Comparando a Classificação Internacional de Doenças em Odontologia e Estomatologia (CID-OE) com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10)

 

Comparing the International Classification of Disease to Dentistry and Stomatology (ICD-DA) and the International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems (ICD-10)

 

 

Olga M. P. SilvaI; Maria Lúcia LebrãoII

IRua Angelo Ricchiutti, 55; 02417-220 São Paulo, SP - Brasil; e-mail: ompanhocas@yahoo.com.br
IIDepartamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Nos estudos epidemiológicos de morbidade é necessário se adotar um sistema de classificação de doenças. Na odontologia e nos traumatismos buco-maxilo-faciais pode-se usar a Classificação Internacional de Doenças em Estomatologia e Odontologia (CID-OE) mas, em alguns casos, esta classificação não é adequada. O objetivo deste estudo é comparar a aplicação da CID-OE com a aplicação da CID-10 na classificação de diagnósticos da área.
MATERIAL E MÉTODOS: Foram analisados 2.372 casos atendidos em serviços de traumatismos buco-maxilo-faciais e emergências dentais no Município de São Paulo, Brasil, onde os diagnósticos encontrados foram codificados por ambas as classificações.
RESULTADOS: A CID-OE especificou melhor 1.117 casos mas, em 267, não ofereceu possibilidade de codificação. Em 978 casos, o detalhamento dado pela codificação foi o mesmo em ambas as classificações.

Palavras-chave: Traumatismos maxilofaciais. Assistência odontológica. Inquéritos de morbidade. Classificação internacional de doenças. Unidade Hospitalar de Odontologia.


ABSTRACT

INTRODUCTION: Adopting a classification system of diseases is necessary to perform epidemiological studies of morbidity. In oral and maxillo-facial injuries and in dentistry we may use the International Classification of Diseases for Dentistry and Stomatology (ICD-DA), but the classification is not always appropriate. The objective of the study is to compare the accuracy of the ICD-DA to the International Classification of Diseases-10th Revision (ICD-10) in the classification of diagnoses.
MATERIAL AND METHODS: 2,372 encounters were analyzed in oral and maxillo-facial care and in dental emergency services, in the city of São Paulo, Brazil. The encounters were codified by both classifications.
RESULTS: 1,117 cases were better classified by the dental classification, but in 267 cases the ICD-DA does not offer a code. In 978 cases the details were the same in both classifications.

Keywords: Maxillofacial injuries. Dental care. Morbidity surveys. International classification of diseases. Dental service, hospital.


 

 

Introdução

O primeiro passo para se estudar a morbidade é adotar um padrão de classificação de diagnósticos1,2. É sabido que as classificações são abstrações da realidade e, portanto, possuem limitações. A Classificação Internacional de Doenças3 vem sendo utilizada e aplicada há décadas para que leitores e pesquisadores, independente da nacionalidade, possam discutir (conversar/trabalhar) tendo como base um código previamente conhecido e aceito.

Foram criadas adaptações da CID para algumas especialidades da medicina, incluindo a Classificação Internacional de Doenças em Odontologia e Estomatologia (CID-oe), inicialmente publicada pela Organização Mundial da Saúde em 1973. A partir da 10ª revisão, CID-10, foi criada a CID-OE atual4, para a classificação de diagnósticos e lesões relacionadas à cavidade oral e estruturas correlatas. A fim de tornar a classificação mais específica e detalhada, na especialidade citada foi introduzido um quinto caractere, o que tornou a classificação dos diagnósticos, ou das condições que ocorrem ou se manifestam na cavidade oral e estruturas adjacentes, mais precisa. Embora a CID-OE proporcione mais detalhes do que a CID-10, ela mantém o mesmo sistema alfa-numérico.

