As Ciências Sociais na Educação Médica

Otacílio Batista de Sousa Nétto Franklin Delano Soares Forte Sobre os autores
Barros, NF. As Ciências Sociais na Educação Médica. 2016. Hucitec, São Paulo

O livro Ciências Sociais na Educação Médica, da Hucitec Editora, de autoria de Nelson Filice de Barros11. Barros NF. The Social Sciences in Medical Education. São Paulo: Hucitec; 2016., lançado em 2016, traz em suas 185 páginas o acompanhamento de uma história em progresso: as interfaces das ciências sociais no campo do ensino médico no Brasil, seus horizontes científicos e políticos.

O autor é docente em uma tradicional escola médica brasileira, que conta com longa trajetória de ensino das ciências sociais, praticamente desde a sua fundação em 1963. Sendo cientista social aborda e aprofunda interrogações que permeiam todo o livro: o que querem, podem e como contribuem as ciências sociais no ensino médico? As respostas por sua vez e por diversas razões desenvolvidas ao longo do texto, nem sempre são explícitas ou comodamente capturadas.

O argumento central do livro ilumina a trilha percorrida por diferentes gerações de cientistas sociais no ensino das graduações e pós-graduações dos cursos de saúde brasileiros. Já nas considerações iniciais o autor questiona-se sobre uma sociologia da prática e as ambivalências experienciadas por um sociólogo na graduação médica e na aproximação dos seus objetos de estudo, entre a necessidade de ação propriamente dita e a premência de teorização reflexiva sobre o que é vivido e ensinado. Nos apontamentos produzidos a partir dos caminhos atravessados pelas ciências sociais na formação médica, percebem-se os diálogos, as transformações, as traduções e as negociações mútuas.

Ao longo do primeiro capítulo é contextualizada a origem da tradição ‘brasileira’ de ensino das ciências sociais na saúde e nesta historiografia é assinalada a primazia das matrizes teórico-conceituais materialistas (marxistas), hibridizadas com a influência francesa (Canguilhem, Foucault e Boltansky) e americana (Escola de Chicago: Parsons, Freidson, Merton). Assertivamente o autor reconhece que, no limite, o estabelecimento das ciências sociais no campo da saúde foi marcado por posturas mais políticas que propriamente científicas e por um deliberado arrefecimento do princípio da neutralidade científica. Questões associadas ao credencialismo acadêmico, às reservas de mercado cultural, além de disputas pelo monopólio de conhecimento, também são problematizadas.

O texto aponta nos capítulos dois e três a centralidade do trabalho dos cientistas sociais na identificação, nomeação e análise das contradições sociais. Dedica-se à engenhosa articulação das noções de credencial e conhecimento tendo como foco a presença das ciências sociais no ensino médico, construindo teoricamente o que seria o tipo weberiano ideal desta relação, como ferramenta conceitual que desenha padrões e auxilia em comparações analíticas. Credencial é compreendida a partir de diferentes referenciais teóricos, como a potência dos cientistas sociais que habitam o campo da saúde para existir em um território de disputas, potência revelada em termos de capital técnico, político, cultural e simbólico. Por conhecimento entendem-se os conceitos, os métodos e as técnicas produzidos em construtos teóricos para a realização de pesquisas em saúde. O tipo ideal, portanto, deve ter forte credencial e forte conhecimento, mas logo em seguida o autor pontua que nestes cinquenta anos de presença efetiva das ciências sociais na escola médica a forma concretamente alcançada limitou-se à combinação de fraca credencial (sobretudo pela ainda pequena participação de cientistas sociais em números absolutos nas instituições de ensino e pesquisa em saúde) e forte conhecimento (quantidade e valor atribuído às produções realizadas).

