ORIGINAL RESEARCH

 

Condições ambientais e prevalência de infecção parasitária em indígenas Xukuru-Kariri, Caldas, Brasil

 

Environmental conditions and prevalence of parasitic infection in Xukuru-Kariri indigenous people, Caldas, Brazil

 

 

Bárbara dos Santos SimõesI; George Luiz Lins Machado-CoelhoII; João Luiz PenaIII; Silvia Nascimento de FreitasIV

IUniversidade Federal de Minas Gerais, Programa de Doutorado em Saúde Pública, Belo Horizonte (MG), Brasil. Correspondência: barbarassimoes@gmail.com
IIUniversidade Federal de Ouro Preto, Escola de Medicina, Laboratório de Doenças Parasitárias, Ouro Preto (MG), Brasil
IIIUniversidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental, Belo Horizonte (MG), Brasil
IVUniversidade Federal de Ouro Preto, Escola de Nutrição, Departamento de Nutrição Clínica e Social, Ouro Preto (MG), Brasil

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever as condições ambientais e o quadro de infecção parasitária dos indígenas Xukuru-Kariri residentes no município de Caldas (MG), Brasil.
MÉTODOS: Foi realizado um estudo transversal em março de 2009. Dados sociodemográficos e ambientais foram coletados através de entrevista. Amostras de água e fezes foram coletadas para determinação da contaminação ambiental e parasitológica.
RESULTADOS: A população foi composta por 86 indivíduos, divididos em 22 famílias, sendo 81,8% dos chefes de baixa escolaridade (primeiro grau incompleto). Das 26 amostras de água coletadas para análise microbiológica, 77,0% foram positivas para coliformes totais e 4,0% para Escherichia coli. Em 27,3% dos domicílios, os moradores defecavam na parte exterior da casa, e 54,5% dos domicílios possuíam lixo espalhado pelo quintal. Foram coletadas amostras fecais de 60 indivíduos, com positividade em 66,6%. As prevalências registradas foram: Entamoeba histolytica/dispar, 6,7%; Entamoeba coli, 60,0%; Endolimax nana, 1,8%; e Giardia duodenalis, 6,6%.
CONCLUSÕES: As pessoas incluídas na pesquisa estavam sujeitas a características ambientais que as tornavam vulneráveis nos aspectos relacionados à saúde. É primordial a promoção de ações de saúde e a implementação de políticas públicas de saneamento, com fornecimento de água de qualidade adequada e recolhimento e tratamento de dejetos humanos e rejeitos domiciliares para evitar a degradação ambiental e melhorar a qualidade de vida desses indivíduos.

Palavras-chave: Saúde indígena; indicadores de saúde; parasitologia; meio ambiente; Brasil.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To describe the environmental conditions and the parasitic infection status of Xukuru-Kariri individuals living in the municipality of Caldas, state of Minas Gerais, Brazil.
METHODS: A cross-sectional study was carried out in March 2009. Sociodemographic and environmental data were collected through interviews. Water and fecal samples were collected for determination of environmental contamination and parasitic infection status.
RESULTS: The Xukuru-Kariri population living in Caldas included 86 people divided into 22 families. Of 22 heads of household, 81.8% had low schooling (not higher than elementary education). Of 26 water samples collected for microbiological analysis, 77.0% were positive for total coliforms and 4.0% for Escherichia coli. Residents of 27.3% of households defecated in the open. Trash was scattered in the yard of 54.5% of households. Fecal samples were collected from 60 individuals, with parasitic infection in 66.6%. The following prevalence rates were recorded: Entamoeba histolytica/dispar, 6.7%; Entamoeba coli, 60.0%; Endolimax nana, 1.8%; and Giardia duodenalis, 6.6%.
CONCLUSIONS: The people included in this study faced environmental characteristics that contributed to their health vulnerability. Health actions as well as the implementation of public policies to provide sanitation, with quality water and adequate collection and treatment of human and household waste, are essential to prevent environmental degradation and improve the quality of life of these individuals.

Key words: Health of indigenous peoples; health status indicators; parasitology; environment; Brazil.


