ARTIGOS

 

Imagens e sentidos no discurso da mídia impressa acerca de uma epidemia de intoxicação ocupacional por benzeno*

 

Imágenes y sentidos en el discurso de los medios impresos acerca de una epidemia de intoxicación ocupacional por benceno

 

 

Maria Ligia Rangel-S.1

Instituto de Saúde Coletiva/ISC, Universidade Federal da Bahia/UFBA, Ba. <lirangel@ufba.br>

 

 


RESUMO

Analisa-se a construção de imagens públicas realizada por quatro jornais de Salvador-Bahia-Brasil, para os diferentes atores sociais envolvidos no debate público, na vigência da epidemia de intoxicação ocupacional pelo benzeno, que afetou trabalhadores do Complexo Petroquímico de Camaçari-Bahia-Brasil (COPEC), durante os anos de 1990 e 1991. Recorre-se ao Interacionismo Simbólico, principalmente a Erving Goffman, um dos mais expressivos sociólogos dessa perspectiva de pesquisa, para a análise do discurso dos jornais, utilizando-se as categorias analíticas "vozes", "arranjo" e "face", em 30% do total de matérias jornalísticas publicadas ao longo de 18 meses. A análise revelou a construção de faces oscilantes, em conflito e dóceis, que decorrem das variações nas dinâmicas com que os atores são dispostos no texto e operam nas notícias. Estas conformam distintas imagens públicas para os trabalhadores petroquímicos, para os empregadores do COPEC e para os representantes governamentais, nos diferentes jornais.

Palavras-chave: comunicação. jornalismo. análise de discurso. acidentes de trabalho.


ABSTRACT

This study analyses the construction of public images put forth by four newspapers from Salvador, in the state of Bahia, Brazil, for the different social actors involved in the public debate surrounding the epidemic of occupational intoxication by benzene suffered by workers at the Petrochemical Complex at Camaçari, in the state of Bahia (COPEC), in 1990 and 1991. The study resorts to Symbolic Interactionism, especially to Erving Goffman, one of the most important sociologists of this research perspective, to analyze the discourse of the newspapers, by using the analytical categories of "voices", "arrangement" and "face", as applied to 30% of the journalistic material published during the course of 18 months. The analysis revealed the construction of oscillating, conflicting and docile faces, which result from the variations of the dynamics with which the social actors are presented in the text and operate within the news. They shape different public images for the petrochemical workers, the COPEC employers and the government representatives in the different newspapers.

Key words: communication. journalism. discourse analysis. accidents occupational.


RESUMEN

El estudio analiza la construcción de las imágenes públicas realizadas por cuatro periódicos de Salvador, Bahia, Brasil, para los diferentes actores sociales involucrados en el debate público, durante la vigencia da la epidemia de intoxicación ocupacional por benceno, que afectó a trabajadores del "Complexo Petroquímico de Camaçari-Bahia-Brasil (COPEC)", durante los años 1990 y 1991. Este estudio recurre al Interaccionismo Simbólico, principalmente a Erving Goffman -uno de los más destacados sociólogos de esta perspectiva de investigación-, para el análisis del discurso de los periódicos, utilizando las categorías analíticas: "voces", "arreglo" y "cara", en 30% del total de las notas periodísticas publicadas a lo largo de 18 meses. El análisis ha revelado la construcción de caras oscilantes, caras en conflicto y caras dóciles, que derivan de las variaciones de las dinámicas con que los actores son dispuestos en el texto y operan en las noticias. Ellas conforman imágenes públicas distintas para los trabajadores petroquímicos, para los empleadores del COPEC y para los representantes gubernamentales, en los diferentes periódicos.

Palabras clave: comunicación. periodismo. análisis del discurso. accidentes de trabajo.


 

 

Introdução

Nos anos de 1990 e 1991 instalou-se, no Pólo Petroquímico de Camaçari, Bahia, uma epidemia de leucopenia (redução das células brancas do sangue), resultante da exposição ocupacional de trabalhadores ao benzeno utilizado como matéria-prima em seis de suas indústrias. A morte de um médico do trabalho, seguida do grave adoecimento e morte de um operário da mesma empresa onde o médico trabalhava, foi o fato que gerou a cobertura jornalística. A ação de vigilância da saúde do trabalhador, desenvolvida pelo órgão estadual responsável, resultou em um estudo que revelou, dentre 7.356 trabalhadores examinados, 850 suspeitos de leucopenia e 216 considerados casos de benzenismo (DRT, 1991; Miranda et al., 1990). A avaliação ambiental realizada pela Fundacentro/BA constatou níveis significativos de contaminação ambiental pelo benzeno, substância química utilizada como matéria-prima na produção de vários compostos nas indústrias petroquímicas. Trata-se de um hidrocarboneto cíclico aromático, líquido, volátil e altamente inflamável (Azevedo, 1990), produzido principalmente pela destilação do petróleo ou como produto secundário do coque metalúrgico e na siderurgia (DRT/MTb, 1991). Essa substância produz diversos danos ao organismo humano, decorrentes da intoxicação aguda ou crônica, à qual se atribui o nome de benzenismo.

Diante das mortes mencionadas, quatro jornais de Salvador realizaram ampla cobertura dos acontecimentos em torno da epidemia, produzindo um total de 217 matérias ao longo de 18 meses, sendo oitenta do jornal Tribuna da Bahia (TB), setenta do jornal A Tarde (AT), 33 do Jornal da Bahia (JB) e 34 do jornal Correio da Bahia (CB). Estes meios apresentavam capacidade noticiosa distinta: o Jornal AT destacava-se como o principal meio impresso de Salvador, de mais ampla tiragem e abrangência no estado, constituindo-se como uma empresa jornalística, pretensamente independente, mas sabidamente vinculada politicamente a alguns interesses do grupo político hegemônico na sociedade baiana. O Jornal TB, o segundo maior em circulação naquela ocasião, assumia posição crítica às forças governantes locais, sendo reconhecido pela sociedade como um jornal de oposição. O jornal CB, com tiragem restrita, buscava inserir-se no mercado, sendo de propriedade de políticos que vêm governando o estado há várias décadas. Por fim, o Jornal da JB, com tiragem ainda mais restrita, vinculava-se historicamente às chamadas forças de esquerda do estado, e em crise naquela conjuntura, adotava um perfil popular, buscando sustentação no mercado, vindo posteriormente a desaparecer.

