A prática de bullying entre escolares brasileiros e fatores associados, Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2015

Flávia Carvalho Malta Mello Jorge Luiz da Silva Wanderlei Abadio de Oliveira Rogério Ruscitto do Prado Deborah Carvalho Malta Marta Angélica Iossi Silva Sobre os autores

Resumo

O estudo objetivou verificar associações entre a prática de bullying com variáveis sociodemográficas, de saúde mental e de comportamentos de risco em escolares. O inquérito, de corte transversal, analisa dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2015). Foi realizada análise de regressão logística múltipla para verificar fatores associados à prática de bullying. O autorrelato de praticar bullying foi referido por 19,8% (IC95% 19,5-20,0) dos estudantes. A prática foi mais frequente entre os que estudam na escola privada, cujas mães têm maior escolaridade, moram com os pais, os quais trabalham. Entre as características da saúde mental foi mais frequente a prática de bullying entre os que relatam solidão, insônia e não ter amigos. Dentre as características da família, os que relatam apanhar de familiares e os que faltam as aulas sem comunicar a família praticam mais bullying. A prática de bullying foi mais frequente em quem relata uso de tabaco, álcool, experimentar drogas e em escolares que relatam ter tido relação sexual. Neste cenário, os dados indicam que a prática do bullying é aspecto relevante que interfere no processo ensino-aprendizagem e na saúde dos escolares. Tornando-se necessário enfrentar no contexto da intersetorialidade e do protagonismo juvenil.

Bullying; Adolescentes; Praticar bullying; Álcool; Tabaco

Introdução

O bullying se configurou nos últimos anos em um grave problema de saúde pública que afeta crianças e adolescentes em idade escolar11. Silva MAI, Silva JL, Pereira BO, Oliveira WA, Medeiros M. The view of teachers on bullying and implications for nursing. Revista da Escola de Enfermagem da USP 2014; 48(4):723-730.,22. Wu WC, Luu S, Luh DL. Defending behaviors, bullying roles, and their associations with mental health in junior high school students: a population-based study. BMC Public Health 2016; 16(1):1066.. É um fenômeno caracterizado por comportamentos agressivos intencionais e repetitivos, baseado em relações com desequilíbrio de poder33. Olweus D. School bullying: Development and some important challenges. Annual Review of Clinical Psychology 2013; 9(1):751-80.. Inclui-se entre suas formas de manifestação as violências: física (bater ou chutar um colega, por exemplo); verbal (uso de apelidos que humilham, insultos ou xingamentos); e psicológica (amedrontar, perseguir, intimidar ou chantagear, entre outros comportamentos)33. Olweus D. School bullying: Development and some important challenges. Annual Review of Clinical Psychology 2013; 9(1):751-80.

4. Pigozi PL, Machado AL. Bullying na adolescência: visão panorâmica no Brasil. Cien Saude Colet 2015; 20(11):3509-3522.
-55. Silva JL, Oliveira WA, Bazon MR, Cecílio S. Bullying na sala de aula: percepção e intervenção de professores. Arquivos Brasileiros de Psicologia 2013; 65(1):121-137..

A prevalência do bullying escolar no mundo é grande. Recentemente, um grande inquérito epidemiológico envolvendo 79 países identificou que, aproximadamente, 30% dos estudantes apresentam relatos de vitimização por bullying nas escolas66. Elgar FJ, McKinnon B, Walsh SD, Freeman J, Donnelly PD, Matos MG, Gariepy G, Aleman-Diaz AY, Pickett W, Molcho M, Currie C. Structural Determinants of Youth Bullying and Fighting in 79 Countries. J Adolesc Health 2015; 57(6):643-650.. Esse inquérito também verificou relatos de quatro ou mais episódios de agressões físicas entre 10,7% dos meninos e 2,7% das meninas, no ano anterior à pesquisa66. Elgar FJ, McKinnon B, Walsh SD, Freeman J, Donnelly PD, Matos MG, Gariepy G, Aleman-Diaz AY, Pickett W, Molcho M, Currie C. Structural Determinants of Youth Bullying and Fighting in 79 Countries. J Adolesc Health 2015; 57(6):643-650.. Nos Estados Unidos, país com forte tradição na pesquisa sobre o fenômeno, a 2009 Massachusetts Youth Health Survey revelou que 8,4% de uma amostra de 2.948 estudantes do ensino médio haviam praticado algum tipo de agressão contra os colegas77. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Bullying among middle school and high school students: Massachusetts, 2009. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2011; 60(15):465-471.. Na Europa, em países como Portugal e Itália, as taxas de prevalência de estudantes envolvidos em situações de bullying chegaram a 27,5% e 35%, respectivamente88. Costa P, Farenzena R, Simões H, Pereira BO. Adolescentes portugueses e o bullying escolar: Estereótipos e diferenças de género. Interacções 2013; 9(25):180-201.,99. Gini G. Bullying in Italian Schools: An Overview of Intervention Programmes. School Psychology International 2004; 25(1):106-116..