 

 

A população indígena mundial era estimada, na primeira década do século XXI, em aproximadamente 370 milhões de indivíduos, distribuídos em 90 países (1). No Brasil, dados do Censo de 2010 mostraram que a população autodeclarada "indígena" aumentou de 734 000 em 2000 para 818 000 em 2010, o que corresponde a cerca de 0,4% da população brasileira. Essa população vive em 683 terras indígenas e em algumas áreas urbanas (2, 3). No estado de Minas Gerais, segundo a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (SEPLAG), são oficialmente reconhecidas oito diferentes etnias: Xakriabá, Pankararu, Aranã, Maxakali, Kaxixó, Pataxó, Krenak e Xukuru-Kariri (4).

Devido à expansão das frentes econômicas, os povos indígenas sofrem ameaças constantes à integridade de seus territórios, cultura, sistemas econômicos e organização social. Essas ameaças geram situações de tensão social, ameaças e vulnerabilidade e contribuem para o risco de desaparecimento de alguns povos (5), apesar do crescimento demográfico registrado.

Atualmente, não existem dados fidedignos que forneçam informações globais sobre a saúde desses indivíduos. Os dados disponíveis são parciais, gerados pela Fundação Nacional do Índio (Funai), pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e por diversas organizações não governamentais, missões religiosas e instituições acadêmicas. O exame desses dados em conjunto mostra um perfil epidemiológico associado a altas taxas de pobreza e desemprego, baixa escolaridade, condições precárias de saneamento e habitação, migração, exclusão social, redução do território, destruição do ecossistema e alterações dos hábitos de vida (6, 7).

Estudos mostram associação entre agravos à saúde e ausência de infraestrutura de saneamento, tratamento inadequado de esgoto e de água e acúmulo de resíduos sólidos, tendo como desfecho o aumento da incidência e prevalência de doenças diarreicas, parasitoses intestinais e altos coeficientes de mortalidade infantil (8-12). Sabe-se ainda que as condições de saneamento são comumente precárias nas aldeias indígenas. Assim, é importante conhecer as condições de saneamento básico e as prevalências das doenças infecto-parasitárias, que constituem uma importante causa de morbidade e mortalidade nessas populações, com o intuito de se formularem políticas públicas mais adequadas para esses povos. Dessa forma, este trabalho teve como objetivo descrever as condições ambientais e o quadro de infecção parasitária dos indígenas Xukuru-Kariri residentes no município de Caldas, estado de Minas Gerais, Brasil.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo transversal foi realizado em 2009 com a população indígena Xukuru-Kariri residente em uma reserva instalada em uma fazenda de 100 hectares, pertencente ao Governo Federal, na cidade de Caldas (MG), Brasil. A população Xukuru-Kariri da reserva (correspondente à população Xukuru-Kariri do estado de Minas Gerais) era composta por 86 indivíduos divididos em 22 famílias. As famílias residiam em casas de alvenaria, com luz elétrica. Havia uma escola que oferecia o primeiro grau e um posto de saúde para atendimento dos indígenas.

A autorização de ingresso na terra indígena Xukuru-Kariri foi obtida com base na aprovação do protocolo de pesquisa pelas lideranças indígenas, conselho local de saúde, Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto (CEP-UFOP, parecer 2005/58), Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) (parecer 902/2006, registro 12827) e Fundação Nacional do Índio (Funai) (parecer 73/CGEP/06). Os indivíduos foram informados sobre a confidencialidade dos dados e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido antes da realização da pesquisa.

Coleta de dados

Foram obtidas informações socioeconômicas, demográficas e ambientais em visitas domiciliares realizadas para aplicação de um inquérito elaborado, testado e validado por Pena et al. (13). O questionário foi respondido em cada domicílio pelo chefe de família. As informações demográficas e socioeconômicas obtidas foram: idade de todos os membros da família, escolaridade do chefe de família e renda familiar per capita. A partir das entrevistas, os indivíduos foram agrupados nas seguintes categorias: 0 a 19 anos (crianças e adolescentes), 20 a 60 anos (adultos), maiores de 60 anos (idosos); de analfabeto até 1ºgrau incompleto (baixa escolaridade), de 1ºgrau completo a 2ºgrau incompleto (média escolaridade) e acima de 2ºgrau completo (alta escolaridade); renda maior ou igual a um quarto de salário mínimo (extremamente pobre), maior do que um quarto até meio salário mínimo (pobre) e maior do que meio salário mínimo (renda superior). Também foram obtidas informações sobre a presença de instalações sanitárias no interior do domicílio, tipo de abastecimento da água e destino do esgoto e do lixo familiar.