As mortes decorrentes de doença ocupacional levaram o problema da saúde dos trabalhadores do COPEC às páginas desses jornais, ocorrendo a epidemia em um contexto de forte tensão entre empregados e empregadores, frente às incertezas da política econômica do país na década de 1990. O debate em torno do risco de intoxicação corria em meio a intensa luta política, no qual se destacavam os sindicatos dos trabalhadores, enfrentando a dúvida plantada no debate público sobre a origem das mortes e doenças emergentes no Pólo. Como parte do estudo dos sentidos, produzidos pelos jornais para a epidemia (Rangel-S, 2003; 2001), neste artigo analisa-se a construção discursiva das imagens públicas no texto jornalístico para os principais atores envolvidos no processo de análise e gerenciamento do risco da epidemia, os quais ganharam visibilidade nas tramas discursivas dos quatro jornais. O estudo contribui para se compreender como os meios massivos, ao construírem as notícias, operam, dispondo os atores sociais no campo de ação de políticas de controle de riscos à saúde e construindo imagens públicas para os mesmos. Trata-se de um caso exemplar de múltiplas coberturas jornalísticas para um mesmo fato, que possibilita um estudo em profundidade e a análise comparativa, dada a profusão de textos produzidos sobre um tema de saúde: a epidemia.

 

Abordagem teórico-metodológica

O estudo recorre ao interacionismo simbólico que se constitui como uma das principais escolas de pensamento da sociologia, tendo como característica a incorporação da reflexividade na análise da ação. Na área da Comunicação, muitos pesquisadores que identificam os meios de comunicação como construtores da realidade social têm recorrido às teorias de Erving Goffman, um dos mais expressivos sociólogos dessa perspectiva de pesquisa, para fundamentar seus estudos, especialmente à obra Frame Analysis, na qual o autor analisa como as pessoas organizam a experiência para dar sentido a suas práticas do cotidiano. Assim, para Goffman, os sentidos são construídos também na dinâmica de operação dos participantes da interação, de modo que, para a análise, é necessário isolar alguns quadros de referência para se entender eventos particulares. Deve-se analisar a vulnerabilidade desses quadros de referência, pois um ato discursivo pode significar uma brincadeira, um mal-entendido ou, mesmo, uma ação performativa de como os participantes querem ser vistos na interação. Goffman também quer entender as conexões nas circunstâncias em que um participante pode ter vários contratos na interação.

Neste estudo entende-se que a imagem de um ator é construída e ganha sentido na cena da notícia, podendo ser apreendida do discurso, considerando-se o esquematismo do texto, enquanto quadro formatado pelos jornalistas para a ação dos sujeitos (Mouillaud, 1997). A análise desses quadros permite a aproximação às forças que movem os sentidos oferecidos ao público, enquanto intencionalidade não dita dos jornais.

O estudo foi feito em uma amostra de 30% das notícias, estratificada por jornal, selecionada com uso de tabela de números aleatórios, abrangendo-se todo o período de cobertura e tendo como suporte o software NUD*IST 4.0, para análise qualitativa - uma ferramenta que, por meio do computador, auxilia o trabalho de organização, codificação e indexação dos dados, de acordo com um livro de códigos elaborado pelo pesquisador, orientado por um quadro teórico de análise. Recorreu-se, então, às categorias analíticas vozes para se entender o caráter polifônico do texto jornalístico (Bakhtin, 1981), alinhamento (footing) e face, ambas de autoria de Goffman (1981). O termo footing pode ser traduzido como condição ou arranjo sob o qual algo existe ou opera. Goffman (1981) desenvolve essa noção aplicando-a também sobre um texto jornalístico, definindo que as condições e os arranjos com que os participantes se colocam na conversação, ou são postos no texto ou decorrem do alinhamento, postura ou projeção do self que os mesmos assumem. De acordo com o autor, devem-se considerar, para a interpretação, quaisquer que sejam as mudanças na postura (Goffman, 1981). Nesse caso, os participantes, fontes das notícias, são dispostos parcialmente por sua própria intencionalidade, mas também em conjunção com a intencionalidade do jornalista. Para o estudo do alinhamento, foram valorizadas todas as citações que, direta ou indiretamente, trouxeram os atores à cena das notícias sobre a epidemia de benzenismo no Pólo, com o intuito de identificar como as vozes foram dispostas no texto. Deste lugar discursivo, analisou-se o que disseram os atores sobre si e sobre os outros, no debate em torno da epidemia. Valorizou-se a interação dos atores no texto, tomando-se o discurso como uma práxis, ou seja, procurando-se o sentido prático do mesmo. O trabalho do jornalista foi visto, pois, como interação de co-autores ou co-intérpretes dos fatos e personagens com os quais o jornalista tece o enredo da narrativa sobre os acontecimentos, conjugados a um quadro de sentidos (Mouillaud, 1997). As fontes de informação são vistas como sujeitos autorizados que compõem um discurso polifônico, vozes das notícias dispostas em relação dialógica.

