As interações entre os atores no retorno ao trabalho após afastamento por transtorno mental: uma metaetnografia

Interacciones entre actores en el regreso al trabajo tras una baja laboral por trastorno mental: una meta-etnografía

Robson da Fonseca Neves Mônica de Oliveira Nunes Lilian Magalhães Sobre os autores

Resumo

Transtornos mentais repercutem no mundo do trabalho. Estudos sobre interações entre os atores envolvidos no retorno ao trabalho são raros. A metaetnografia presta-se a sintetizar estudos qualitativos através da interpretação e comparação contínua dos conceitos presentes nos artigos. Este estudo propõe uma metaetnografia sobre as interações entre os atores sociais envolvidos no processo de retorno ao trabalho após afastamento por transtornos mentais. Visa: (1) explorar as interações entre os atores sociais envolvidos no retorno ao trabalho; (2) identificar facilitadores ou obstáculos para o retorno ao trabalho. A busca nas bases de dados produziu 619 artigos dos quais 16 atenderam aos critérios de inclusão. A análise dos artigos revelou seis conceitos de segunda ordem que resultaram em duas sínteses. A primeira diz respeito ao ethos do desempenho no retorno ao trabalho e a segunda aponta para o retorno ao trabalho como catalizador de novos modos de vida. Modelos que privilegiam o ethos do desempenho do trabalhador, bem como uma perspectiva orientada por aspectos psicossociais podem facilitar as praticas de retorno ao trabalho após afastamento por transtornos mentais.

Retorno ao Trabalho; Transtornos Mentais; Saúde do Trabalhador; Pesquisa Qualitativa

Resumen

Los transtornos mentales repercuten en el mundo laboral. Los estudios sobre las interacciones entre los actores involucrados en el regreso al trabajo son raros. La meta-etnografía se presta a sintetizar estudios cualitativos a través de la interpretación y comparación continua de los conceptos presentes en los artículos. Este estudio propone una meta-etnografía sobre las interacciones entre los actores sociales involucrados en el proceso de regreso al trabajo, tras la baja laboral por transtornos mentales. Tiene como objetivos: (1) explorar las interacciones entre los actores sociales involucrados en el regreso al trabajo; (2) identificar facilitadores u obstáculos para el regreso al trabajo. La búsqueda en bases de datos produjo 619 artículos de los cuales 16 atendieron a los criterios de inclusión. El análisis de los artículos reveló seis conceptos de segundo orden que dieron como resultado dos síntesis. La primera se refiere al ethos del desempeño en el regreso al trabajo y la segunda apunta al regreso al trabajo como catalizador de nuevos modos de vida. Modelos que privilegian el ethos del desempeño del trabajador, así como una perspectiva orientada por aspectos psicosociales pueden facilitar las prácticas de regreso al trabajo, tras la baja laboral por transtornos mentales.

Reinserción al Trabajo; Trastornos Mentales; Salud Laboral; Investigación Cualitativa

Introdução

O transtorno mental é um importante problema de saúde cujas repercussões também se expressam no mundo do trabalho, em especial no retorno ao trabalho de trabalhadores com afastamentos prolongados por transtorno mental. Blank et al. 11. Blank L, Peters J, Pickvance S, Wilford J, Macdonald E. A systematic review of the factors which predict return to work for people suffering episodes of poor mental health. J Occup Rehabil 2008; 18: 27-34. mostraram que entre os anos de 1985-2005, na América do Norte e na Inglaterra, apenas 50% dos que se afastaram do trabalho por transtornos mentais por mais de seis meses retornaram ao trabalho.

Para entender a complexidade desse problema, alguns autores têm estudado os preditores de retorno ao trabalho, que podem ser de várias ordens: pessoal, ambiental, organizacional e relacional 11. Blank L, Peters J, Pickvance S, Wilford J, Macdonald E. A systematic review of the factors which predict return to work for people suffering episodes of poor mental health. J Occup Rehabil 2008; 18: 27-34.. Com base nesse último, Nielsen et al. 22. Nielsen MBD, Madsen IEH, Bültmann U, Christensen U, Diderichsen F, Rugulies R. Predictors of return to work in employees sick-listed with mental health problems: findings from a longitudinal study. Eur J Public Health 2011; 21:806-11. (p. 807) apresentam a “expectativa quanto ao retorno ao trabalho” como um preditor do retorno ao trabalho. Os autores explicam que as percepções e crenças individuais sobre as condições externas e habilidades como preocupações com o desempenho no trabalho e com as interações com os colegas e outros atores envolvidos no processo de retorno ao trabalho podem afetar o comportamento do trabalhador e contribuir para o sucesso ou fracasso no retorno ao trabalho. Entretanto, as expectativas quanto ao retorno ao trabalho não são determinadas apenas pela percepção do trabalhador. Com efeito, as interações que se estabelecem entre os atores sociais envolvidos no processo de retorno ao trabalho também podem alimentar essas expectativas.

Gewurtz & Kirsh 33. Gewurtz R, Kirsh B. Disruption, disbelief and resistance: a meta-synthesis of disability in the workplace. Work 2009; 34:33-44. ressaltam que o apoio e a compreensão de colegas e de supervisores podem ter um papel crucial na manutenção, desempenho e satisfação no emprego. Andersen et al. 44. Andersen MF, Nielsen KM, Brinkmann S. Meta-synthesis of qualitative research on return to work among employees with common mental disorders. Scand J Work Environ Health 2012; 38:93-104. destacam o papel que os profissionais de saúde podem ter ao reforçar a identidade de doente no trabalhador afastado e o quanto isso pode contribuir para o retardamento e a baixa eficácia no retorno ao trabalho. MacEachen et al. 55. MacEachen E, Clarke J, Franche R-L, Irvin E. Systematic review of the qualitative literature on return to work after injury. Scand J Work Environ Health 2006; 32:257-69. apontam os conflitos na relação entre o trabalhador que retorna e o médico, sobretudo nas discordâncias quanto ao momento de retornar ao trabalho. Esses autores assinalam ainda o papel dos sindicatos nos processos de negociação dos ajustes no ambiente de trabalho e evidenciam o papel dos supervisores no êxito do retorno ao trabalho pela proximidade que os mesmos têm com o trabalhador que retorna.

Contudo, são escassas as revisões qualitativas que tratam da problemática que cerca as interações entre os atores no retorno ao trabalho de trabalhadores com transtornos mentais 33. Gewurtz R, Kirsh B. Disruption, disbelief and resistance: a meta-synthesis of disability in the workplace. Work 2009; 34:33-44.,44. Andersen MF, Nielsen KM, Brinkmann S. Meta-synthesis of qualitative research on return to work among employees with common mental disorders. Scand J Work Environ Health 2012; 38:93-104.,55. MacEachen E, Clarke J, Franche R-L, Irvin E. Systematic review of the qualitative literature on return to work after injury. Scand J Work Environ Health 2006; 32:257-69.. O desenvolvimento de sínteses qualitativas pode clarificar essas interações e com isso sistematizar conhecimento sobre essa problemática.

Dessa forma, questiona-se como a literatura científica aborda as interações entre os atores sociais envolvidos no processo de retorno ao trabalho após afastamento por transtornos mentais. Mais especificamente: (i) Quais os temas relacionados às interações entre os atores sociais envolvidos no retorno ao trabalho que emergem na literatura científica? (ii) Quais os facilitadores ou obstáculos para o retorno ao trabalho na literatura científica?

Considerações metodológicas

Nossa proposta metodológica filia-se à abordagem denominada como metassíntese qualitativa, a qual é utilizada para sintetizar estudos qualitativos, objetivando oferecer novos insights sobre um tema particular 33. Gewurtz R, Kirsh B. Disruption, disbelief and resistance: a meta-synthesis of disability in the workplace. Work 2009; 34:33-44..