Foram coletadas 26 amostras de água dos seguintes locais: torneiras dos domicílios (n = 22), poço tubular profundo, de onde provinha a água para uso pela comunidade (n = 1), reservatório de água (n = 1), escola (n = 1) e posto de saúde (n = 1). Essas amostras foram obtidas e mantidas em sacos plásticos esterilizados com capacidade para 100 mL, armazenadas em caixa de poliestireno expandido e encaminhadas ao laboratório responsável para análise microbiológica pela técnica de filtração a vácuo com uso de membrana Millipore®. As membranas foram transferidas para placas de Petri descartáveis no meio de cultura ColiBlue® e mantidas em estufa a 37 ºC por 24 horas. Após esse período, foram retiradas da estufa para contagem visual do crescimento das colônias indicativas de coliformes totais e Escherichia coli. A contagem foi expressa em unidades formadoras de colônia (UFC) por 100 mL (14).

Todos os 86 moradores da reserva receberam um kit TF-teste® com três frascos coletores (identificados com o nome da pessoa) e as seguintes orientações: defecar em dias alternados sobre um pedaço de papel limpo, colher uma pequena quantidade da porção média das fezes com o auxílio da espátula, colocar no frasco coletor e desprezar o restante das fezes no vaso sanitário. Os recipientes devidamente lacrados e rotulados foram encaminhados em embalagens de poliestireno expandido ao laboratório responsável para preparo das amostras e exame microscópico das mesmas, conforme preconizado pelo fabricante. Após obtenção do sedimento, o mesmo foi examinado ao microscópio óptico em triplicata. Foi avaliada a presença dos parasitos Entamoeba histolytica/dispar, Entamoeba coli, Iodamoeba butschlii, Endolimax nana, Giardia duodenalis, Taenia sp., Hymenolepis nana, Schistosoma mansoni, Ascaris lumbricoides, ancilostomídeos, Strongyloides stercoralis, Trichuris trichiura e Enterobius vermicularis.

Análise estatística

Foram realizados a descrição e o cálculo de prevalência dos indicadores demográficos, socioeconômicos e ambientais. Para a infecção parasitária, foi calculada a prevalência por indivíduo e por sexo por meio do programa PASWStatistics versão 17.0.

 

RESULTADOS

O censo realizado durante o trabalho de campo mostrou que a população Xukuru-Kariri de Minas Gerais, composta por 86 indivíduos divididos em 22 famílias, incluía 47 (54,6%) crianças e adolescentes de 0 a 19 anos, 36 (41,9%) adultos de 20 a 60 anos e três (3,5%) idosos maiores de 60 anos. A média de idade foi de 23 ± 15,9 anos.

Em relação à escolaridade do chefe de família, constatou-se que, dos 22 chefes de família entrevistados, 18 (81,8%) apresentavam baixa escolaridade (um sendo analfabeto), um (4,6%) apresentava média escolaridade e três (13,6%) apresentavam alta escolaridade. Em relação à renda familiar, 10 famílias (45,5%) eram extremamente pobres, oito (36,4%) eram pobres e quatro (18,1%) possuíam renda superior.

Condições ambientais

A água utilizada na aldeia para beber, cozinhar, lavar roupas e vasilhas e tomar banho era proveniente de um único poço artesiano. Dos 22 domicílios visitados, em quatro (18,2%) a água era canalizada do poço somente até o quintal, em 17 (77,3%) até dentro de casa ou até o banheiro e em um (4,5%) não era canalizada. A água servida e o esgoto eram canalizados até uma fossa ou esgoto, ou ainda até a parte externa dos domicílios (céu aberto). Em relação às condições sanitárias, todos os banheiros eram de alvenaria ou módulos de acrílico fornecidos pela Funasa. Em uma casa não havia banheiro. Em 12 domicílios (57,2%), o banheiro ficava do lado de fora. Em seis domicílios (27,3%), os entrevistados relataram que defecavam na parte exterior do domicílio, fora do banheiro (tabela 1).