Destacadas as vozes, foi necessário compreender como estão relacionadas às ações dos sujeitos no texto e reproduzem a intencionalidade implícita nas suas ações sociais e, portanto, nos discursos dos sujeitos. Para tanto, analisaram-se as posições e os movimentos dos atores no texto, para encontrar seus efeitos, tecidos como imagens públicas (Rangel-S, 2003). Recorreu-se, então, às categorias analíticas arranjo/alinhamento (footing) e face, na busca de elucidar o modo como os co-autores operam nas notícias, enquadrados no texto jornalístico. A partir daí, procurou-se compreender a significação do discurso, considerando-se o entendimento dos modos de entrelaçamento da palavra, do verbo de sujeitos em movimento no interior do texto, cuja ação deixa-se ver no ato mesmo da fala (Goffman, 1981). A dinâmica do arranjo/alinhamento opera com a figura do autor (aquele que fala) - o jornal, que é o responsável pela seleção das palavras -; a do principal (aquele de quem se fala) - objeto da notícia, a pessoa a quem se dirige; alguém cuja posição é estabelecida pelo que é dito e cujas crenças são explicitadas (Goffman, 1981) -; e a do animador (aquele com quem se fala) - a fonte, o que dá a voz e que é parte do mesmo nível de análise do receptor (Goffman, 1981). O estudo do arranjo/alinhamento permite analisar, no texto, a posição em que o personagem é colocado: como autor, principal ou animador, o que nos ajuda a interpretar as vozes às quais o jornal confere maior visibilidade, uma vez que há um processo de seleção nas condições de alinhamento, que define a quem e a que se quer dar visibilidade. Porém, isto não é suficiente para desvendar a imagem construída. Trata-se, ainda, de identificar a ação dos sujeitos no discurso.

Para tanto, recorre-se à categoria analítica face, pressupondo, com Goffman (1970), que os sujeitos dos discursos constróem a auto-imagem pública, ou seja, o modo por meio do qual gostariam de ser vistos pelos outros. Aquele de face negativa deseja ver desimpedida sua ação, enquanto o de face positiva quer ver sua ação apreciada. A estratégia de cortesia (politeness) satisfaz o desejo do outro, seja para uma face positiva seja para uma negativa. Dessa interação, muitos atos discursivos podem ameaçar a face que se mostra. Nesta análise, é importante, então, observar a ambigüidade com que o sujeito é apresentado, a explicitação ou mitigação da cortesia (politeness) que satisfaz uma face negativa. No caso da cortesia (politeness) positiva, a face do narrador pode ser mostrada como a mesma da audiência, exagerada ou intensificada; usando-se marcadores do grupo da audiência (Brown & Levinson, 1987). Descreve-se, neste artigo, a dinâmica de operação dos trabalhadores, empregadores e governo no texto, atentando-se para os desejos de face dos jornais referidos aos mesmos, ao dar voz a eles e estruturar sua ação. Esta é apreendida por meio dos verbos e objetos indexados às vozes no interior das notícias, destacando-se, nas frases, o sujeito da ação, o verbo referido à ação e seu objeto, tendo em conta o contexto de conflito em que as ações se desdobram. Os resultados da análise são apresentados a seguir.

 

Imagens da epidemia de benzenismo

Faces oscilantes em uma epidemia incerta

A análise das notícias do Jornal AT mostra a ambigüidade com que o mesmo construiu as faces dos atores. O Quadro I mostra a dinâmica dos diferentes atores no texto jornalístico, ao longo do tempo.

 

 

No início da cobertura jornalística sobre a epidemia, em julho de 1990, é o sindicato dos trabalhadores, o Sindiquímica, que ocupa o lugar preferencial de animador das notícias, denunciando o surgimento de casos de leucopenia em uma indústria do Pólo, o descaso das autoridades governamentais, e o controle da informação sobre a doença ocupacional. O governo, nesse momento, aparece sem forças para enfrentar um problema que ainda investiga, mas com capacidade de coordenar um acordo entre as partes interessadas. As empresas, por sua vez, aparecem pondo em dúvida a relação causal das duas mortes com a exposição ocupacional ao benzeno. Há indícios de construção de uma face positiva para o Sindiquímica, contra uma face negativa da empresa, nas notícias: Pólo é líder em doenças ocupacionais (Pólo..., 1990); Morte de médico pode levar empresa à Justiça (Morte..., 1990); Inspeção avalia a saúde dos empregados da Nitrocarbono (Inspeção..., 1990).

Nesse jornal, a posição do Sindiquímica aparece apoiada pelo governo, que reconhece a situação de contaminação por benzeno como epidêmica, na notícia Funcionários da Nitrocarbono sob ameaça de intoxicação (Funcionários..., 1990); e convoca reunião para "tomar medidas urgentes" e "encaminhar a solução do problema", contestando os dados de avaliação ambiental apresentados pela empresa, os quais, na voz selecionada pelo jornal, seriam incoerentes com os efeitos identificados nos trabalhadores examinados. Evidenciou-se o conflito entre empresa e governo, favorecendo a face negativa da empresa, que fala de uma posição defensiva.

O governo, em seguida, ganha face positiva quando passa a ser alinhado na posição de animador, como nas notícias Contaminação obriga a exame geral no Pólo (Machado et al., 1990) e Todos os operários do Pólo serão examinados (Machado et al., 1990a), mostrando-se, posteriormente, ser esta uma ação impossível de ser realizada, tendo em conta os parcos recursos disponíveis no Estado para tal propósito. Contudo, define-se o problema como de "prioridade federal" e determinam-se os exames de mais de trinta mil operários, além da implantação de um conjunto de medidas de investigação e controle.

O jornal, na seqüência, dá visibilidade às oscilações do governo, de certo modo realizando esforços que ora ameaçam e ora salvam a face da empresa. Isto é perceptível, por um lado, quando, diante dos resultados dos exames, a notícia afirma que o então Ministro da Saúde evitava "sempre as formulações de frases que pudessem ser configuradas como alternativas diretas sobre a intoxicação por benzeno de 73 empregados" da empresa em pauta. Considerava necessário reavaliar tudo e aprofundar as investigações para uma melhor definição do quadro (Machado et al., 1990a).

Enquanto o Ministro da Saúde pondera a responsabilidade criminal da empresa, abre-se um espaço para que a face desta, ameaçada em outros jornais, seja salva no jornal AT. Esta, da posição de animador, afirma que a epidemia não seria possível, uma vez que "é feito o controle rigoroso da emissão de benzeno (...)" (Machado et al., 1990a), mesmo admitindo o caráter esporádico do monitoramento ambiental. Assim, a relação óbito/exposição ao benzeno é refutada pela empresa, sob a alegação de falta de provas e de credibilidade dos exames laboratoriais realizados, que seriam repetidos em clínicas da sua confiança e da Previdência Social. Assiste-se, então, a um diálogo tenso entre empresa e governo, em que o segundo ameaça a face da primeira, afirmando que esta não consegue ter outra explicação para os casos. O governo alinha-se ao Sindiquímica, que reforça a face negativa da empresa, considerando absurdas suas contestações. Ao dar visibilidade preferencial à posição oscilante do governo, o jornal sustenta o argumento construído para o sentido de uma epidemia incerta que predomina nesse jornal (Rangel-S, 2003).

Em outro momento, o alinhamento das vozes no texto do jornal AT mostra-se mutante. Expressa, de certo modo, a tensão e o conflito em torno do problema e a pretensa posição de neutralidade do jornalista, que se isenta de interpretar, colocando na cena da notícia atores em posição de principal e animador alternadamente, deixando o conflito e a tensão se revelarem. Deixa ver que governo e empresa entram em acordo, esta anunciando medidas de controle e aquele recuando da ameaça de interdição, na notícia Ministério do Trabalho anuncia hoje decisão sobre Nitrocarbono (Ministério, 1990a). O animador preferencial deste jornal prossegue sendo o governo (Delegacia Regional do Trabalho - DRT), que esclarece a "fórmula" adotada para atender aos interesses dos trabalhadores: a paralisação da empresa para a manutenção.

O anúncio da não-interdição da empresa, já esperada pelo público, salva a face da mesma, que passa a ocupar a preferência na posição de animador, anunciando as medidas para a melhoria das condições de trabalho e saúde de seus funcionários, ainda que reafirmando que "trabalha sob absoluta condição de segurança", estando as emissões de benzeno em quantidades inferiores aos limites estabelecidos pela lei2. A despeito disso, a empresa anuncia altos investimentos para a importação de equipamentos de controle de emissões de produtos químicos.

O Sindiquímica é principal das notícias, mas desta vez, para ter revelada uma face negativa. A notícia Petroquímicos causam engarrafamento no pólo - Manutenção paralisa Nitrocarbono ameaça a face deste sindicato, ao salientar os efeitos negativos da manifestação, que "provocou engarrafamento quilométrico (…) 10 mil trabalhadores ficaram impedidos de ter acesso ao Pólo (…)", acabando por "prejudicar também a abertura da XII Semana de Prevenção de Acidentes de Trabalho do Pólo Petroquímico de Camaçari (…)" (Petroquímicos..., 1990).

O governo também passa a ter face negativa quando o jornalista ressalta o atraso do trabalho de fiscalização pela DRT, revelando as deficiências tecnológicas do mesmo, bem como sua capacidade de decisão, enquanto sugere que o sindicato tinha comportamento questionável ou incoerente.

A postura do jornal sobre a empresa fica clara na matéria Nitrocarbono modifica postura (Nitrocarbono..., 1991), em que esta, da posição de principal, tem a face salva pelo jornal. Este a mostra em uma atitude de redenção, afirmando que um de seus dirigentes fez "um balanço positivo da bateria de críticas dirigidas à empresa e chegou a agradecer a atuação do sindicato trabalhista, que ajudou a aumentar a consciência sobre a necessidade de reduzir as emissões" (Nitrocarbono..., 1991, p.4). Ademais, a estratégia discursiva adotada pelo jornal para salvar a face da empresa se explicita quando a linha discursiva da notícia sugere o benzeno como sujeito da ação: "Causador de centenas de casos, o benzeno (…) é alvo de uma campanha nacional…" (Campanha..., 1991), e não a empresa, como enunciado pelo JB. Apesar de o sindicato dos trabalhadores sustentar a face negativa das empresas do Pólo, denunciando que estas demitiram trabalhadores e suspenderam a complementação salarial daqueles empregados afastados para tratamento, o jornal o coloca salvando a face das mesmas, acrescentando a informação de que o sindicato reconhece que as duas empresas mais criticadas foram também as únicas a fazerem o monitoramento hematológico dos trabalhadores (Sindicato..., 1991).

Como visto, neste jornal, as faces da empresa, do governo e dos trabalhadores oscilam, de positiva a negativa, embora se observe a tendência a salvar a face da empresa e a ameaçar a face do Sindiquímica. O governo, de sua posição também oscilante, ora sustenta a face dos trabalhadores, ora salva a face das empresas.

Faces em conflito em uma epidemia real e aterrorizante

A análise das notícias do jornal TB, com postura oposta ao AT, mostra a sua tendência de construir a face positiva do Sindiquímica e a face negativa da empresa (Quadro II). As vozes governamentais comparecem no texto, preferencialmente para dar suporte às imagens dos demais atores, tal como no jornal AT.

 

 

Assim, os trabalhadores responsabilizam as empresas, denunciando casos de leucopenia, revelando temores e silêncios em torno da doença, mostrando o drama dos trabalhadores e chamando a sociedade à mobilização (Debate..., 1991; Cesat..., 1990; Interdição..., 1990, 1990a; Desequilíbrio..., 1990). As empresas, em posição defensiva, justificam suas condutas de assistência, esclarecendo sobre a doença, minimizando os efeitos tóxicos do benzeno e da contaminação ambiental (Técnicos..., 1991; Cesat..., 1990; Pólo..., 1990a; AL..., 1990; Exame..., 1990). O governo, em diversas notícias (Debate..., 1991; Familiares..., 1990; DRT..., 1990; 11 Operários..., 1990; Cesat..., 1990), comparece para discorrer sobre o risco e o controle da epidemia denunciada pelo Sindiquímica; para concordar com a suspeita da contaminação do ar do Pólo, e para anunciar a investigação da situação de saúde dos trabalhadores, o que iria comprovar as denúncias. Da posição de animador, a DRT tenta salvar sua própria face, por vezes ameaçada pelo jornal AT, ao admitir que não consegue cumprir seu papel fiscalizador, por se encontrar totalmente desestruturada para fazer frente ao "oponente a ser fiscalizado [que] detém o poderio financeiro, e não são poucas as vezes em que consegue burlar a fiscalização…" (DRT..., 1990).

