS versão 9.3 (SAS Inst., Cary, Estados Unidos). O projeto que obteve os dados aqui utilizados foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Acre sob o protocolo no 2307.001150/2007-22, sendo obtido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de todos os participantes.

Resultados

Com a expansão da amostra utilizando os pesos amostrais, as 1.395 observações corresponderam a 248.479 pessoas. As estimativas apontam para uma população predominantemente feminina (54,6%) e com idade até 39 anos (59,3%). Houve diferença estatisticamente significativa (p < 0,05) na distribuição, entre os sexos, das variáveis atividade física de lazer, IMC, hipertensão, dislipidemia, depressão, distúrbio musculoesquelético e multimorbidade (Tabela 1).

Tabela 1
Características sociodemográficas e de saúde de adultos de Rio Branco, Acre, Brasil, 2007-2008.

A média da força de preensão manual no grupo foi de 36kg, sendo maior entre homens (44,8kg) do que entre mulheres (29kg). Independentemente do sexo, também foi maior na faixa etária de 18-39 anos do que de 40 anos ou mais. Na análise por tercil da força de preensão manual, homens fortes e fracos tiveram, em média, uma força de preensão manual de 55,3kg e de 34,1kg, respectivamente, enquanto mulheres fortes e fracas apresentaram, em média, força de preensão manual de 36,1kg e de 20,6kg (Tabela 2).

Tabela 2
Distribuição da força de preensão manual, em kg, por grupo etário e tercil da força de preensão manual, por sexo, de adultos de Rio Branco, Acre, Brasil, 2007-2008.

A Tabela 3 mostra os resultados obtidos para os três modelos de regressão logística utilizados na análise da associação de diferentes morbidades com força de preensão manual entre homens. Após ajuste pela faixa etária, foram observadas, estatisticamente, maiores chances de ocorrência de hipertensão entre indivíduos classificados como de força média e fracos, assim como de ocorrência de diabetes mellitus, distúrbio musculoesquelético e multimorbidade entre indivíduos classificados como fracos, mantendo-se, como referência, o grupo de indivíduos classificados como fortes. Considerando os modelos com ajuste pela faixa etária, IMC e, quando significativa, atividade física de lazer, observou-se que, apesar de alguma variação nas magnitudes das associações identificadas com o ajuste somente por faixa etária, os resultados se mantiveram consistentes. As chances de ocorrência de todas as morbidades contempladas mostraram-se aumentadas na faixa etária mais velha, enquanto o aumento do IMC foi significativo para a hipertensão, diabetes, dislipidemia e multimorbidade. A realização de atividade física de lazer mostrou- se positivamente associada à multimorbidade.

Tabela 3
Análise de regressão logística dos tercis da força de preensão manual com morbidades referidas em homens de Rio Branco, Acre, Brasil, 2007-2008.

A Tabela 4 apresenta resultados, correspondentes aos da tabela anterior, para mulheres, mostrando associações entre ser classificada como fraca (versus forte) e evento cardiovascular, dislipidemia, distúrbio musculoesquelético e multimorbidade, somente no modelo não ajustado por outras variáveis.

Tabela 4
Análise de regressão logística dos tercis da força de preensão manual com morbidades referidas em mulheres de Rio Branco, Acre, Brasil, 2007-2008.

Tanto nos modelos multivariados da Tabela 3 quanto nos da Tabela 4, termos de interação de força de preensão manual e faixa etária foram testados, mas não foram estatisticamente significativos (p < 0,05).

Discussão

Os resultados mostraram associação da força de preensão manual ao autorrelato de hipertensão, diabetes, distúrbio musculoesquelético e multimorbidade somente no sexo masculino. Foi observada redução da força no grupo etário com 40 anos ou mais, condição conhecida como dinapenia 2Manini TM, Clark BC. Dynapenia and aging: an update. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2012; 67: 28-40..

Neste estudo, há diferenças expressivas na magnitude e no gradiente da força muscular entre homens e mulheres, conforme já mostrado em estudos anteriores 1111 Cheung C-L, Nguyen US, Au E, Tan KCB, Kung AW. Association of handgrip strength with chronic diseases and multimorbidity: a cross-sectional study. Age (Dordr) 2013; 35:929-41.,2424 Schlussel MM, Anjos LA, Vasconcellos MTL, Kac G. Reference values of handgrip dynamometry of healthy adults: a population-based study. Clin Nutr 2008; 27:601-7., que podem ser explicadas por diferenças hormonais inerentes ao sexo.