 

 

Das 26 amostras de água analisadas, 20 (77,0%) foram positivas para coliformes totais. Uma amostra (4,0%), proveniente da torneira de uma casa, foi positiva para Escherichia coli. Conforme os relatos dos chefes de família, a coleta de lixo pela prefeitura era realizada em 15 domicílios (68,18%) 1 vez por semana. Além disso, 13 famílias (59,0%) relataram que parte do lixo era jogada no quintal ou queimada. Em 21 domicílios (95,5%), parte do lixo era armazenada em sacos plásticos. Em relação à disposição final dos resíduos, os entrevistadores observaram lixo espalhado pelo quintal em 12 casas (54,5%, tabela 2).

 

 

Exame parasitológico

Foram distribuídos 86 frascos para coleta de fezes, sendo que 60 pessoas entregaram os três frascos com fezes. Desses indivíduos, 40 (66,6%) apresentaram amostras positivas para infecção por parasitas. Dos 40 indivíduos infectados, 22 (55,0%) tinham idade inferior a 20 anos. Foram identificados os seguintes parasitos: Entamoeba histolytica/dispar em quatro pessoas (6,7%), Entamoeba coli em 36 pessoas (60,0%), Endolimax nana em uma pessoa (1,8%) e Giardia duodenalis em 10 pessoas (16,6%). Observou-se poliparasitismo em cinco indivíduos (8,3%). Não houve diferença estatística significativa entre a prevalência de parasitoses segundo o sexo (tabela 3).

 

 

DISCUSSÃO

Nosso estudo mostrou que os indígenas Xukuru-Kariri residentes na reserva de Caldas, Minas Gerais, viviam em condições de vulnerabilidade, com aspectos ambientais precários que tendem a produzir um reflexo em seu estado de saúde. Constatamos que 81,8% dos chefes de família apresentavam baixa escolaridade, ou seja, não possuíam o primeiro grau completo. Além disso, 45,5% e 36,4% das famílias viviam em situação de extrema pobreza e pobreza, respectivamente. De forma semelhante, na comunidade indígena Teréna, Mato Grosso do Sul, Ribas et al. constataram que a renda de 89,1% das famílias estava na faixa de 0 a 0,5 salário mínimo per capita, e que mais de 95% dos pais tinham menos de 8 anos de estudo (15). Pesquisas citam que o nível de escolaridade dos pais é um fator decisivo para a percepção a respeito dos cuidados com a criança, a higiene e o saneamento do meio ambiente, como também para buscar os serviços de saúde quando necessário (16, 17).

Precárias condições de saneamento básico foram encontradas na aldeia estudada. Das 26 amostras de água analisadas, 77,0% foram positivas para coliformes totais e 4,0% para Escherichia coli. Os coliformes são encontrados tanto nas fezes quanto no meio ambiente, devido ao acúmulo de matéria orgânica e de sedimentos que promovem o seu desenvolvimento. Sendo assim, são utilizados como indicadores de contaminação bacteriológica da água (18, 19). Um estudo realizado por Monteiro na aldeia de Jaguapiru, município de Dourados, constatou que 93,75% das amostras de água estavam contaminadas por coliformes em uma região que era abastecida por poço artesiano (20). Giatti et al. (21) verificaram que das 65 amostras de água analisadas na área indígena Iauaretê, 89,2% apresentaram presença de coliformes fecais (21). De forma semelhante, Pena e Heller (22) observaram, na reserva indígena Xakriabá, em Minas Gerais, que 83,3% das amostras de água provenientes de poços tubulares coletadas nas residências eram impróprias para o consumo humano devido à presença de coliformes.