Um estudo de atendimentos odontológicos hospitalares em unidades de emergência e internações demonstrou que o sistema da CID-OE não é totalmente satisfatório, podendo ser mais detalhado e desenvolvido em alguns aspectos para descrever diagnósticos encontrados. O uso da CID-OE, segundo recomendações dos autores, não prescinde do uso da CID-105, sendo que muitas doenças, lesões e motivos de procura por serviços descritos e codificados na CID-10 não estão presentes na CID-OE. Salientando que a facilidade do uso de uma classificação resumida e específica como a CID-OE pode ter suas vantagens e desvantagens decidiu-se realizar este estudo de comparação.

O objetivo deste estudo é comparar a CID-OE com a CID-10 na identificação e classificação dos diagnósticos.

 

Material e Método

Para se analisar a concordância das classificações foram selecionados hospitais públicos ou conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS), que prestaram o atendimento de emergência e a internação para casos de odontologia, cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial, na cidade de São Paulo (Brasil), no período de um ano, de 1º de agosto de 1996 a 31 de julho de 1997.

As instituições foram selecionadas a partir do recebimento de verbas por atendimento odontológico ou na área de odontologia. Foram pesquisados os bancos de dados do governo do Brasil, Sistema de Informações Ambulatoriais e Sistema de Informações sobre Internações Hospitalares (SIA-SUS e SIH-SUS) e os bancos da Secretaria de Saúde do Município de São Paulo. A partir do repasse de verbas identificou-se o CGC da instituição, chegando-se ao nome e endereço de 69 instituições. Foi enviado, para cada uma das instituições, um questionário para a confirmação do atendimento odontológico, e também uma solicitação para se realizar a pesquisa em seus prontuários e fichas de atendimento. Obteve-se confirmação do atendimento em 22 instituições e autorização para a pesquisa em 21 dessas.

Em um estudo piloto para se dimensionar a amostra (estudo quantitativo) estimou-se cerca de 40.000 atendimentos realizados no período de um ano. Com a finalidade de garantir estabilidade às estimativas de prevalências de diagnósticos segundo os capítulos da CID, optou-se por uma amostra probabilística de 5% dos atendimentos. Essa amostra foi sorteada em conglomerados em estágio único, elegendo-se o dia como unidade de sorteio. Foram sorteados, independentemente para cada instituição, 18 dias do período estudado, que totalizariam uma amostra de 2.000 consultas .

Foram copiados todos os diagnósticos ou motivos de consulta encontrados nos prontuários e fichas de atendimento dos dias sorteados. Os diagnósticos foram agrupados por capítulos da CID-10. Codificou-se, então, cada diagnóstico ou motivo de consulta, utilizando a CID-10. Em seguida, codificou-se novamente o mesmo diagnóstico ou motivo de consulta, utilizando-se a CID-OE.

O pesquisador recebeu treinamento para as codificações no Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP.

O código encontrados na CID-OE foi comparado com o código da CID-10.

 

Resultados

Após a coleta de dados nos 18 dias sorteados para cada uma das 21 instituições chegou-se a uma amostra de 2.372 atendimentos. Os diagnósticos dos atendimentos apresentam uma grande concentração, 53,4%, no capítulo das "Doenças do aparelho digestivo", mais especificamente no grupo das "Doenças da cavidade oral, das glândulas salivares e dos maxilares". Neste grupo estão, principalmente, os abscessos dento-alveolares, pulpites e odontalgias. Seguem as "Lesões, envenenamento e algumas outras conseqüências de causas externas", com 30,9% dos atendimentos, sendo, dentre esses, as "Fraturas do crânio e ossos da face" os mais importantes. O grupo dos "Fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com os serviços de saúde" foi responsável por 10,2% dos atendimentos. (Tabela 1).

Na comparação da CID-OE com a CID-10 três situações puderam ser observadas: 1. A classificação pela CID-OE era mais específica ou detalhada. 2. Não havia qualquer diferença na classificação, sendo que a CID-OE apenas repetia o mesmo código da CID-10. 3. Não havia código na CID-OE que correspondesse ao código da CID-10, isto é a CID-OE era omissa para aquele motivo de consulta ou diagnóstico.