Observa-se, ainda, que a face negativa da empresa é construída na voz direta do jornalista (autor), o qual declara que: a empresa estava "custeando todo o tratamento médico do funcionário (...), acometido de leucemia por exposição ao benzeno, produto altamente tóxico utilizado em larga escala na empresa" (Familiares..., 1990), sugerindo que isto confirmaria que o trabalhador adquiriu a doença na mesma. Interpreta que "Certamente, por esse motivo, os familiares do operador de processos químicos evitam fazer quaisquer comentários sobre a situação do rapaz (...)" (Familiares..., 1990, p.7), sugerindo que os mesmos temem a perda do pagamento pelo tratamento, oferecido como benesse, e não como direito.

Nesse jornal, a face negativa da empresa (Nitrocarbono) também é sustentada pelo Sindiquímica, quando este, da posição de animador, toma como principal a Comissão do Ministério do Trabalho, que decidiria o que fazer frente à recomendação de interdição pela DRT e a ameaça de demissões na empresa (Interdição..., 1990). As empresas do Pólo se apresentam cercadas por especialistas, para orientar a implantação do sistema de controle ambiental, esclarecendo sobre o "fantasma do benzeno", informando ao público sobre a leucopenia (Suspeita..., 1990). Ao mesmo tempo em que o jornal abre espaço para as empresas salvarem sua face afirmando que investiriam US$ dois milhões em controle da poluição e da saúde dos trabalhadores, ressalta o envolvimento das mesmas em denúncias sobre contaminação de trabalhadores pelo benzeno (Nitrocarbono..., 1991). Assim, apesar dos argumentos das empresas para resguardar sua imagem, os investimentos em controle ambiental aparecem, nesse jornal, como uma resposta à pressão do movimento sindical (Dia..., 1991). O conflito existente entre trabalhadores e empresas se expressa no jornal TB, na tensão presente no jogo de ameaçar e salvar faces dos atores, tendo ora empresas, ora trabalhadores alinhados na posição de animador da notícia, até esboçar-se o acordo como solução.

Faces em conflito de uma epidemia criminosa

A análise das notícias do Jornal da Bahia mostra forças oponentes em conflito, sustentando o sentido de uma epidemia criminosa, quando as faces são mostradas predominantemente em oposição (Quadro III). De um lado, trabalhadores "peões" lutam e denunciam as ações criminosas das empresas do Pólo. De outro, empresas "criminosas" se defendem. A ênfase do jornal recai para a construção da face negativa da empresa, sustentada por vozes dos sindicatos dos trabalhadores (face positiva) e do governo. Os trabalhadores denunciam demissões, o surgimento de casos de leucopenia e o drama da vida dos trabalhadores doentes (Quatro..., 1991; Ferreira, 1990). Acusam a empresa de sonegar informações, divulgam a campanha nacional de combate ao uso abusivo do benzeno (Peão..., 1991; Peão..., 1991a) e enfrentam os empregadores (Peão..., 1991b). Os governantes investigam os fatos, explicam o laudo da morte do médico (Ferreira, 1990), revelam resultados de avaliações, divulgando laudos médicos e mostrando providências tomadas (Nitrocarbono..., 1991a). As empresas pouco freqüentam os textos jornalísticos, comparecendo em posição defensiva, para esclarecer sobre as condições de trabalho do médico, vítima de leucemia (Ferreira, 1990). Declaram que não têm interesse em manter doentes no emprego (No Pólo..., 1991).

 

 

O Sindiquímica e a DRT, colocados na posição de animador, em diálogo, sustentam a face negativa da empresa responsabilizada pela produção de doenças, acompanhada da sonegação criminosa de informações aos trabalhadores (Ferreira, 1990). A DRT dá suporte à face negativa da empresa e à face positiva para o Sindiquímica, admitindo que o operário vítima de leucemia, "apesar de não atuar diretamente com benzeno, (...) pode ter sido vítima do mesmo processo que matou o médico (...)" (Ferreira, 1990). A face negativa da empresa também é sustentada pelo argumento da bióloga sindicalista, para quem o laudo médico do INAMPS afirma que "O quadro clínico-laboratorial do paciente é compatível com lesão medular mielotóxica" e que, portanto a empresa é irresponsável, iludindo a família do trabalhador com promessas de tratamento. O jornal evidencia o conflito das declarações dos empregadores com o parecer de especialistas (Ferreira, 1990).

A empresa parece constrangida pelo jornal quando este divulga a notificação, pela DRT, que determina o afastamento de 22 trabalhadores da mesma (Lima, 1990). Com as vozes do Sindiquímica e da DRT, o jornalista (autor) coloca a empresa em posição de prestar contas das providências, levando o governo a propor ou impor medidas de controle ou mostrando o mesmo conivente com a empresa. Por exemplo, sob os títulos Pólo joga na rua peões doentes, na primeira página, e No Pólo, patrão mete bronca nos empregados (No Pólo..., 1991), o jornal divulga a demissão de quatrocentos trabalhadores doentes em uma empresa, no período de um mês, sugerindo que a Previdência Social (por meio da Perícia Médica) é co-responsável pelas demissões. Enfatizando a face negativa das empresas, o jornal amplia a constatação de ações criminosas em outras indústrias, como a metalúrgica, cujo sindicato dos trabalhadores denuncia a leucopenia por exposição à radiação ionizante em uma outra empresa (Radiação..., 1991). Esta tenta se defender, afirmando que a instalação do equipamento, provável causador da doença, deveria ser orgulho do Pólo.