Revisando a literatura pertinente ao tema apresenta os movimentos de reformas curriculares do ensino médico ao longo dos séculos XX e XXI: do influente Relatório Flexner em 1910, às conferências sobre o ensino das ciências sociais na educação médica nos países centrais e em seguida na América Latina com os seminários de Viña del Mar e Tehuacán (nos anos 50 do séc. XX), e o movimento da Reforma Sanitária Brasileira com a constituição ideológica da saúde coletiva. Estes fatos contribuíram para a subsequente criação de departamentos de medicina preventiva e social e a contratação de cientistas sociais para a docência.

No conjunto dos legados oportunizados pelas ciências sociais no ensino médico o livro descreve um trajeto em perspectiva: de um início ensimesmado, estritamente teórico-conceitual e problematizador dos objetos das ciências da saúde, avançando para conquistas progressivas, como a viabilização do acompanhamento familiar in loco nos cenários reais dos serviços de saúde, não apenas com interesse clínico restrito, mas no contexto de uma ressignificação da prática médica, colocando em pauta e prática a complexa e desafiadora natureza social do processo saúde-doença-cuidado.

A presença das ciências sociais como disciplina obrigatória do currículo médico, respaldada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais, suscita: o delineamento de um perfil profissional com competências, atitudes e habilidades para a compreensão ampliada do processo saúde-doença-cuidado; o treinamento em serviço, particularmente na atenção primária em saúde, mas também em outros cenários de prática; a integração ensino-serviço-comunidade; a construção da autonomia crítica; o perfil de atuação pautado na valorização da diferença e na interculturalidade. Para o alcance deste leque de contribuições o livro constata a existência de um longo caminho em curso, com fluxos, contrafluxos e linhas de fuga.

No capítulo 4, o autor triangula reflexões entre a construção do ensino de ciências sociais na escola médica brasileira, a historicidade desta relação na universidade em que é professor, e os dados de uma consulta realizada com docentes e discentes da mesma instituição. Constata e elenca a presença de diversas inconsistências entre a importância quase consensualmente reconhecida das ciências sociais no ensino médico e o tímido interesse despertado por estas. Além disso, especula que este fenômeno não é factualmente recente e talvez sempre tenha estado presente na história do ensino social nesta e em outras escolas médicas.

O autor pondera que nesta experiência singular das ciências sociais na educação médica não haveria intercomunicação de saberes e ciências sem diferentes graus de tensionamento, tentativas de cooptação e invisibilização recíprocas e, por fim, lutas por hegemonia. A busca pelas respostas das questões inicialmente apontadas no texto (o que querem, podem e como contribuem as ciências sociais no ensino médico?) segue e passa pela efetivação de uma relação dialógica, um movimento socialmente valorizado, que reconheça a potência do conhecimento sociomédico, suas contribuições no universo não autolimitado e autossuficiente das ciências da saúde.

Como alerta, o texto estimula ainda a reflexão do que pode ser preocupantemente interpretado como fato consumado: a crescente adoção de uma perspectiva mais aplicada ou instrumentalizada e progressivamente menos crítico-reflexiva das ciências sociais no ensino médico. Uma apropriação apenas e tão somente pontual, responsiva às questões pragmáticas da formação profissional em questão. Este estado da arte da contemporaneidade impõe perdas, secundarização e desvalorização da substância profunda das ciências sociais, transfiguradas em mero insumo traduzido na metáfora do uso de conceitos como algodão na sala de curativos.

Ao fim e ao cabo, contradições marcam a trajetória das ciências sociais na educação médica e definem suas potencialidades e limites, como: o rótulo quase estigma “nós e eles”, a presença envolvida por ausência, a evidência de um funcionalismo estruturante e a extensão de um roteiro que apesar de longevo permanece inconcluso. Como se comunicam e se relacionam as ciências sociais e as ciências da saúde? Esta resposta não está pronta e convida para a reflexão sobre a presença imagética e controversa das ciências sociais na vida e no currículo do ensino médico, em nossas diversas e plurais salas de aula.

Referências

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    Barros NF. The Social Sciences in Medical Education São Paulo: Hucitec; 2016.
ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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