Outro aspecto preocupante é o destino da água/esgoto, uma vez que cerca de 60% da água proveniente do lavatório de mãos, vasilhas e roupas tinham como destino o terreno e 4,8% do esgotamento sanitário fluíam a céu aberto. Além disso, 27,3% dos moradores da aldeia defecavam diretamente sobre o solo perto da residência, e em 54,5% dos domicílios havia lixo nas regiões peridomiciliares. Tais fatores podem potencializar a contaminação do meio ambiente, o que leva ao aumento do risco de doenças infecto-contagiosas. Resultados semelhantes em relação à disposição de resíduos sólidos foram observados em Iauaretê, estado do Amazonas. Nessa área, uma pesquisa quali-quantatitiva mostrou, por diagnóstico ambiental, que os resíduos sólidos encontravam-se acondicionados de forma inadequada, próximos às residências e muitas vezes junto às fontes de captação de água. Outro fator relevante é a irregularidade na coleta de resíduos por caminhões da prefeitura (21).

Moreira (23) observou que 45% do esgotamento sanitário corriam a céu aberto na terra indígena Krenak, na cidade de Resplendor, Minas Gerais. Borchardt et al. (24), em um estudo com populações rurais no estado de Wisconsin (Estados Unidos), verificaram associação entre a densidade das fossas e risco para diarreias por vírus e bactérias. Os autores sugerem que o sistema de fossa pode ser fonte de contaminação do solo e da água, principalmente quando não ocorre manutenção das instalações. Segundo Tussi (25), o abastecimento de água de fontes seguras e a coleta de esgotos evitam doenças como diarreia.

França e Ruaro (26) destacam que a transmissão de doenças através de resíduos sólidos ocorre devido à disposição e/ou tratamento inadequado desses resíduos, como a queima, enterro e despejo em lixões (26). Esses locais tendem a tornar-se criadouros de diversos vetores de doenças, comportando-se como veiculadores ou reservatórios (mecânicos ou biológicos) de moléstias, e podem facilitar a transmissão de enfermidades como leptospirose, febre tifoide, giardíase e toxoplasmose, entre outras. De acordo com Rocha (27), os resíduos podem ser fonte de alimento, devido ao seu alto conteúdo energético, potencializando as condições necessárias à proliferação.

Conforme Escobar-Pardo et al. (28), a contaminação do solo ou da água com material fecal é um importante fator na disseminação das parasitoses intestinais. Em regiões mais pobres, onde não há serviços sanitários adequados e ocorre defecação no solo, os ovos e as larvas de helmintos que foram eliminados nas fezes têm mais chance de desenvolver-se e tornar-se infectantes. Posteriormente, podem ser transmitidos através das mãos, da água ou dos alimentos (28).

O Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição dos Povos Indígenas chamou atenção principalmente para as condições ambientais favoráveis à transmissão de parasitas e microorganismos veiculados pela água e alimentos contaminados, como helmintos e protozoários intestinais, enterobactérias e rotavírus (29). Estudos mostram que as gastroenterites são a segunda causa de morte em crianças menores de 5 anos e podem responder por quase metade das internações hospitalares de crianças indígenas (17, 30).

Neste estudo, 66,6% (n = 40) dos exames parasitológicos realizados em 60 amostras de material fecal foram positivos. Foram identificados Entamoeba coli (60,0%), Endolimax nana (1,8%), Giardia duodenalis (16,6%) e Entamoeba histolitica/dispar (6,7%). Resultados semelhantes foram encontrados por Carvalho (31) em crianças de 0 a 12 anos da etnia Xakriabá, Minas Gerais, nas quais foi observada uma prevalência de 50,5% de positividade para o exame parasitológico. Das amostras positivas, 18,6% eram de Giardia duodenalis. Gilio et al. (32) constataram que na Reserva Rio das Cobras, Paraná, 69,5% dos indivíduos apresentam positividade para parasitismo e 22,2% para Giardia duodenalis (32). Assis et al. (33) observaram amostras positivas para algum tipo de parasita em 84,3% das amostras de indígenas Maxacalis (Minas Gerais). Por sua vez, Dias Júnior et al. (34) constataram que 22,8% da população Caxixó de Martinho Campos, Minas Gerais, estavam infectados com algum tipo de parasitose.

Fontbonne et al. (8) observaram o perfil epidemiológico da comunidade de Pankararu (estado de Pernambuco) e constataram que 50,3% dos indígenas apresentavam Entamoeba coli (8). Escobar-Pardo et al. (28) descreveram, entre crianças indígenas do Xingu, uma prevalência de 60,8% de Entamoeba coli e de 50% de Endolimax nana.