Nessas situações pode-se observar (Tabela 2), no geral, que ocorreu um ganho no detalhamento em 47% dos diagnósticos (1.117 casos), não houve diferença em 41% (978 casos), e houve perda ou ausência de possibilidade de codificação em 12% (227 casos). Notou-se que 69,8% do ganho de especificidade estavam no capítulo "Doenças do aparelho digestivo" e 24,6% no capítulo "Lesões, envenenamento e algumas outras conseqüências de causas externas". Houve ausência de possibilidade de se classificar todos os casos do capítulo "Fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com os serviços de saúde", que representavam 87% da perda.

Dos 978 casos onde não foi observada qualquer diferença (ganho ou perda de especificidade na classificação dos diagnósticos) de codificação, 50% dos casos eram do capítulo "Doenças do aparelho digestivo" e 45,7% dos casos do capítulo "Lesões, envenenamento e algumas outras conseqüências de causas externas".

A CID-OE oferece mais detalhamento que a CID-10 para a codificação dos diagnósticos referentes ao capítulo "Doenças do aparelho digestivo", em 62% dos casos, "Neoplasias" em 90% dos casos e "Algumas doenças infecciosas e parasitárias", em 85% dos casos. Para 61% dos casos do capítulo "Lesões, envenenamento e algumas outras conseqüências de causas externas", 55% dos casos de "Doenças da pele e do tecido subcutâneo" a CID-OE mantém o mesmo detalhamento da CID-10 sendo indiferente o seu uso.

A CID-OE não inclui o Capítulo. XXI, "Fatores que Influenciam o Estado de Saúde e o Contato com os Serviços de Saúde", onde estão os códigos para os encontros e circunstâncias que não são doenças, traumas, ou conseqüências de causa externa, mas possibilita a codificação de, por exemplo, acompanhamentos médicos após cirurgias, remoção de splints e bandas devido a fraturas ou outras lesões etc. O acompanhamento após cirurgias buco-maxilo-faciais ou traumas é muito importante e realizado como rotina nesses serviços, gerando um volume de 241 consultas (10%) dos casos analisados, como se pode observar neste estudo.

 

Discussão

A constatação da perda da possibilidade de codificação ao se utilizar a CID-OE reforça a necessidade de se utilizar a CID-10 conjuntamente com a CID-OE. Para muitos pesquisadores e profissionais da área odontológica a ausência da reprodução integral da CID-10 na CID-OE pode não ser notada, gerando uma lacuna na hora de se codificar diagnósticos e motivos de consulta.

Embora seja muito interessante haver uma classificação para a área de odontologia e estomatologia, a fim de facilitar a codificação dos diagnósticos da área odontológica, é necessário verificar que tipo de casuística está sendo classificada para, então, se optar pela CID-OE. Para a especialidade de Cirurgia Oral e Traumatologia Buco-maxilo-facial, é recomendada a utilização da CID-10, visto que a CID-OE não oferece especificidade para a maioria dos diagnósticos relacionados a essa área.

A CID-OE só deve ser utilizada isoladamente quando forem classificados os diagnósticos referentes a "Doenças do Aparelho Digestivo", mais especificamente "Doenças da Cavidade Oral, das Glândulas Salivares e dos Maxilares". Fora desse grupo recomenda-se a verificação de ambas as Classificações, evitando-se a perda de possibilidade de classificação.

 

Referências

1. Okeson JP. Bell's orofacial pain. 5th ed. Chelsea: Quintessence Publishing Co.; 1995. p. 102-4.        

2. Lebrão ML. Estudos de morbidade. São Paulo: EDUSP; 1997. p. 16-36. (Acadêmica, 13).        

3. World Health Organization. International statistical classification of diseases and related health problems; 10th revision. Geneva: 1992. v.1.        

4. World Health Organization. Application of the international classification of diseases to dentistry and stomatology. 3rd ed. Geneva; 1995.        

5. World Health Organization. Classificação internacional de doenças em odontologia e estomatologia. 3ª. ed. São Paulo: Editora Santos; 1996.        

Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil