Resenhas

Ana Maria Canesqui Sobre o autor
Fleischler, S; Sautchuk, E. Anatomias Populares. A Antropologia Medica de Martin Alberto Ibáñes-Novión. Brasília: Editora da UNB, 2012.

É bem-vinda a coletânea sobre Martín Alberto Ibáñez-Novión, pioneiro no ensino e pesquisa de antropologia da saúde, designada por ele de Antropologia Médica, na tradição norte-americana. Poucos cientistas sociais endossaram a temática na década de 1970. Nossos primeiros contatos com seus escritos deram-se em função da pesquisa sobre alimentação de famílias trabalhadoras, recém-migradas do campo para a cidade11. Canesqui AM. Comida de Rico, Comida de Pobre. Um estudo sobre a alimentação em um bairro popular [tese]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 1976. e do ensino das ciências sociais e saúde a graduandos médicos da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Sua tese de mestrado, defendida em 1974, sobre o corpo, a enfermidade e sua representação22. Ibáñez-Novión MA. El cuerpo humano, la enfermedad y su representación: um abordaje antropológico em Sobradinho, cuidad satélite de Brasília [dissertação] Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1974. e o texto de 1977 “O Anatomista Popular: um estudo de caso” compunha a bibliografia daqueles cursos. A leitura dos Cadernos do Centro de Estudos e Pesquisas em Antropologia Médica (CEPAM) da Universidade de Brasília, editados pelo professor e colaboradores, acompanhava as pesquisas de seus orientandos, textos seus ou traduções de autores estrangeiros, ampliando a escassa literatura nacional de Antropologia da Saúde.

A coletânea organizada por Soraya Fleischer, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, estudiosa da Antropologia da Saúde e ex-aluna de Martin Alberto, e por Carlos Emanuel Sautchuck, professor deste departamento, prestam-lhe homenagem, reconhecendo a permanência dos ensinamentos e inspirações do mestre, admirado por seus ex-alunos.

No prefácio Débora Diniz, antropóloga e professora do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade de Brasília, exalta as qualidades do mestre de transitar os diferentes campos de saberes, contribuindo aos nutricionistas em relação aos hábitos alimentares, aos médicos e aos antropólogos, interessados ou não diretamente na Antropologia da Saúde.

Na Introdução, os organizadores da coletânea e Ana Gretel Echazú Boschemeier, relatam o extenso trabalho de reunir textos dispersos e o apoio de muitas pessoas: ex-alunos, ex-colegas e familiares. Reiteram as qualidades do professor e pesquisador, de sua obra e iniciativas. Agregam o texto de Martin-León-Jaques Ibáñez de Novión sobre a biografia do autor, desde o nascimento à sua morte em 2003, vítima de câncer. A produção científica, cronologicamente exposta, traduz dinamismo, comprometimento com a pesquisa e interlocuções com instituições nacionais e internacionais.

Ele ingressou, na década de 1960, no curso médico da Universidade de Córdoba, Argentina dele desistindo para licenciar-se em Antropologia na Universidade Nacional de La Plata. No Brasil cursou o mestrado de Antropologia no Museu Nacional, no início da década de 1970. Foi professor de Antropologia na Universidade de Brasília, articulando-se com instituições (de ensino e pesquisa e órgãos governamentais) de nutrição, saúde pública e medicina. Atuou, nos três anos antecedentes à sua morte, no Departamento de Saúde Coletiva da UNB, na área bioética, e no Conselho da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Antecedendo as três partes do livro um artigo de Martín Alberto de 1984, publicado nos Cadernos CEPAM, reconstrói as perspectivas, as abordagens e os interesses da Antropologia Médica anglo-saxônica e os passos iniciais desta disciplina no Brasil e seu futuro, apostando no papel da UNB e do CEPAM e de outras universidades no ensino e pesquisa nos cursos de pós-graduação.

Considera a criação da disciplina de Antropologia Médica, em 1972, no curso de pós-graduação em Antropologia da UNB, marco importante ao lado de iniciativas individuais na UFRJ; USP e UNICAMP, revistas posteriormente33. Queiroz MS, Canesqui AM. Contribuições da Antropologia à Medicina: uma revisão de estudos no Brasil. Rev Saude Publica 1986; 20(2):141-215.. Outra disciplina similar criou-se na década de 1980, na Escola Paulista de Medicina, decorrente de sua intervenção nas áreas indígenas, e na Universidade Federal da Bahia. Em 1982 criou-se um Grupo de Trabalho no assunto na Associação Brasileira de Antropologia que teve continuidade até o momento, sob outras denominações e temas correlatos.

Compõem a primeira parte da coletânea dois artigos de pesquisas iniciais do autor, feitas na Argentina sobre a prática funerária e os usos social e medicinal da coca pela população da região andina. Tema controverso, adverte o autor, a importância de estudar estes fenômenos nos seus contextos culturais, evitando isolá-los da identidade étnica, da cosmologia indígena, de suas tradições e dos interesses econômicos.

A segunda parte inclui etnografias desenvolvidas em Sobradinho-Brasília e reflexões sobre a multidisciplinaridade nos estudos de nutrição. Dois artigos: “A síndrome do quente-frio”, de 1974, e “A Pílula Anticonceptiva e o Conhecimento Tradicional do corpo humano: um estudo de caso no Brasil”, de 1980, abordam as teorias populares sobre o corpo e seu funcionamento, as taxonomias classificatórias das doenças e dos alimentos e a percepção da anatomia e fisiologia da reprodução, pelas mulheres.