Parasitas como a Entamoeba coli e Endolimax nana são encontrados na cavidade intestinal, alimentando-se de bactérias e detritos alimentares. As incidências desses parasitas estão associadas a precárias condições de higiene e educação sanitária, o que os torna importantes indicadores de contaminação fecal. Já os enteroparasitas patogênicos como Entamoeba histolytica e Giardia duodenalis podem causar diversos prejuízos aos indivíduos, como quadros de diarreia e de má absorção de macro e micronutrientes (35). Sua ocorrência pode estar relacionada à falta de tratamento da água de abastecimento ou à contaminação da água pelos próprios indivíduos, por liberação do esgoto a céu aberto, disposição inadequada do lixo e defecação sobre o solo.

Sabe-se que as manifestações clínicas são usualmente proporcionais à carga parasitária do indivíduo. Os parasitos geralmente são encontrados em regiões menos desenvolvidas e afetam principalmente as crianças, podendo interferir no crescimento. Dessa forma, as famílias que vivem com baixa renda e em condições precárias de saneamento são as mais afetadas, sendo o parasitismo um dos problemas de saúde pública no Brasil (36). Botero Garces et al. (37) verificaram, entre crianças de 3 a 6 anos da Colômbia, que uma maior prevalência de Giardia duodenalis estava associada a falta de água encanada, falta de saneamento, defecação sobre o solo, disposição inadequada do lixo perto das residências e também baixa escolaridade do cuidador da criança (37).

Ressalta-se ainda que a carga parasitária é um dos primeiros indicadores parasitológicos que sofrem alteração com as melhorias das condições sanitárias em uma comunidade. Entre os indígenas Kaingang, após melhoria das condições sanitárias associada ao tratamento antiparasitário, ocorreu redução na prevalência de algumas espécies de enteroparasitos (38). Medidas educativas também têm se mostrado eficientes na profilaxia das parasitoses, como demonstrado em um trabalho realizado em Maringá (Paraná). Nesse trabalho, após ação educativa por meio de minicursos para as famílias atendidas, constatou-se redução na prevalência dos parasitos intestinais de 42,5% para 12,6% (39).

O presente estudo apresentou limitações quanto ao tamanho da população avaliada, uma vez que a aldeia era composta por 86 moradores, o que não permite extrapolar nossos resultados para outra população indígena. Além disso, alguns indivíduos não realizaram a coleta de fezes para exame parasitológico, um fator que pode levar a uma distorção das prevalências encontradas.

Também é importante frisar que, apesar de a coleta de dados ter ocorrido no ano de 2009, os resultados obtidos apresentam relevância, uma vez que estudos com povos indígenas são ainda escassos e este é o primeiro estudo sobre saúde e condições ambientais realizado na aldeia Xukuru-Kariri. Assim, os presentes resultados poderão ajudar na compreensão dos fatores determinantes da saúde e do adoecimento desses indígenas, para que se possa formular políticas de saúde pública adequadas para a melhoria da qualidade de vida dessa etnia.

Em conclusão, os resultados apresentados sugerem que nesta aldeia há uma complexa relação entre saúde e meio ambiente. A interação entre consumo de água contaminada, disposição inadequada de lixo e dejetos humanos, falta de saneamento básico e enteroparasitoses pode causar danos ao meio ambiente e à saúde indígena. Assim, medidas governamentais de saneamento básico e educação ambiental devem ser implementadas para melhorar as condições ambientais e parasitológicas dos Xukuru-Kariri residentes em Caldas, Minas Gerais.

Agradecimentos. Agradecemos aos indígenas Xukuru-Kariri pela disponibilidade, aos acadêmicos de Nutrição, Medicina e Farmácia da Universidade Federal de Ouro Preto pela contribuição durante a coleta de dados, à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais pela concessão da bolsa de mestrado (BSS) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financiamento desta pesquisa.

Conflitos de interesse. Nada declarado pelos autores.

Declaração de responsabilidade. A responsabilidade pelas opiniões expressas neste manuscrito é estritamente dos autores e não reflete necessariamente as opiniões ou políticas da RPSP/PAJPH nem da OPAS.

 

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Manuscrito recebido em 21 de setembro de 2014.
Aceito em versão revisada em 5 de maio de 2015.

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