A metaetnografia é um conjunto de técnicas e princípios que tem como característica principal o fato de ser indutiva e interpretativa, ao invés de agregativa, pois parte dos casos particulares, retendo sua singularidade e seu holismo, e chega à síntese através da tradução recíproca. Isto implica examinar os principais conceitos presentes no conjunto de artigos através de um processo comparativo 44. Andersen MF, Nielsen KM, Brinkmann S. Meta-synthesis of qualitative research on return to work among employees with common mental disorders. Scand J Work Environ Health 2012; 38:93-104.,66. Campbell R, Pound P, Pope C, Britten N, Pill R, Morgan M, et al. Evaluating meta-ethnography: a synthesis of qualitative research on lay experiences of diabetes and diabetes care. Soc Sci Med 2003; 56:671-84.,77. Noblit GW, Hare RD. Meta-ethnography: synthesizing qualitativa studies. Newbury Park: Sage Publications; 1988.. MacEachen et al. 55. MacEachen E, Clarke J, Franche R-L, Irvin E. Systematic review of the qualitative literature on return to work after injury. Scand J Work Environ Health 2006; 32:257-69. ressaltam a utilidade da metaetnografia, pois por meio da abordagem indutiva é possível transcender diferenças nas metodologias qualitativas e nos paradigmas epistemológicos, garantindo uma visão abrangente do conjunto da literatura examinada.

Processo de busca e critérios de inclusão

Com a assistência de uma bibliotecária uma busca sistemática, foi conduzida usando bases de dados eletrônicas norte-americanas e europeias para identificar estudos de natureza qualitativa revisados por pares e publicados em inglês. Incluíram-se também bases que indexam estudos realizados na América Latina e Caribe, sobretudo aqueles publicados nos idiomas português e espanhol. Ao final, chegou-se ao seguinte conjunto: BIREME, SciELO, PsycInfo, CINAHL, Scopus, EMBASE, Social Sciences Abstracts e Web of Knowledge (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma do processo de busca elegibilidade e inclusão.

MacEachen et al. 55. MacEachen E, Clarke J, Franche R-L, Irvin E. Systematic review of the qualitative literature on return to work after injury. Scand J Work Environ Health 2006; 32:257-69. assinalam que as boas práticas de retorno ao trabalho foram implementadas na América do Norte e na Europa durante a década de 1990. Isso justificou a busca de artigos publicados entre 1990 e 2014. Foram selecionados artigos que continham as seguintes palavras chaves ou seus correlatos: retorno ao trabalho, transtorno mental e metodologia qualitativa (Figura 2). Busca manual e listas cruzadas de referência dos principais artigos também foram adicionadas.

Figura 2
Processo de pesquisa: palavras-chave e combinações de palavras-chave.

Neste estudo a compreensão de Young et al. 88. Young AE, Roessler RT, Wasiak R, McPherson KM, van Poppel MNM, Anema JR. A developmental conceptualization of return to work. J Occup Rehabil 2005; 15:557-68. que entende o retorno ao trabalho como um processo dinâmico, influenciado por diferentes fatores em distintos momentos e de maneira não linear foi adotada. O processo pode ser dividido em quatro etapas, que vão desde a recuperação funcional, com o trabalhador ainda fora do trabalho (Off work), passando para a fase de reinserção no trabalho (Re-entry), na qual se devem observar os ajustes necessários no trabalho compatíveis com a capacidade do trabalhador a fim de que o mesmo mantenha o emprego e realize as atividades de forma satisfatória. Na etapa seguinte (Maintenance), o trabalhador se esforça para manter os objetivos e metas a serem alcançados no trabalho diário e já considera a possibilidade de progressão. Na última etapa (Advancement), o trabalhador qualifica-se para tarefas e responsabilidades maiores, almejando uma promoção.

Este modelo desenha o retorno ao trabalho a partir de uma ação combinada dos atores sociais envolvidos nesse processo, já que este envolve não só o trabalhador e outros agentes no local de trabalho, mas inclui ainda outras relações que extrapolam o chão de fábrica. Logo, retorno ao trabalho além de conceito foi também critério para a busca e seleção dos artigos que embasaram esta metassíntese 88. Young AE, Roessler RT, Wasiak R, McPherson KM, van Poppel MNM, Anema JR. A developmental conceptualization of return to work. J Occup Rehabil 2005; 15:557-68..

Sustentamos que transtornos mentais são produto e expressão, no indivíduo, de relações de poder, contradições sociais, dilemas existenciais e conflitos culturais. Isto implica compreender os transtornos mentais como subjetivações que se manifestam por rupturas no processo de adaptação psicossocial, expressas pelo pensamento, sentimento e comportamento, cujos resultados variam conforme as dimensões de ordem sociocultural, psicológico-subjetiva e biológico-cerebral 99. Dalgalarrondo P. Psicopatologia e sintomatologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul; 2000..

Embora a racionalidade do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) negligencie a espessura biopsicosociocultural do adoecimento mental 1010. Nunes M. Interseções antropológicas na saúde mental: dos regimes de verdade naturalistas à espessura biopsicossociocultural do adoecimento mental. Interface Comun Saúde Educ 2012; 16:903-16., bem como a singularidade da experiência do sujeito em prol de supostas neutralidade, universalidade e objetividade do diagnóstico psiquiátrico 1111. Hernáez AM. La copia de los hechos. La biomedicina, el poder y sus encubrimientos. Quaderns de l’Institut Català d’Antropologia 2011; 11:45-64., optamos por incluir as nomenclaturas adotadas nesses manuais, pois as mesmas representam uma base comum nas produções científicas na área da saúde.

Entretanto, optamos aqui por restringir o escopo dos transtornos mentais aos diagnósticos de transtorno de humor (F30 a F39), transtornos neuróticos e relacionados ao estresse (F40 a F43) com base na CID-10 1212. Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993., por serem estes os de maior prevalência e estarem geralmente associados a licenças que culminam com retorno ao trabalho ao invés de aposentadoria precoce 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35..

A seleção dos estudos envolveu ainda os seguintes critérios de inclusão: (a) estudos baseados em pesquisas qualitativas; (b) estudos que abordam o retorno ao trabalho relacionado a transtornos mentais; (c) estudos nos quais os participantes retornaram ao trabalho após transtornos mentais e/ou outros interessados nesse processo; (d) os estudos focalizaram interações entre atores sociais no contexto do retorno ao trabalho de pessoas com transtornos mentais.

Metassínteses qualitativas recentes 33. Gewurtz R, Kirsh B. Disruption, disbelief and resistance: a meta-synthesis of disability in the workplace. Work 2009; 34:33-44.,44. Andersen MF, Nielsen KM, Brinkmann S. Meta-synthesis of qualitative research on return to work among employees with common mental disorders. Scand J Work Environ Health 2012; 38:93-104.,1414. Fossey EM, Harvey CA. Finding and sustaining employment: a qualitative meta-synthesis of mental health consumer views. Can J Occup Ther 2010; 77:303-14. têm adotado modelos de avaliação de qualidade dos estudos entre seus métodos de seleção dos artigos. Vale observar, no entanto, que o uso de critérios de qualidade para a seleção dos artigos para metassínteses tem sofrido críticas importantes 66. Campbell R, Pound P, Pope C, Britten N, Pill R, Morgan M, et al. Evaluating meta-ethnography: a synthesis of qualitative research on lay experiences of diabetes and diabetes care. Soc Sci Med 2003; 56:671-84.,1515. Daly J, Willis K, Small R, Green J, Welch N, Kealy M, et al. A hierarchy of evidence for assessing qualitative health research. J Clin Epidemiol 2007; 60: 43-9.. A mais relevante mostra que as diretrizes de avaliação da qualidade dos artigos qualitativos tendem a valorizar modelos hegemônicos de pesquisa que não refletem a totalidade de possibilidades existentes. Dessa forma, mesmo refinados estudos poderiam ser descartados por não se enquadrarem nos critérios elegíveis 1515. Daly J, Willis K, Small R, Green J, Welch N, Kealy M, et al. A hierarchy of evidence for assessing qualitative health research. J Clin Epidemiol 2007; 60: 43-9.,1616. Spencer L, Ritchie J, Lewis J, Dillon L. Quality in qualitative evaluation: a framework for assessing research evidence. London: Government Chief Social Researcher’s Office; 2003..