Na América Latina, o fenômeno também tem sido alvo de investigações, nos diferentes países, e segundo a literatura científica há um incremento de suas formas de manifestação que assumem aspectos mais severos e reflexos das desigualdades sociais1010. Fleming LC, Jacobsen KH. Bullying among middle-school students in low and middle income countries. Health Prom Int 2010; 25(1):73-84.. Neste sentido, na Nicarágua, um estudo envolvendo 3.042 estudantes identificou que uma prevalência de bullying de 50,0%, sendo que 6,0% foram identificados como agressores1111. Félix EMR, Alamillo RDR, Ruiz RO. Prevalencia y aspectos diferenciales relativos al género del fenómeno bullying en países pobres. Psicothema 2011; 23(4):624-629.. Dados do Estudio Nacional de Prevención y Consumo de Drogas en Estudiantes de Secundaria de Perú verificaram uma prevalência de agressão autorreferida de 37,5% em uma amostra de 65.041 estudantes peruanos1212. Romaní F, Gutiérrez C, Lama M. Auto-reporte de agresividad escolar y factores asociados en escolares peruanos de educación secundaria. Revista Peruana de Epidemiología 2011; 15(2):1-8..

No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), em suas duas primeiras edições, também verificou taxas crescentes de envolvimento dos estudantes brasileiros em situações de bullying, sendo que 5,4% dos estudantes relataram o ter sofrido nas capitais brasileiras em 2009 e 7,2% em 20121313. Malta DC, Silva MAI, Mello FCM, Monteiro RA, Silva C, Sardinha LM, Crespo C, Carvalho MG, Silva MMA, Porto DL. Bullying nas escolas brasileiras: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, 2009. Cien Saude Colet 2010; 15(Supl. 2):3065-3076.

14. Malta, DC, Prado RR, Dias AJR, Mello FCM, Silva MAI, Costa MR, Caiaffa WT. Bullying and associated factors among Brazilian adolescents: analysis of the National Adolescent School-based Health Survey (PeNSE 2012). Rev Bras Epidemiol 2014; 17(Supl. 1):131-145.

15. Malta DC, Porto DL, Crespo CD, Silva MMA, Andrade SSC, Mello FCM, Monteiro RA, Silva MAI. Bullying in Brazilian school children: analysis of the National Adolescent School-based Health Survey (PeNSE 2012). Rev Bras Epidemiol 2014; 17(Supl. 1):92-105.
-1616. Mello FCM, Malta DC, Santos MG, Silva MMA, Silva MAI. Evolução do relato de Sofrer bullying entre escolares brasileiros, Pesquisa Nacional de Saúde - 2009 a 2015. Rev Bras Epidemiol No prelo 2017..

Diante desse cenário, observa-se que o aumento nas taxas de prevalência desse tipo de violência na escola no continente indica que ela está se tornando mais sistemática e aceita como a norma para as relações sociais e as maneiras de resolver conflitos entre crianças e adolescentes1717. Delprato M, Akyeampong K, Dunne M. The impact of bullying on students’ learning in Latin America: A matching approach for 15 countries. International Journal of Educational Development 2017; 52:37-57.. Além disso, percebem-se lacunas na literatura científica, sobretudo no que se refere ao papel dos estudantes identificados como agressores nas situações de bullying, pois a maioria dos estudos possuem foco na vitimização e no relato das experiências das vítimas1818. Oliveira WA, Silva MAI, Silva JL, Mello FCM, Prado RR, Malta DC. Associations between the practice of bullying and individual and contextual variables from the aggressors’ perspective. J Pediatr (Rio J) 2016; 92(1):32-39.,1919. Silva JL, Oliveira WA, Bono EL, Dib MA, Bazon MR, Silva MAI. Associações entre Bullying Escolar e Conduta Infracional: Revisão Sistemática de Estudos Longitudinais. Psicologia: Teoria e Pesquisa 2016; 32(1):81-90..

