Qualidade de vida relacionada à saúde em idosos residentes em região de alta vulnerabilidade para saúde de Belo Horizonte, Minas Gerais

Lidyane do Valle Camelo Luana Giatti Sandhi Maria Barreto Sobre os autores

RESUMO:

Objetivo:

Investigar se as relações sociais, juntamente com características sociodemográficas, hábitos de vida e condições de saúde estão associados à qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) em idosos residentes em região considerada de alta vulnerabilidade para a saúde.

Métodos:

Estudo transversal realizado com amostra aleatória de 366 idosos (≥ 60 anos) adscritos a um centro de saúde de Belo Horizonte, Minas Gerais. A QVRS foi aferida pelo Medical Outcomes Study 12-Item Short-Form Health Survey (SF-12) e os escores obtidos nos componentes físico (PCS) e mental (MCS) foram utilizados como variáveis resposta. As variáveis explicativas foram divididas em quatro blocos: sociodemográfico, relações sociais, hábitos de vida e condições de saúde. Modelos de regressão linear múltipla foram utilizados.

Resultados:

Nos modelos multivariados finais, encontramos que elevado número de diagnósticos de doenças crônicas e ter estado acamado nos últimos 15 dias foram variáveis associadas à pior QVRS no domínio físico e mental. Entretanto, ausência de escolaridade, insatisfação com relacionamentos pessoais e não ter sempre que necessário o apoio de alguém para ajudar a ficar de cama, ir ao médico e preparar refeições foi associado à pior QVRS apenas no MCS. Ter declarado cor da pele preta, ausência de atividade de trabalho, não praticar atividade física, não consumir álcool e internação nos últimos 12 meses estiveram associados à pior QVRS apenas no PCS.

Conclusão:

Além da adversidade social, hábitos de vida e condições de saúde, alguns aspectos funcionais das relações sociais foram importantes para compreensão da QVRS em idosos em vulnerabilidade social.

Palavras-chave:
Qualidade de vida; Idoso; Envelhecimento; Estudos transversais; Rede social; Relações interpessoais

INTRODUÇÃO

A parcela da população brasileira com 60 anos ou mais de idade passou de 4,3% em 1950 para 13,0% em 2013. Nesse mesmo período, a esperança de vida ao nascer passou de 45,5 para 74,8 anos11. Vasconcelos AMN, Gomes MMF. Transição demográfica: a experiência brasileira. Epidemiol Serv Saúde 2012; 21(4): 539-48.,22. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de indicadores sociais 2014: uma análise das condições de vida da população brasileira. Rio de Janeiro: IBGE; 2014.. Como consequência desse rápido envelhecimento populacional e do aumento da expectativa de vida, a população brasileira tem enfrentado uma expressiva elevação da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis e de incapacidades33. Schmidt MI, Duncan BB, Azevedo e Silva G, Menezes AM, Monteiro CA, Barreto SM, et al. Chronic non-communicable diseases in Brazil: burden and current challenges. Lancet2011; 377(9781): 1949-61. . Nesse sentido, torna-se cada vez mais relevante garantir que essa maior longevidade da população seja acompanhada também por uma melhor qualidade de vida.

A qualidade de vida é um construto subjetivo e multidimensional que considera a percepção e compreensão da realidade e incorpora a satisfação diante domínios da vida que os indivíduos valorizam44. Fleck MPA. Problemas conceituais em qualidade de vida. In: Fleck MPA (editor). A avaliação de qualidade de vida: guia para profissionais da saúde. Porto Alegre: Artmed; 2008. p. 19-28.,55. Seidl EMF, Zannon CMLC. Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos. Cad Saúde Pública2004; 20(2): 580-8.. É um construto individual e associado ao grau de expectativa, cultura e personalidade44. Fleck MPA. Problemas conceituais em qualidade de vida. In: Fleck MPA (editor). A avaliação de qualidade de vida: guia para profissionais da saúde. Porto Alegre: Artmed; 2008. p. 19-28.,55. Seidl EMF, Zannon CMLC. Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos. Cad Saúde Pública2004; 20(2): 580-8.. Em geral, qualidade de vida está relacionada à autoestima e bem-estar pessoal e, dessa forma, tende a ser influenciada por vários aspectos como estado de saúde, nível socioeconômico, estilo de vida, interação social, suporte familiar e satisfação com a vida66. Vecchia RD, Ruiz T, Bocchi SCM, Corrente JE. Qualidade de vida na terceira idade: um conceito subjetivo. Rev Bras Epidemiol2005; 8(3): 246-52.. Alguns autores consideram que o aspecto funcional é o principal determinante da qualidade de vida, já que o estado de saúde influencia o desempenho adequado de funções consideradas importantes pelos indivíduos44. Fleck MPA. Problemas conceituais em qualidade de vida. In: Fleck MPA (editor). A avaliação de qualidade de vida: guia para profissionais da saúde. Porto Alegre: Artmed; 2008. p. 19-28.,55. Seidl EMF, Zannon CMLC. Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos. Cad Saúde Pública2004; 20(2): 580-8.. Dessa forma, o conceito de "qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS)" foi criado justamente para incorporar essa valorização do estado de saúde como determinante da qualidade de vida44. Fleck MPA. Problemas conceituais em qualidade de vida. In: Fleck MPA (editor). A avaliação de qualidade de vida: guia para profissionais da saúde. Porto Alegre: Artmed; 2008. p. 19-28.,55. Seidl EMF, Zannon CMLC. Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos. Cad Saúde Pública2004; 20(2): 580-8..