Concordamos, portanto, que a pluralidade pode conferir força às evidências quando se faz uma revisão 66. Campbell R, Pound P, Pope C, Britten N, Pill R, Morgan M, et al. Evaluating meta-ethnography: a synthesis of qualitative research on lay experiences of diabetes and diabetes care. Soc Sci Med 2003; 56:671-84.,1616. Spencer L, Ritchie J, Lewis J, Dillon L. Quality in qualitative evaluation: a framework for assessing research evidence. London: Government Chief Social Researcher’s Office; 2003.. Deste modo não adotaremos critérios de avaliação de qualidade dos estudos selecionados, mas utilizaremos procedimentos sistemáticos que fundamentem as decisões e escolhas, o que deverá maximizar o rigor do trabalho realizado.

Dois autores com experiência em pesquisa qualitativa e no campo da saúde do trabalhador selecionaram os artigos e, nos casos em que não houve consenso, um terceiro avaliador contribuiu na tomada de decisão final. Procedimento semelhante foi adotado em outras metassín- teses 33. Gewurtz R, Kirsh B. Disruption, disbelief and resistance: a meta-synthesis of disability in the workplace. Work 2009; 34:33-44.,44. Andersen MF, Nielsen KM, Brinkmann S. Meta-synthesis of qualitative research on return to work among employees with common mental disorders. Scand J Work Environ Health 2012; 38:93-104.,1414. Fossey EM, Harvey CA. Finding and sustaining employment: a qualitative meta-synthesis of mental health consumer views. Can J Occup Ther 2010; 77:303-14..

Análise dos dados

Noblit & Hare 77. Noblit GW, Hare RD. Meta-ethnography: synthesizing qualitativa studies. Newbury Park: Sage Publications; 1988. propõem três estratégias possíveis para sintetizar estudos qualitativos: (1) Tradução Recíproca como Síntese, na qual de forma interativa, cada estudo é examinado em relação às suas semelhanças; (2) Síntese de Refutação, quando o exame de cada estudo é orientado para que desacordos entre eles sejam identificados; (3) Síntese de Linhas de Argumento, que objetiva desenvolver uma interpretação abrangente do todo (organização, cultura etc), baseada nas linhas de argumento construída nos sucessivos estudos. Nesta revisão adotou-se a Tradução Recíproca como Síntese pois os estudos investigados apresentavam diversas similaridades entre si, o que recomendava que fossem aferidos pelo movimento constante de escrutínio e comparação das ideias e conceitos contidos nos estudos originais 77. Noblit GW, Hare RD. Meta-ethnography: synthesizing qualitativa studies. Newbury Park: Sage Publications; 1988..

O desenvolvimento de uma metaetnografia envolve três ordens de organização e análise dos dados. Nesse estudo a primeira ordem envolveu a identificação dos conceitos contidos nos principais achados dos artigos originais. Nosso estudo priorizou as descrições das interações entre os atores sociais no contexto do retorno ao trabalho 77. Noblit GW, Hare RD. Meta-ethnography: synthesizing qualitativa studies. Newbury Park: Sage Publications; 1988.. A segunda ordem correspondeu ao processo interpretativo a partir da comparação dos achados que emergiram em pelo menos dois estudos originais 33. Gewurtz R, Kirsh B. Disruption, disbelief and resistance: a meta-synthesis of disability in the workplace. Work 2009; 34:33-44.,44. Andersen MF, Nielsen KM, Brinkmann S. Meta-synthesis of qualitative research on return to work among employees with common mental disorders. Scand J Work Environ Health 2012; 38:93-104.,77. Noblit GW, Hare RD. Meta-ethnography: synthesizing qualitativa studies. Newbury Park: Sage Publications; 1988.. A terceira ordem ou síntese consistiu numa reinterpretação dos conceitos de segunda ordem em relação às questões que guiam o objeto de estudo. O processo foi guiado por alguns fundamentos da teoria fenomenológica tais como a experiência significativa, o ser no mundo e o mundo da vida, além da teoria sociológica sobre a ação. Utilizamos ainda o conceito de reabilitação psicossocial para oferecer uma epítome da literatura examinada, o que será melhor esclarecido na discussão dos achados 77. Noblit GW, Hare RD. Meta-ethnography: synthesizing qualitativa studies. Newbury Park: Sage Publications; 1988..

O sistema de gestão de referências Mendeley 1.12.1 versão livre para Windows (http://www.mendeley.com) foi usado para gerenciamento dos artigos. O software Nvivo 10 (QSR International; http://www.qsrinternational.com/) foi utilizado para organizar tematicamente os conceitos extraídos dos artigos originais, bem como para a análise comparativa entre esses conceitos 1717. Saur-Amaral I. Curso completo de NVivo 9. Como tirar maior proveito do software para a sua investigação. Aveiro: Bubok; 2011..

Resultados

Após a fusão dos resultados obtidos nas oito bases de dados e retirada das publicações duplicadas, a busca ativa rendeu 619 artigos. Desses, 16 artigos foram selecionados segundo os critérios de inclusão previamente mencionados (Figura 1). Vale ressaltar que a maior parte dos estudos encontrados referiu-se a países como Holanda, Dinamarca, Suécia, Reino Unido e Canadá, nações do hemisfério norte, economicamente desenvolvidas e centrais. Uma síntese das principais características e conceitos de primeira ordem identificados nos artigos selecionados está representada na Tabela 1.

Tabela 1
Descrição dos artigos selecionados e dos conceitos de primeira ordem.

Com base nas questões da investigação chegou-se a um consenso entre os pesquisadores, o qual resultou nos seis conceitos de segunda ordem que se seguem:

1) A experiência relacionada ao desempenhodo trabalhador no processo de retorno ao trabalho

Os artigos evidenciam que o desempenho dos trabalhadores no retorno ao trabalho parece sofrer uma influência direta das crenças que o trabalhador que retorna ao trabalho tem sobre ele mesmo, bem como das ideias que os outros expõem sobre ele e sobre o seu retorno ao trabalho. Essas experiências afloram como: fraqueza por não conseguir gerenciar sua carga de trabalho 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22.,1919. Nielsen MBD, Rugulies R, Hjortkjaer C, Bültmann U, Christensen U. Healing a vulnerable self: exploring return to work for women with mental health problems. Qual Health Res 2013; 23:302-12.,2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.; desconfiança em si próprio em função de não suportar bem as exigências do trabalho 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22.,2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6.; descrédito por não lidar bem com suas próprias expectativas de ser um funcionário bem sucedido 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22.,2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6.; melindres em relação às reações dos outros quanto ao seu retorno ao trabalho 2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6.,2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.; opressão por se sentir forçado a satisfazer as expectativas dos outros 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35.,2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6., e, por fim, a impressão de estar sendo julgado pelos demais sobre a sua capacidade de trabalho 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303..