Na busca do constrangimento das empresas, o jornal declara que a Nitrocarbono é culpada pelas mortes e pelos casos de leucopenia, reafirmando sua face negativa com base na ação de defesa ambiental movida pelo Ministério Público - MP - contra a mesma (Nitrocarbono..., 1991a). Por sua vez, a face positiva dos trabalhadores é construída por efeito retórico do título Peão luta contra mal do benzeno (Peão..., 1991), matéria em que o jornalista divulga a campanha contra o uso abusivo do benzeno, que amplia o debate em nível nacional. Assim, o jornalista desloca o foco da notícia para a vítima, o trabalhador, em um mercado de trabalho que estigmatiza o doente, demitindo. Ainda que o ambiente de trabalho não tenha sido modificado, as promessas dos órgãos governamentais não tenham sido cumpridas e a conjuntura do mercado de trabalho fosse desfavorável à luta sindical, o jornalista sustenta a face positiva do Sindiquímica. Na última notícia publicada no ano de 1991, divulga que este pretende mover todas as ações judiciais possíveis contra as empresas, exigindo mudanças no ambiente de trabalho (Peão..., 1991b).

Deste modo, o jornal constrói a face criminosa das empresas, com base nas denúncias de um sindicato atuante, que denuncia a falta de assistência a trabalhadores doentes que são demitidos, em meio ao conflito entre empresas e trabalhadores.

Faces dóceis de uma epidemia natural

No jornal CB, as empresas encontram, a princípio, espaço para a construção de uma face positiva, reservando aos trabalhadores e ao governo a face negativa (Quadro IV). A veracidade da epidemia é questionada (Ministério..., 1990), com o argumento de que embora esta fosse possível, devido ao desgaste natural dos equipamentos, seria pouco provável (Rangel-S, 2003).

 

 

As controvérsias quanto aos parâmetros para o diagnóstico dos casos e a avaliação ambiental são argumentos para minimizar a gravidade do problema. A despeito disso, as empresas são mostradas assumindo compromissos e se esforçando para superar o problema, investindo recursos financeiros para preservar o meio ambiente (Nitrocarbono..., 1991b). O conflito entre trabalhadores e empresas, e destas com o governo, é eufemizado neste jornal, dando lugar, de um lado, à imagem de empresas generosas e, de outro, a de trabalhadores dóceis.

Os trabalhadores, embora denunciem a incoerência das empresas e critiquem o governo, aparecem nesse jornal com suas fragilidades ressaltadas: temem a interdição (Ministério..., 1990) e aguardam pacientemente um acordo para assegurar a estabilidade no emprego (Sindiquímica..., 1990), aceitando a parada espontânea da empresa para manutenção (DRT..., 1990a), como alternativa à interdição (Ministério..., 1990). Apesar disso, eventualmente o jornal mostra os trabalhadores protestando, embora com base em suposições, como a que se segue: "os operários estariam com leucopenia provocada pelo benzeno" (Operários..., 1990). Tal protesto é dirigido indistintamente a ambos, empresa e governo, que são alinhados como principal da notícia e responsáveis pela manifestação operária de que trata a mesma. Assim, empresa e governo adiam responsabilidades, retendo informações e evitando explicações, enquanto o Sindiquímica é colocado em posição dócil de espera, solicitação e suposição, para obter esclarecimentos sobre causas da contaminação.

A empresa tenta salvar sua face das ameaças sofridas com voz direta (autor), por meio de matéria paga, assinada pelo seu diretor-presidente (Nitrocarbono..., 1990), defendendo-se das denúncias divulgadas na imprensa, assumindo trabalhar com o benzeno e que este produto tem riscos potenciais já conhecidos. Afirma praticar "medidas adequadas de monitoramento ambiental" e ter consciência da possibilidade de emissão de resíduos para a atmosfera, determinando risco para a saúde. Mas argumenta que este é relativo, pois realiza "programa rigoroso de exames periódicos" e questiona as informações divulgadas pelo Sindiquímica e pela imprensa. Informa, ainda, que recorre a "instituições altamente especializadas" para reavaliar os exames, colocando-se aberta ao diálogo e empenhada em melhorias e "consciente da importância do homem e do meio ambiente, harmoniosamente integrados no desenvolvimento econômico" (Nitrocarbono..., 1990). O jornalista assume a veracidade da epidemia, apoiado no relatório da DRT, ao afirmar que o estado dos equipamentos causou a morte de funcionários da empresa (DRT, 1990a). Contudo, a recusa da empresa a uma parada espontânea para manutenção e sua contestação dos resultados de exames do laboratório que ela mesma escolheu, na voz da DRT e do Sindiquímica, são elementos utilizados para construir sua face negativa. Esta será contraposta pelo jornal com a publicação de uma série de notícias que revelam uma indústria atuante na proteção da saúde e segurança de seus empregados.

Assim, o jornal mitiga a face da empresa quando o jornalista (autor) ameaça a face positiva do governo federal e do Sindiquímica, noticiando que estes e o governo estadual não conseguiram definir a intervenção na empresa, enquanto esta nega que as mortes se devem à contaminação por benzeno. Ao introduzir a idéia de mistério na decisão dos órgãos públicos em relação à empresa, concluída a inspeção, o jornal sugere que há algo que não pode ser dito, talvez porque comprometa uma das partes envolvidas: ou a empresa não pode ser responsabilizada, ou o governo não está convencido dessa responsabilidade ou, ainda, este não tem poder suficiente para assegurar o cumprimento das medidas. Planta-se, assim, a possibilidade da empresa salvar a sua face. A voz do jornalista (autor) volta a ser menos afirmativa e mais sugestiva, quando diz que "a unidade operadora de benzeno é suspeita de ter causado a morte dos funcionários (...)" (Ministério..., 1990). A empresa envolvida com as mortes, aparentemente redimida, apresenta no jornal um discurso prevencionista e humanitário e afirma destinar orçamento para o controle ambiental, salvando sua face ameaçada pelo Sindiquímica e pelo JB (Nitrocarbono..., 1991b). O conflito em torno da epidemia é, então, neutralizado na idéia de uma epidemia natural, da qual não se conhece suficientemente sobre a doença, de modo que não se pode responsabilizar a empresa, que, ademais, parece disposta a investir em controle ambiental.