A QVRS é um forte indicador prognóstico de mortalidade em idosos77. Brown DS, Thompson WW, Zack MM, Arnold SE, Barile JP. Associations between health-related quality of life and mortality in older adults. Prev Sci2015; 16(1): 21-30. e estudos prévios realizados no Brasil identificaram que a adversidade social88. Ribeiro KT. Fatores associados à qualidade de vida relacionada à saúde de idosos residentes no Município de São Paulo - Estudo SABE: Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento [tese de doutorado]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2011.,99. Lima MG, Barros MBA, César CLG, Goldbaum M, Carandina L, Ciconelli RM. Health related quality of life among the elderly: a population-based study using SF-36 survey. Cad Saúde Pública2009; 25(10): 2159-67., hábitos de vida (como prática regular de atividade física, consumo de álcool e tabagismo)88. Ribeiro KT. Fatores associados à qualidade de vida relacionada à saúde de idosos residentes no Município de São Paulo - Estudo SABE: Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento [tese de doutorado]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2011.,1010. Lima MG, Barros MBA, Cesar CLG, Goldbaum M, Carandina L, Alves MCGP. Comportamentos relacionados à saúde e qualidade de vida em idosos: um estudo de base populacional. Rev Saúde Pública 2011; 45(3): 485-93. e condições atuais de saúde88. Ribeiro KT. Fatores associados à qualidade de vida relacionada à saúde de idosos residentes no Município de São Paulo - Estudo SABE: Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento [tese de doutorado]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2011.,1111. Lima MG, Barros MB, César CL, Goldbaum M, Carandina L, Ciconelli RM. Impact of chronic disease on quality of life among the elderly in the state of São Paulo, Brazil: a population-based study. Rev Panam Salud Publica 2009; 25(4): 314-21.,1212. Campolina AG, Dini PS, Ciconelli RM. Impacto da doença crônica na qualidade de vida de idosos da comunidade em São Paulo (SP, Brasil). Ciênc Saúde Coletiva 2011: 16(6): 2919-25. são aspectos importantes para compreender a QVRS em idosos. Estudos realizados em outros países têm reportado resultados semelhantes1313. Otero-Rodríguez A, León-Muñoz LM, Banegas JR, Guallar-Castillón P, Rodríguez-Artalejo F, Regidor E. Life-course socioeconomic position and change in quality of life among older adults: evidence for the role of a critical period, accumulation of exposure and social mobility. J Epidemiol Community Health 2011; 65(11): 964-71.,1414. Balboa-Castillo T, León-Muñoz LM, Graciani A, Rodríguez-Artalejo F, Guallar-Castillón P. Longitudinal association of physical activity and sedentary behavior during leisure time with health-related quality of life in community-dwelling older adults. Health Qual Life Outcomes 2011; 27(9): 47.,1515. Hopman WM, Harrison MB, Coo H, Friedberg E, Buchanan M, VanDenKerkhof EG. Associations between chronic disease, age and physical and mental health status. Chronic Dis Can 2009; 29(2): 108-16., mas no contexto internacional a fragilidade das relações sociais também vem sendo apontada como um fator associado à pior QVRS1616. Hawton A, Green C, Dickens AP, Richards SH, Taylor RS, Edwards R, et al. The impact of social isolation on the health status and health-related quality of life of older people. Qual Life Res 2011; 20(1): 57-67.,1717. Belvis AG, Avolio M, Sicuro L, Rosano A, Latini E, Damiani G, et al. Social relationships and HRQL: a cross-sectional survey among older Italian adults. BMC Public Health 2008; 8: 348..

As relações sociais podem ser definidas como o grau com que os indivíduos são conectados e incorporados em comunidades1818. Berkman LF, Krishna A. Social network epidemiology. In: Berkman LF, Kawachi I, Glymour MM. Social epidemiology. 2 ed. Oxford: Oxford University Press; 2014. e de acordo com Due et al.1919. Due P, Holstein B, Lund R, Modvig J, Avlund K. Social relations: network, support and relational strain. Soc Sci Med.1999; 48(5): 661-73. possui duas dimensões: os aspectos estruturais e os aspectos funcionais. A estrutura das relações sociais diz respeito aos relacionamentos formais e informais (rede social) e geralmente é estudada em termos do número de relações sociais que os indivíduos possuem, da frequência com que os indivíduos contatam as pessoas de sua rede social e da diversidade e reciprocidade dessas relações. Já os aspectos funcionais dizem respeito a aspectos qualitativos e comportamentais das relações sociais e compreendem o suporte social, a ancoragem social (incluindo engajamento e integração social) e estresse relacional (a dimensão negativa das relações sociais)1919. Due P, Holstein B, Lund R, Modvig J, Avlund K. Social relations: network, support and relational strain. Soc Sci Med.1999; 48(5): 661-73..