Esses elementos podem causar mais apreensão e perturbações sobre o processo de volta ao trabalho 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47., sentimento de vergonha e culpa 2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6., necessidade de isolamento 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47., criação ou reforço de imagem negativa do trabalhador com transtornos mentais 2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6.,2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15. e descrédito quanto à capacidade de ser acolhido e cuidado no local de trabalho 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22.. Com base nesses achados, a experiência relacionada ao desempenho no retorno ao trabalho caracteriza-se como um obstáculo de difícil superação no processo de retorno, pois parece configurar-se como um ethos, ou seja, um modo de ser predominante nas atitudes, valores e sentimentos dos indivíduos de uma comunidade.

Os estudos revisados oferecem algumas estratégias de enfrentamento contra as crenças que pairam sobre o desempenho no trabalho: (a) oferecer feedback positivo quanto à confiança na capacidade e competência atual para a realização das atividades, destacando os pontos fortes e as habilidades que o trabalhador possui 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22.,2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606.; (b) oferecer ajuda para a revisão das expectativas pessoais de desempenho 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.; (c) trabalhar na autoaceitação da condição atual, a fim de produzir os ajustes necessários para sustentar o esforço de se reconectar com os colegas de trabalho 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.; (d) implementar ações afirmativas no local de trabalho, como falar do transtornos mentais que sofreu 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.; (e) aprender a lidar com as emoções e sentimentos relacionados às exigências do trabalho 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35.; (f) promover a discussão sobre o desempenho nas atividades profissionais entre os atores envolvidos no retorno ao trabalho de empregados com transtornos mentais 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.; e (g) refletir e ressignificar os múltiplos sentidos incorporados em relação à ética do trabalho 2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6..

2) O impacto da relação com os colegas no retorno ao trabalho

Os estudos apontam para algumas expectativas sobre o modo de agir que se estabelecem entre os colegas e o trabalhador que retorna. O trabalhador que retorna espera do colega atitudes como: escuta atenta e dedicada 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22., ter atitude acolhedora 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52., predisposição para entrar em contato com o trabalhador afastado mesmo no período de licença 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47., oferecimento de ajuda sincera nas tarefas e compreensão nas acomodações 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.. As atitudes valorizadas pelo colega em relação ao trabalhador que retorna são: não ter medo de pedir ajuda aos colegas 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52. e confiar em seus colegas 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.. O resultado disso é um aumento da autoestima e da fé na própria competência 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22., o fortalecimento da identidade e o reconhecimento do status social de trabalhador 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47. e o fortalecimento da sensação no trabalhador de que pode contar com um ambiente favorável para o seu retorno ao trabalho 2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15..

A construção do apoio no local de trabalho é desfavorecida por atitudes que prejudicam as relações entre os colegas e o trabalhador que retorna, destacando-se aqui: o escárnio, a piada, a cobrança excessiva 2626. Olivier M, Perez C, Behr S. Trabalhadores afastados por transtornos mentais e de comportamento: o retorno ao ambiente de trabalho e suas consequências na vida laboral e pessoal de alguns bancários. Revista de Administração Contemporânea 2011; 15:993-1015., a recusa em trabalhar com quem sofreu um episódio de transtornos mentais 2626. Olivier M, Perez C, Behr S. Trabalhadores afastados por transtornos mentais e de comportamento: o retorno ao ambiente de trabalho e suas consequências na vida laboral e pessoal de alguns bancários. Revista de Administração Contemporânea 2011; 15:993-1015. e o ceticismo por parte dos colegas 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.. Alguns autores destacam a curiosidade excessiva dos colegas com relação ao tabu que cerca a confidencialidade da informação médica 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47. e as atitudes interesseiras daqueles que recebem bem o trabalhador que retorna porque querem repassar imediatamente para ele a carga de trabalho que assumiram 2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15.. Outros fatores dizem respeito ao próprio trabalhador e se caracterizam por agressividade e explosão emocional antes do afastamento, ou mesmo no período de retorno ao trabalho 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303. bem como o simples fato de possuir um distúrbio psiquiátrico 2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15..

Tais elementos podem reiterar a rotulação da incapacidade e ampliar a falta de confiança para gerir o trabalho e prosseguir no processo de retorno ao trabalho 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.,2626. Olivier M, Perez C, Behr S. Trabalhadores afastados por transtornos mentais e de comportamento: o retorno ao ambiente de trabalho e suas consequências na vida laboral e pessoal de alguns bancários. Revista de Administração Contemporânea 2011; 15:993-1015.. Podem ainda catalisar situações estressantes para o trabalhador que volta ao trabalho 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.. O estigma apresentado pelos colegas em relação ao distúrbio psiquiátrico grave parece não favorecer o contato prévio ao retorno 2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15.. Ademais, as atitudes interesseiras dos colegas podem produzir pressão sobre o trabalhador que ainda não se sente capaz de assumir integralmente a carga de trabalho 2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15.. Daí ressalta- se a importância de se investir nas estratégias de preparação do momento de chegada, sobretudo a fim de estabelecer ou restabelecer as vias de conexão entre as pessoas, objetivando mitigar conflitos no local de trabalho 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303..

Os estudos trazem recomendações que podem ser úteis para favorecer a relação entre o trabalhador que retorna e seu colega: (a) organizar uma reunião preparatória que anteceda a data do retorno ao trabalho. E em tese esta reunião pode possibilitar ao trabalhador que retorna expressar seus medos, buscar soluções para as acomodações necessárias, sem com isso quebrar o sigilo sobre a condição clínica do trabalhador 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.; (b) produzir um plano de comunicação compartilhado que ofereça à equipe que recebe o trabalhador com transtornos mentais o nível de informação necessária, capaz de ajudar a planejar as ações na relação com o trabalhador que retorna 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.. Reivindica-se também a necessidade de compreender melhor o papel que o contexto de trabalho orientado para a máxima eficiência e para o desempenho com reflexo na produtividade impõe no sentido de minar a oferta de apoio genuíno para a reintegração de trabalhadores com transtornos mentais 2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15..

3) Da percepção à ação: o modus operandi do supervisor no retorno ao trabalho

Os estudos apontam para a relação entre o que o supervisor pensa sobre o trabalhador que se afasta e retorna ao trabalho por transtornos mentais e a maneira como o supervisor age no processo de retorno ao trabalho. Ordinariamente o supervisor formula uma ideia positiva sobre o transtornos mentais, admitindo que o afastamento não é sinal de que a pessoa é preguiçosa, louca e ineficiente na realização das tarefas de trabalho 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.. O resultado disso é que o supervisor oferece apoio e direcionamento para o trabalhador no processo de retorno ao trabalho, o que pode resultar em sucesso na volta à atividade laboral 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.,2727. Hees HL, Nieuwenhuijsen K, Koeter MWJ, Bültmann U, Schene AH. Towards a new definition of return-to-work outcomes in common mental disorders from a multi-stakeholder perspective. PLoS One 2012; 7:1-7..

Para Hees et al. 2727. Hees HL, Nieuwenhuijsen K, Koeter MWJ, Bültmann U, Schene AH. Towards a new definition of return-to-work outcomes in common mental disorders from a multi-stakeholder perspective. PLoS One 2012; 7:1-7. o fato de o supervisor crer que o empregado seja capaz de lidar com a carga de trabalho, sugere uma perspectiva positiva em relação à capacidade do trabalhador, mas pode também traduzir-se em aspirações próprias da ética produtivista, como a vitalidade para o trabalho e cumprimento de tarefas, parâmetros de normalidade usualmente adotados no mundo do trabalho e que precisam ser relativizados nos casos em questão. Na opinião de Lemieux et al. 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303., quando o trabalhador retorna é comum o conflito entre as expectativas de produção normal e o conceito de retorno gradual ao trabalho com limitação de tarefas, a necessidade de acomodações e a adoção de tempo parcial de trabalho. Muitas vezes quem está no centro desse conflito é justamente o supervisor, obrigado a cuidar dos interesses do capital enquanto tenta transformar o local de trabalho em um ambiente “terapêutico” 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303..

