Apresentação - Educação interprofissional em saúde na integração ensino e trabalho: apontamentos e contribuições da professora Regina Marsiglia para esse campo

Nivaldo Carneiro Júnior Patrícia Martins Montanari Lívia Keismanas de Ávila Sobre os autores

Na gestão dos sistemas nacionais de saúde, a preocupação com o perfil dos recursos humanos ocupa importante espaço na agenda, pois se reconhece o seu papel estratégico na organização dos processos de trabalho técnico-gerenciais nos serviços, sendo, portanto, elemento crítico para atuações eficazes às demandas e necessidades da população (Montanha; Peduzzi, 2010MONTANHA, D.; PEDUZZI, M. Educação permanente em enfermagem: levantamento de necessidades e resultados esperados segundo a concepção dos trabalhadores. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 44, n. 3, p. 597-604, 2010.).

No contexto brasileiro, a partir da Constituição Federal de 1988, essa agenda é particularmente emergente, constituindo-se como um dos eixos norteadores para implantação e consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). O próprio texto constitucional atribui à gestão do sistema público o papel de “ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde” (Brasil, 1988BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Imprensa Oficial, 1988. ).

A educação profissional insere-se, portanto, como política estratégica para a gestão pública do SUS, tanto por suas potencialidades transformadoras como de resistência aos possíveis obstáculos para sua consolidação. Nessa direção, emergem políticas e ações específicas para determinados contextos, como a Política de Educação Permanente (EP), voltadas aos trabalhadores que atuam nas práticas cotidianas dos serviços de saúde (Ceccim, 2005CECCIM, R. B. Educação permanente em saúde: desafio ambicioso e necessário. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 9, n. 16, p. 161-168, 2005.), e articulação interministerial - educação e saúde - com iniciativas particulares e conjuntas visando à formação de perfis profissionais mais adequados ao SUS.

Essas duas frentes de atuação, com diferentes formulações e estratégias, compartilham o entendimento de que ainda hoje a formação em saúde é fortemente referenciada em modelos pedagógicos uniprofissionais, reprodutores da dicotomia entre saber e saber-fazer, dissociados da realidade sociossanitária, desarticulados da necessidade de recursos humanos mais adequados para o sistema de saúde, entre outros (Vilela; Mendes, 2003VILELA, E. M.; MENDES, I. J. M. Interdisciplinaridade e saúde: estudo bibliográfico. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 11, n. 4, p. 525-531, 2003.).

Esse modelo de formação determina currículos nucleados por disciplinas científicas estruturadas em componentes curriculares básicos, ou seja, que fundamentam o conhecimento para o desenvolvimento de aplicabilidades respectivas. O ensino para aquisição de competências e habilidades é do campo curricular profissional, proporcionado em espaços de assistência, majoritariamente hospitalares.

Com a implantação do SUS, impõe-se a necessidade de aproximações entre as instituições de ensino e os serviços de saúde, promovendo processos de reorientação específicos e articulados. Nesse sentido, novas estruturas curriculares são formuladas, visando à superação da dicotomia ciclos básico e profissional/teoria e prática, e há incorporações efetivas dos cenários tecnoassistenciais nas estratégias de ensino-aprendizagem, compartilhadas entre docentes, profissionais, alunos, gestores e usuários.

A interdisciplinaridade passa a ser a premissa dessa nova concepção, construindo, assim, a efetiva educação profissional, por meio do exercício concreto dos seus pilares: aprender a saber (cognitivo), aprender a fazer (habilidades), aprender a conviver (trabalho em equipe) e aprender a ser (atitudes). Desse modo, operam-se condições para a produção do conhecimento e necessárias estratégias de atuação diante da complexidade contemporânea do processo saúde-doença-cuidado (Abrahão; Merhy, 2014ABRAHÃO, A. L.; MERHY, E. E. Formação em saúde e micropolítica: sobre conceitos-ferramentas na prática de ensinar. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 18, n. 49, p. 313-324, 2014.).