Diversos desfechos de saúde que impactam na funcionalidade, como declínio cognitivo2020. Shankar A, Hamer M, McMunn A, Steptoe A. Social isolation and loneliness: relationships with cognitive function during 4 years of follow-up in the English Longitudinal Study of Ageing. Psychosom Med 2013; 75(2): 161-70., demência2121. Holwerda TJ, Deeg DJ, Beekman AT, van Tilburg TG, Stek ML, Jonker C, et al. Feelings of loneliness, but not social isolation, predict dementia onset: results from the AmsterdamStudy of the Elderly (AMSTEL). J Neurol Neurosurg Psychiatry 2014; 85(2): 135-42., depressão2222. Grav S, Hellzèn O, Romild U, Stordal E. Association between social support and depression in the general population: the HUNT study, across-sectional survey. J Clin Nurs 2012; 21(1-2): 111-120., limitação2323. Torres JL, Dias RC, Ferreira FR, Macinko J, Lima-Costa MF. Functional performance and social relations among the elderly in Greater Metropolitan Belo Horizonte, Minas Gerais State, Brazil: a population-based epidemiological study. Cad Saude Publica.2014; 30(5): 1018-28. e declínio funcional2424. Perissinotto CM, Stijacic Cenzer I, Covinsky KE. Loneliness in older persons: a predictor of functional decline and death. Arch Intern Med 2012; 172(14): 1078-83., têm sido associados a aspectos estruturais e funcionais das relações sociais em idosos, o que pode em parte explicar a associação entre esses aspectos e a QVRS. Apesar desses achados, a associação entre as relações sociais e os componentes físico e mental da QVRS tem sido pouco explorada no Brasil, especialmente entre idosos de baixa posição socioeconômica, que tendem a apresentar maior isolamento social2020. Shankar A, Hamer M, McMunn A, Steptoe A. Social isolation and loneliness: relationships with cognitive function during 4 years of follow-up in the English Longitudinal Study of Ageing. Psychosom Med 2013; 75(2): 161-70.,2424. Perissinotto CM, Stijacic Cenzer I, Covinsky KE. Loneliness in older persons: a predictor of functional decline and death. Arch Intern Med 2012; 172(14): 1078-83.. Nesse contexto, o objetivo deste estudo foi investigar se as relações sociais juntamente com características sociodemográficas, hábitos de vida e condições de saúde estão associados à QVRS em idosos residentes em região de Belo Horizonte, Minas Gerais, considerada de alta vulnerabilidade para a saúde.

MÉTODOS

Esta análise integra o Projeto "Envelhecimento e Saúde", um estudo de corte transversal delineado para conhecer o perfil de saúde de idosos residentes em uma comunidade de baixa renda de Belo Horizonte, Minas Gerais. Este estudo foi desenvolvido entre abril e outubro de 2007 utilizando uma amostra aleatória de idosos (≥ 60 anos) adscritos ao Centro de Saúde Vila Pinho, localizado no distrito sanitário do Barreiro, região sudoeste da cidade de Belo Horizonte. A área de abrangência do centro de saúde é considerada de risco elevado segundo o Índice de Vulnerabilidade à Saúde, indicador composto baseado em indicadores socioeconômicos e sanitários desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte2525. Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Índice de vulnerabilidade à saúde 2003. Disponível em: Disponível em: http://www.pbh.gov.br/smsa/biblioteca/gabinete/risco2003.pdf (Acessado em: 12 de agosto de 2015).
http://www.pbh.gov.br/smsa/biblioteca/ga...
. Para o cálculo dessa amostra foi considerado um intervalo de confiança de 95%, precisão de 4% e perda de 20%, totalizando 405 indivíduos. O projeto foi aprovado pelos Comitês de Ética da Universidade Federal de Minas Gerais (379/06) e da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (065/2006) e somente participaram da pesquisa os indivíduos que concordaram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

VARIÁVEIS DO ESTUDO

VARIÁVEIS RESPOSTA

A QVRS foi avaliada pelo Medical Outcomes Study 12-Item Short-Form Health Survey (SF-12)2626. Ware JE, Kosinski M, Keller SD. SF-12: How to score the SF-12 Physical and mental health summary scales. 2 ed. Boston: The Health Institute, New England Medical Center; 1995.. O SF-12 é composto por 12 itens e suas respostas foram sumarizadas em 2 componentes, sendo 1 físico (physical component score - PCS) e o outro mental (mental component score - MCS)2626. Ware JE, Kosinski M, Keller SD. SF-12: How to score the SF-12 Physical and mental health summary scales. 2 ed. Boston: The Health Institute, New England Medical Center; 1995.. O PCS considera a percepção do indivíduo sobre sua capacidade funcional, aspectos físicos, dor e estado geral de saúde. Já o MCS considera aspectos relacionados à vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e de saúde mental. Ambos componentes sumários variam de 0 a 100 e maiores valores refletem melhor QVRS2626. Ware JE, Kosinski M, Keller SD. SF-12: How to score the SF-12 Physical and mental health summary scales. 2 ed. Boston: The Health Institute, New England Medical Center; 1995.. Os escores obtidos no PCS e no MCS foram considerados separadamente como variáveis resposta deste estudo.