A visão positiva que o supervisor tem do empregado que retorna após afastamento por transtornos mentais pode ter sido facilitada pelo diálogo franco e aberto sobre os problemas psicológicos que motivaram o afastamento do trabalho 2727. Hees HL, Nieuwenhuijsen K, Koeter MWJ, Bültmann U, Schene AH. Towards a new definition of return-to-work outcomes in common mental disorders from a multi-stakeholder perspective. PLoS One 2012; 7:1-7., pelo investimento no contato prévio com o trabalhador durante o afastamento para oferecer apoio e manter a comunicação durante esse período e pela percepção que o supervisor adquire quanto às expectativas positivas que o próprio trabalhador tem sobre seu retorno ao trabalho 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.. Lemieux et al. 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303. acrescentam que o espaço de diálogo aberto configura-se como um excelente momento em que o supervisor pode aproveitar para esclarecer todas as mudanças ocorridas na organização, discutir a programação de trabalho e oferecer treinamento para a adaptação mais fácil às mudanças ocorridas no trabalho. Segundo Cowls & Galloway 2828. Cowls J, Galloway E. Understanding how traumatic re-enactment impacts the workplace: assisting clients’ successful return to work. Work 2009; 33: 401-11., quando o supervisor passa por um programa de retorno ao trabalho que envolve diálogo e parceria, nota-se pré-disposição para executar o planejamento do retorno e realizar os ajustamento recomendados.

Por sua vez, a visão negativa do supervisor sobre o empregado que retorna é explicitada de duas formas. A primeira, pelas suas preconcepções sobre o funcionamento da personalidade do empregado acometido por transtornos mentais que retorna. Nessas estão incluídos o sentimento de inferioridade, a baixa autoconfiança e a personalidade esquiva e dependente 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.,2929. Vries G, Hees HL, Koeter MWJ, Lagerveld SE, Schene AH. Perceived impeding factors for return-to-work after long-term sickness absence due to major depressive disorder: a concept mapping approach. PLoS One 2014; 9:1-10.. A segunda diz respeito ao juízo negativo sobre a competência do funcionário caracterizada por um atributo pessoal de fraqueza e incapacidade de gerir o trabalho sem novas recaídas e por não perceber no trabalhador posições afirmativas quanto à vontade de retornar ao trabalho 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2727. Hees HL, Nieuwenhuijsen K, Koeter MWJ, Bültmann U, Schene AH. Towards a new definition of return-to-work outcomes in common mental disorders from a multi-stakeholder perspective. PLoS One 2012; 7:1-7.,3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42.. O resultado disso pode confluir no ceticismo quanto à veracidade do diagnóstico de transtornos mentais 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52.,2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303., no preconceito que rotula o trabalhador como fraco e incompetente a quem não se pode dar crédito e, ademais, a descrença na possibilidade de êxito do processo de retorno ao trabalho 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6..

Lemieux et al. 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303. sugerem maior abertura e compartilhamento de informações entre os profissionais de saúde e recursos humanos e os supervisores, a fim de minimizar as influências das percepções antecipadas sobre o retorno ao trabalho. Além disso, os autores recomendam capacitação do supervisor para conduzir o processo de retorno ao trabalho, não apenas pelo prisma das acomodações, mas também dos demais fatores que interferem no retorno ao trabalho.

4) O papel sinérgico ou antagônico dos níveis gerenciais

Alguns autores abordam os esforços adotados pelos níveis gerenciais em assumir a reintegração e o acolhimento do funcionário que retorna como política institucional. Os representantes dos níveis gerenciais podem desempenhar um importante papel através do envio de comunicações coletivas dando ciência do compromisso da empresa no retorno ao trabalho a todos 3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42.. Apesar do seu evidente caráter político, este tipo de envolvimento muitas vezes é tido como puramente administrativo e refere-se apenas aos aspectos relacionados às acomodações 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42.,3131. Muijzer A, Brouwer S, Geertzen JH, Groothoff JW. Exploring factors relevant in the assessment of the return-to-work process of employees on long-term sickness absence due to a depressive disorder: a focus group study. BMC Public Health 2012; 12:103.. Ainda assim, a medida pode servir como importante ferramenta de empoderamento do discurso dos profissionais responsáveis por conduzir o processo de retorno ao trabalho na empresa, na hora de negociar com funcionários e gerentes resistentes ao processo de retorno ao trabalho 3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42.. Contudo, Caveen et al. 3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42. advertem que as comunicações coletivas podem ser entendidas como ferramenta de coação imposta pelos níveis gerenciais, que pode trazer prejuízos para o êxito do processo de retorno ao trabalho.

Para Corbière et al. 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47., o envolvimento poderia ser ainda mais próximo, com os níveis gerenciais reunindo-se com o trabalhador que retorna e os demais interessados para traçar, negociar e implementar o plano de retorno ao trabalho. Lemieux et al. 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303. concordam com essa afirmativa chamando este agir de “ação concreta”, na qual, a despeito de diferentes valores e expectativas, os atores negociam planos comuns. Um possível impacto direto desse tipo de ação por parte dos gerentes seria a possibilidade de minimizar as exigências e preocupações por desempenho por parte de quem volta, pelos colegas e supervisores 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.. Este tipo de ação, mesmo sendo bem vista pelos empregados, ainda não é devidamente acolhida e utilizada pelos empregadores 2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606.. Cabe assinalar que os estudos avaliados não esclarecem os motivos pelos quais os níveis gerenciais não adotam estes procedimentos como válidos e capazes de colaborar no bom êxito do retorno ao trabalho.

Os níveis gerenciais podem ter um papel negativo quando nas suas ações sobre o processo de retorno ao trabalho não estão embutidos elementos como o acolhimento e a compreensão 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22.,2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606.,3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42., quando as ações são permeadas pelo preconceito e rotulação do trabalhador que se afastou por problemas mentais 1818. Holmgren K, Dahlin Ivanoff S. Women on sickness absence: views of possibilities and obstacles for returning to work. A focus group study. Disabil Rehabil 2004; 26:213-22.,2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6., quando há um questionamento espúrio sobre a autenticidade da doença e da integridade do trabalhador, gerando um clima de desconfiança 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35.,2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15.,3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42., quando os níveis gerenciais usam mecanismos, principalmente as seguradoras, para pressionar a volta antecipada do trabalhador através do envio frequente de cartas e telefonemas, quando aumenta a frequência com que os trabalhadores devem apresentar os relatórios médicos aos representantes dos empregadores e finalmente quando se contestam, de forma abusiva, as datas de licença prescritas pelos médicos que assistem ao trabalhador afastado 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.,2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15.. Esses aspectos podem abrir espaço para a quebra de confiança do trabalhador para com os níveis gerenciais trazendo para dentro do processo de retorno ao trabalho o rancor e a indignação 2424. Saint-Arnaud L, Saint-Jean M, Damasse J. Towards an enhanced understanding of factors involved in the return-to-work process of employees absent due to mental health problems. Can J Commun Ment Health 2006; 25:303-15., além do sentimento de desamparo e negligência 2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6., elementos que podem prejudicar o retorno ao trabalho.

Segundo Pittam et al. 2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606., algumas medidas importantes podem ser adotadas para minimizar as barreiras que podem advir dos níveis gerenciais. Primeiro, promover processos de comunicação direta entre o trabalhador afastado e os níveis gerenciais, a fim de que as barreiras citadas acima possam ser minimizadas. Segundo, contar com atores externos ao trabalho que possam intermediar o diálogo entre trabalhador e empregador e garantir que o processo seja o mais equânime possível.