Educação interprofissional em saúde é a concepção que sintetiza esse movimento, revisando iniciativas anteriores e expondo novos referenciais teórico-metodológicos e estratégias de ensino-aprendizagem em cenários concretos das práticas de saúde. Assim sendo, assume o desafio de articular o mundo acadêmico e o mundo do trabalho (Batista, 2012BATISTA, N. A. Educação interprofissional em saúde: concepções e práticas. Cadernos FNEPAS, Rio de Janeiro, v. 2, p. 25-28, jan. 2012.).

É nesse contexto que se insere este dossiê, que aborda algumas experiências da formação de profissionais da saúde em que se revelam estratégias pedagógicas, tendo em vista as exigências de adequação e revisão das diretrizes nacionais para o ensino superior. Destaca também questões que ainda desafiam e provocam permanentes debates e reflexões a respeito da formação dos profissionais de saúde, que devem ser capacitados e comprometidos com as melhorias das condições de vida e saúde dos indivíduos, grupos e população.

A organização do dossiê também visa prestar homenagem à professora Regina Maria Giffoni Marsiglia, falecida em julho de 2017, docente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Carneiro Junior, 2017CARNEIRO JUNIOR, N. Editorial especial à Regina Maria Giffoni Marsiglia. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 26, n. 3, p. 611, 2017.). Participou ativamente da constituição da saúde coletiva, com destacada atuação no campo da formação em saúde, produzindo importantes contribuições teórico-práticas em relação à intersecção educação e trabalho (Silveira et al., 2018SILVEIRA, C. et al. (Inter)conectando o mundo acadêmico e o mundo das práticas de saúde: a trajetória de Regina Marsiglia (1943-2017). Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 22, n. 66, p. 971-974, 2018.). Para ela, formar profissionais é também reconhecer e favorecer estratégias de aprendizagem para e com os agentes das práticas de saúde (Passos; Carvalho, 2015PASSOS, E.; CARVALHO, Y. M. A formação para o SUS abrindo caminhos para a produção do comum. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 24, p. 92-101, 2015. Suplemento 1.).

Regina militou incansavelmente pela busca de espaços coletivos, reflexivos e ético-políticos que pudessem promover um diferencial na formação de futuros profissionais, na capacitação dos trabalhadores de saúde, no desenvolvimento de pesquisas e nas atividades de extensão, bem como no diálogo interdisciplinar.

No campo da educação profissional em saúde, a liderança da Regina foi fundamental nas implantações e implementações de programas e estratégias de integração ensino-serviço, particularmente na FCMSCSP. Em conjunto com docentes dos cursos de graduação - enfermagem, fonoaudiologia e medicina - e corpo clínico-gerencial do Hospital Central da Santa Casa de São Paulo, foram estimuladas mudanças curriculares, capacitações profissionais e articulações com gestores públicos da rede de atenção à saúde. São exemplos o Projeto de Integração Docente-Assistencial da Zona Norte e Barra Funda (Marsiglia, 1995MARSIGLIA, R. M. G. Relação ensino/serviços: dez anos de integração docente assistencial no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1995.), o Projeto Área Central da cidade de São Paulo (Silveira; Carneiro Junior; Marsiglia, 2009SILVEIRA, C.; CARNEIRO JUNIOR, N.; MARSIGLIA, R. M. G. (Org.). Projeto inclusão social urbana; nós do centro: metodologia de pesquisa e de ação para inclusão social de grupos em situação de vulnerabilidade no centro da cidade de São Paulo. São Paulo: Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, 2009.), o Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde) e o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) (Silveira et al., 2018SILVEIRA, C. et al. (Inter)conectando o mundo acadêmico e o mundo das práticas de saúde: a trajetória de Regina Marsiglia (1943-2017). Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 22, n. 66, p. 971-974, 2018.).

O artigo “Formação para o trabalho no ensino das graduações em saúde” expõe as principais concepções orientadoras da formação em saúde, contextualizando seus momentos históricos e influências em nossa política educacional, destacando, nessa perspectiva, a educação interprofissional e a intersecção ensino-trabalho como eixo estruturante das atuais Diretrizes Curriculares Nacionais em resposta às necessidades sociais contemporâneas da realidade sociossanitária brasileira.