VARIÁVEIS EXPLICATIVAS

As possíveis variáveis explicativas foram organizadas em quatro blocos: sociodemográfico, relações sociais, hábitos de vida e condições de saúde. Detalhes sobre a categorização e definição dessas variáveis podem ser visualizados na Tabela 1.

Tabela 1:
Características da população de idosos participantes e análise univariada. Belo Horizonte, Minas Gerais, 2007 (n = 366).

O bloco sociodemográfico foi composto pelas variáveis: sexo, faixa etária, cor da pele autorreferida, escolaridade, renda familiar mensal e presença de atividades de trabalho na semana anterior à entrevista. O bloco de relações sociais contemplou variáveis para mensurar aspectos estruturais e funcionais das relações sociais2121. Holwerda TJ, Deeg DJ, Beekman AT, van Tilburg TG, Stek ML, Jonker C, et al. Feelings of loneliness, but not social isolation, predict dementia onset: results from the AmsterdamStudy of the Elderly (AMSTEL). J Neurol Neurosurg Psychiatry 2014; 85(2): 135-42.. Os aspectos estruturais foram investigados pelas seguintes variáveis: estado civil, morar sozinho, necessidade do idoso ficar sozinho na maior parte do dia, número de parentes e amigos com quem o idoso podia falar sobre quase tudo. Os aspectos funcionais foram estudados pelas variáveis: ter sempre que necessário o apoio de alguém para ajudar a ficar de cama, ir ao médico e preparar refeições; participação do idoso em atividades recreativas; e satisfação do idoso com os relacionamentos pessoais. No bloco de hábitos de vida foi incluído: a prática regular de atividade física no lazer, o tabagismo, o consumo regular de frutas e/ou hortaliças e o relato de consumo de qualquer bebida alcoólica nos últimos 30 dias. No bloco de condições de saúde foram consideradas: o número de doenças crônicas diagnosticadas por médico autorreferidas, número de consultas médicas e internação nos últimos 12 meses e se o participante esteve acamado nos últimos 15 dias.

ANÁLISE DE DADOS

Inicialmente, foi feita a descrição das variáveis do estudo por meio de distribuição de frequência e médias (domínios físico e mental da QVRS). A associação entre as variáveis explicativas e os dois domínios da QVRS (PCS e MCS) foi investigada por meio de modelos de regressão linear, tendo sido construídos dois modelos, um para cada variável resposta. Realizamos análises multivariadas em cada um dos quatro blocos de variáveis explicativas, com inclusão de todas as variáveis associadas ao nível de significância de 20% na análise univariada. Posteriormente, as variáveis explicativas associadas às variáveis resposta nos modelos multivariados por blocos foram inseridas simultaneamente em modelo multivariado para compor o modelo final. Utilizamos o procedimento de eliminação backward e as variáveis retidas nos modelos multivariados por blocos, assim como as retidas nos modelos finais, foram as variáveis que permaneceram associadas às variáveis resposta a um nível de significância de 5%.

Coeficientes de regressão β e seus respectivos intervalos de confiança 95% (IC95%) foram reportados e eles representam as diferenças nas médias dos escores no PCS e MCS segundo as variáveis explicativas consideradas nos modelos. A normalidade dos resíduos e a homocedasticidade foram verificados graficamente. As análises foram realizadas no Stata 13.

RESULTADOS

Do total de 405 idosos que fizeram parte da amostra, 373 indivíduos aceitaram participar do estudo e 366 responderam o SF-12 e participaram desta análise. As características sociodemográficas, das relações sociais, das condições de saúde e a prevalência dos hábitos de vida entre os idosos participantes podem ser visualizadas na Tabela 1. Os participantes tinham idade entre 60 e 94 anos (média 69,2 ± 7,5) e a maioria dos idosos era do sexo feminino (59,8%), declaram cor da pela parda (52,5%), tinham menos que 4 anos de escolaridade (66,1%) e informaram ter renda familiar inferior a 4 salários mínimos (82%).

Os escores do PCS e MCS obtiveram uma média de 42,8 (± 9,62) e 45,1 (± 11,27), respectivamente. Na análise univariada, a pior QVRS no domínio físico foi associada ao sexo feminino, ter 70 anos ou mais de idade, ter declarado cor da pele preta, escolaridade inferior a 4 anos de estudo, renda familiar inferior a 4 salários mínimos, ausência de atividade de trabalho na semana que antecedeu a pesquisa, não estar satisfeito com os relacionamentos pessoais, não praticar atividade física no lazer, não consumir bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias, diagnóstico de 2 ou mais doenças crônicas, ter tido 2 ou mais consultas médicas nos últimos 12 meses, histórico de internação nos últimos 12 meses e ter estado acamado nos últimos 15 dias (Tabela 1). Já no modelo multivariado final, a pior QVRS no domínio físico permaneceu associada a ter declarado cor da pele preta, ausência de atividade de trabalho na semana que antecedeu a pesquisa, não praticar atividade física no lazer, não consumir bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias, diagnóstico de 2 ou mais doenças crônicas, histórico de internação nos últimos 12 meses e de ter estado acamado nos últimos 15 dias (Tabela 2). As variáveis retidas no modelo final explicaram 23% da variabilidade dos escores obtidos no PCS (Tabela 2).