5) O suporte dos profissionais de saúde extrapola o ambiente de trabalho

Profissionais de saúde tradicionalmente oferecem às pessoas que se afastam um importante suporte para estabilizar clinicamente os seus sintomas, na esperança de diminuir as chances de recaídas 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.,2828. Cowls J, Galloway E. Understanding how traumatic re-enactment impacts the workplace: assisting clients’ successful return to work. Work 2009; 33: 401-11.. Destaca-se também o papel que esses profissionais têm em tornar o trabalhador mais consciente de seus problemas e das dificuldades no seu local de trabalho e com isso garantir um tempo adequado para tratar dessas questões antes de retornar ao trabalho 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35.,2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.,2828. Cowls J, Galloway E. Understanding how traumatic re-enactment impacts the workplace: assisting clients’ successful return to work. Work 2009; 33: 401-11.. Para isso utilizam-se abordagens cognitivas baseadas em estratégias de enfrentamento como a adoção de comportamentos úteis para evitar conflitos, estabelecer limites adequados à sua condição e, por fim, o treinamento de habilidades e competências que possam ser transferíveis para o local de trabalho, a exemplo do gerenciamento da capacidade de pedir ajuda 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35.,2828. Cowls J, Galloway E. Understanding how traumatic re-enactment impacts the workplace: assisting clients’ successful return to work. Work 2009; 33: 401-11..

Ressalta-se ainda que o suporte do profissional de saúde extrapola o escopo do trabalho pois considera os elementos estressores que estão contidos no convívio familiar 2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52., fornece manejo para lidar com as companhias de seguro e serviços de seguridade social 2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6.,2222. Hatchard K, Henderson J, Stanton S. Workers’ perspectives on self-directing mainstream return to work following acute mental illness: reflections on partnerships. Work 2012; 43:43-52., ajuda o trabalhador a olhar para dentro de si na tentativa de melhor autoentendimento e das questões pessoais que permeiam as suas relações, o que envolve a possibilidade de estabelecer limites adequados não só no trabalho, mas também na vida pessoal 1919. Nielsen MBD, Rugulies R, Hjortkjaer C, Bültmann U, Christensen U. Healing a vulnerable self: exploring return to work for women with mental health problems. Qual Health Res 2013; 23:302-12.,2121. Verdonk P, de Rijk A, Klinge I, de Vries A. Sickness absence as an interactive process: gendered experiences of young, highly educated women with mental health problems. Patient Educ Couns 2008; 73:300-6.,2828. Cowls J, Galloway E. Understanding how traumatic re-enactment impacts the workplace: assisting clients’ successful return to work. Work 2009; 33: 401-11. e, por fim, promove suporte para o desenvolvimento de um estilo de vida saudável e equilibrado 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.,2828. Cowls J, Galloway E. Understanding how traumatic re-enactment impacts the workplace: assisting clients’ successful return to work. Work 2009; 33: 401-11.. Esses elementos conferem integralidade ao processo de retorno ao trabalho, bem como fortalecem a responsabilização por parte dos profissionais de saúde e o vínculo entre eles e o trabalhador que retorno ao trabalho. Esse conjunto de fatores pode favorecer a continuidade do processo de retorno ao trabalho.

6) O papel do mediador no retorno ao trabalho

O “mediador” atua como interlocutor entre os agentes no processo de retorno ao trabalho por possuir uma posição influente no local de trabalho. Os mediadores são denominados como gerente ou gestor de caso, coordenador de retorno ao trabalho, conselheiro de emprego, mas também estão designados na figura dos representantes dos sindicatos e de instituições de apoio e proteção do trabalhador 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35.,2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47.,2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.,2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606..

Corbière et al. 2020. Corbière M, Renard M, St-Arnaud L, Coutu MF, Negrini A, Sauvé G, et al. Union perceptions of factors related to the return to work of employees with depression. J Occup Rehabil 2015; 25:335-47. apresentam o mediador como um ator importante que pode acompanhar o trabalhador no contato com os profissionais de saúde, fornecendo mais informações a esses profissionais sobre o local de trabalho. Lemieux et al. 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303. assumem posição semelhante, caracterizando o mediador como uma espécie de mentor, alguém que se liga ao trabalhador e oferece um suporte externo. Ressaltam ainda que muitas vezes este suporte não pode ser oferecido por outros membros da equipe de trabalho pela falta de imparcialidade ou pela dificuldade do profissional de saúde de se fazer presente no local de trabalho. Noordik et al. 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35. apontam o mediador como um articulador das várias ações, iniciativas e suportes oferecidos para o trabalhador que retorna.

Pittam et al. 2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606. sugerem que o papel do mediador deve ser dotado de elementos como escuta, imparcialidade, individualização da abordagem, empoderamento, encorajamento e orientação. O mediador precisa desenvolver, no trabalhador, estratégias de aumento da confiança, destacando seus pontos fortes e habilidades, permitindo assim rever e reforçar as crenças do trabalhador sobre sua capacidade laboral 1313. Noordik E, Nieuwenhuijsen K, Varekamp I, van der Klink JJ, van Dijk FJ. Exploring the return-to-work process for workers partially returned to work and partially on long-term sick leave due to common mental disorders: a qualitative study. Disabil Rehabil 2011; 33:1625-35.,2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606.. O mediador pode ainda habilitar o trabalhador a qualificar melhor o seu discurso perante o empregador nos processos de negociação por acomodação e outros processos correlatos; capacita também o trabalhador a identificar a fonte dos seus problemas a fim de que ele possa escolher as medidas adequadas para resolver essas questões e, finalmente, deve trabalhar numa perspectiva que possa levar o trabalhador a olhar para além das suas perspectivas atuais de carreira ajudando-o a identificar habilidades e aptidões diferentes 2525. Pittam G, Boyce M, Secker J, Lockett H, Samele C. Employment advice in primary care: a realistic evaluation. Health Soc Care Community 2010; 18:598-606.,3232. Oostrom SH, Anema JR, Terluin B, Venema A, Vet HCW, Mechelen W. Development of a workplace intervention for sick-listed employees with stress-related mental disorders: intervention mapping as a useful tool. BMC Health Serv Res 2007; 7:1-13..

Não obstante a importância do papel do mediador, algumas dificuldades são apontadas: (i) geralmente não está no escopo das atribuições do mediador negociar as condições de trabalho; (ii) a imparcialidade é uma tarefa complexa e depende da dinâmica envolvida na posição que o individuo assume perante a empresa e o empregado; e (iii) a individualização da abordagem, apesar de útil para pensar os casos em particular, pode embotar a visão sobre problemas de ordem coletiva, que carecem de negociações mais amplas e intervenções que abarquem a todos sob as mesmas condições ou riscos. Ainda assim, Oostrom et al. 3232. Oostrom SH, Anema JR, Terluin B, Venema A, Vet HCW, Mechelen W. Development of a workplace intervention for sick-listed employees with stress-related mental disorders: intervention mapping as a useful tool. BMC Health Serv Res 2007; 7:1-13. advogam pela necessidade de agentes que medeiem as relações durante o retorno ao trabalho.

Os autores sugerem que esses indivíduos incorporem os valores capazes de tornar o retorno ao trabalho menos burocratizado e hierarquizado, que a mediação não deve se estabelecer como um nova ordem de poder atuante no retorno ao trabalho e que a figura do mediador não deve substituir os importantes processos de empoderamento dos trabalhadores para negociarem suas próprias necessidades. Seu papel, quando necessário, precisa primar por desenvolver e organizar um plano de comunicação capaz de horizontalizar e articular dialeticamente as perspectivas dos atores sobre o retorno ao trabalho 2323. Lemieux P, Durand M-J, Hong QN. Supervisors’ perception of the factors influencing the return to work of workers with common mental disorders. J Occup Rehabil 2011; 21:293-303.,3030. Caveen M, Dewa C, Goering P. The influence of organizational factors on return-to-work outcomes. Can J Community Ment Health 2006; 25:121-42..