Não foi identificada associação estatisticamente significativa entre força de preensão manual baixa e ocorrência de evento cardiovascular. Entretanto, um importante fator de risco para doenças cardiovasculares, a síndrome metabólica, constitui-se exatamente pela combinação da dislipidemia, da hiperglicemia e da hipertensão 2525 Xavier HT, Izar MC, Faria Neto JR, Assad MH, Rocha VZ, Sposito AC, et al. V diretriz brasileira de dislipidemias e prevenção da aterosclerose. Arq Bras Cardiol 2013; 101 Suppl 1:1-22., que se mostraram individualmente associadas à força de preensão manual entre homens. Os componentes da síndrome metabólica estão associados à inflamação crônica sistêmica, com aumento da interleucina-1 e 6 (IL-1 e IL-6) e do fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) 2626 Calabro P, Yeh ET. Intra-abdominal adiposity, inflammation, and cardiovascular risk: new insight into global cardiometabolic risk. Curr Hypertens Rep 2008; 10:32-8.. Níveis elevados de marcadores inflamatórios como IL-6 e proteína C-reativa (CRP) aumentam o risco de perda de força muscular em homens e mulheres mais velhos 2727 Schaap LA, Pluijm SM, Deeg DJ, Visser M. Inflammatory markers and loss of muscle mass (sarcopenia) and strength. Am J Med 2006; 119:526.e9-17., que, assim, tendem ao declínio da função física, à incapacidade funcional, à dependência nas atividades da vida diária e à mortalidade 2828 Visser M, Pahor M, Taaffe DR, Goodpaster BH, Simonsick EM, Newman AB, et al. Relationship of interleukin-6 and tumor necrosis factor-alpha with muscle mass and muscle strength in elderly men and women: the Health ABC Study. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2002; 57:M326-32.,2929 Reuben DB, Judd-Hamilton L, Harris TB, Seeman TE; MacArthur Studies of Successful Aging. The associations between physical activity and inflammatory markers in high-functioning older persons: MacArthur Studies of Successful Aging. J Am Geriatr Soc 2003; 51:1125-30.. Evidências foram reportadas acerca da redução progressiva da força de preensão manual na presença de biomarcadores catabólicos (CRP, IL-6, IL-1RA, TNF-α) 3030 Stenholm S, Maggio M, Lauretani F, Bandinelli S, Ceda GP, Di Iorio A, et al. Anabolic and catabolic biomarkers as predictors of muscle strength decline: the InCHIANTI study. Rejuvenation Res 2010; 13:3-11., os quais aumentam o estresse oxidativo, atuando na redução da massa muscular e consequente perda de força em pessoas idosas 2Manini TM, Clark BC. Dynapenia and aging: an update. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2012; 67: 28-40.,3131 Howard C, Ferrucci L, Sun K, Fried LP, Walston J, Varadhan R, et al. Oxidative protein damage is associated with poor grip strength among older women living in the community. J Appl Physiol (1985) 2007; 103:17-20.,3232 Leite LEA, Resende TL, Nogueira GM, Cruz IBM, Schneider RH, Gottlieb MGV. Envelhecimento, estresse oxidativo e sarcopenia: uma abordagem sistêmica. Rev Bras Geriatr Gerontol 2012; 15: 365-80..

Os resultados aqui encontrados coincidem com os de outras pesquisas que mostraram que homens diabéticos apresentam menores níveis de força que os não diabéticos, mas que o mesmo fato não se evidencia entre as mulheres 1111 Cheung C-L, Nguyen US, Au E, Tan KCB, Kung AW. Association of handgrip strength with chronic diseases and multimorbidity: a cross-sectional study. Age (Dordr) 2013; 35:929-41.,1717 Sayer AA, Dennison EM, Syddall HE, Gilbody HJ, Phillips DI, Cooper C. Type 2 diabetes, muscle strength, and impaired physical function: the tip of the iceberg? Diabetes Care 2005; 28:2541-2.. Estudos prospectivos apontam que o diabetes tipo 2 opera na redução da força e da massa muscular 1818 Park SW, Goodpaster BH, Strotmeyer ES, Kuller LH, Broudeau R, Kammerer C, et al. Accelerated loss of skeletal muscle strength in older adults with type 2 diabetes: the health, aging, and body composition study. Diabetes Care 2007; 30:1507-12., e que o maior nível de força atua como proteção para o desenvolvimento da doença 3333 Wander PL, Boyko EJ, Leonetti DL, McNeely MJ, Kahn SE, Fujimoto WY. Greater hand-grip strength predicts a lower risk of developing type 2 diabetes over 10 years in leaner Japanese Americans. Diabetes Res Clin Pract 2011; 92:261-4.. Evidências clínicas in vitro e in vivo fornecem provas de que a hiperglicemia afeta a função contrátil e a produção da força muscular 3434 Helander I, Westerblad H, Katz A. Effects of glucose on contractile function, [Ca2+]i, and glycogen in isolated mouse skeletal muscle. Am J Physiol Cell Physiol 2002; 282:C1306-12..