Tabela 2:
Variáveis associadas ao physical component score no modelo multivariado final. Belo Horizonte, Minas Gerais, 2007.

No domínio mental, a análise univariada identificou que a pior QVRS foi associada ao sexo feminino, ter 70 anos ou mais de idade, ter menos de 4 anos de escolaridade, ausência de atividade de trabalho na semana que antecedeu a pesquisa, não ter sempre que necessário o apoio de alguém para ajudar a ficar de cama, ir ao médico e preparar refeições, não estar satisfeito com os relacionamentos pessoais, ter 4 ou mais diagnósticos de doenças crônicas, histórico de internação nos últimos 12 meses e de ter estado acamado nos últimos 15 dias (Tabela 1). No modelo multivariado final, o MCS permaneceu negativamente associado à ausência de escolaridade, não ter sempre que necessário apoio de alguém para ajudar a ficar de cama, ir ao médico e preparar refeições, não estar satisfeito com os relacionamentos pessoais, diagnóstico médico de 4 ou mais doenças crônicas e ter estado acamado nos últimos 15 dias (Tabela 3). As variáveis que permaneceram no modelo final explicaram 19% da variabilidade dos escores obtidos no MCS (Tabela 3).

Tabela 3:
Variáveis associadas ao mental component score no modelo multivariado final. Belo Horizonte, Minas Gerais, 2007.

DISCUSSÃO

Este trabalho demonstrou que os componentes físico e mental da QVRS foram associados a características sociais e de estado de saúde. Não encontramos associação entre os aspectos estruturais das relações sociais e a QVRS, mas alguns aspectos funcionais foram independentemente associados ao MCS. Adicionalmente, encontramos que os hábitos de vida, como a prática regular de atividade física e o consumo de álcool, foram associados à QVRS apenas no componente físico. Nossos resultados evidenciam mais uma vez a característica multidimensional da QVRS e a complexidade de se compreender os fatores que explicam esse construto, tendo em vista que as variáveis que permaneceram associadas ao componente físico e mental nos modelos finais explicaram apenas 23 e 19% da variabilidade do PCS e do MCS, respectivamente.

Os participantes do presente estudo apresentavam uma maior exposição à adversidade social (níveis mais baixo de renda e escolaridade) do que idosos residentes na região metropolitana de Belo Horizonte como um todo2727. Giacomin KC, Peixoto SV, Uchoa E, Lima-Costa MF. Estudo de base populacional dos fatores associados à incapacidade funcional entre idosos na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Cad Saúde Pública 2008; 24(6): 1260-70.. Além disso, os idosos deste estudo residiam em área cujos indicadores ambientais, sociais e de saúde a configuravam como de risco elevado para a saúde. Tendo em vista essas características, esperávamos que as médias encontradas nos componentes físico e mental da QVRS no presente estudo fossem mais baixas do que as médias encontradas na população de idosos em geral no país. Essa hipótese foi confirmada apenas no componente físico da QVRS, já que a média do PCS que encontramos foi menor do que a observada em um estudo de base populacional realizado no estado de São Paulo (42,8 versus 47,6). Entretanto, as médias do MCS encontradas nesses dois estudos foram comparáveis (45,1 em Belo Horizonte versus 44,6 em São Paulo)1010. Lima MG, Barros MBA, Cesar CLG, Goldbaum M, Carandina L, Alves MCGP. Comportamentos relacionados à saúde e qualidade de vida em idosos: um estudo de base populacional. Rev Saúde Pública 2011; 45(3): 485-93..

Os idosos sem escolaridade apresentaram pior QVRS no domínio mental. Adicionalmente, declarar cor da pele preta e não ter tido atividade de trabalho na semana que antecedeu a pesquisa também foram características independentemente associadas a menores escores no PCS. Esses resultados sugerem que os idosos mais expostos à adversidade social tendem a apresentar pior QVRS, o que é coerente com resultados de estudos prévios88. Ribeiro KT. Fatores associados à qualidade de vida relacionada à saúde de idosos residentes no Município de São Paulo - Estudo SABE: Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento [tese de doutorado]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2011.,99. Lima MG, Barros MBA, César CLG, Goldbaum M, Carandina L, Ciconelli RM. Health related quality of life among the elderly: a population-based study using SF-36 survey. Cad Saúde Pública2009; 25(10): 2159-67.,1313. Otero-Rodríguez A, León-Muñoz LM, Banegas JR, Guallar-Castillón P, Rodríguez-Artalejo F, Regidor E. Life-course socioeconomic position and change in quality of life among older adults: evidence for the role of a critical period, accumulation of exposure and social mobility. J Epidemiol Community Health 2011; 65(11): 964-71.,1717. Belvis AG, Avolio M, Sicuro L, Rosano A, Latini E, Damiani G, et al. Social relationships and HRQL: a cross-sectional survey among older Italian adults. BMC Public Health 2008; 8: 348.. A posição socioeconômica é um determinante distal de saúde e atua como ponto de partida de trajetórias, o que pode resultar em diferenciais de exposição e vulnerabilidade a fatores de risco relacionados a diversos desfechos de saúde2828. Phelan JC, Link BG, Tehranifar P. Social conditions as fundamental causes of health inequalities: theory, evidence, and policy implications. J Health Soc Behav 2010; 51(Suppl): S28-40. e que podem impactar na QVRS. É importante ressaltar que associações encontradas neste estudo foram independentes das variáveis de condições de saúde, evidenciando que a associação amplamente estabelecida entre a ocorrência de doenças crônicas e desvantagem socioeconômica2828. Phelan JC, Link BG, Tehranifar P. Social conditions as fundamental causes of health inequalities: theory, evidence, and policy implications. J Health Soc Behav 2010; 51(Suppl): S28-40. não explicaram totalmente a relação entre adversidades sociais e QVRS. Dessa forma, é possível que o estresse resultante da exposição às circunstâncias sociais desfavoráveis e da experiência de descriminação também possam ser aspectos importantes para explicar a associação entre a adversidade social e QVRS2929. McEwen BS. Brain on stress: how the social environment gets under the skin. Proc Natl Acad Sci USA 2012: 109 (Suppl 2): 17180-5..