Essa abordagem sobre o papel dos agressores é importante na medida em que se compreende que eles também sofrem as consequências do fenômeno e contribuem com a sua manutenção nos ambientes escolares. Esses estudantes também apresentam problemas de aprendizagem e podem iniciar a vida sexual precocemente, consumir álcool e outras drogas, participar de gangues e outros movimentos negativos em relação à escola e seus membros, adotar condutas infracionais e, na idade adulta, podem se envolver em situações de criminalidade e violência doméstica1818. Oliveira WA, Silva MAI, Silva JL, Mello FCM, Prado RR, Malta DC. Associations between the practice of bullying and individual and contextual variables from the aggressors’ perspective. J Pediatr (Rio J) 2016; 92(1):32-39.

19. Silva JL, Oliveira WA, Bono EL, Dib MA, Bazon MR, Silva MAI. Associações entre Bullying Escolar e Conduta Infracional: Revisão Sistemática de Estudos Longitudinais. Psicologia: Teoria e Pesquisa 2016; 32(1):81-90.

20. Hansen TB, Steenberg LM, Palic S, Elklit A. A review of psychological factors related to bullying victimization in schools. Aggression and Violent Behavior 2012; 17(4):383-387.
-2121. Zaine I, Reis MDJDD, Padovani RDC. Comportamentos de bullying e conflito com a lei. Estudos de Psicologia (Campinas) 2010; 27(3):375-382..

Em geral, estudos indicam que os comportamentos antissociais e o uso de álcool e outras drogas são associados à prática de bullying2222. Peleg-Oren N, Cardenas GA, Comerford M, Galea S. An Association Between Bullying Behaviors and Alcohol Use Among Middle School Students. The Journal of Early Adolescence 2010; 32(6):761-775.,2323. Garcia-Continente X, Pérez-Giménez A, Espelt A, Adell MN. Bullying among schoolchildren: differences between victims and aggressors. Gac Sanit 2013; 27(4):350-354.. Além disso, os agressores podem apresentar dificuldades emocionais, relações problemáticas com colegas e dificuldades na adaptação ao ambiente escolar1818. Oliveira WA, Silva MAI, Silva JL, Mello FCM, Prado RR, Malta DC. Associations between the practice of bullying and individual and contextual variables from the aggressors’ perspective. J Pediatr (Rio J) 2016; 92(1):32-39..

Esses aspectos justificam análises sobre o papel do agressor na dinâmica do bullying e quais as variáveis interferem no processo ensino-aprendizagem e na saúde desses escolares ou se relacionam ao comportamento agressivo. Dessa forma, este estudo objetivou verificar associações entre a prática de bullying com variáveis sociodemográficas, de saúde mental e de comportamentos de risco para a saúde no contexto da terceira edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2015)2424. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, (PeNSE), 2015. Rio de Janeiro: IBGE; 2015..

Metodologia

O estudo analisou dados da PeNSE 2015, inquérito de corte transversal realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde, entre escolares matriculados e frequentando regularmente escolas públicas e privadas no país no 9º ano escolar. A Amostra de escolares do 9º ano ensino fundamental é representativa de Brasil, 27 Unidades Federadas, municípios das capitais e Distrito Federal2424. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, (PeNSE), 2015. Rio de Janeiro: IBGE; 2015..

Participaram da amostra em 2015, 124.227 alunos matriculados em 3.160 escolas, e 4.418 turmas. Foram coletados dados de 3.040 escolas, com 4.159 turmas, e eram frequentes 120.122 alunos. No dia da coleta os alunos que de fato responderam ao questionário foram 102.301 alunos. Considerando os escolares frequentes, a perda amostral foi de cerca de 8,5%2424. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, (PeNSE), 2015. Rio de Janeiro: IBGE; 2015..

Foram utilizados três estágios de seleção, no primeiro foram selecionados os municípios ou grupos de municípios (Unidade Primária de Amostragem - UPA), no segundo as escolas (Unidade Secundária de Amostragem - USA), e no terceiro as turmas (Unidade Terciária de Amostragem - UTA). Todos alunos presentes no dia da coleta, nas turmas sorteadas, foram convidados a participar da pesquisa2424. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, (PeNSE), 2015. Rio de Janeiro: IBGE; 2015..

Considerou-se o modelo conceitual de que estão associados à prática do bullying fatores demográficos, fatores relacionados à saúde mental (solidão, insônia, e não ter amigos), situações familiares como (morar com os pais, supervisão familiar, violência familiar, faltar as aulas), comportamentos de risco (uso de substancias psicoativas) e ter tido relação sexual. Alguns fatores como protetores e outros aumentando a chance do evento1818. Oliveira WA, Silva MAI, Silva JL, Mello FCM, Prado RR, Malta DC. Associations between the practice of bullying and individual and contextual variables from the aggressors’ perspective. J Pediatr (Rio J) 2016; 92(1):32-39..