 

Considerações Finais

O recurso ao Interacionismo Simbólico, especialmente com o uso das categorias analíticas (vozes, alinhamento e face), permitiu, neste estudo, evidenciar a riqueza do texto jornalístico para mostrar as lutas sociais gestadas na vigência da avaliação e controle do risco da epidemia. O rico debate contido no interior do texto fala da história e da experiência vivida por muitos sujeitos da sociedade baiana, narrada por jornalistas, expressando a realidade de um tempo.

Os jornais, no jogo de alinhamento das falas dos participantes das notícias, construíram diferentes imagens para sujeitos públicos: sindicatos dos trabalhadores, empregadores e governo. No jornal AT, a construção das faces oscila, mas predomina a ameaça à face do Sindiquímica e estratégias para salvar a face da empresa. Na TB, há imagens em conflito, pois o jornal sustenta a face positiva do Sindiquímica e constrói a face negativa da empresa. No JB, predomina a face negativa da empresa, responsabilizada por uma epidemia criminosa, enquanto o CB se move para salvar a face da empresa, construindo faces dóceis para os trabalhadores.

O estudo mostra que os jornais dão visibilidade às vozes sociais, construindo imagens com sentidos diversos. Apesar de o jornal AT dar ampla visibilidade às vozes de trabalhadores, utiliza recursos que minimizam os conteúdos dessas falas. Embora mostrados em postura ativa, estes aparecem causando transtornos e até prejudicando os interesses de sua categoria. Em contrapartida, o jornal opera favorecendo a imagem das empresas do Pólo e enfraquecendo o papel das autoridades sanitárias, ressaltando denúncias de descaso desses órgãos para com a saúde dos trabalhadores. No JB, os trabalhadores são apresentados como "peões" que lutam e enfrentam corajosamente (face positiva) as ações criminosas das empresas (face negativa), reiteradamente noticiadas por meio das vozes de trabalhadores e governo. A TB deu visibilidade às vozes dos três atores, enfatizando a imagem combativa do Sindiquímica, na defesa da saúde e dos interesses da categoria. Favoreceu a face negativa das empresas e do governo, ambos pressionados pelos trabalhadores, revelando os conflitos e o drama vividos pelos operários do Pólo. Por sua vez, o CB deu maior visibilidade às empresas e permitiu que estas apresentassem uma nova face, anunciando as medidas de controle ambiental e os investimentos expressivos que passaram a fazer em segurança e saúde.

Os resultados da análise das faces mostram que os meios contribuíram para fortalecer a imagem pública de alguns atores em detrimento de outros e tomaram parte ativa da luta política que se desenvolveu no COPEC. Esta deu lugar a conquistas de melhores condições de segurança e saúde para os trabalhadores petroquímicos. Nesse sentido, o estudo também sugere que a pluralidade de meios de comunicação, cobrindo os acontecimentos, foi fundamental para levar o debate ao público, o qual teve acesso às diversas formas de interpretação para a epidemia, tanto dos meios como dos atores que lhes serviram de fontes de informação. As diferenças podem ser explicadas pelo lugar social dos meios de comunicação e suas vinculações políticas e econômicas na sociedade, de onde desempenham o seu papel de informar segundo interesses de grupos sociais com os quais se encontram comprometidos.

 

Referências

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Documentos consultados

AL quer rigor na lei de controle ambiental, índice de doença é alto. Tribuna da Bahia, Salvador, 22 nov. 1990. Caderno Cidade, p.3.         

CAMPANHA contra benzeno vai ser lançada na bahia. A Tarde, Salvador, 22 jun. 1991. Caderno Geral, p.4.         

CESAT inicia exames. Tribuna da Bahia, Salvador, 06 nov. 1990. Caderno Cidade, p 1.         

DEBATE sobre benzeno questiona os médicos. Tribuna da Bahia, Salvador, 28 set. 1991. Caderno Cidade, p.2.         

DESEQUILÍBRIO ecológico: casos de contaminação crescem no pólo e ultrapassam os limites de camaçari, numa séria ameaça; sindiquímica aciona câmara. Tribuna da Bahia, Salvador, 8 nov. 1990. Caderno Cidade, p.1.         

DIA do meio ambiente é lembrado por operários. Tribuna da Bahia, Salvador, 4 jun. 1991. Caderno Economia, p.6.         

DRT não tem recurso para fiscalizar pólo; benzeno espalha efeito mortífero. Tribuna da Bahia, Salvador, 29 set. 1990. Caderno Cidade, p.2.         

DRT ameaça intervir no pólo. Correio da Bahia, Salvador, 7 nov. 1990a. Caderno Aqui Salvador, p.1.         

DRT/MTb. Investigação de benzenismo no Complexo Petroquímico de Camaçari (Ba): uma proposta de ação fiscalizadora. Salvador, 1991.         

EXAME tenta provar caso de leucopenia. empresa instala programa. Tribuna da Bahia, Salvador, 18 dez. 1990. Caderno Cidade, p.1.         

FAMILIARES nada falam sobrevítima no polo. Tribuna da Bahia, Salvador, 24 set. 1990. Caderno Cidade, p 7.         