Existem evidências de que a exposição à adversidade socioeconômica e a fragilidade das relações sociais interagem de forma sinérgica para promoção de morbidades que têm o potencial de impactar na QVRS2020. Shankar A, Hamer M, McMunn A, Steptoe A. Social isolation and loneliness: relationships with cognitive function during 4 years of follow-up in the English Longitudinal Study of Ageing. Psychosom Med 2013; 75(2): 161-70.,3030. Vonneilich N, Jöckel KH, Erbel R, Klein J, Dragano N, Weyers S, et al. Does socioeconomic status affect the association of social relationships and health? A moderator analysis. Int J Equity Health 2011; 10: 43.. Adicionalmente, revisão de literatura recente apontou que residir em contextos sociais de moradia adversos, caracterizados por falta de acesso facilitado a serviços na vizinhança (ex.: locais para fazer compras, transporte público, bancos, clubes, etc.) impacta negativamente nas relações sociais ao dificultar a conexão entre os membros da comunidade3131. Levasseur M, Généreux M, Bruneau JF, Vanasse A, Chabot É, Beaulac C, et al. Importance of proximity to resources, social support, transportation and neighborhood security for mobility and social participation in older adults: results from a scoping study. BMC Public Health 2015: 15: 503.. Dessa forma, tendo em vista as características sociais e de moradia dos idosos do presente estudo, esperávamos que os aspectos estruturais e funcionais das relações sociais fossem associados à QVRS nesta análise. Entretanto, apenas aspectos funcionais das relações sociais, como a insatisfação com os relacionamentos pessoais e não ter sempre que necessário o apoio de alguém para ajudar a ficar de cama, ir ao médico e preparar refeições foram independentemente associados à pior QVRS e apenas no domínio mental. Ressalta-se que não satisfação com os relacionamentos pessoais foi associada a uma diminuição de 7,3 pontos na média do MCS. Esses resultados sugerem que nessa população a percepção da qualidade das relações pessoais e a percepção sobre a presença de suporte social podem ser aspectos mais importantes para a QVRS do que simplesmente a existência (ou quantidade) dessas relações. Nossos resultados são compatíveis com outros estudos que apontam que aspectos funcionais das relações sociais predizem melhor a autoavaliação de saúde3232. Fiorillo D, Sabatini F. Quality and quantity: the role of social interactions in self-reported individual health. Soc Sci Med 2011; 73(11): 1644-52.,3333. Melchior M, Berkman LF, Niedhammer I, Chea M, Goldberg M. Social relations and self-reported health: a prospective analysis of the French Gazel cohort. Soc Sci Med 2003; 56(8): 1817-30. e mortalidade3434. Holt-Lunstad J, Smith TB, Layton JB. Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLoS Med 2010: 7(7): e1000316. do que aspectos estruturais. Entretanto, estudo de base populacional realizado na Itália demonstrou que tanto aspectos estruturais como funcionais das relações sociais foram associados aos domínios físico e mental da QVRS1717. Belvis AG, Avolio M, Sicuro L, Rosano A, Latini E, Damiani G, et al. Social relationships and HRQL: a cross-sectional survey among older Italian adults. BMC Public Health 2008; 8: 348..