Assim, foi investigado o desfecho de praticar bullying – segundo a pergunta: (NOS ÚLTIMOS 30 DIAS, você esculachou, zoou, mangou, intimidou, ou caçoou de algum dos seus colegas na escola, tanto que ele ficou magoado, aborrecido, ofendido ou humilhado?). SIM ou NÃO.

Foram testadas associações com as seguintes variáveis:

I) No módulo de características sociodemográficas foram analisadas as seguintes variáveis independentes: a) sexo (categorizada em: masculino e feminino); b) idade (categorizada em: ≤ 13 anos, 13 anos, 14 anos, 15 anos, e 16 anos e mais); e c) cor da pele (categorizada em: branca, preta, parda, amarela, e indígena), Escolas (pública ou privada), escolaridade da mãe (Sem escolaridade, Primário (incompleto/completo), Secundário (incompleto/completo), Superior (incompleto/completo), trabalha atualmente (sim, não), Remuneração pelo trabalho (sim, não).

II) No módulo contexto familiar foram analisadas as seguintes variáveis: a) Morar com mãe e/ou pai – Categorizada como sim (escolares que residem com pai e mãe, residem só com a mãe, ou residem só com pai); ou não (residir sem pai e mãe); b) Supervisão familiar – Categorizada em: sim (na maior parte do tempo, sempre pais ou responsáveis sabiam realmente o que o adolescente estava fazendo); ou não (nunca, raramente, às vezes); c) Faltar às aulas sem autorização – Categorizada em não (nunca); ou sim (1 ou 2 vezes; 3 ou mais vezes nos últimos 30 dias);

III) No módulo de saúde mental foram analisadas como variáveis independentes: a) Sentir-se sozinho – agregada em não (nunca, às vezes nos últimos 12 meses); sim (na maioria das vezes, sempre nos últimos 12 meses); b) Insônia – agregada em não (nunca, as vezes nos últimos 12 meses); ou sim (na maioria das vezes, sempre nos últimos 12 meses); c) Amigos – categorizada como não (nenhum); ou sim: (1, 2, 3, ou mais amigos).

Comportamentos de risco – Uso do tabaco nos últimos 30 dias, ou regular (sim, não), Uso do Álcool regular, uso nos últimos 30 dias (sim, não), Drogas experimentação na vida (sim, não). Ter tido Relação sexual (sim, não).

Inicialmente, realizou-se o cálculo da prevalência de praticar bullying segundo as variáveis sociodemográficas, variáveis explicativas do contexto familiar, violência familiar, saúde mental, comportamentos de risco e relação sexual. Posteriormente, procedeu-se a análise bivariada, calculando-se os Odds Ratios (ORs) não ajustados, empregando-se regressão logística simples com nível de significância de 0,05. Por último, realizou-se análise de regressão logística multivariada para o desfecho examinado, inserindo no modelo as variáveis independentes que apresentaram associação com o desfecho, calculando-se os ORs ajustados (ORa), com seus respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%). Para todas as análises foram considerados a estrutura amostral e os pesos para obtenção de estimativas populacionais. Os dados foram analisados com auxílio do pacote estatístico SPSS, versão 20 e empregado o delineamento complexo de amostragem, utilizando módulo de amostragem complexa (CSAMPLE – complex samples).

Os estudantes foram informados sobre a pesquisa, sua livre participação e que poderiam interromper a mesma caso não se sentissem a vontade para responder as perguntas. Caso concordassem, responderam a um questionário individual em um smarthphone sob a supervisão de pesquisadores do IBGE. A PeNSE está em acordo com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos e foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisas do Ministério da Saúde (CONEP/MS), sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE).

Resultados

O autorrelato de praticar bullying foi referido por 19,8% (IC95% 19,5-20,0) dos estudantes (Tabela 1), sendo mais frequente no sexo masculino 24,2% (IC95% 23,7-24,8), e aos 14, 15 e 16 anos, de raça preta 21,5% (IC95% 20,0-23,1) e amarela 21,0% (IC95% 19,3-23,0). A prática foi mais frequente entre os que estudam na escola privada, cujas mães têm maior escolaridade, não moram com os pais, os que trabalham (28,1% IC 27,3-28,8) e recebem pelo trabalho. Entre as características da saúde mental foi mais frequente a prática de bullying entre os que relatam solidão, insônia e não ter amigos. Dentre as características da família, os que relatam apanhar de familiares (33,98% IC 33,1-34,6) e os que faltam as aulas sem comunicar a família (28,4% IC 95% 27,9-29) praticam mais bullying. Diferentemente, os que relatam supervisão familiar praticam menos 15,6 IC 95% 15,3-15,9). Dentre os que relatam comportamentos de risco, a pratica de bullying foi mais frequente em quem informa uso de tabaco, álcool, experimentar drogas, bem como em escolares que disseram ter tido relação sexual.