No artigo sobre “O ciclo da lombriga: uma nota sobre a etnoparasitologia”, de 1976, combinam-se as ideias e os conhecimentos emprestados dos médicos sobre o ciclo da lombriga com os conhecimentos populares. Nas explicações da origem da lombriga (etapa do “micróbio”) estão o corpo, a terra e a própria lombriga. Explica-se a entrada do “micróbio”, existente na terra e no corpo da pessoa, emprestando-se ideias da medicina do homem como hospedeiro dos parasitas.

No artigo sobre “A Nutrição: um enfoque multidisciplinar”, de 1976, argumenta-se a insuficiência do enfoque biológico da nutrição na compreensão dos problemas nutricionais sobre o gasto energético, as carências nutricionais e os grupos de risco. Propõe combinar os estudos quantitativos dos perfis socioeconômico e nutricional com os qualitativos para compreender a teoria popular do processo alimentar e da alimentação em dadas condições de saúde e doença. Sem descartar a importância dos estudos biomédicos, nutricionais, econômicos e as intervenções na dieta reconhecia a incipiência da interlocução inter ou multidisciplinar, dispondo-se a dialogar com os gestores das políticas públicas.

Na terceira parte estão quatro artigos. Três abordam uma pesquisa conduzida no Norte de Minas Gerais, de 1976 a 1978, sobre os Sistemas de Cuidado de Saúde, um conceito inspirado em Kleinman sobre os Sistemas de Cuidado Médico44. Kleinman A. Patients and healers in the context of culture: an exploration of borderland between anthropology, medicine and psychiatry. Los Angeles, London: University of California Press, Berkeley; 1980.,55. Kleinman A, Eisenberg L, Good B. Culture, illness and care: clinical lessons from anthropological and cross-cultural research. Ann Int. Medicine 1978; 88(2):251-258.. No subsistema laico estão os componentes da saúde de uma sociedade, onde se tomam decisões sobre as crises, mal-estar ou distúrbios, desencadeando o processo de significação. O subsistema profissional compõe-se do sistema tradicional (os vários especialistas de cura) e do profissional, onde se sobrepõem a esfera tradicional e a biomédica.

O autor aborda o subsistema laico no texto “O conceito de Farmácia Doméstica e suas implicações no estudo de Sistemas de Cuidado” considerando a farmacologia “arcaica”, composta de saberes populares considerados eficazes, produzidos no âmbito doméstico por especialistas tradicionais e leigos. Nela elenca os fármacos tradicionais, seus usos, segundo os diagnósticos e as teorias das doenças e os remédios de laboratórios, seus usos e formas de administração. Aborda o papel da família e da vizinhança nas ações de saúde.

No texto “Os profissionais da Saúde de Formação Tradicional no Norte de Minas Gerais” descreve os especialistas do sistema tradicional.

No terceiro artigo sobre “O Anatomista Popular: um estudo de caso” compartilha a autoria com Olga Cristina Lopes de Ibáñez-Novíon e Ordep José Trindade Serra. Este especialista está no sistema intermediário do sistema tradicional de ação usando, simultaneamente, técnicas e ações tradicionais e as apropriadas do sistema médico.

Um casal, entrevistado pelo autor, inclui uma parteira-benzedeira e um especialista em “phármaka” (termo que ultrapassa o de especialista em ervas e plantas medicinais). Os seus conhecimentos sobre o corpo, seus órgãos e funções foram descritos e desenhados.

No texto “Transplante de Órgãos: notas para o estudo de uma nova convivência entre mortos e vivos no Brasil” o autor reflete sobre a morte e o transplante de órgãos. Assunto pouco estudado até agora ele dizia que:

para que ocorra um transplante precisa-se, inicialmente, de um vivo peremptoriamente morto e de um morto artificialmente vivo. O primeiro apropriado pela medicina, é “coisificado” como indivíduo da morte... O morto, artificialmente vivo,... é depositário das peças orgânicas de reposição.

Martin Alberto deixou um legado que não pode ficar esquecido e os organizadores da coletânea merecem ser cumprimentados pelo esforço de divulgar estes textos, cuja leitura recomenda-se aos cientistas sociais e profissionais de saúde.

Referências

  • 1
    Canesqui AM. Comida de Rico, Comida de Pobre. Um estudo sobre a alimentação em um bairro popular [tese]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 1976.
  • 2
    Ibáñez-Novión MA. El cuerpo humano, la enfermedad y su representación: um abordaje antropológico em Sobradinho, cuidad satélite de Brasília [dissertação] Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1974.
  • 3
    Queiroz MS, Canesqui AM. Contribuições da Antropologia à Medicina: uma revisão de estudos no Brasil. Rev Saude Publica 1986; 20(2):141-215.
  • 4
    Kleinman A. Patients and healers in the context of culture: an exploration of borderland between anthropology, medicine and psychiatry Los Angeles, London: University of California Press, Berkeley; 1980.
  • 5
    Kleinman A, Eisenberg L, Good B. Culture, illness and care: clinical lessons from anthropological and cross-cultural research. Ann Int. Medicine 1978; 88(2):251-258.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2016
ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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