Idosos que não praticavam regularmente atividade física no lazer apresentaram pior QVRS no componente físico, entretanto esse comportamento não foi associado ao MCS. A associação entre a prática de atividade física e QVRS tem sido demonstrada em diversos estudos1010. Lima MG, Barros MBA, Cesar CLG, Goldbaum M, Carandina L, Alves MCGP. Comportamentos relacionados à saúde e qualidade de vida em idosos: um estudo de base populacional. Rev Saúde Pública 2011; 45(3): 485-93.,1414. Balboa-Castillo T, León-Muñoz LM, Graciani A, Rodríguez-Artalejo F, Guallar-Castillón P. Longitudinal association of physical activity and sedentary behavior during leisure time with health-related quality of life in community-dwelling older adults. Health Qual Life Outcomes 2011; 27(9): 47.,1717. Belvis AG, Avolio M, Sicuro L, Rosano A, Latini E, Damiani G, et al. Social relationships and HRQL: a cross-sectional survey among older Italian adults. BMC Public Health 2008; 8: 348.,3535. Awick EA, Wójcicki TR, Olson EA, Fanning J, Chung HD, Zuniga K, et al. Differential exercise effects on quality of life and health-related quality of life in older adults: a randomized controlled trial. Qual Life Res 2015; 24(2): 455-62. e essa relação geralmente apresenta maior magnitude no componente físico do que no componente mental1010. Lima MG, Barros MBA, Cesar CLG, Goldbaum M, Carandina L, Alves MCGP. Comportamentos relacionados à saúde e qualidade de vida em idosos: um estudo de base populacional. Rev Saúde Pública 2011; 45(3): 485-93.,1414. Balboa-Castillo T, León-Muñoz LM, Graciani A, Rodríguez-Artalejo F, Guallar-Castillón P. Longitudinal association of physical activity and sedentary behavior during leisure time with health-related quality of life in community-dwelling older adults. Health Qual Life Outcomes 2011; 27(9): 47.,1717. Belvis AG, Avolio M, Sicuro L, Rosano A, Latini E, Damiani G, et al. Social relationships and HRQL: a cross-sectional survey among older Italian adults. BMC Public Health 2008; 8: 348.. A atividade física minimiza os efeitos deletérios intrínsecos ao envelhecimento, atua como fator protetor para diversas doenças e agravos à saúde e está relacionada à manutenção de funcionalidade ao longo do tempo1414. Balboa-Castillo T, León-Muñoz LM, Graciani A, Rodríguez-Artalejo F, Guallar-Castillón P. Longitudinal association of physical activity and sedentary behavior during leisure time with health-related quality of life in community-dwelling older adults. Health Qual Life Outcomes 2011; 27(9): 47., que são aspectos intrinsicamente relacionados ao componente físico da QVRS. Como o presente estudo tem um delineamento transversal, não podemos descartar a possibilidade de idosos que tem pior QVRS tenderem a praticar menos atividade física. Entretanto, estudos longitudinais1414. Balboa-Castillo T, León-Muñoz LM, Graciani A, Rodríguez-Artalejo F, Guallar-Castillón P. Longitudinal association of physical activity and sedentary behavior during leisure time with health-related quality of life in community-dwelling older adults. Health Qual Life Outcomes 2011; 27(9): 47.,3535. Awick EA, Wójcicki TR, Olson EA, Fanning J, Chung HD, Zuniga K, et al. Differential exercise effects on quality of life and health-related quality of life in older adults: a randomized controlled trial. Qual Life Res 2015; 24(2): 455-62. apontam que a falta de atividade física prediz declínio da QVRS. Dessa forma, medidas de saúde pública para promoção de atividade física em idosos pode ser considerada também um política de promoção da QVRS. Medidas dessa natureza podem ser consideradas um desafio, principalmente, em populações em vulnerabilidade social, como os idosos deste estudo, já que residir em locais com características sociais e físicas adversas (ex.: falta de segurança, precariedade de calçadas e iluminação, inexistência de locais apropriados para fazer atividade física como parques e praças) dificultam a prática de atividade física3636. Haselwandter EM, Corcoran MP, Folta SC, Hyatt R, Fenton M, Nelson ME. The built environment, physical activity, and aging in the United States: a state of the science review. J Aging Phys Act 2015; 23(2): 323-9..

Encontramos que a ausência de consumo de bebidas alcoólicas foi associada à pior QVRS no componente físico. O consumo moderado de álcool tem um efeito protetor na ocorrência de diversos eventos de saúde que têm o potencial de impactar na funcionalidade, o que poderia explicar a associação entre consumo de álcool e o componente físico da QVRS. Por exemplo, o uso moderado de álcool em idosos vem sendo associado a menores taxas de declínio cognitivo, demência, doenças cardiovasculares e sintomas depressivos3737. Kim JW, Lee DY, Lee BC, Jung MH, Kim H, Choi YS, et al. Alcohol and cognition in the elderly: a review. Psychiatry Investig 2012; 9(1): 8-16.,3838. Gea A, Beunza JJ, Estruch R, Sánchez-Villegas A, Salas-Salvadó J, Buil-Cosiales P, et al. Alcohol intake, wine consumption and the development of depression: the PREDIMED study. BMC Med 2013; 11: 192.. Entretanto, sabemos que o declínio do estado de saúde causa redução do consumo de álcool3939. Liang W, Chikritzhs T. Reduction in alcohol consumption and health status. Addiction2011; 106(1): 75-81.. Dessa forma, a causalidade reversa pode ser uma importante explicação para os nossos achados. É importante ressaltar também que, apesar do consumo moderado de álcool ser associado a melhor QVRS, inclusive em estudos longitudinais4040. Kaplan MS, Huguet N, Feeny D, McFarland BH, Caetano R, Bernier J, et al. Alcohol use patterns and trajectories of health-related quality of life in middle-aged and older adults: a 14-year population-based study. J Stud Alcohol Drugs 2012; 73(4): 581-90.,4141. Byles J, Young A, Furuya H, Parkinson L. A drink to healthy aging: the association between older women's use of alcohol and their health-related quality of life. J Am Geriatr Soc 2006; 54(9): 1341-7., o declínio da QVRS associado ao aumento da idade parece ser semelhante em todas as categorias de consumo de álcool, inclusive entre os que não consumem bebidas alcoólicas4040. Kaplan MS, Huguet N, Feeny D, McFarland BH, Caetano R, Bernier J, et al. Alcohol use patterns and trajectories of health-related quality of life in middle-aged and older adults: a 14-year population-based study. J Stud Alcohol Drugs 2012; 73(4): 581-90.. Dessa forma, não há evidencias que suportariam uma recomendação de consumo de álcool aos idosos com vistas a minimizar o declínio da QVRS.