Discussão

Com base nos conceitos de segunda ordem acima descritos, nos constructos sobre a reabilitação psicossocial e em alguns fundamentos teóricos da fenomenologia e da sociologia 3333. Hirdes A, Kantorski LP. Reabilitação psicossocial: objetivos, princípios e valores. Rev Enferm UERJ 2004; 12:217-21.,3434. Schutz A. A linha de base fenomenológica. In: Wagner HTR, organizador. Sobre fenomenologia e relações sociais. Petrópolis: Editora Vozes; 2012. p. 65-83.,3535. Cohn G, organizador. Max Weber. 2a Ed. São Paulo: Editora Ática; 1982. foi possível consolidar a literatura revisada em duas sínteses. A primeira diz respeito ao ethos do desempenho no retorno ao trabalho e a segunda mostra o retorno ao trabalho como catalizador de novos modos de vida.

O ethos do desempenho no retorno ao trabalho

Os estudos analisados evidenciam que as expectativas de desempenho ocupam um lugar central nas relações entre os atores no contexto do retorno ao trabalho e podem denunciar a forma como construções sociais sobre o desempenho no trabalho configuram um escopo mais amplo sobre o qual devemos conceber o retorno ao trabalho.

Nesta revisão adotamos a noção de experiência significativa proposta por Schutz 3434. Schutz A. A linha de base fenomenológica. In: Wagner HTR, organizador. Sobre fenomenologia e relações sociais. Petrópolis: Editora Vozes; 2012. p. 65-83., definida como aquela que, por um ato de reflexão, é apreendida, distinguida, colocada em relevo, diferenciada das outras. Vale dizer, cujo ato reflexivo a torna objeto da atenção enquanto experiência constituída, acabada, já vivida, que está no passado, mas que contém vivências do presente e antecipações futuras. A experiência significativa nos permite entender a expectativa de desempenho no trabalho. Pois traduz-se na interação entre as percepções do trabalhador sobre o seu desempenho no presente, mas que também é mediada pelas impressões de desempenho no passado e pelas antecipações que o próprio trabalhador tem sobre o que será o seu desempenho no futuro, sem com isso minimizar a influência que os aspectos relacionais e de contexto exercem sobre essas percepções.

Ademais, o conceito de “mundo da vida” parece útil para esclarecer o lugar que essa expectativa ocupa no contexto do retorno ao trabalho, pois o “mundo da vida” não é concebido como o mundo da atitude natural – mundo que já foi interpretado por outros. Ao contrário, é um mundo intersubjetivo, objeto de nossas ações e interações, mundo que precisa ser dominado, transformado de tal forma que seja possível concretizar o que se pretende realizar nele, entre nossos semelhantes 3434. Schutz A. A linha de base fenomenológica. In: Wagner HTR, organizador. Sobre fenomenologia e relações sociais. Petrópolis: Editora Vozes; 2012. p. 65-83..

Dessa forma as expectativas de desempenho não representam um componente passivo no processo de retorno ao trabalho. Ao contrário, as expectativas agem sobre o retorno ao trabalho, afetando-o, modificando-o e também produzindo resistências que podem culminar em novas atitudes 3434. Schutz A. A linha de base fenomenológica. In: Wagner HTR, organizador. Sobre fenomenologia e relações sociais. Petrópolis: Editora Vozes; 2012. p. 65-83..

Por outro lado, a expectativa de desempenho, mais do que um jogo intersubjetivo de relações, parece denunciar a construção de um tipo ideal de trabalhador, que, alheio às condições materiais e imateriais do trabalho e de sua capacidade de produzir ou não adoecimento, precisa permanecer fiel a certos credos como produtividade, competência, manutenção do reconhecimento e da legitimidade de trabalhador eficiente segundo os modos de produção vigentes 3535. Cohn G, organizador. Max Weber. 2a Ed. São Paulo: Editora Ática; 1982.,3636. Franco T, Druck G, Seligmann-Silva E. As novas relações de trabalho, o desgaste mental do trabalhador e os transtornos mentais no trabalho precarizado. Rev Bras Saúde Ocup 2010; 35:229-48..

Contudo, as esperadas disposições sobre o desempenho também parecem denunciar a incapacidade do sistema produtivo de cuidar daqueles cujo desempenho é distinto. Então, parece ser mais fácil reforçar o processo disciplinar sobre o que é ser um “trabalhador produtivo”, ou seja, um tipo ideal que assimila e responde aos desafios impostos pela produção 3535. Cohn G, organizador. Max Weber. 2a Ed. São Paulo: Editora Ática; 1982., ao invés de aceitar a condição do trabalhador que adoeceu, de reforçar a sua identidade de trabalhador e de produzir mudanças nos processos produtivos para que o trabalhador possa desempenhar apropriadamente sua função no trabalho.

Por fim, a despeito da importância das estratégias de enfrentamento apresentadas nesta síntese, muitas vezes parecem reforçar uma crença na individualização do problema, deixando de fora as condições e estruturas da produção social do trabalho na constituição das expectativas de desempenho.

O retorno ao trabalho como catalizador de novos modos de vida

A noção fenomenológica de “ser no mundo” 3737. Heidegger M. Prolegómenos para una história del concepto de tiempo. Madrid: Alianza Editorial; 2007. aplicada às interações entre os atores envolvidos no retorno ao trabalho nos auxilia a examinar estas interações não como algo que apenas compõe o mundo do retorno ao trabalho, mas como elementos constituintes desse mundo, portanto capazes de revelar o que o retorno ao trabalho é. Com base nisso, no conteúdo da interpretação de segunda ordem e no aporte teórico fornecido pela reabilitação psicossocial, argumentamos que o retorno ao trabalho pode se constituir como catalizador de novos modos de vida.

Os achados revelaram que as interações entre os atores sociais envolvidos no retorno ao trabalho tratam de temas como suporte no local de trabalho, estigma, identidade, empoderamento e legitimação da experiência de transtornos mentais, dentre outros. Na perspectiva fenomenológica, esses temas podem ser entendidos como sentidos de ser do retorno ao trabalho 3737. Heidegger M. Prolegómenos para una história del concepto de tiempo. Madrid: Alianza Editorial; 2007.. Vale ressaltar, entretanto, que esses sentidos clamam por outras formas de manejo do retorno ao trabalho que não estão integralmente contidas nos modelos de retorno ao trabalho vigentes.

Assim, os temas acima reiteram a complexidade do retorno ao trabalho, que não pode ser encarado apenas como um processo técnico, singularizado e burocratizado, voltado para recobrar algo que se perdeu e que deve ser recuperado, no sentido do retorno à normalidade após um episódio de sofrimento psíquico 3838. Pinto A, Ferreira A. Problematizando a reforma psiquiátrica brasileira: a genealogia da reabilitação psicossocial. Psicol Estud 2010; 15:27-34.. O retorno ao trabalho precisa ser entendido numa perspectiva reabilitadora, que não ignore os avanços que as abordagens biomédica e ecológica trouxeram, mas que avance para um retorno ao trabalho que inclua novos modos de viver e trabalhar e que incorporem uma perspectiva crítica.