Este estudo também coincide com outros da identificação da associação entre força baixa e hipertensão em homens, mas não em mulheres 3535 Yoon JH, So WY. Associations of hypertension status with physical fitness variables in korean women. Iran J Public Health 2013; 42:673-80.,3636 Cavazzotto TG, Tratis L, Ferreira SA, Fernandes RA, Queiroga MR. Muscular static strength test performance: comparison between normotensive and hypertensive workers. Rev Assoc Med Bras 2012; 58:574-9.. Tem sido reportado que o treinamento resistido parece atuar na prevenção de disfunções metabólicas como a dislipidemia, glicose alterada em jejum, pré-hipertensão e aumento de circunferência abdominal, mas não da hipertensão 3737 Churilla JR, Magyari PM, Ford ES, Fitzhugh EC, Johnson TM. Muscular strengthening activity patterns and metabolic health risk among US adults. J Diabetes 2012; 4:77-84., mesmo reconhecendo que o aumento da força possa melhorar a saúde vascular e reduzir o aparecimento de complicações 3838 Cook MD, Heffernan KS, Ranadive S, Woods JA, Fernhall B. Effect of resistance training on biomarkers of vascular function and oxidative stress in young African-American and Caucasian men. J Hum Hypertens 2013; 27:388-92. e de mortalidade entre indivíduos hipertensos 3939 Artero EG, Lee DC, Ruiz JR, Sui X, Ortega FB, Church TS, et al. A prospective study of muscular strength and all-cause mortality in men with hypertension. J Am Coll Cardiol 2011; 57:1831-7.. É possível que a associação da força de preensão manual com hipertensão reflita muito mais o fato da variável de força muscular expressar o nível de aptidão global dos indivíduos 4040 Swain DP, Franklin BA. Comparison of cardioprotective benefits of vigorous versus moderate intensity aerobic exercise. Am J Cardiol 2006; 97:141-7. que propriamente uma relação direta da força de preensão manual com a doença.

A associação da força de preensão manual baixa com distúrbio musculoesquelético entre homens identificada em Rio Branco parece encontrar ressonância na relação entre força de preensão manual e força global, que reflete, em si, o funcionamento do sistema musculoesquelético 1Bohannon RW. Are hand-grip and knee extension strength reflective of a common construct? Percept Mot Skills 2012; 114:514-8.. Já foi reportada associação da baixa força à história de quedas em ambos os sexos e à cifose entre as mulheres 1111 Cheung C-L, Nguyen US, Au E, Tan KCB, Kung AW. Association of handgrip strength with chronic diseases and multimorbidity: a cross-sectional study. Age (Dordr) 2013; 35:929-41.. Os achados aqui reportados, portanto, conferem importância ao uso da força de preensão manual como biomarcador do estado de saúde, compreendendo que níveis reduzidos da força muscular podem levar à limitação funcional e a incapacidades, sobretudo entre indivíduos mais velhos 2Manini TM, Clark BC. Dynapenia and aging: an update. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2012; 67: 28-40.,3Rantanen T, Guralnik JM, Foley D, Masaki K, Leveille S, Curb JD, et al. Midlife hand grip strength as a predictor of old age disability. JAMA 1999; 281:558-60.,4141 Barbosa AR, Souza JMP, Lebrão ML, Laurenti R, Marucci MFN. Functional limitations of Brazilian elderly by age and gender differences: data from SABE Survey. Cad Saúde Pública 2005; 21:1177-85.. A avaliação da força de preensão manual durante a meia-idade pode permitir a identificação precoce de riscos de incapacidades futuras 3Rantanen T, Guralnik JM, Foley D, Masaki K, Leveille S, Curb JD, et al. Midlife hand grip strength as a predictor of old age disability. JAMA 1999; 281:558-60., de dependência nas atividades da vida diária e do declínio cognitivo em idade mais avançada 4Taekema DG, Gussekloo J, Maier AB, Westendorp RG, De Craen AJ. Handgrip strength as a predictor of functional, psychological and social health. A prospective population-based study among the oldest old. Age Ageing 2010; 39:331-7.. Também pode cumprir um papel na predição do risco de fraturas 5Cheung C-L, Tan KCB, Bow CH, Soong CSS, Loong CHN, Kung AW-C. Low handgrip strength is a predictor of osteoporotic fractures: cross-sectional and prospective evidence from the Hong Kong Osteoporosis Study. Age (Dordr) 2012; 34:1239-48. e no rastreamento de sarcopenia 2Manini TM, Clark BC. Dynapenia and aging: an update. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2012; 67: 28-40..