Os artigos “Imaginário coletivo de idosos participantes da Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa” e “População de rua: um olhar da educação interprofissional para os não visíveis” trazem duas particulares contribuições da experiência do PET-Saúde, desenvolvido pela FCMSCSP em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo na região central da cidade. O primeiro atende a um dos objetivos relacionados ao desenvolvimento de pesquisa no processo ensino-aprendizagem a partir de questões emergentes nos cenários ensino-serviços. A população idosa é expressiva nesse território de atuação docente-assistencial. Desse modo, envelhecimento ativo emerge como questão que precisa ser entendida a incorporada na formação e nas práticas de saúde.

O outro artigo relata experiências de estratégia ensino-aprendizagem na formação em saúde no contexto da intersecção educação e trabalho, isto é, descreve e reflete sobre a inserção de alunos no cenário da atuação interprofissional na produção de cuidados em saúde às pessoas em situação de rua, reconhecendo, nesse processo, limites e possibilidades no campo profissional e na rede de atenção setorial e intersetorial.

Por fim, demostrando outra face do dinamismo e disponibilidade para o trabalho intelectual e docente da Regina, estimulado pela força propositiva de suas ideias e a motivação contínua para os diálogos interdisciplinares, resgatamos e publicamos aqui o texto “Determinação social do processo epidêmico”, produzido no início dos anos 1980 e publicado como um dos capítulos da obra Textos de Apoio: Epidemiologia 1 (Carvalheiro, 1985CARVALHEIRO, J. R. (Org.). Textos de apoio: epidemiologia 1. Rio de Janeiro: ENSP: Abrasco, 1985.). O diálogo entre as ciências sociais e a epidemiologia é posto nessa produção acadêmica conjunta com as professoras Rita Barradas Barata e Selma Patti Spinelli. No contexto desta homenagem a Regina Marsiglia, convidamos as respectivas docentes para expressarem seus depoimentos neste dossiê.

Referências

  • ABRAHÃO, A. L.; MERHY, E. E. Formação em saúde e micropolítica: sobre conceitos-ferramentas na prática de ensinar. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 18, n. 49, p. 313-324, 2014.
  • BATISTA, N. A. Educação interprofissional em saúde: concepções e práticas. Cadernos FNEPAS, Rio de Janeiro, v. 2, p. 25-28, jan. 2012.
  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil Brasília, DF: Imprensa Oficial, 1988.
  • CARNEIRO JUNIOR, N. Editorial especial à Regina Maria Giffoni Marsiglia. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 26, n. 3, p. 611, 2017.
  • CARVALHEIRO, J. R. (Org.). Textos de apoio: epidemiologia 1. Rio de Janeiro: ENSP: Abrasco, 1985.
  • CECCIM, R. B. Educação permanente em saúde: desafio ambicioso e necessário. Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 9, n. 16, p. 161-168, 2005.
  • MARSIGLIA, R. M. G. Relação ensino/serviços: dez anos de integração docente assistencial no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1995.
  • MONTANHA, D.; PEDUZZI, M. Educação permanente em enfermagem: levantamento de necessidades e resultados esperados segundo a concepção dos trabalhadores. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 44, n. 3, p. 597-604, 2010.
  • PASSOS, E.; CARVALHO, Y. M. A formação para o SUS abrindo caminhos para a produção do comum. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 24, p. 92-101, 2015. Suplemento 1.
  • SILVEIRA, C.; CARNEIRO JUNIOR, N.; MARSIGLIA, R. M. G. (Org.). Projeto inclusão social urbana; nós do centro: metodologia de pesquisa e de ação para inclusão social de grupos em situação de vulnerabilidade no centro da cidade de São Paulo. São Paulo: Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, 2009.
  • SILVEIRA, C. et al. (Inter)conectando o mundo acadêmico e o mundo das práticas de saúde: a trajetória de Regina Marsiglia (1943-2017). Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 22, n. 66, p. 971-974, 2018.
  • VILELA, E. M.; MENDES, I. J. M. Interdisciplinaridade e saúde: estudo bibliográfico. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 11, n. 4, p. 525-531, 2003.

Histórico

  • Recebido
    12 Out 2018
  • Aceito
    19 Out 2018
  • Publicação
    Oct-Dec 2018
Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Associação Paulista de Saúde Pública. SP - Brazil
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