FERREIRA, E. Nitrocarbono: operário contrai leucemia e empresa sonega informação. Jornal da Bahia, Salvador, 25 set. 1990. Caderno Geral, p.2.         

FUNCIONÁRIOS da nitrocarbono sob ameaça de intoxicação. A Tarde, Salvador, 27 out. 1990.         

INSPEÇÃO avalia a saúde dos empregados da nitrocarbono. A Tarde, Salvador, 28 jul. 1990.         

INTERDIÇÃO na nitrocarbono é definida hoje. Tribuna da Bahia, Salvador, 12 nov. 1990a. Caderno Cidade, p.8.         

INTERDIÇÃO no pólo terá decisão hoje. Tribuna da Bahia, Salvador, 12 nov. 1990. Caderno Manchete, p.1.         

LIMA, T. Caso Nitrocarbono: reunião na DRT discute uso do benzeno. Determinou-se que os 22 empregados que podem estar contaminados pelo produto serão submetidos a estudo clínico rigoroso custeado pela Nitrocarbono. Jornal da Bahia, Salvador, 1 nov. 1990. Caderno Cidade, p.5.         

MACHADO, S.; VARJÃO, S.; CASTOR, E. Contaminação obriga a exame geral no Pólo. A Tarde, Salvador, 2 nov. 1990. Caderno Manchete, p.1.         

MACHADO, S.; VARJÃO, S.; CASTOR, E. Todos os operários do pólo serão examinados. A Tarde, Salvador, 2 nov. 1990a. Caderno Geral, p.3.         

MINISTÉRIO avalia a contaminação. Correio da Bahia, Salvador, 13 nov. 1990. Caderno Aqui Salvador, p.1.         

MINISTÉRIO do trabalho anuncia hoje decisão sobre nitrocarbono. A Tarde, Salvador, 13 nov. 1990a. Caderno Geral, p.3.         

MORTE de médico pode levar empresa à justiça. A Tarde, Salvador, 25 jul. 1990.         

NITROCARBONO S.A.: nota de esclarecimento ao público. Correio da Bahia, Salvador, 1 nov. 1990. Caderno Economia, p.9.         

NITROCARBONO investe contra a poluição. Tribuna da Bahia, Salvador, 10 jan. 1991. Caderno Cidade, p.2.         

NITROCARBONO é culpada. Jornal da Bahia, Salvador, 6 jun. 1991a. Caderno Cidade, p.5.         

NITROCARBONO vai acabar com a emissão de gases. Correio da Bahia, Salvador, 5 jun. 1991b. Caderno Aqui Salvador, p.2.         

NITROCARBONO modifica postura. A Tarde, Salvador, 5 jun. 1991. Caderno Geral, p.4.         

NO PÓLO, patrão mete bronca nos empregados. Jornal da Bahia, Salvador, 4 jul. 1991. Caderno Cidade, p.6.         

ONZE operários sofrem mesmo de leucopenia. Tribuna da Bahia, Salvador, 8 dez. 1990. Manchete, p.1.         

OPERÁRIOS da nitrocarbono param 7 horas. Correio da Bahia, Salvador, 31 out. 1990. Caderno Aqui Salvador, p.3.         

PEÃO luta contra mal do benzeno. Jornal da Bahia, Salvador, 8 maio 1991. Caderno Cidade, p.6.         

PEÃO luta pra espantar o fantasma do benzeno. Jornal da Bahia, Salvador, 4 jul. 1991a. Caderno Cidade, p.5.         

PEÃO dá testa no pólo. Jornal da Bahia, Salvador, 3 dez. 1991b. Caderno Cidade, p.5.         

PETROQUÍMICOS causam engarrafamento no pólo. A Tarde, Salvador, 11 nov. 1990. Caderno Geral, p 2         

PÓLO é líder em doenças ocupacionais. A Tarde, Salvador, 25 jul. 1990. Manchete, p.1.         

PÓLO: tratamento. Tribuna da Bahia, Salvador, 28 nov. 1990a. Caderno Política, Coluna Raio Laser, p.2.         

QUATRO envenenados na refinaria: peões foram contaminados e empresas queriam demiti-los. Jornal da Bahia, Salvador, 15 nov. 1991. Caderno Cidade, p.5.         

RADIAÇÃO nuclear no pólo deixa os peões assustados. Jornal da Bahia, Salvador, 16 abr. 1991. Caderno Cidade, p.4.         

SINDICATO denuncia descaso do pólo quanto à leucopenia. A Tarde, Salvador, 3 dez. 1991. Caderno Geral, p.2.         

SINDIQUÍMICA reivindica estabilidade. Correio da Bahia, Salvador, 20 nov. 1990. Caderno Aqui Salvador, p.3.         

SUSPEITA de leucopenia é confirmada. Tribuna da Bahia, Salvador, 8 dez. 1990. Caderno Cidade, p.3.         

TÉCNICOS investigam a intoxicação na COPENE. Tribuna da Bahia, Salvador, 3 abr. 1991. Caderno Economia, p.7.         

 

 

Recebido em: 08/08/05. Aprovado em: 05/01/06.

 

 

* Elaborado a partir de Rangel-S. (2001).
1 Rua Visconde de Itaboraí, 628, apto 303
Amaralina - Salvador, Bahia.
Brasil - 41.900-000
2 Nessa época, a legislação brasileira considerava, como limite de tolerância para concentrações ambientais de benzeno, até 8 ppm, conforme o Quadro 1, Anexo 11, a NR 15, da Portaria 3.214/88, embora numerosos estudos já mostrassem aberrações cromossômicas e carcinogenicidade em expostos a valores em torno de 1 ppm (DRT, 1991). A Portaria 14, de 20 de dez./95, altera o Anexo 13 da NR 15, da Portaria 3.214/78, criando um novo parâmetro para a avaliação ambiental - o Valor de Referência Tecnológica (VRT), definido em 1,0 ppm, que não exclui o risco à saúde como o anterior LT (Brasil, 1996).

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