Propomos portanto, a ampliação da autonomia do trabalhador, centrada na capacidade do mesmo de elaborar projetos, isto é, ações práticas que modifiquem as condições concretas de sua vida, incluindo o trabalho. Isto se aplica ao manejo do ambiente de trabalho, ao aprimoramento de competências no trabalho e na vida cotidiana e à introdução de estratégias para promover a melhoria da qualidade de vida, de modo que a subjetividade do trabalhador possa enriquecer-se. Esses também são fundamentos da reabilitação psicossocial, que trazem para a discussão sobre o retorno ao trabalho a adoção de estratégias de manejo voltadas para o trabalho e para o cotidiano de microcontextos como a família e a comunidade 3333. Hirdes A, Kantorski LP. Reabilitação psicossocial: objetivos, princípios e valores. Rev Enferm UERJ 2004; 12:217-21..

Ademais, este estudo revela ainda que aspectos relacionais, tais como o respeito, o relacionamento interpessoal, a validação da identidade e da experiência do trabalhador, o acolhimento, o escutar o outro e o partilhar de experiências vividas na vida cotidiana, cuja presença é capaz de facilitar o retorno ao trabalho, abrem espaço para inferir a pertinência do conceito de recovery (recuperação) na construção de novos modelos de intervenção no processo de retorno ao trabalho relacionado a transtornos mentais 3939. Duarte T. Recovery da doença mental: uma visão para os sistemas e serviços de saúde mental. Anál Psicol 2007; 1:127-33..

Na literatura há pelo menos duas formas distintas de compreender o processo de recovery. Uma centrada na remissão dos sintomas e restabelecimento de um funcionamento anterior ao momento do aparecimento do transtorno 3939. Duarte T. Recovery da doença mental: uma visão para os sistemas e serviços de saúde mental. Anál Psicol 2007; 1:127-33.. A outra, vinculada ao modelo psicossocial, nos parece mais apropriada para articular as ações de retorno ao trabalho, pois é tida como um processo complexo e dinâmico, que envolve componentes individuais, mas que também é influenciada pela qualidade das relações e interações entre o indivíduo, seus pares e os contextos envolvi- dos 3939. Duarte T. Recovery da doença mental: uma visão para os sistemas e serviços de saúde mental. Anál Psicol 2007; 1:127-33.,4040. Lopes TS, Dahl CM, Serpa Jr. OD, Leal EM, Campos RTO, Diaz AG. O processo de restabelecimento na perspectiva de pessoas com diagnóstico de transtornos do espectro esquizofrênico e de psiquiatras na rede pública. Saúde Soc 2012; 21:558-71.. Observa-se ainda, nessa última abordagem, uma ênfase importante no protagonismo e empoderamento do sujeito que experimenta uma vivência de sofrimento psíquico, o que condiciona a forma como ele interfere, individual e coletivamente, na sua busca por inclusão na sociedade em geral e, em particular, no mundo do trabalho.

Pontos fortes, desafios e limitações do estudo

O método metaetnográfico mostrou-se à investigação de nossas perguntas de pesquisa e nos possibilitou identificar seis conceitos de segunda ordem que forneceram um relevante ponto de partida para compreender a complexidade dos múltiplos fatores que condicionam as interações entre os atores sociais no retorno ao trabalho de pessoas com transtornos mentais tal como discutida na literatura. Com isso, foi possível identificar estratégias de enfrentamento para alguns dos problemas encontrados nas interações entre os atores no retorno ao trabalho. Isso investe este trabalho de um cunho pragmático que o aproxima tantos de atores que desejam refletir mais teoricamente sobre este objeto, como também dos que desejam pensar o cotidiano da assistência e da reabilitação de trabalhadores que sofrem de transtornos mentais.

Acreditamos que alguns procedimentos como a assessoria de uma bibliotecária no processo de seleção das bases de dados e busca dos artigos, bem como o tratamento dos dados a partir do software NVivo 10, aprimoraram os processos de validação das informações geradas, pois tais procedimentos asseguraram a auditagem de controle sobre esses processos 4141. Classen S, Winter S, Lopez E. Meta-synthesis of qualitative studies on older driver safety and mobility. OTJR (Thorofare N J) 2009; 29:1-8..

Concordamos com Andersen et al. 44. Andersen MF, Nielsen KM, Brinkmann S. Meta-synthesis of qualitative research on return to work among employees with common mental disorders. Scand J Work Environ Health 2012; 38:93-104. que indicam que a insuficiente descrição dos contextos nas pesquisas qualitativas constitui-se num desafio importante para a realização de metaetnografias. Isto porque normas socioculturais e legislativas, conflitos socioeconômicos e políticos, bem como as relações de interesse e de poder, traduzidos no mundo do trabalho podem produzir impacto sobre a experiência das pessoas que sofrem de transtornos mentais e retornam ao trabalho e, portanto, precisam ser adequadamente consideradas. Assim, poderemos alcançar um melhor entendimento sobre as múltiplas facetas que envolvem o fenômeno do retorno ao trabalho de pessoas que sofrem de transtornos mentais.

Dentre as limitações deste estudo destacam- se dois aspectos: primeiro, a variedade de diagnósticos incluídos, os quais podem ter provocado algum viés na seleção dos artigos. Segundo, o tempo de afastamento do trabalho que, embora seja um importante preditor para o retorno ao trabalho 11. Blank L, Peters J, Pickvance S, Wilford J, Macdonald E. A systematic review of the factors which predict return to work for people suffering episodes of poor mental health. J Occup Rehabil 2008; 18: 27-34., variou significativamente dentre os estudos incluídos e, em alguns casos não chegou a ser explicitado nos mesmos.

Apenas um estudo brasileiro respondeu aos critérios de inclusão. Vale alertar, portanto, que inferências para a realidade brasileira, ou mesmo entre os países do hemisfério norte a partir dos resultados obtidos devem ser feitas com parcimônia.

Implicações para estudos futuros

Esta revisão adotou as etapas de retorno ao trabalho propostas por Young et al. 88. Young AE, Roessler RT, Wasiak R, McPherson KM, van Poppel MNM, Anema JR. A developmental conceptualization of return to work. J Occup Rehabil 2005; 15:557-68., que nos permitiram verificar que poucos estudos examinaram as etapas denominadas Maintenance e Advancement (manutenção e progresso), sugerindo a necessidade de seu maior detalhamento e futuras pesquisas.

Outros aspectos também nos parecem prementes: os estudos mostram que os níveis gerenciais não se dispõem a construir e discutir com os trabalhadores o plano de retorno ao trabalho. O mesmo ocorre em relação ao papel da família no processo de retorno ao trabalho nos casos de transtornos mentais, que não tem sido satisfatoriamente investigado, apesar da sua importância reiterada em alguns estudos. Ambos os aspectos precisam ser examinados em maior detalhe.

Consideramos ainda que seja promissor aliar os avanços concernentes à abordagem biomédica e ecológica às práticas contemporâneas vinculadas à reabilitação psicossocial, o que nos leva a encorajar futuras pesquisas que utilizem o conceito de reabilitação psicossocial para ampliar a compreensão sobre eventuais obstáculos ou facilitadores no processo de retorno ao trabalho.

Agradecimentos

Ao Prodoutoral/UFPB pela bolsa de estudo e a Capes pela bolsa sanduíche (processo no99999.002786/2014-01) dadas ao primeiro autor. A School of Occupational Therapy da University of Western Ontario pela estrutura e acolhimento oferecidos no doutorado sanduíche. A Natalia Yanaina Rivas Quarneti da Universidade da Coruña pelas discussões que enriqueceram este trabalho. A Sara Chaves da Silva Neves pelas leituras que fez nos manuscritos e pelo apoio pessoal dado para o bom êxito dessa pesquisa.

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Histórico

  • Recebido
    25 Fev 2015
  • Revisado
    06 Jul 2015
  • Aceito
    27 Ago 2015
  • Publicação
    Nov 2015
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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