Algumas explorações feitas no processo de modelagem neste estudo centraram-se na diferenciação do grupo de indivíduos com 60 anos ou mais daqueles entre 40 e 59 anos, ratificando o peso do envelhecimento na ocorrência das doenças e endossando, de forma relativamente consistente, os resultados aqui apresentados. O pequeno número de indivíduos classificados como fortes na faixa de, pelo menos, 60 anos, principalmente entre homens, entretanto, deu margem à perda de poder nas inferências.

Estudos futuros contribuiriam ao buscar apreender o efeito da força de preensão manual em idades mais avançadas, assim como entender as diferenças aqui observadas no papel da força de preensão manual como preditora de morbidades entre homens e mulheres.

Ao que se sabe, este é o primeiro estudo a testar a interação da força de preensão manual e idade na apreciação da sua associação com morbidades. Os achados não indicam potencialização ou atenuação do efeito de se ter baixa força com a idade mais avançada na ocorrência de morbidades.

Alguns limites são reconhecidos neste estudo, tais como a impossibilidade de fazer inferências causais. As associações identificadas devem ser consideradas somente como associações, sendo pertinente a cautela no sentido de conjecturas acerca do que antecede o quê. Outro limite é a falta de parâmetros clínicos para as morbidades, embora as morbidades crônicas autorreferidas expressem uma medida aproximada das informações obtidas por exames clínicos 4242 Theme Filha MM, Szwarcwald CL, Souza Junior PRB. Medidas de morbidade referida e inter-relações com dimensões de saúde. Rev Saúde Pública 2008; 42:73-81..

Ainda assim, destaca-se o caráter inédito deste trabalho no Brasil, que se constitui na primeira pesquisa de base populacional com adultos a se ocupar com o estudo da força de preensão manual e morbidades. Também se destaca o fato dos modelos empregados terem considerado o efeito da força de preensão manual com ajustes pelas principais variáveis apontadas na literatura – idade, IMC e atividade física de lazer.

Conclusão

Os achados apresentados ratificam a associação entre força de preensão manual baixa e a ocorrência de morbidades crônicas, distúrbio musculoesquelético e multimorbidade entre homens, endossando a importância da avaliação da força muscular, medida pela dinamometria manual, como marcador útil, relativamente de baixo custo e de fácil aplicação para a avaliação clínica e o monitoramento do estado de saúde das pessoas, especialmente no nível da atenção básica.

Adicionalmente, este estudo aponta a necessidade de novas pesquisas epidemiológicas que permitam uma maior compreensão dos achados a partir de parâmetros clínicos de morbidades e com o foco em grupos etários específicos que expliquem as diferenças observadas entre homens e mulheres e que contribuam para a proposição de valores de referência e pontos de cortes para riscos à saúde.

Agradecimentos

Ao CNPq (Edital Casadinho UFAC-FIOCRUZ, processo no620024/2008-9) e à Capes (programas PROCAD-NF 1442/2007 e PROCAD-NF 2557/2008) pelo apoio ao programa de colaboração entre o Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Acre e o Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente da Fundação Oswaldo Cruz.

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Histórico

  • Recebido
    15 Maio 2014
  • Revisado
    23 Dez 2014
  • Aceito
    09 Jan 2015
  • Publicação Online
    Jun 2015
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@ensp.fiocruz.br