Tabela 1
Prevalência da ocorrência da prática de bullying entre escolares do 9º ano do Ensino Fundamental e OR Bruto, segundo fatores sociodemográficos, variáveis do contexto familiar, saúde mental e comportamentos de risco. Brasil, 2015.

Calculou-se OR Bruto (Tabela 2) e na análise multivariada ajustado por todas as variáveis do modelo, permaneceram associados e protetores à prática de bullying, escolares mais velhos, 15 anos (ORa = 0,88 IC 95% 0,82 – 0,94), escolares com 16 anos (ORa = 0,79 IC 95% 0,73 – 0,86), ser do sexo feminino (ORa = 0,55 IC 95% 0,53 – 0,57), ter mães com menor escolaridade: sem escolaridade (ORa = 0,86 IC 95% 0,79 – 0,93), Primário (incompleto/completo) (ORa = 0,93 IC 95% 0,88 – 0,96), Secundário (incompleto/completo) (ORa = 0,93 IC 95% 0,89 – 0,98) e filhos que relatam a supervisão dos pais (ORa = 0,64 IC 95% 0,61 – 0,66). Permaneceram associados e aumentando a chance de praticar bullying estudar em escola privada (ORa 1,25; IC95%:1,18-1,32), trabalhar atualmente (ORa 1,24 IC95% 1,18-1,31), os que relataram sentir-se solitários (ORa 1,12 IC95% 1,06-1,18), com insônia (ORa 1,14 IC95% 1,07-1,21), ter sofrido violência física familiar (ORa 1,81 IC95% 1,72-1,90) e faltar as aulas (ORa 1,37 IC95% 1,31-1,43). Dentre os comportamentos de risco, praticaram mais bullying quem teve uso regular do tabaco (ORa 1,28 IC95% 1,18-1,38), uso regular do álcool (ORa 1,72 IC95% 1,65-1,80), experimentou drogas (ORa 1,47 IC95% 1,38-1,57), teve relação sexual (ORa 1,27 IC95% 1,21-1,33).

Tabela 2
Fatores de risco associados a praticar bullying entre escolares do 9º ano do ensino fundamental. Brasil, 2015.

Discussão

O objetivo deste estudo foi analisar os fatores associados à prática de bullying no Brasil. Os resultados indicaram que cerca de um quinto dos escolares o praticaram. Os agressores eram mais do sexo masculino, estudantes de escolas privadas e filhos de mães com maior escolaridade. Eles relataram mais comportamentos de risco à saúde (consumo de tabaco, álcool, drogas e relação sexual precoce), problemas de saúde mental (insônia e solidão) e falta às aulas, com diferença estatisticamente significativa em relação aos não agressores. No contexto familiar, também se distinguem significativamente dos estudantes não agressores por sofrerem mais violência física. A supervisão familiar mostrou-se protetora de praticar bullying.

A maior prevalência de agressores do sexo masculino é confirmada por outros estudos nacionais e internacionais1919. Silva JL, Oliveira WA, Bono EL, Dib MA, Bazon MR, Silva MAI. Associações entre Bullying Escolar e Conduta Infracional: Revisão Sistemática de Estudos Longitudinais. Psicologia: Teoria e Pesquisa 2016; 32(1):81-90.,2525. Carrera-Fernández MV, Lameiras-Fernández M, Rodríguez-Castro Y, Vallejo-Medina P. Bullying among Spanish secondary education students: the role of gender traits, sexism, and homophobia. J Interpers Violence 2013; 28(14):2915-2940.

26. Silva MAI, Pereira BO, Mendonça D, Nunes B, Oliveira WA. The involvement of girls and boys with bullying: an analysis of gender differences. Int J Environ Res Public Health 2013; 10(12):6820-6831.

27. Sampaio JMC, Santos GV, Oliveira WA, Silva JL,Medeiros M, Silva MAI. Emotions of students involved in cases of bullying. Texto Contexto Enferm 2015; 24(2):344-352.
-2828. Tippett N, Wolke D, Platt L. Ethnicity and bullying involvement in a national UK youth sample. J Adolesc 2013; 36(4):639-649.. Uma possível explicação é que, independentemente das diferenças socioculturais entre os países ou regionais dentro de uma mesma nação, os meninos possuem estilos de interação mais agressivos com seus pares em comparação com as meninas2929. Silva JL, Oliveira WA, Sampaio JMC, Farias MS, Alencastro LCS, Silva MAI. How do you feel? Students’ emotions after practicing bullying. Rev Eletr Enferm 2015; 17(4):1-8.,3030. Rech RR, Halpern R, Tedesco A, Santos DF. Prevalence and characteristics of victims and perpetrators of bullying. J Pediatr (Rio J) 2013; 89(2):164-170.. A menor proporção de bullying praticado pelos estudantes mais velhos também se coaduna com a literatura. Uma metanálise recente identificou que os estudantes mais novos se envolvem mais na prática de bullying3131. Mitsopoulou E, Giovazolias T. Personality traits, empathy and bullying behavior: a meta-analytic approach. Aggress Violent Behav 2015; 21(2):61-72.. Outros estudos também indicam que as agressões diminuem com a idade, após um pico aos 11-12 anos1919. Silva JL, Oliveira WA, Bono EL, Dib MA, Bazon MR, Silva MAI. Associações entre Bullying Escolar e Conduta Infracional: Revisão Sistemática de Estudos Longitudinais. Psicologia: Teoria e Pesquisa 2016; 32(1):81-90.,3232. Alvarez-Garcia D, Garcia T, Nunez JC. Predictors of school bullying perpetration in adolescence: a systematic review. Aggress Violent Behav 2015; 23:126-136..

Como todos os participantes desta pesquisa pertencem ao mesmo ano escolar, o resultado indica que os mais velhos não se utilizam de seu maior desenvolvimento físico para intimidar os seus colegas mais novos. Talvez isso ocorra porque eles compreendam melhor a natureza prejudicial do bullying ou porque as agressões por eles praticadas possam ser interpretadas pelos professores como possuindo maior gravidade e assim receberem punições mais severas ou então percebidas pelos colegas como sendo covardia por eles serem mais fortes fisicamente2626. Silva MAI, Pereira BO, Mendonça D, Nunes B, Oliveira WA. The involvement of girls and boys with bullying: an analysis of gender differences. Int J Environ Res Public Health 2013; 10(12):6820-6831.,3333. Juvonen J, Graham S. Bullying in schools: the power of bullies and the plight of victims. Annu Rev Psychol 2014; 65:159-185..

Os estudantes das escolas privadas praticam mais bullying em relação aos das públicas. Esse resultado demonstra que se trata de um fenômeno que ultrapassa diferenças socioeconômicas, conforme anteriormente apresentado na edição da PeNSE, realizada no ano de 20121818. Oliveira WA, Silva MAI, Silva JL, Mello FCM, Prado RR, Malta DC. Associations between the practice of bullying and individual and contextual variables from the aggressors’ perspective. J Pediatr (Rio J) 2016; 92(1):32-39.. Outro estudo brasileiro identificou que o bullying era mais praticado pelos estudantes de escolas privadas, embora sem diferença significativa3434. Alcântara SC, González-Carrasco M, Montserrat C, Vinãs F, Casas F, Abreu DP. Peer violence in the school environment and its relationship with subjective well-being and perceived social support among children and adolescents in Northeastern Brazil. J Happiness Stud 2017; 1-26..

Os resultados referentes à escolaridade da mãe indicaram que quanto maior a escolaridade materna, maiores as chances de o filho ser um agressor. Trata-se de um dado surpreendente, uma vez que se espera que as mães com maior escolaridade possuam mais conhecimentos sobre como educar os filhos, impor limites adequados, supervisioná-los e auxiliá-los em suas necessidades ou dificuldades nas interações com colegas na escola3535. Oliveira WA, Silva JL, Yoshinaga ACM, Silva MAI. Interfaces entre família e bullying escolar: Uma revisão sistemática. Psico-USF 2015; 20(1):121-132.. Os agressores sofrerem mais violência doméstica, o que é esperado e confirmado por estudos nacionais e internacionais1818. Oliveira WA, Silva MAI, Silva JL, Mello FCM, Prado RR, Malta DC. Associations between the practice of bullying and individual and contextual variables from the aggressors’ perspective. J Pediatr (Rio J) 2016; 92(1):32-39.,3636. Tortorelli MFP, Carreiro LRR, Araújo MV. Correlações entre a percepção da violência familiar e o relato de violência na escola entre alunos da cidade de São Paulo. Revista Psicologia Teoria e Prática 2010; 12(1):32-42.,3737. Foster H, Brooks-Gunn J. Neighborhood, family and individual influences on school physical victimization. J Youth Adolesc 2013; 42(10):1596-1610.. Entretanto, são práticas parentais incompatíveis com as esperadas de mães com maior escolaridade. Por outro lado, a supervisão dos pais mostrou-se protetora da pratica do bullying, semelhante ao descrito na literatura1414. Malta, DC, Prado RR, Dias AJR, Mello FCM, Silva MAI, Costa MR, Caiaffa WT. Bullying and associated factors among Brazilian adolescents: analysis of the National Adolescent School-based Health Survey (PeNSE 2012). Rev Bras Epidemiol 2014; 17(Supl. 1):131-145..

Métodos disciplinares mais punitivos predispõem os estudantes a praticarem bullying3838. Bowes L, Arseneault L, Maughan B, Taylor A, Caspi A, Moffitt TE. School, neighborhood, and family factors are associated with children’s bullying involvement: a nationally representative longitudinal study. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 2009; 48(5):545-553., por eles aprenderam por observação na família a utilizarem estratégias agressivas na resolução de conflitos. Esse padrão de comportamento passa então a se expressar nas relações interpessoais estabelecidas na escola3535. Oliveira WA, Silva JL, Yoshinaga ACM, Silva MAI. Interfaces entre família e bullying escolar: Uma revisão sistemática. Psico-USF 2015; 20(1):121-132., o que é preocupante, pois estudos demonstram que os problemas de conduta dos agressores podem se agravar ao longo do tempo e evoluírem para situações de conflito com a lei, por exemplo1919. Silva JL, Oliveira WA, Bono EL, Dib MA, Bazon MR, Silva MAI. Associações entre Bullying Escolar e Conduta Infracional: Revisão Sistemática de Estudos Longitudinais. Psicologia: Teoria e Pesquisa 2016; 32(1):81-90.,3939. Silva JL, Bazon MR. Educação escolar e conduta infracional em adolescentes: revisão integrativa da literatura. Estud Psicol (Natal) 2014; 19(4):278-287.. Para além dos problemas comportamentais, de modo geral, os agressores também apresentam problemas de desempenho escolar, sentimentos de aversão à escola e problemas de frequência1818. Oliveira WA, Silva MAI, Silva JL, Mello FCM, Prado RR, Malta DC. Associations between the practice of bullying and individual and contextual variables from the aggressors’ perspective. J Pediatr (Rio J) 2016; 92(1):32-39.. Neste estudo ficou confirmado que eles faltam mais às aulas, o que pode indicar que eles possuem atitude negativa em relação à escola ou apresentam outros problemas escolares.

A literatura indica que problemas familiares ou escolares, tais como os apresentados pelos estudantes que praticam bullying deste estudo, os predispõem a desejarem trabalhar, o mesmo acontecendo para aqueles que já apresentam problemas de comportamento e prática de violência4040. Staff J, Osgood DW, Schulenberg JE, Bachman JG, Messersmith EE. Explaining the relationship between employment and juvenile delinquency. Criminology 2010: 48(4):1101-1131.. Isso pode estar ligado à situações socioeconômicas, gerando demandas por contribuir na renda familiar. O trabalho pode oportunizar maior contatos com adultos e maior frequência de comportamentos de risco como o consumo de álcool, tabaco e drogas, dados também identificados por este estudo. Uma investigação desenvolvida nos Estados Unidos identificou maior probabilidade de uso de tabaco, álcool e maconha entre estudantes envolvidos em situações de bullying como agressores e vítimas4141. Radliff KM, Wheaton JE, Robinson K, Morris J. Illuminating the relationship between bullying and substance use among middle and high school youth. Addict Behav 2012; 37(4):569-572.. Outro estudo, desenvolvido na Itália, verificou maiores riscos de uso de álcool e tabaco entre estudantes envolvidos no bullying em comparação aos não envolvidos4242. Vieno A, Gini G, Santinello M. Different forms of bullying and their association to smoking and drinking behavior in Italian adolescents. J Sch Health 2011; 81(7):393-399.. Conforme identificado neste estudo, a iniciação sexual precoce e a prática mais frequentemente de atividade sexual na adolescência é um outro comportamento de risco relacionado aos agressores4343. Hong JS, Voisin DR, Cho S, Espelage DL. Association among subtypes of bullying status and sexually-risky behaviors of urban African American adolescents in Chicago. J Immigr Minor Health 2016; 18(5):1007-1016..