A prevalência de doenças crônicas e multimorbidades estão aumentando principalmente em populações expostas à adversidade socioeconômica33. Schmidt MI, Duncan BB, Azevedo e Silva G, Menezes AM, Monteiro CA, Barreto SM, et al. Chronic non-communicable diseases in Brazil: burden and current challenges. Lancet2011; 377(9781): 1949-61. como os idosos deste estudo. Os resultados de nossa análise mostram que esse perfil de morbidade tem grande impacto na QVRS, já que quanto maior o número de diagnósticos médicos referidos de doenças crônicas, pior foi a QVRS nos componentes físico e mental. Adicionalmente, ter estado acamado nos últimos 15 dias foi independentemente associado ao PCS e ao MCS, enquanto que o histórico de internação foi associado à pior QVRS apenas no PCS. Esses resultados são compatíveis com outros estudos prévios1111. Lima MG, Barros MB, César CL, Goldbaum M, Carandina L, Ciconelli RM. Impact of chronic disease on quality of life among the elderly in the state of São Paulo, Brazil: a population-based study. Rev Panam Salud Publica 2009; 25(4): 314-21.,1212. Campolina AG, Dini PS, Ciconelli RM. Impacto da doença crônica na qualidade de vida de idosos da comunidade em São Paulo (SP, Brasil). Ciênc Saúde Coletiva 2011: 16(6): 2919-25.,1515. Hopman WM, Harrison MB, Coo H, Friedberg E, Buchanan M, VanDenKerkhof EG. Associations between chronic disease, age and physical and mental health status. Chronic Dis Can 2009; 29(2): 108-16.,1717. Belvis AG, Avolio M, Sicuro L, Rosano A, Latini E, Damiani G, et al. Social relationships and HRQL: a cross-sectional survey among older Italian adults. BMC Public Health 2008; 8: 348. realizados com idosos não institucionalizados e demonstram que os aspectos funcionais interferem não apenas no domínio físico da qualidade de vida, mas também no componente mental ao influenciar no desempenho adequado de funções consideradas importantes pelos indivíduos.

Este estudo tem algumas limitações que precisam ser ressaltadas. As variáveis retidas nos modelos finais explicaram uma pequena parcela da variabilidade da distribuição do PCS e do MCS e um número reduzido de variáveis permaneceram independentemente associadas à QVRS, principalmente as variáveis do bloco de relações sociais. Todos os participantes deste estudo eram idosos que residiam em uma região de baixa renda, como descrito anteriormente. Dessa forma, a homogeneidade do perfil socioeconômico da população em estudo somado ao número pequeno de nossa amostra pode ter dificultado o encontro de associações entre a QVRS e as variáveis explicativas, principalmente associações de pequena magnitude. Além disso, como já mencionado, outra limitação desta análise é seu delineamento transversal e, dessa forma, não podemos descartar que as associações encontradas neste estudo sejam consequência da causalidade reversa. Por fim, nós não utilizamos indicadores de todas as dimensões contempladas nos aspectos estruturais e funcionais das relações sociais. Assim, é possível que outros aspectos das relações sociais não avaliadas neste estudo sejam importantes para compreender a QVRS em idosos em vulnerabilidade social.

CONCLUSÃO

As informações geradas por esta pesquisa sugerem que aspectos funcionais das relações sociais, características socioeconômicas, hábitos de vida e de condições de saúde foram relevantes para a compreensão da QVRS em idosos em vulnerabilidade social. Mais estudos que investiguem o papel das relações sociais na QVRS entre idosos são necessários para compreender melhor essa relação no contexto nacional.

AGRADECIMENTOS

A todos os participantes do estudo e funcionários do centro de saúde Vila Pinho em Belo Horizonte, à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais pelo financiamento, à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de pós-doutorado (PNPD-CAPES) concedida à Lidyane V. Camelo, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pelas bolsas de produtividade em pesquisa concedidas à Sandhi Maria Barreto (CNPq: 300159/99-4) e à Luana Giatti (CNPq: 312371/2013-6).

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  • Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG)

Histórico

  • Recebido
    09 Fev 2015
  • Aceito
    24 Set 2015
  • Publicação
    Apr-Jun 2016
Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revbrepi@usp.br