Infância e longevidade: vulnerabilidades, continuidades e descontinuidades

Simone Gonçalves de Assis Sobre o autor

O intenso e rápido crescimento e desenvolvimento do ser humano na infância e adolescência conecta-se de forma inexorável ao processo de envelhecimento com seu ritmo próprio no que se refere aos processos cognitivos, à necessidade de manutenção das atividades físicas e cerebrais prévias e, ao mesmo tempo, com o declínio de algumas funções. Em ambas fases da vida a dependência e a vulnerabilidade são marcantes, demandando cuidado e apoio social para preservação da qualidade de vida e saúde11. Draper B, Pfaff JJ, Pirkis J, Snowdon J, Lautenschlager NT, Wilson I, Almeida OP. Long-Term Effects of Childhood Abuse on the Quality f Life and Health of Older People: Results from the Depression and Early Prevention of Suicide in General Practice Project. JAGS 2008; 56(2): 262-271..

O conhecimento científico atual avançou muito, indicando a importância de dar continuidade aos cuidados sobre o desenvolvimento do ser humano em todo o seu ciclo vital. Por exemplo, a inteligência e a aquisição de habilidade verbal no início da vida, apoiadas na oferta de informação cognitiva e educacional, relacionam-se a menos frequentes problemas de saúde física e mental e a menor mortalidade na velhice. Estudos identificam que as formas variadas de violência nas fases iniciais da vida estão associadas com maior frequência de doenças físicas e mentais entre adultos e idosos. Dentre as primeiras se destacam dores crônicas, problemas ginecológicos, síndrome do intestino irritável, diabetes melito, artrites, dores de cabeça e doenças cardiovasculares. E, dentre as segundas, abuso de substâncias, ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e comportamento suicida. Investigações sobre demência entre idosos ressaltam a noção de reserva cognitiva como fator que protegeria o cérebro, minimizando as manifestações clínicas. Essa reserva estaria vinculada a aquisições precoces e continuadas ao longo da vida, destacando-se as fases iniciais do desenvolvimento22. Minayo MCS, Assis SG, editores. Novas e velhas faces da violência no século XXI: visão da literatura brasileira no campo da violência e saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2017..

Na perspectiva biomédica, a noção de continuidade deriva de conceitos biológicos, especialmente epigenéticos, em que reações inflamatórias e de sensibilidade diferenciada a sinais hormonais podem ocorrer frente a estresses vividos, como, por exemplo, carência alimentar ou violências, incorporando-se ao comportamento celular. Aspectos comportamentais também são relevantes, como aumento do estado de vigilância, empobrecimento de relações sociais e estilos não saudáveis de saúde em resposta as dificuldades enfrentadas nas fases mais precoces. Algumas teorias psicológicas também buscam explicar a perspectiva da continuidade de comportamentos na evolução humana e teóricos desenvolvimentistas postulam que alguns momentos da vida, especialmente os iniciais, são críticos para os padrões que afetam a experiência e o comportamento posterior até a velhice33. Whalleya LJ, Dearyb IJ, Appletona CL, Starr JM. Cognitive reserve and the neurobiology of cognitive aging. Ageing Research Reviews 2004; 3(2004):369-382..

Todavia, há que se estar atento para a potencialidade de mudança dos seres humanos em qualquer momento do ciclo vital. Aspectos do meio social são fundamentais para apoiar a readequação de rumos numa perspectiva comunitária. Mas também, caminhos e decisões individuais também mudam orientações da vida, em resposta aos desafios do meio social. O recente conceito de plasticidade epigenética inaugura a possibilidade de alterações em nível celular poderem ser reversíveis quando o indivíduo é exposto a um ambiente positivo, produzindo transformações que melhoram tanto as condições de vida como o ambiente social.

Este número temático agrega artigos sobre os dois períodos extremos da vida. Saúde bucal e negligências e violências são temas debatidos por autores que investigam ambas faixas etárias. Dos que tratam sobre crianças e adolescentes destacam-se temas como amamentação, gravidez, aborto, religiosidade, consumo de bebidas alcoólicas, ideação suicida, depressão e cuidados de saúde. Investigações com idosos falam do impacto das quedas, padecimento de dores e importância da atividade física. Os artigos apontam fragilidades e potencialidades dos extremos da vida que precisam ser visualizados como um processo contínuo e descontínuo, individual e social.

Referências

  • 1
    Draper B, Pfaff JJ, Pirkis J, Snowdon J, Lautenschlager NT, Wilson I, Almeida OP. Long-Term Effects of Childhood Abuse on the Quality f Life and Health of Older People: Results from the Depression and Early Prevention of Suicide in General Practice Project. JAGS 2008; 56(2): 262-271.
  • 2
    Minayo MCS, Assis SG, editores. Novas e velhas faces da violência no século XXI: visão da literatura brasileira no campo da violência e saúde Rio de Janeiro: Fiocruz; 2017.
  • 3
    Whalleya LJ, Dearyb IJ, Appletona CL, Starr JM. Cognitive reserve and the neurobiology of cognitive aging. Ageing Research Reviews 2004; 3(2004):369-382.
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