A solidão experimentada em maior proporção pelos estudantes que praticam bullying pode decorrer da rejeição pelos pares que não aprovam as agressões que praticam. De modo geral, crianças e adolescentes agressivos são mais propensos a atribuírem intenções hostis às outras pessoas, buscando mais dominar a interação, em vez de manter relação4444. Lösel F, Bliesener T, Bender D. Social information processing, experiences of aggression in social contexts, and aggressive behavior in adolescents. Crim Justice Behav 2007; 34(3):330-347.. Isso colabora para que os agressores não sejam necessariamente estudantes populares4545. Caravita SCS, Cillessen AHN. Agentic or Communal? Associations between interpersonal goals, popularity, and bullying in middle childhood and early adolescence. Social Development 2012; 21(2):376-395.. Outros estudos indicam a solidão como propiciadora de problemas de saúde mental, tais como ansiedade, depressão e baixa autoestima4646. Craig W, Harel-Fisch Y, Fogel-Grinvald H, Dostaler S, Hetland J, Simons-Morton B, Molcho M, Mato MG de, Overpeck M, Due P, Pickett W; HBSC Violence & Injuries Prevention Focus Group; HBSC Bullying Writing Group. A cross-national profile of bullying and victimization among adolescents in 40 countries. Int J Public Health 2009; 54(Supl. 2):216-224.,4747. Arseneault L, Bowes L, Shakoor S. Bullying victimization in youths and mental health problems: “much ado about nothing”? Psychol Med 2010; 40(5):717-729.. Esses dados, juntamente com aqueles referentes à insônia, alertam para a existência de sofrimento psíquico que repercute na qualidade de vida e no desenvolvimento psicossocial saudável dos estudantes agressores.

Algumas limitações deste estudo devem ser observadas, como o fato do inquérito da PeNSE utilizar exclusivamente o autorrelato dos estudantes, o que pode provocar respostas socialmente esperadas e diferenças de interpretação sobre o ato de praticar o bullying ou não. O instrumento usado na coleta de dados também não contemplava questões que diferenciassem os tipos de comportamentos de bullying, o que pode ter dificultado a identificação de práticas mais sutis. Noutra direção, os dados analisados são de origem transversal e, portanto, não indicam relações de causalidade ou de influências diretas das variáveis contempladas no estudo. Neste sentido, mesmo considerando o bullying um fenômeno global, os resultados deste estudo não podem ser generalizados para outros contextos socioculturais que não sejam o brasileiro.

No entanto, tal estudo se propõe a mostrar sua pertinência e relevância em debater e refletir sobre a prática do bullying no contexto escolar, uma vez que tal aspecto interfere no processo ensino-aprendizagem e na saúde dos escolares, bem como da necessidade de enfrentamento deste fenômeno por meio da intersetorialidade.

Conclusão

O estudo teve como objetivo analisar os fatores associados à prática de bullying entre os escolares brasileiros e os resultados indicaram que há uma prevalência de 19,8% de agressores, sendo eles mais do sexo masculino, estudantes de escolas privadas e filhos de mães com maior escolaridade. Além disso, os achados mostraram que os agressores têm mais comportamentos de risco à saúde, tais como, consumo de tabaco, álcool, drogas e relação sexual precoce, além de problemas relacionados à saúde mental (insônia e solidão). Os mesmos faltaram mais às aulas e no contexto familiar, sofreram mais violência física e menos supervisão dos pais.

Evidencia-se que a escola continua sendo um ambiente de produção de violência escolar, entre elas o bullying, o que expõe os escolares a condição de vulnerabilidade tendo como fatores determinantes variáveis pessoais, familiares, escolares, sociais, e culturais.

Entretanto, é consenso que a escola não é a única responsável pela produção de violência, pois trata-se de um fenômeno complexo, dinâmico, multifacetado e multicausal, com raízes também em questões de ordem macrossociais e econômicas. Requerendo, desta forma, enfrentamentos por meio da valorização do protagonismo juvenil, do estímulo à participação social e reflexão, envolvendo alunos, educadores e famílias reconhecendo-os como sujeitos de necessidades e direitos e a saúde e a educação como direitos para a construção da cidadania.

Por conseguinte, ressalta-se que áreas da saúde e da educação, enquanto práticas sociais, necessitam estabelecer uma dimensão cuidadora na perspectiva da promoção à saúde individual e coletiva por meio da prática interdisciplinar e intersetorial.

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Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2017
  • Revisado
    18 Abr 2017
  • Aceito
    13 Jun 2017
  • Publicação
    Set 2017
ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revscol@fiocruz.br